Desmatamento em queda dá motivo para celebração
Por O Globo
Infelizmente devastação florestal continua
por meio de incêndios. Combate às queimadas é essencial
Amazônia e Cerrado registraram no último ano os menores patamares de desmatamento desde o início das medições feitas pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélites (Prodes). Persistem, porém, desafios nada triviais para a conservação do patrimônio ambiental brasileiro. Ao mesmo tempo que o Ministério do Meio Ambiente divulgava os dados sobre desmatamento, a fumaça das queimadas encobria Manaus. Proteger a floresta exige mais que combater a derrubada das árvores. Mesmo assim, é importante celebrar o resultado positivo nessa frente.
Entre 1º de agosto de 2025 e 31 de julho de
2026, foram desmatados 3.335 km2 na Amazônia Legal e 5.516 km2 no Cerrado, de
acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Os números
representaram queda de 42% e 24%, respectivamente, em relação à medição
anterior. E essa queda tem se revelado persistente. Desde 2022, o desmatamento
caiu 71,2% na Amazônia e 48,4% no Cerrado.
O ministro do Meio Ambiente, José Paulo
Capobianco, atribui o resultado à maior articulação com estados, municípios e
sociedade civil. De acordo com ele, boa parte das propriedades privadas evitou
desmatar em 2025. “Nós nos acostumamos genericamente a culpar o produtor rural
e o agronegócio pelo desmatamento, mas estamos mostrando que essa realidade
mudou. Mudou muito”, disse. “De 8,5 milhões de imóveis rurais em todo o Brasil,
o desmatamento ocorreu em apenas 1,8%.”
São números positivos, sem dúvida. Mas a
realidade mostra que ainda há muito a fazer. É impossível ignorar a fumaceira
que toma conta do Norte do país. Cerca de 40 dos 62 municípios do Amazonas
estão em situação de emergência devido à estiagem e às queimadas. Com a piora
na qualidade do ar, máscaras se tornaram comuns nas ruas, e escolas tiveram de
suspender as aulas nas regiões mais críticas. A situação é tão dramática que
até aviões de combate às chamas por vezes não conseguem levantar voo por falta
de visibilidade.
Não se pode culpar apenas a seca. Ela era
previsível. E sabia-se que o El Niño agravaria o quadro. Governo federal,
estados e municípios não se prepararam como deveriam. Autoridades suspeitam que
boa parte dos focos de incêndio não surge de forma espontânea. No sábado, 11
suspeitos foram presos em Autazes (AM), acusados de envolvimento em queimadas.
Mas, quando essas prisões ocorrem, a floresta já queimou. É preciso se
antecipar ao fogo por meio de melhor fiscalização.
Com todos os avanços obtidos na contenção do
desmatamento, as queimadas persistem como uma das principais causas da perda de
cobertura vegetal na Amazônia e noutros biomas. O mesmo trabalho entre União,
estados, municípios e sociedade civil que colheu bons resultados para deter as
motosserras precisa ser usado para debelar os focos de incêndio. Os candidatos
à Presidência têm agendas distintas sobre meio ambiente. Independentemente de
quem for eleito no domingo, o próximo presidente precisará dar continuidade à
redução do desmatamento e ampliar o combate às queimadas. Um retrocesso nessa
área depois de avanço tão notável seria desastroso para o Brasil.
Califórnia deve inspirar regulação nacional
para plataformas digitais
Por O Globo
Estado do Vale do Silício adotou regras de
proteção a menores para as redes sociais e os robôs de IA
A regulação do meio digital tem avançado no
mundo todo por meio das leis de proteção a menores, tema de maior apelo entre
legisladores. Foi o que aconteceu na Austrália, na União Europeia, no Reino
Unido, no Brasil e começa a acontecer também nos Estados Unidos,
país em geral mais resistente a disciplinar as plataformas digitais. O
movimento ganhou destaque com a adoção de nova legislação pela Califórnia.
Um conjunto de 13 leis sancionadas em
setembro pelo governador Gavin Newsom tem singularidades em relação a normas de
outros países. Não estabelece uma idade a partir da qual as crianças podem usar
as redes sociais, mas se preocupa em proibir os recursos usados pelas
plataformas para torná-las dependentes e incentivar o uso compulsivo, origem de
transtornos emocionais e mentais. Ficam proibidas no estado a rolagem infinita
e a reprodução automática de vídeos. É vetada a escolha de conteúdos para
menores de 16 anos com base em seu perfil e em seu histórico de comportamento
na rede. Também passa a ser ilegal a publicidade dirigida a esse público.
