segunda-feira, 19 de outubro de 2026

O que quer o eleitor? Por Irapuã Santana

O Globo

Sobra muito pouco tempo e energia para refletir e buscar informações sobre candidaturas nas eleições

O primeiro turno das eleições passou e, com ele, foram escolhidos os novos representantes da população no Legislativo. Tivemos recordes de votos à direita e à esquerda. Os campeões de votos para a Câmara foram Nikolas Ferreira, com 3.119.318 votos, seguido por Lucas Pavanato, com 3.038.438, e, fechando o pódio, Erika Hilton, com 1.596.472.

São candidaturas com pautas específicas que não necessariamente aderem, à primeira vista, àquelas questões frequentemente apontadas pelo povo como suas maiores preocupações, tais como violência, saúde, corrupção, pobreza e educação. Nenhum dos três campeões se destaca por algum desses elementos. Ficam mais centrados nas pautas dos costumes e da identidade.

Em uma análise apressada, deveríamos dizer que o eleitor não está preocupado com questões mais genéricas, já que deu tantos votos a eles e a outras candidaturas com plataformas parecidas, como Eduarda Campopiano, que atingiu a marca de 1.956.238 votos para assumir uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Pode ser uma possibilidade, mas existe outra, mais embasada cientificamente, cuja explicação tem relação com os ditados “quem não é visto não é lembrado” e “falem mal, mas falem de mim”. Daniel Kahneman ensina que o viés de disponibilidade faz com que o nosso cérebro acesse mais facilmente quem está sempre em evidência. Todos eles viralizam em vídeos, seja para ser enaltecidos, seja para ser criticados. Isso faz com que, na hora da decisão, sejam as primeiras opções analisadas.

Há, segundo Kahneman, outra explicação para nossa tomada de decisão. Quando se trata de um problema complexo, nossa mente o substitui por uma pergunta mais fácil, gerando um atalho mental que nos traz uma resposta. É o que ele chama de heurística. Fazemos isso o tempo todo e, na imensa maioria das vezes, dá certo.

Aí entra mais um ingrediente: como lidamos com diversos assuntos na vida, sobra muito pouco tempo e energia para refletir e buscar informações sobre candidaturas nas eleições. Um dado demonstra esse argumento: na semana da eleição, segundo o Datafolha, 59% dos eleitores ainda não haviam definido seu voto para o Senado, enquanto 57% não haviam feito a escolha para a Câmara.

A exposição reiterada de candidatos em confrontos virais aumenta a disponibilidade de seus nomes para o eleitor. Diante da complexidade de avaliar a capacidade de um parlamentar para enfrentar problemas concretos, parte do eleitorado pode recorrer a um julgamento mais simples: identificar quem demonstra disposição para combater aquilo que considera errado.

Aí entra a inclinação política de cada um e, uma vez que todos ganham repercussão nacional, a oposição ao atual governo alimenta, de um lado, a presunção de que eles lutarão para mudar a atual conjuntura. Tal posição também se aplica, de outro lado, a Erika Hilton, que tem antagonizado essa corrente política.

Portanto, a aparente contradição do eleitor se desfaz quando se observa que os caminhos adotados para a escolha do voto são bem parecidos na maioria do eleitorado.

 

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