Valor Econômico
Debate e entrevista de Roberta Luchsinger
testarão os sentimentos profundos do eleitor
Depois de uma campanha arrastada, sem
confrontos diretos entre os principais candidatos, o debate na Band e a
entrevista da lobista Roberta Luchsinger à CNN são o prenúncio de uma semana
sangrenta em que o nível vai baixar.
Logo após um início morno com respostas protocolares sobre segurança pública e economia, o primeiro embate cara a cara entre Flávio Bolsonaro e Lula descambou para acusações recíprocas envolvendo a máfia do INSS, o caso Master, outros casos de corrupção e milícias que resvalaram para outros integrantes da família de um e de outro.
Na reta final da campanha, a eleição da
rejeição promete entrar em ebulição. Segundo a última pesquisa Datafolha, os
percentuais daqueles que afirmam que com certeza votarão em Flávio Bolsonaro
(45%) ou em Lula (44%) são inferiores aos dos que declaram não votar em
hipótese alguma em um (47%) ou outro (49%), respectivamente.
No levantamento da Quaest divulgado no dia
15, o número de eleitores que temem a reeleição de Lula era exatamente igual ao
daqueles que têm medo de uma volta de um integrante da família Bolsonaro ao
poder (43% em ambos os casos).
Buscando entender o que move os instintos do
eleitor, o instituto comparou as razões do medo de cada alternativa. No caso
dos entrevistados que receiam um quarto mandato de Lula, o fator determinante é
a corrupção (32%), seguida pela situação da economia (20%) e pela má qualidade
do governo (16%).
Para os eleitores que têm pavor de uma
vitória de Flávio Bolsonaro, as justificativas são mais difusas: não gostar da
família (16%), temores de autoritarismo (11%), má avaliação da gestão de Jair
(11%), preocupação com o fim dos programas sociais (11%), casos de corrupção
(9%) e receios de retrocessos em direitos humanos (8%).
Curiosamente, Lula não recorreu a esses
sentimentos durante a sabatina da semana passada na Rede Globo. Como destaquei
na cobertura realizada ao vivo no site do Valor, o candidato que busca seu quarto mandato
presidencial teve uma participação protocolar, defendendo as conquistas de sua
gestão e prometendo continuidade para os próximos quatro anos. Sem mencionar
Flávio Bolsonaro, Lula apostou na figura de estatista para conquistar o eleitor
indeciso.
Já Flávio Bolsonaro, ao ser confrontado pela
jornalista Renata Lo Prete, usou de tática oposta. Como destacou a colega Cila
Schulman também no Valor,
o candidato do PL buscou incluir Lula em todas as suas respostas,
responsabilizando-o por todas as mazelas do país.
No debate de domingo, o clima esquentou na primeira
oportunidade que os candidatos tiveram de dirigir perguntas diretamente um ao
outro. E foi a menção ao nome de Roberta Luchsinger que desencadeou as trocas
de acusações entre os candidatos.
A entrevista concedida pela lobista Roberta
Luchsinger à CNN no sábado dá o tom do que pode vir por aí. Investigada pela
Polícia Federal junto com o filho do presidente Fábio Luís da Silva, o Lulinha,
por usar da proximidade de autoridades do governo para favorecer empresas,
Luchsinger abriu a metralhadora contra o presidente da República.
Ao acusar Lulinha de realizar tráfico de
influência junto a diversas autoridades federais com o conhecimento de Lula,
Roberta Luchsinger alimenta, a uma semana do segundo turno, o fantasma da
corrupção que assombra o eleitor que resiste a dar mais um voto de confiança no
petista. Para piorar a situação, a lobista enquadrou sua fala sob o enfoque do
machismo (um homem poderoso que usa o peso do cargo para perseguir uma mulher)
e em mais de uma ocasião levantou dúvidas sobre a senilidade do presidente.
Como seria de se esperar, as redes sociais
bolsonaristas vêm sendo inundadas com cortes dessa entrevista - e Flávio
Bolsonaro e seus apoiadores se valeram deste tema na manifestação de ontem
ocorrida na Avenida Paulista, em São Paulo. Pelo lado da campanha lulista, a
entrevista fez ecoar um dos pontos mais baixos das disputas eleitorais no
Brasil depois da redemocratização.
Na semana que antecedeu o segundo turno das
eleições em 1989, a campanha do então candidato Fernando Collor de Mello levou
ao ar no programa eleitoral uma entrevista com Mirian Cordeiro, ex-namorada do
seu oponente. Em cadeia de rádio e TV, ela afirmou que Lula havia lhe oferecido
dinheiro para realizar um aborto quando ficou grávida de Lurian, a filha mais
velha do petista.
De agora até domingo, incluindo o decisivo
debate na Rede Globo na sexta-feira, as redes sociais serão inundadas não
apenas com os cortes de trechos das altercações entre os candidatos. Com muita
munição gerada pelas várias investigações em curso na Polícia Federal e com
exércitos digitais produzindo e distribuindo fake news para cada lado, as
equipes de Flávio Bolsonaro e Lula vão testar os limites do eleitor que não
aguenta mais a pior campanha eleitoral de todos os tempos.

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