Uma das leis trata especificamente dos robôs
de inteligência artificial (IA). Estipula que deve haver controle obrigatório
dos pais. Se o sistema de segurança for desabilitado, os responsáveis pelo
menor têm de ser avisados. Há, ainda, um protocolo para perguntas sobre
suicídio, problema recorrente nas interações sem controle. Na solenidade de
assinatura das leis, o senador estadual Steve Padilla, responsável pelo
projeto, fez referência à presença de Maria Raine, cujo filho Adam se matou em
2025 depois de expor pensamentos suicidas a um chatbot.
Já há sete estados americanos com legislação
comparável à da Califórnia: Colorado, Connecticut, Illinois, Maryland,
Nebraska, Nova York e Vermont. Outros 12 contam com regras mais brandas, como
exigência de verificação etária ou consentimento de responsáveis para acesso às
plataformas. Mas não há nos Estados Unidos legislação nacional abrangente,
apenas uma lei federal de proteção de dados de menores de 13 anos e normas
sobre a responsabilidade das plataformas pela publicação de conteúdos de
terceiros. O país também não conta com uma agência reguladora para o setor,
como a brasileira Agência Nacional de Proteção de Dados.
O avanço das redes sociais e da IA tem posto os Estados Unidos diante dos mesmos desafios enfrentados no mundo todo. Hoje, os problemas têm sido resolvidos sobretudo no campo judicial — há pouco a Meta aceitou pagar multa de US$ 17,7 bilhões a 48 estados para encerrar um processo e se comprometeu a adaptar suas plataformas a certas regras. Mas a nova legislação da Califórnia, aliada à perspectiva de avanço dos democratas nas eleições para o Congresso em novembro, cria uma nova perspectiva para os americanos. Se o estado onde fica o Vale do Silício, sede das maiores plataformas digitais, decidiu criar leis para discipliná-las, é razoável esperar que as novas regras sirvam de exemplo e inspiração para uma legislação nacional.
Afã eleitoreiro avilta políticas públicas
Por Folha de S. Paulo
Documentos obtidos pela Folha mostram que
governo Lula usou trâmite excepcional para reajuste do Bolsa Família
Não há interpretações benevolentes para a
versão de Lula, declarada em entrevista, de que não sabia que os benefícios
estavam congelados
Se havia alguma dúvida de que o reajuste do Bolsa Família
a 17 dias do primeiro turno teve motivação exclusivamente eleitoreira,
documentos agora revelados desacreditam ainda mais as negativas do governo Luiz
Inácio Lula
da Silva (PT).
A correção
linear de 15,04%, que elevou o piso do programa de R$ 600 para R$
691 mensais, foi justa como reposição de perdas inflacionárias acumuladas desde
2023. O problema reside no momento e na forma —sem planejamento orçamentário e
atropelando trâmites técnicos para instituir a benesse, cujo pagamento será
antecipado neste mês.
Registros
obtidos pela Folha, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI),
mostram que o Ministério do
Planejamento elaborou ofícios, pareceres técnicos e exposição de
motivos em 16 de setembro —véspera do anúncio da medida de Lula.
Os documentos tramitaram por procedimento
excepcional, com maior grau de sigilo, e só foram incorporados ao processo
eletrônico em 1º de outubro, duas semanas depois do decreto.
Some-se a isso a explicação mambembe do
presidente da República, em entrevista à TV Globo, para a providência repentina
—ele declarou que não sabia que os benefícios do programa haviam permanecido
congelados ao longo dos últimos três anos.
Não há interpretações benevolentes para tal
afirmativa. Ou Lula ignora o que se passa com a iniciativa social mais
importante das gestões petistas, hipótese nada edificante, ou mentiu.
Poucas semanas antes, o governo discutira
três cenários: correção focada no benefício per capita; reforço apenas nos
adicionais para crianças, adolescentes e gestantes; ou reajuste linear amplo.
A opção de última hora foi pela correção
abrangente, com custo de R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22,7 bilhões em 2027. A
falta de previsão das verbas no projeto de Orçamento para o próximo ano enviado
ao Congresso
Nacional no final de agosto é outra evidência de um casuísmo
incompatível com a importância do tema.
O episódio reforça a urgência de aperfeiçoar
a governança do Bolsa Família. Cumpre retomar condicionalidades e aprimorar a
focalização, para que os recursos cheguem a quem realmente precisa. Em 2022, Jair
Bolsonaro (PL) também se valeu do programa em uma ofensiva gastadora
em busca da reeleição.
