segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Preparem-se para uma semana sangrenta, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Debate e entrevista de Roberta Luchsinger testarão os sentimentos profundos do eleitor

Depois de uma campanha arrastada, sem confrontos diretos entre os principais candidatos, o debate na Band e a entrevista da lobista Roberta Luchsinger à CNN são o prenúncio de uma semana sangrenta em que o nível vai baixar.

Logo após um início morno com respostas protocolares sobre segurança pública e economia, o primeiro embate cara a cara entre Flávio Bolsonaro e Lula descambou para acusações recíprocas envolvendo a máfia do INSS, o caso Master, outros casos de corrupção e milícias que resvalaram para outros integrantes da família de um e de outro.

Na reta final da campanha, a eleição da rejeição promete entrar em ebulição. Segundo a última pesquisa Datafolha, os percentuais daqueles que afirmam que com certeza votarão em Flávio Bolsonaro (45%) ou em Lula (44%) são inferiores aos dos que declaram não votar em hipótese alguma em um (47%) ou outro (49%), respectivamente.

No levantamento da Quaest divulgado no dia 15, o número de eleitores que temem a reeleição de Lula era exatamente igual ao daqueles que têm medo de uma volta de um integrante da família Bolsonaro ao poder (43% em ambos os casos).

Buscando entender o que move os instintos do eleitor, o instituto comparou as razões do medo de cada alternativa. No caso dos entrevistados que receiam um quarto mandato de Lula, o fator determinante é a corrupção (32%), seguida pela situação da economia (20%) e pela má qualidade do governo (16%).

Para os eleitores que têm pavor de uma vitória de Flávio Bolsonaro, as justificativas são mais difusas: não gostar da família (16%), temores de autoritarismo (11%), má avaliação da gestão de Jair (11%), preocupação com o fim dos programas sociais (11%), casos de corrupção (9%) e receios de retrocessos em direitos humanos (8%).

Curiosamente, Lula não recorreu a esses sentimentos durante a sabatina da semana passada na Rede Globo. Como destaquei na cobertura realizada ao vivo no site do Valor, o candidato que busca seu quarto mandato presidencial teve uma participação protocolar, defendendo as conquistas de sua gestão e prometendo continuidade para os próximos quatro anos. Sem mencionar Flávio Bolsonaro, Lula apostou na figura de estatista para conquistar o eleitor indeciso.

Já Flávio Bolsonaro, ao ser confrontado pela jornalista Renata Lo Prete, usou de tática oposta. Como destacou a colega Cila Schulman também no Valor, o candidato do PL buscou incluir Lula em todas as suas respostas, responsabilizando-o por todas as mazelas do país.

No debate de domingo, o clima esquentou na primeira oportunidade que os candidatos tiveram de dirigir perguntas diretamente um ao outro. E foi a menção ao nome de Roberta Luchsinger que desencadeou as trocas de acusações entre os candidatos.

A entrevista concedida pela lobista Roberta Luchsinger à CNN no sábado dá o tom do que pode vir por aí. Investigada pela Polícia Federal junto com o filho do presidente Fábio Luís da Silva, o Lulinha, por usar da proximidade de autoridades do governo para favorecer empresas, Luchsinger abriu a metralhadora contra o presidente da República.

Ao acusar Lulinha de realizar tráfico de influência junto a diversas autoridades federais com o conhecimento de Lula, Roberta Luchsinger alimenta, a uma semana do segundo turno, o fantasma da corrupção que assombra o eleitor que resiste a dar mais um voto de confiança no petista. Para piorar a situação, a lobista enquadrou sua fala sob o enfoque do machismo (um homem poderoso que usa o peso do cargo para perseguir uma mulher) e em mais de uma ocasião levantou dúvidas sobre a senilidade do presidente.

Como seria de se esperar, as redes sociais bolsonaristas vêm sendo inundadas com cortes dessa entrevista - e Flávio Bolsonaro e seus apoiadores se valeram deste tema na manifestação de ontem ocorrida na Avenida Paulista, em São Paulo. Pelo lado da campanha lulista, a entrevista fez ecoar um dos pontos mais baixos das disputas eleitorais no Brasil depois da redemocratização.

Na semana que antecedeu o segundo turno das eleições em 1989, a campanha do então candidato Fernando Collor de Mello levou ao ar no programa eleitoral uma entrevista com Mirian Cordeiro, ex-namorada do seu oponente. Em cadeia de rádio e TV, ela afirmou que Lula havia lhe oferecido dinheiro para realizar um aborto quando ficou grávida de Lurian, a filha mais velha do petista.

De agora até domingo, incluindo o decisivo debate na Rede Globo na sexta-feira, as redes sociais serão inundadas não apenas com os cortes de trechos das altercações entre os candidatos. Com muita munição gerada pelas várias investigações em curso na Polícia Federal e com exércitos digitais produzindo e distribuindo fake news para cada lado, as equipes de Flávio Bolsonaro e Lula vão testar os limites do eleitor que não aguenta mais a pior campanha eleitoral de todos os tempos.

 

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