quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Política ruim pode tornar ainda pior o ano difícil de 2027 na economia, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

PIB, emprego, salários e receita do governo devem ser menores no ano que vem

Fazer conserto das contas públicas em ano de PIBinho é bem mais complicado

O ano de 2027 vai ser difícil na economia. Se por mais não fosse, já seria bastante para aumentar o risco de que 2027 seja também difícil na política, o que realimentaria dificuldades econômicas. Isso se não houver tentativas mais ou menos camufladas de golpes ou o emparedamento do governo por um Congresso radicalizado à direita.

A discussão dos possíveis programas econômicos (por ora pastel de vento) parece desligada das dificuldades previsíveis de 2027, de incertezas novas e dos efeitos colaterais de uma tentativa de conserto das contas do governo ("o fiscal").

O Ministério da Fazenda de Lula 3 acredita que o PIB crescerá 2,3% em 2027 (mais do que em 2026). Bem difícil. Para o FMI, o PIB cresce 1,9%. Para o Banco Mundial, 1,7%. A mediana das previsões de "o mercado" é de 1,4% (e baixando), como a do Banco Central.

Com atividade econômica menor, o número de pessoas empregadas e o salário médio vão crescer bem menos do que na média de Lula 3. A previsão dos bancos é de crescimento menor do crédito. As taxas de juros no varejo cairão devagar. Purgar dívidas nesse ambiente vai ser mais difícil, com duplo impacto para empresas (que têm de abater seus débitos e vão faturar menos com um consumo anêmico).

Qualquer conserto mínimo das contas do governo significará alguma contenção da despesa. Daí, do gasto público, não virá estímulo econômico, ao contrário. Ainda que a limitação fiscal não cause recessão, ao menos de início tende a reduzir ainda mais um crescimento que já seria mais baixo. Quanto maior o choque de redução de gasto e menor a credibilidade técnica e política do plano, menos crescimento do PIB.

Tudo mais constante, taxas de juros tendem a cair com um gasto menor. Mas leva tempo até que isso faça efeito. Quando faz. Depois da Grande Recessão e antes da Covid, aprovou-se o teto de gastos e as taxas de juros caíram também um tanto por causa disso. A economia continuou deprimida. De 2017 a 2019, o PIB cresceria em média 1,4% ao ano.

Crescimento menor do PIB limita o aumento da receita do governo, o que dificulta consertos fiscais. Além do mais, em 2027 será preciso acomodar despesas e renúncias de receitas deste ano eleitoreiro de 2026.

Muito se fala de "qual o saldo primário necessário para estabilizar a dívida pública". Isto é, de quanto será a diferença positiva entre receita e despesa, excluídos gastos com juros da dívida, para justamente pagar juros e evitar a bola de neve da dívida pública. Mas não haverá superávit primário relevante a perder de vista.

Com competência econômica e acordo político grande, talvez se contenha a despesa, o que provocaria queda de taxas de juros e, assim, do déficit nominal (que inclui a conta de juros), o que desacelera o crescimento da dívida.

Um plano capaz envolve, pois, contenção de gasto, aumento de imposto (via fim de privilégios, do tal gasto tributário) e revisão permanente de despesa, o que exige reforma institucional grande, que depende de política e técnica competentes.

Há riscos sobre os quais temos pouco ou nenhum controle. Os mais óbvios e importantes: taxas de juros nos EUA, ritmo do PIB mundial, El Niño, desempenho da agropecuária, preços mundiais de commodities (como o petróleo e os alimentos que o Brasil exporta), o efeito incerto do começo da reforma tributária e, quem sabe, também do fim da escala 6x1.

Um bando de lunáticos ou um governo sem rumo novo não vai dar conta dessa situação.

 

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