Uma consequência da perda de qualidade do
cadastro é o crescimento
do número de famílias unipessoais, incentivado pelo salto do piso do
benefício na época. Depois de um pico de 5,9 milhões no início de 2023, a cifra
voltou a subir, de 3,5 milhões em janeiro deste 2026 para 3,9 milhões em julho,
ou quase 20% do total.
Não se pode afirmar que o aumento se deva a
fraudes, mas a inversão da tendência de limpeza cadastral perto das eleições
torna a hipótese plausível.
O Bolsa Família deve ser tratado com
seriedade institucional permanente. Não pode ser gerido ao sabor das pesquisas
eleitorais.
Avaliar a diversidade do ensino superior
Por Folha de S. Paulo
Dados do ranking da Folha apontam a
importância de considerar potenciais diferentes das instituições
Uma pequena universidade no Amazonas pode não
ter produção científica robusta, mas ser essencial para a formação profissional
mais limitado
A recente edição do Ranking Universitário Folha
(RUF)
novamente mostra a superioridade das instituições públicas do eixo Sudeste-Sul.
Das 50 universidades mais bem avaliadas entre as 205 do país, 37 são federais; as três
primeiras colocadas são as paulistas USP e Unicamp
e a UFMG, em Minas Gerais.
O fenômeno não é por si só um problema, já
que países como Canadá,
Austrália
e China
direcionam boa parte dos recursos a poucas universidades de excelência. No
Canadá, em 2024, quase 80% do financiamento federal à pesquisa acadêmica foi
destinado a 15 instituições.
Ainda que a produção científica por óbvio
seja um aspecto fundamental, ela não esgota a função do ensino superior. Por
isso, além da pesquisa, o RUF articula na avaliação outros quatro indicadores:
ensino, inovação, internacionalização e mercado.
Em alguns deles, instituições privadas se
destacam. Em mercado, a paulista
Unip está no segundo lugar nacional, empatada com a UFMG e atrás
apenas da USP.
Assim, emerge uma antiga questão abordada em
pesquisas do setor. A heterogeneidade no ensino superior brasileiro, com
diferentes tipos de instituições, objetivos e resultados, não é reconhecida de
modo satisfatório pela legislação nem pelo sistema padronizado de avaliação do
Ministério da Educação
(MEC).
Uma pequena universidade
no Amazonas, por exemplo, pode não ter produção científica robusta, mas ser
essencial para a formação profissional num contexto mais sujeito a limitações.
Agrupar universidades a partir de semelhanças
e diferenças pode trazer maior racionalidade às avaliações e orientar melhor as
políticas públicas —nos Estados
Unidos, a Carnegie Classification of Institutions of Higher
Education, que distingue instituições segundo suas características e
atividades, é utilizada para esses fins.
Outro ponto que desponta no RUF é a
relevância social da pesquisa. Neste ano, foi incluído um novo
critério na avaliação: o número de trabalhos científicos citados em
documentos de políticas públicas de governos, ONGs e organizações no nível
global.
Citações acadêmicas indicam impacto no campo
científico, mais restrito, enquanto as citações em documentos desse tipo podem
indicar o alcance da produção de conhecimento em questões mais práticas que
afetam diretamente a sociedade.
O RUF revela complexidades e lacunas dos modelos de avaliação de um ensino superior marcado por diferenças que ainda precisam ser devidamente contempladas pelo poder público.
O triste país do Bolsa Família
Por O Estado de S. Paulo
O programa, que completou 23 anos de
existência, ainda pauta a eleição presidencial. Já as condições para a
emancipação real dos dependentes seguem à margem do debate
A poucos dias do segundo turno, Flávio
Bolsonaro (PL) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputam palmo a palmo os votos
dos beneficiários do Bolsa Família. Ainda que este jornal se insurja contra a
crônica exploração da miséria alheia para fins eleitorais, é compreensível a
cobiça dos candidatos. De acordo com um levantamento do Estadão/Broadcast, ao menos 27,2
milhões de potenciais eleitores foram agraciados com o súbito reajuste do
benefício autorizado por Lula às vésperas do primeiro turno, um contingente
capaz de influenciar o resultado de uma eleição bastante apertada.
