sexta-feira, 16 de outubro de 2026

PL é antiliberal, e dianteira de Flávio reflete insatisfação, diz autor de 'Como as Democracias Morrem', por Bárbara Blum

Folha de S. Paulo

Steven Levitsky diz que senador, se eleito, também precisará negociar com partidos para governar

Professor de Harvard vê ironia em apoio de países da América Latina a Trump, que passa por onda de impopularidade

O sucesso de Flávio Bolsonaro (PL) nas urnas do primeiro turno das eleições presidenciais não surpreendeu o cientista político americano Steven Levitsky. Um dos autores do best-seller "Como as Democracias Morrem", publicado em 2018, ele já esperava que o candidato que desafia o atual status fosse bem-sucedido.

Um levantamento feito por ele havia mostrado que, desde a pandemia, 74% dos governos incumbentes perderam as eleições nas democracias ocidentais analisadas. Foram 40 de 54. Foi o caso do Brasil, que não reelegeu Jair Bolsonaro (PL) em 2022.

Para o cientista político e professor de Harvard, essa insatisfação é a chave para ler os resultados das urnas do primeiro turno. O resultado positivo nas urnas para Flávio indica, segundo Levitsky, que o país continua insatisfeito com o status quo que o PT de Lula representa. "Não é que essa maioria dos brasileiros seja autoritária. Parte desse eleitorado está votando contra o status quo", afirma.

Levitsky afirma que, se antes o mundo se dividia entre esquerda, centro, direita e suas gradações, hoje o espectro é melhor orientado pela chave do liberalismo e do antiliberalismo, ou seja, o autoritarismo.

A tendência ao autoritarismo é global. Na Alemanha, a AfD é um dos partidos mais populares. Os Estados Unidos são encabeçados por um presidente antiliberal. A defesa da democracia foi um mote abraçado pela campanha de Lula.

"Seria péssimo para a democracia se a defesa dela se tornasse uma questão partidária", diz Levitsky. "Para que a democracia esteja segura, todos os partidos precisam abraçá-la."

Para ele, não é o que ocorre no Brasil hoje. Ele diz que o PL (Partido Liberal), a outra grande legenda em atividade além do PT, é amplamente iliberal. "É um erro de nomenclatura chamá-lo de Partido Liberal", diz.

Levitsky critica, ainda, a falta de atenção do PT para a fragilidade da busca pela reeleição e a resistência aos incumbentes recentemente. Ele diz que o partido deveria ter aprendido as lições deixadas pela campanha à reeleição de Joe Biden, nos Estados Unidos, que acabou com uma renúncia à candidatura, uma campanha às pressas encabeçada por Kamala Harris e culminou na reeleição de Donald Trump.

No ano passado, era do Brasil que Levitsky tirava as lições. O americano viu com bons olhos quando Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, coisa que os Estados Unidos não fizeram quando Donald Trump estava em situação similar.

"É uma mensagem muito melhor do que a dos Estados Unidos, em que as instituições estenderam um tapete vermelho para alguém que tentou derrubar o resultado de uma eleição", afirma.

O candidato do PL se posiciona –e posiciona o próprio pai– como vítimas de uma caça às bruxas. É, como diz Levitsky, uma estratégia empregada por líderes autoritários ao redor do mundo e abraçada por Trump e por Keiko Fujimori, filha do ditador peruano Alberto Fujimori e hoje presidente do país.

Uma das plataformas de campanha de Flávio é conceder o perdão ao pai, movimento que Levitsky vê como "infeliz para a democracia brasileira". Ele afirma, porém, que não seria fatal para o sistema político. "Se essa é a plataforma dele e se ele for eleito pela maioria dos brasileiros, então é isso que terá que acontecer", diz.

Para o cientista político, o alinhamento de Flávio com o pai é mais preocupante para o país do que o alinhamento do candidato do PL com Trump. "Foi o pai dele que tentou derrubar uma eleição."

Levitsky afirma que o Brasil é um país cujo sistema político demanda que alianças para governar. E ele vê potencial nas instituições do país para frear uma guinada autoritária. É o caso do STF (Supremo Tribunal Federal) que, "mesmo em uma crise séria, ainda é uma instituição poderosa".

Ele afirma, ainda, que o Congresso Nacional, mesmo dominado pelo conservadorismo, vai demandar pragmatismo caso Flávio seja eleito. Isso porque, com 121 deputados federais eleitos de 513 vagas na Câmara dos Deputados, e 28 de 81 congressistas no Senado, o PL não tem maioria absoluta no Legislativo. Isso significa que, se alçado à Presidência, o senador precisará negociar a governabilidade.

"Os outros partidos de direita e o centrão vão ser parte da conversa e vão oferecer certas restrições ao potencial autoritarismo de Flávio", diz Levitsky. "Mas sempre que um país elege um presidente que não está totalmente comprometido com a democracia, ainda mais em um país em que essa figura é tão poderosa, é uma ameaça."

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