Folha de S. Paulo
Vencedor e perdedor têm encontro marcado com
a revisão de convicções ou com o estelionato eleitoral
O populismo tem lá suas vantagens para angariar
votos, mas impõe dificuldades à tarefa de bem governar
Visto que a vida continua depois da eleição,
qualquer um dos dois finalistas que vença o torneio terá necessariamente um
encontro marcado com a revisão das próprias convicções.
São tantas as incoerências e tão improvisadas as mudanças de posição que o
outro caminho do vencedor será o confronto com o estelionato eleitoral. Aquele
que ficar no papel de líder da oposição tampouco escapará de precisar dar o
dito pelo não dito.
Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio
Bolsonaro (PL) tornaram-se convertidos a uma fé invertida em relação
ao que habitualmente praticavam e/ou pensavam.
Na undécima hora, o presidente deu de abraçar causas que desprezou a vida toda
e que no atual governo ignorou, não obstante tivesse poder para levá-las
adiante.
Para citar só algumas, aderiu à doutrina da prosperidade; descobriu o
mal das apostas eletrônicas; de repente percebeu-se na era digital;
deu-se conta de que lugar de criminoso é na prisão; tirou a família tradicional
da lata de conservas e a incluiu na carta de adesão aos princípios dos
evangélicos.
A fim de se adaptar aos reclames por moderação, o senador passou a oferecer
defesa da democracia na mesma bandeja em que se dispõe a entregar anistia a
golpistas e arremedos ditatoriais do salvadorenho
Bukele.
À teoria do "tesouraço" o fã do argentino Javier Milei
acoplou a ampliação dos gastos com benefícios sociais, uma contradição em
termos. Seguiu na toada da incongruência ao tirar a PEC do fim da
jornada 6x1 do lugar de "hipocrisia oportunista" para a
condição de proposta
digna de apoio por representar "a vontade da maioria".
O populismo tem lá suas vantagens eleitorais, dada a existência de contingente
expressivo de necessitados, crédulos e manipuladores travestidos de inocentes
—mas cobra um preço.
No caso, maior para Lula;
se reeleito, terá de pagar a conta da demagogia. Para Flávio Bolsonaro sai mais
barato: na oposição, assume o lugar de atacante; no governo, dá um calote na
figura do candidato e faz fumaça das palavras de anteontem.

Nenhum comentário:
Postar um comentário