A discussão da hora entre as campanhas diz
respeito ao tempo em que o Bolsa Família continuaria sendo pago a quem arrumar
um emprego formal ou abrir um pequeno negócio. Flávio Bolsonaro promete até
dois anos. A campanha petista afirma que, se eleito, o senador pretende cancelar
os pagamentos após esse prazo. Hoje, a chamada regra de proteção garante 50% do
benefício durante 18 meses a quem consegue emprego, desde que a renda familiar
per capita não ultrapasse R$ 706. Esse prazo já foi de 24 meses, caiu para 12 e
voltou a 18 – uma oscilação que atesta o quanto a regra se submete mais a
conveniências políticas de ocasião do que a avaliações técnicas.
Do lado do governo, sobra oportunismo. Lula
anunciou um reajuste de 15,04% do Bolsa Família a 17 dias do primeiro turno.
Não satisfeito, o presidente-candidato antecipou o pagamento do benefício, que
se estenderia até o dia 30, para que todos os eleitores atendidos já recebam o
valor turbinado antes de irem às urnas no próximo domingo. A justificativa
oficial do Palácio do Planalto para a antecipação são os efeitos do El Niño,
que teriam provocado 518 situações de calamidade ou emergência entre agosto e
setembro. Pode ser. Ninguém de boa-fé há de negar os impactos do fenômeno
climático. Mas a coincidência entre os pagamentos e o calendário eleitoral é
gritante demais para ser ignorada.
Ademais, sem qualquer constrangimento, Lula
repete a tática de Jair Bolsonaro, que, em 2022, também antecipou o pagamento
do então Auxílio Brasil logo após o primeiro turno. O que à época foi tratado,
com razão, como uso descarado da máquina pública, agora vem embrulhado como
cuidado social. Quem quiser que compre a patranha.
O debate que interessa ao País, e não é
travado pelos candidatos à Presidência da República, deveria ser outro. É
preciso discutir seriamente as formas de criação das condições estruturais para
que o crescimento econômico torne o Bolsa Família um programa mais
circunscrito. Em vez disso, eleição após eleição, discutem-se os termos de sua
perpetuação como meio de subsistência de cerca de um quarto da população,
somando-se todos os membros das famílias atendidas pelo programa. Não se trata
de uma franja vulnerável, mas de uma multidão cronicamente dependente do Estado
para ter o que comer, prova cabal do fracasso de sucessivos governos em criar
oportunidades de ascensão social para milhões de brasileiros.
O Bolsa Família completou ontem exatos 23
anos e nunca esteve tão em evidência. Deveria ser provisório, até que deixasse
de ser a principal fonte de renda de 19,3 milhões de famílias e se tornasse uma
assistência marginal, como ocorre em países desenvolvidos. Mas isso só seria
possível com crescimento econômico sustentado, o que exige responsabilidade
fiscal, juros em patamares civilizados, educação pública de qualidade e
ambiente favorável aos investimentos e à geração de empregos formais. Essas
condições, como sabemos, ainda não estão dadas.
Encontrar o caminho que leva a esse Brasil
mais próspero para todos deveria tirar o sono de qualquer candidato à
Presidência da República digno de voto. Mas, ao que parece, mais rentável do
ponto de vista eleitoral é fazer um leilão para ver quem paga mais pelo
benefício – e por mais tempo. E assim, enquanto a emancipação dos dependentes
for tratada como peça de marketing eleitoral, e não como meta de um governo
decente, o Brasil seguirá sendo o triste país do Bolsa Família.
De braços abertos ao comércio global
Por O Estado de S. Paulo
É preciso abrir-se às importações e aos profissionais estrangeiros, repensar incentivos industriais e aumentar a Formação Bruta de Capital Fixo para gerar prosperidade econômica
País do futuro que nunca chega ao seu
destino, o Brasil viu, nos últimos anos, seu Produto Interno Bruto (PIB) per
capita ser superado pelo de nações que se abriram comercialmente ao mundo,
absorvendo conhecimento e tecnologia que lhes permitiram melhorar sua
produtividade e gerar riqueza para seus cidadãos.
O exemplo clássico é a Coreia do Sul, cujo
PIB per capita era inferior ao brasileiro nos anos 1960, mas hoje é mais de
três vezes o nosso: US$ 36 mil ante US$ 10,7 mil, de acordo com o Banco
Mundial. Enquanto o Brasil optou pelo modelo de substituição de importações –
que segue reeditando até hoje, a despeito de seu comprovado fracasso –, a
Coreia do Sul combinou abertura comercial com subsídios estatais destinados a
setores escolhidos pelo governo para competir entre si. Essa competição ampliou
as habilidades dos trabalhadores sul-coreanos e resultou em maior
produtividade, como revelou um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) ao
comparar as políticas industriais adotadas pelos dois países.
