segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Os riscos da aposta dos mercados na eleição, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Ajuste dos mercados pós-eleição pode ser dramático, em especial se os capitais estrangeiros que entraram nas últimas semanas saírem de uma vez

A aposta na vitória do senador Flávio Bolsonaro levou ao aporte de R$ 18,5 bilhões em recursos estrangeiros na bolsa brasileira. Por enquanto, é só alegria: enquanto os juros sobem ao redor do mundo, a curva aqui já fechou mais de dois pontos percentuais. A queda do diferencial de juros não impediu a valorização do real, que aumenta os ganhos do investidor que vem de fora. O que pode dar prejuízo?

Naturalmente, uma eventual vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que apresentou uma melhora nas pesquisas - e os operadores já não podem mais considerá-lo carta fora do baralho. O mercado já se ajustou um pouco a esse risco nos últimos dias. Mas o tranco nos preços pode ser forte na semana que vem. As apostas em Flávio Bolsonaro, que eram muito leves no primeiro turno das eleições, se tornaram mais substanciais desde então.

Uma eventual vitória de Lula já era vista, pelos participantes do mercado, como um fato negativo para o desempenho de suas carteiras de investimento. O cenário básico da maioria é de continuidade dos déficits públicos, aumento da dívida e pressão fiscal sobre o Banco Central, que seria obrigado a manter os juros altos por um período mais longo.

O crescimento da extrema direita no Congresso Nacional piora as chances de um ajuste nas contas públicas num eventual Lula 4. E as medidas fiscais populistas adotadas nos últimos dias não apenas deixam menos favorável a matemática do ajuste como também debilitam a fraca credibilidade da equipe econômica do governo atual.

O ajuste dos mercados pós-eleição pode ser dramático, em especial se os capitais estrangeiros que entraram nas últimas semanas saírem de uma vez. Os cenários mais pessimistas no mercado financeiro dizem que o Banco Central teria que subir os juros. Os mais pessimistas entre os pessimistas acham que o Brasil pode entrar em dominância fiscal.

E como os mercados veem uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro? É provável que o rali de preços se aprofunde mais um pouco, mas os operadores mais experientes acham que serão necessárias algumas definições importantes do eventual novo governo para intensificar as apostas num cenário melhor.

O primeiro marco será a definição do ministro da Fazenda num eventual governo do candidato do PL. De forma geral, nomes muito ideológicos e associados ao bolsonarismo são vistos com maior reserva. Não pela agenda em si que possam defender, mas por uma eventual falta de força e de distanciamento do mundo político para adotar uma agenda de ajuste que não tende a ser muito popular. Os investidores estão inclinados a reagir melhor a nomes fortes e independentes, sobretudo se tiverem experiência no próprio mercado financeiro.

Flávio Bolsonaro não disse, até agora, o que vai fazer para ajustar as contas públicas, mas são poucos os que estão realmente preocupados com isso. O entendimento mais geral é que, numa campanha acirrada, seria suicídio detalhar as prováveis medidas.

O problema é que, quanto mais Flávio Bolsonaro antecipa o que pretende preservar ou evitar num eventual governo, mais estreito fica o caminho para fazer o ajuste fiscal que o mercado espera dele.

A lista vem crescendo, incluindo promessas de manter reajustes reais para benefícios previdenciários e a vinculação de despesas às receitas, como ocorre nos gastos com saúde e educação. Não está muito claro quão profundos vão ser os cortes de impostos - a lista do seu programa de governo inclui energia elétrica, combustíveis, distribuição de dividendos e encargos da folha de pagamentos.

E Flávio Bolsonaro sinalizou poupar de cortes os benefícios tributários nas letras agrícolas, pelo menos enquanto os juros e os custos financeiros forem muito altos. Significativas, as renúncias fiscais a pequenas empresas, como o MEI e o Simples, dificilmente seriam reduzidas num governo que tem os empreendedores na sua base eleitoral - o risco é serem expandidas ainda mais.

A equação política sob Flávio não seria muito mais simples do que sob Lula. A agenda ideológica poderá competir com as pautas econômicas no Congresso Nacional, entre elas um eventual enfrentamento com o Supremo Tribunal Federal (STF), o que poderia fazê-lo perder o primeiro ano de governo, quando o governo recém-eleito costuma ter mais força para aprovar sua agenda.

Apesar de todas as incertezas, a aposta entre participantes do mercado é que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro dê um impulso à bolsa e reduza os juros e o dólar, tirando um pouco da pressão sobre o Banco Central, que poderia reduzir um pouco mais a taxa de juros.

Se a eleição vai mesmo levar a um ciclo positivo duradouro, é algo que o tempo dirá. Uma regra bem desenhada para conter os gastos públicos e controlar a dívida pode ajudar a conquistar uma confiança mais duradoura, principalmente se vier acompanhada de medidas estruturais de ajuste de gastos.

Mas o otimismo deve ser dosado com cautela. As regras fiscais foram furadas pelos dois últimos governos, aí incluído o de Jair Bolsonaro. A polarização política aumenta a tentação populista. Será preciso também um olhar atento para os escândalos, que, no governo Michel Temer, interromperam um ciclo que parecia ser positivo, na ótica dos mercados. Ganhar dinheiro com a eleição é uma coisa. Saber se a aposta vai sobreviver ao governo é outra.

 

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