domingo, 4 de outubro de 2026

País vai às urnas refém do conflito surdo e radical, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A política deixou de ser a arte de construir consensos para se tornar a fonte de impasses sem resultados

O jeito de escapar da armadilha é a retomada da obediência a regras e papéis legalmente estabelecidos

O Brasil vai às urnas neste domingo (4) refém da armadilha criada pela batalha de aversões e afeições em que se transformou a política, que deixou de ser a arte da construção de consensos a partir de dissensos para se tornar a própria fonte da discórdia.

A lógica é a do conflito pelo conflito produtor de impasses sem o alcance de resultados. Falar da polarização e atribuir a ela o aprisionamento do país a duas correntes surdas ao contraditório é chover no molhado dos chavões.

O lugar-comum simplifica a cena, mas não lança luz sobre a rota de fuga nem explica a razão pela qual caímos na arapuca. Igualmente irrelevante para a elaboração de um pensamento que nos leve adiante é se apegar ao marco inicial da dinâmica do atrito.

Seja o "nós contra eles" ou o "eles contra nós", o mal está feito. Interessa saber agora como se escapa da sinuca. Dos favoritos na disputa de rejeições só o que se viu foi estímulo à contaminação do ambiente, cuja infecção tomou conta dos tribunais, assim chamados de superiores.

Não há, para qualquer lado que se olhe, compromisso com as consequências. O Congresso ocupa-se dos negócios orçamentários, a cúpula do Judiciário entrega-se a rivalidades militantes, a chefia do governo é objeto de cobiça de grupos voltados aos próprios projetos, e o país fica nas mãos do que der e vier.

Só há um jeito de se escapar dessa cilada: é refazer o caminho da obediência às regras e aos papéis legalmente estabelecidos. Contribuiria também a disposição geral em arejar o ambiente de modo a que se ouçam outras vozes sem desqualificá-las por se recusarem a entrar na briga do dedo no olho e golpes ao baixo-ventre.

Ao Legislativo caberia voltar a exercer suas funções de representação popular; ao Judiciário, a retomada do papel de defesa da legalidade e ao Executivo cumpriria a tarefa de governar para todos, trafegando nas divergências com respeito ao adversário para, assim, liderar o indispensável e urgente processo de reorganização institucional.

 

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