O enriquecimento sul-coreano andou de mãos
dadas com o grau de abertura econômica (relação entre a soma das exportações e
importações e o PIB), que atualmente é de 86,4% do PIB. O índice está bem acima
da média mundial, de 68,5%, e é quase três vezes superior à taxa brasileira,
que amarga 35,3% do PIB.
Outra história de sucesso de integração
comercial global é a China. Graças à política de portas abertas iniciada no fim
dos anos 1970, a nação asiática integrou-se gradualmente à cadeia global de
valor, convertendo-se na segunda maior economia do planeta em um curto espaço
de tempo.
O Brasil, durante todo esse período,
continuou fechado ao mundo, emendando períodos de crescimento medíocre com
décadas perdidas. Com a exceção honrosa de empresas como a Embraer, o País
segue desconectado do comércio internacional. Ao mesmo tempo, a produtividade
do trabalhador brasileiro está praticamente estagnada, o que explica por que o
Brasil foi ultrapassado economicamente por países que, a despeito de seus
muitos méritos, não contam com as mesmas vantagens territoriais, populacionais
e de recursos naturais que nós possuímos.
Por negligenciar seu capital humano, o País
desperdiça seu imenso potencial e adia a prosperidade de uma população que
jamais se furtou a trabalhar duro.
Tudo isso precisa mudar, ainda mais quando se
tem o agravante do protecionismo do presidente dos EUA, Donald Trump. Até a
estupidez é forçada a dar um passo atrás diante de cadeias globais bem
amarradas. Quanto mais empresas globais tiver, mais difícil será para o Brasil
ser capturado pelas ondas protecionistas que vêm e que vão.
Assim sendo, o País precisa abrir-se ao mundo
de forma contundente, o que inclui facilitar a entrada de profissionais
estrangeiros qualificados, como fizeram nações que se tornaram desenvolvidas.
A ojeriza brasileira às importações também
precisa ter fim. O próximo governo, seja qual for, precisará trabalhar desde o
primeiro dia para que o indicador de Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) saia
do patamar pífio de 16%.
Trata-se do investimento em maquinários e
equipamentos que permitem a fabricação de outros bens. Países com FBCF baixo
costumam depender de maquinários obsoletos, o que compromete a capacidade de
produção local.
Também é preciso, como defendeu o economista
Edmar Bacha em artigo recente para o Valor
(Uma terceira via para a política industrial?),
que o País pare de tentar adivinhar quais setores industriais serão os
“vencedores” e adote o critério da “exportabilidade com encadeamento local”. Em
vez de conceder benesses para “campeões nacionais” – nem sempre escolhidos de
forma republicana –, o Estado deve direcionar incentivos e subsídios para
empresas competitivas no mercado externo, mas que também estejam integradas à
economia doméstica.
O desafio à frente do próximo governo não é
nada trivial. Será preciso contrariar interesses poderosos e ser transparente
em relação a setores que vierem a receber – ou perder – incentivos. Mas não há
mais tempo a perder, especialmente porque a população já não cresce tanto e o
País envelhece, o que só aumenta a necessidade de melhorar a produtividade.
TSE confunde os eleitores
Por O Estado de S. Paulo
Justiça Eleitoral falha na comunicação sobre
locais de votação às vésperas do segundo turno
Mudanças de locais de votação acontecem em
todas as eleições. Problemas estruturais e de segurança podem obrigar a
transferência de seções eleitorais. Não há nada de extraordinário nisso. O
problema é a Justiça Eleitoral não conseguir informar com clareza ao eleitor onde
ele deve ir votar. Nos últimos dias, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
produziu uma bagunça de informações desencontradas que confundiu os cidadãos às
vésperas de um acirradíssimo segundo turno.
Na sexta-feira, o TSE informava que 4.352
seções teriam seus locais alterados. No domingo, o número caiu para 2.033 e,
horas depois, para 1.397. Ontem, eram apenas 453. Em São Paulo, o TSE anunciou
mudanças em 48 seções, enquanto o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) informou
que eram somente duas. O sistema apontou inclusive mudanças de locais onde, na
verdade, nada havia mudado.
Problemas acontecem. Em Confresa (MT), por
exemplo, uma escola teve a cobertura danificada por um temporal depois do
primeiro turno. Ninguém espera que a Justiça Eleitoral seja capaz de impedir um
temporal. Espera-se, porém, que saiba lidar com suas consequências e informar
os eleitores a tempo.
