Hoje, ao rever a caminhada desses 20 dias, eu
pisava firme diante de um cenário fantasmagórico entre a conjuntura turva e
difícil. Alguém poderia perguntar: “Professor, o que você acha de tudo isso?” É
provável que formulasse: “Pensemos muito e com esse exercício chegaríamos ao
pessimismo da razão. Mas, ao olhar aquelas multidões, recordaríamos o nosso
otimismo da vontade de quando estávamos a frente de uma outra multidão de
jovens.” O otimismo da vontade, é claro, pode ter tanto poder quanto o
pessimismo da razão – e mais: diríamos, com o nosso cancioneiro, que é preciso
ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre, e possuir a estranha
mania de ter fé na vida. Mas os anos passaram e precisávamos mostrar que 2026
não seria como 2013. E foi isso que fizemos nesses 20 dias, 13 anos depois. Essa
conquista da frente democrática que se expressou nas ruas e além delas implica
e necessita a iminente autocrítica profunda e honesta sobre suas abdicações em
momentos cruciais para nossa democracia, para que faça jus ao voto de confiança
reposto e quase perdido. A direita também precisa agir e perceber que existe um
novo povo (resultado da mesma modernização que o país promoveu), que deve ser
conhecido e ouvido em suas dores, desejos (muitos irrealistas) e falhas.
Precisamos de analistas finos e perspicazes, mas conectados à realidade para
podermos ter a descrição rigorosa, e não teóricos de salão. Antes disso, as
pessoas se tornam uma massa em 2026 e não no enxame de 2013.
Elias Canetti testemunhou o incêndio do
Palácio de Justiça em Viena em 1927, e ficou tão impressionado que tentou
entender como uma massa dilui a responsabilidade individual e produz uma
energia que precisa ser descarregada, e que as vezes termina em destruição. No
seu clássico Massa e poder
(Tradução: Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia de Bolso, 2019): Fala-se muito da ânsia de destruição da massa;
é a primeira coisa nela que nos salta aos olhos, e é inegável que se trata de
algo encontrável em toda parte, nos mais diferentes países e culturas. Embora
se constate e desaprove tal ânsia, ela jamais é realmente explicada.
E acrescenta: O mais impressionante de
todos os meios da destruição é o fogo. Ele é visível de longe e atrai mais
pessoas. Além disso, destrói de modo irrevogável. Depois de um incêndio, nada
permanece como era. Ateando fogo às coisas, a massa julga-se invencível. À
medida que o fogo se propaga, tudo se junta a ela. Ele aniquila tudo o que lhe
é hostil. Como se verá, o fogo é o símbolo mais vigoroso que existe para a
massa. E, terminada a destruição, o fogo, assim como a massa, tem de
extinguir-se.
Enquanto a natureza nos mostra um fenômeno do El Niño desgovernado em diferentes partes do planeta, a história acabou de mostrar a nós, que os jovens, as multidões podem explodir o coração com um amor incomum. Recentemente, nesses 20 dias, vimos as ruas transpirando a democracia e sua frente. Entender as massas? Sim, claro, mas também precisamos dirigi-las e, às vezes, impedi-las. Alguns precisam do otimismo da vontade … outros dialogam (como nós, em todos os espaços) e outros (também como nós), fazemos política de verdade e não circos. Quando as tempestades chegam, como aconteceu conosco no resultado do primeiro turno brasileiro, nós mostramos que estávamos preparados. Lúcidos e lúcidas. Acordadas e acordados. Para que a coragem cívica e a prudência pudessem iluminar o caminho que tínhamos que fazer e fizemos mais do que incêndios.
*Ricardo Marinho é Membro da Comissão Própria
de Avaliação (CPA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),
Representante dos Professores no Conselho Diretor da Associação dos Empregados
de Nível Universitário da CEDAE (ASEAC) e professor da UniverCEDAE, da
Faculdade Unyleya e da Teia de Saberes.

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