Essa responsabilidade é ainda maior em uma
eleição tão polarizada em que qualquer ruído pode alimentar suspeitas
infundadas sobre a lisura do processo. Não há indício de manipulação ou má-fé,
mas há uma clara falha de comunicação. O TSE tem à sua disposição um canhão
midiático para informar, sem deixar dúvidas, qualquer mudança que for
pertinente ao processo eleitoral.
Nesse ínterim, o presidente do TSE, ministro
Kassio Nunes Marques, disse em entrevista ao Estadão que a difusão de informações falsas no
período eleitoral pode ser danosa ao regime democrático. Ora, é justamente a
informação confiável o melhor antídoto contra essas narrativas. E foi nisso que
a Justiça Eleitoral falhou.
Foi preciso que o Ministério Público
Eleitoral (MPE) recomendasse ao TSE que informasse os eleitores por WhatsApp ou
SMS sobre as mudanças nos locais e que fossem instalados avisos nos prédios que
deixaram de receber eleitores e a presença de equipes para orientar a população
na votação. São medidas que deveriam integrar qualquer plano de comunicação
para situações dessa natureza. Não deveria ser necessário que o MPE lembrasse à
Justiça Eleitoral a importância de orientar quem precisa encontrar a urna.
Manter a mesma recomendação rotineira de
olhar o e-Título para conferir o local de votação não é suficiente. O cidadão
já está sujeito à controversa obrigação legal de votar; o mínimo que se espera
do Estado é que lhe diga, com antecedência e precisão, onde deve comparecer.
Não importa se as mudanças atingem centenas ou milhares de seções, nem se foram mais numerosas em eleições anteriores. O dever de informar é o mesmo. O TSE tem razão ao advertir sobre os perigos da desinformação eleitoral. Mas deveria começar dando o exemplo. Da Justiça Eleitoral, espera-se, no mínimo, que seja capaz de dizer ao eleitor onde fica a urna.
Tempestade fiscal perfeita está por trás de
protestos na França
Por Valor Econômico
Esse esse não é um problema exclusivo francês. Há uma dificuldade generalizada dos governos de equilibrar suas contas
A França vem passando por uma nova grande
onda de protestos. No último fim de semana, mais de meio milhão de pessoas foram
às ruas. Houve choques violentos com a polícia e saques em várias cidades. Em
resposta, o governo decretou toque de recolher parcial. Políticos pelo mundo se
apressaram em culpar a imigração. Mas o problema subjacente provavelmente tem
pouco a ver com a forte presença de imigrantes em subúrbios empobrecidos. A
França, assim como boa parte do Ocidente, atravessa uma tempestade fiscal
perfeita, para a qual não há solução à vista no curto prazo. Culpar a imigração
é o discurso mais fácil.
As manifestações começaram em setembro, com a
mobilização de estudantes por mais verba para educação. O movimento se ampliou,
com protestos abarcando o custo de vida e o corte de serviços públicos.
Na última semana houve uma forte escalada da
violência. Autoridades francesas denunciaram a infiltração de grupos de extrema
esquerda e de gangues criminosas nas manifestações. Em discurso pela TV, o
presidente Emmanuel Macron condenou a violência e prometeu linha dura, mas não
elaborou uma resposta clara às demandas dos manifestantes.
O presidente dos EUA, Donald Trump, foi
rápido em associar os protestos à imigração e ao Islã. “Fechem suas fronteiras
e retomem o controle, antes que seja tarde demais!”, postou em sua rede social.
A imigração gera tensões, mas há poucas evidências de que seja um tema
relevante nestes protestos. A própria Marine Le Pen, candidata presidencial da
direita nacionalista francesa, destacou a insatisfação com o custo de vida.
Uma série de fatores está puxando os preços
para cima, o que reduz o poder de compra das pessoas. As guerras no Irã e na
Ucrânia fizeram disparar o preço da energia e de outros insumos. Com o aumento
do turismo, proprietários lucram mais alugando seus imóveis por temporada, o
que eleva o preço dos aluguéis para residentes. A alta dos juros encarece o
crédito e o pagamento de dívidas. Numa pesquisa divulgada em maio, sobre o
poder de compra dos franceses, 67% disseram que não ganham o suficiente para
viver adequadamente.
A inflação, porém, não explica tudo. O índice
de preços ao consumidor francês está sob controle nos últimos anos. Subiu 0,9%
em 2025 e prevê-se alta de 2,3% neste ano. A sensação de perda de poder de
compra advém de outros fatores. Um deles é a contenção dos salários nos anos
pós-pandemia. Segundo o Insee (instituto francês de estatísticas), apenas em
2024 os salários do setor privado recuperaram o poder de compra de 2019. E,
desde então, quase não houve melhora.
Há um outro fator subjacente importante. Os
protestos começaram por conta da dificuldade do governo de prestar os serviços
públicos aos quais a população está habituada. Essa piora decorre de uma
situação fiscal em rápida deterioração para os quais não há uma solução rápida
nem fácil.
A França não conseguiu retomar o controle do
gasto público, que disparou com a pandemia de covid-19. O déficit fiscal nos
últimos cinco anos ficou entre 4,7% e 6,6% do PIB; a previsão para este ano é
de 5,4%. Para se ter uma ideia de como esses déficits são excepcionais, as
normas para adoção do euro previam um teto de 3%. Isso não é um problema
exclusivamente francês. O déficit fiscal nos EUA deve superar 6% neste ano,
patamar recorde em tempos normais. A média da União Europeia superou os 3% que
deveriam ser o teto, com picos de 7%, como na Polônia. O déficit no Brasil pode
chegar a 9%. Há uma dificuldade generalizada dos governos de equilibrar suas
contas.
Uma das causas é a seguridade social. Os
gastos crescentes com aposentadoria e saúde de uma população que envelhece
espremem o orçamento dos demais setores, como o da educação. Esse ônus
demográfico veio para ficar.
A guerra na Ucrânia e a ameaça da Rússia
também pressionam as contas públicas na Europa. No ano passado, os países da
Otan (a aliança militar ocidental) concordaram em elevar o seu gasto militar de
2% do PIB para 5% até 2035. É um aumento brutal, que implica cortes em outras
áreas.
O crescimento baixo dos últimos anos também
impacta negativamente nas contas públicas, ao frear a arrecadação. A França
cresceu apenas 0,9% em 2025, e a previsão para este ano é metade disso. No caso
francês, é difícil compensar a arrecadação menor com mais impostos, pois o país
já tem uma das maiores cargas tributárias do mundo.
Um déficit maior faz aumentar a dívida
pública. A dívida francesa pode atingir 120% do PIB neste ano e é uma das
maiores da Europa. Acontece que a alta dos juros nos últimos anos elevou o
custo de carregamento dessa dívida, que passou a consumir uma fatia cada vez
maior do gasto público. Esse também não é um problema exclusivo francês.
No curto prazo, pode haver algum alívio no custo da energia, mas os demais fatores que causam essa deterioração fiscal não serão revertidos rapidamente. A França precisa de um ajuste fiscal, como outros países europeus já fizeram. A Dinamarca, mesmo com elevado nível de benefícios sociais, tem superávit fiscal. Os protestos em andamento indicam como esse ajuste será perigoso e impopular
De olho no coração
Por Correio Braziliense
São 1.194 óbitos por dia no país por doença
cardiovascular. Os dados revelam a inércia com que o país trata a prevenção de
uma das principais causas de morte evitável
No Brasil, um cidadão morre a cada 72 segundos vítima de uma doença cardiovascular. Até 16 de outubro, o país acumulava 318.945 mortes por infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e males correlatos em 2026. Os números representam uma média de 1.194 óbitos por dia, segundo o Cardiômetro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Os dados têm um peso que vai além da estatística: revelam a inércia com que o país trata a prevenção de uma das principais causas de morte evitável.
Há avanços reais a reconhecer. O novo Hub de
Doenças Cardiovasculares, lançado pela SBC em parceria com a Federação Mundial
do Coração, reúne séries históricas, projeções e indicadores por estado, sexo e
faixa etária numa plataforma de acesso público. Os dados permitem visualizar
essa trajetória com precisão: entre 2000 e 2024, a taxa de mortalidade
cardiovascular caiu 36%, passando de 306,4 para 195 óbitos por 100 mil
habitantes.
O combate ao tabagismo e a melhoria da
assistência farmacêutica contribuíram de forma concreta para esse resultado. O
problema é que, se a tendência das últimas duas décadas se mantiver sem
intervenções adicionais, as projeções do Hub indicam um aumento de 10,8% nas
mortes até 2030, chegando a 462 mil óbitos anuais. O ritmo dos ganhos
desacelerou, e o modelo que privilegia o atendimento de emergências tardias em
detrimento da prevenção precoce está chegando ao seu limite.
A desigualdade regional expõe onde a falha é
mais grave. Alagoas lidera o ranking com 245,5 mortes por 100 mil habitantes,
seguida por Amapá, com 225,1, e Mato Grosso do Sul, com 220,4. Em estados com
atenção básica precária e acesso restrito a especialistas, hipertensão,
diabetes e obesidade avançam sem diagnóstico e sem tratamento. Boa parte da
população só descobre a gravidade de sua condição clínica na maca de um pronto-socorro,
quando já passou o momento ideal de intervenção.
Atribuir esse quadro exclusivamente a
escolhas individuais é um diagnóstico incompleto. O cidadão que negligencia
exames preventivos frequentemente também enfrenta filas longas para consultas,
falta de medicamentos de uso contínuo e ausência de espaços públicos para
atividade física. As condições para o autocuidado precisam existir antes de se
cobrar que ele aconteça. Ao mesmo tempo, há uma dimensão de responsabilidade
pessoal que não pode ser ignorada: exames de rotina, controle da pressão
arterial, alimentação e movimento são gestos acessíveis a uma parcela
significativa da população que simplesmente os adia. O custo desse adiamento é
medido em emergências, em internações e, com frequência, em mortes que poderiam
ter sido evitadas.
O que os dados do Hub exigem é ação em duas frentes simultâneas: políticas públicas com metas executivas claras para atenção primária, acesso a medicamentos e atendimento rápido ao infarto e ao AVC; e uma mudança cultural em relação ao autocuidado. Reverter a curva projetada para 2030 é possível. Afinal, as projeções não são um destino fixo, mas um cenário provável caso nada mude. Mudar depende de decisão — dos governos e de cada um de nós.
Eleitores precisam de mais informações
Por O Povo (CE)
Considerando a informação mais recente do
TSE, 130 mil eleitores precisarão comparecer em seção com endereço diferente do
primeiro turno. No Ceará serão trocados apenas cinco locais de votação.
A Justiça Eleitoral precisa se aplicar ainda
mais para oferecer explicações mais detalhadas sobre o porquê das mudanças de
seções eleitorais, que vão atingir milhares de eleitores em todo o País neste
segundo turno das eleições presidenciais.
Segundo a Agência Brasil, nos últimos três
dias, o número de seções que tiveram mudança de endereço foi alterado três
vezes. No sábado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou mudança de
endereço de 4,3 mil seções, em todo o País. No domingo, o número caiu para 1.116.
Na segunda-feira, novo ajuste, com o TSE informando alteração do local de
votação em 444 seções. De acordo com o TSE, as mudanças nos locais de votação
são definidas pelos tribunais eleitorais dos estados (TREs), que conheceriam
melhor a realidade de cada região.
Os TREs informam que as mudanças acontecem
devido a estragos resultantes das chuvas; falhas no fornecimento de energia
elétrica; riscos estruturais dos prédios e para melhorar a acessibilidade para
pessoas com deficiência.
Considerando a informação mais recente do
TSE, 130 mil eleitores precisarão comparecer em seção com endereço diferente do
primeiro turno. A maioria dos eleitores afetados está em Minas Gerais (29.715),
Paraná (17.968) e Amapá (11.614). No Ceará serão trocados apenas cinco locais
de votação.
O assunto também preocupa o Ministério
Público Eleitoral (MPE), que pediu ao TSE para informar aos eleitores pelo
aplicativo e-título, pelos sites da Justiça Eleitoral e divulgação em rádio, TV
e redes sociais. O TSE comunica que a responsabilidade pelas alterações é dos
TREs, que foram orientados a fazer ampla divulgação dos novos endereços.
Mas, até agora, não foi inserida propaganda
específica em rádio e TV para avisar aos eleitores de possível mudança em seu
local de votação, principalmente aqueles que ainda usam o título físico, que
terão de buscar outra fonte de informação para verificar sua situação
eleitoral. Essa providência seria importante, principalmente pela capilaridade
desses veículos de comunicação.
Também é preciso levar em conta que, em uma
eleição tensa, de extrema polarização, qualquer detalhe é motivo de
desconfiança, criando um ambiente propício para a disseminação de teorias da
conspiração, que buscam pôr em dúvida o processo eleitoral.
Nesses poucos dias que faltam até a data da eleição, seria importante que a Justiça Eleitoral intensificasse a divulgação de informações sobre as mudanças de seções eleitorais. Essa medida é fundamental para que os eleitores estejam suficientemente esclarecidos para procurar a seção correta, de modo a exercerem sem transtornos o seu direito ao voto.

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