Valor Econômico
Ela tem por função superar a ignorância e o
senso comum pobre e tosco. Com essas limitações não há cidadãos
O descabido alvoroço que cercou a proposta de atualização de nossa concepção oficial de jornada de trabalho tem aspectos reveladores do que sociologicamente são e o que pensam sobre obrigações e direitos sociais os que a combatem. Concebem como faz de conta as decisões quanto a transformações sociais necessárias ao próprio capitalismo. Esta é uma sociedade marcada por crônico atraso em relação a mudanças inevitáveis ao nosso ingresso na modernidade do desenvolvimento econômico com justiça social.
O assunto foi debatido de modo inapropriado a
começar pelo fato de que os defensores da redução da jornada caíram no engodo
de seus opositores. O de que é ela estímulo à ociosidade dos trabalhadores, e
não lhes opuseram o argumento principal de que é ela uma necessidade do próprio
capital. Na medida em que a sociedade contemporânea é culturalmente mais
complexa e mais diversificada do que era no século XIX, tornou-se também mais
carente de pessoas devidamente socializadas para nela viver.
O trabalho desde o século XVIII é cada vez
mais trabalho social e cada vez menos trabalho individual. A modernização de um
ramo da economia modifica todo o trabalho que nela se faz, e essa modificação
se dissemina através das próprias relações econômicas.
Nos anos 1960, na São Paulo industrial, o
operário mais valorizado e melhor remunerado era o ferramenteiro. Mais do que
um advogado e do que um desses economistas que teorizam sobre o trabalho
alheio, mas não sobre o próprio. Lula era ferramenteiro, treinado no Senai,
criado pelos industriais. Essa profissão já não existe. Foi transformada pelo
próprio desenvolvimento industrial.
Os trabalhadores que hoje cumprem as funções
que a ela correspondiam tiveram que se ressocializar. Recorreram ao tempo
livre, das primeiras transformações da jornada, para se reeducarem
profissionalmente.
Hoje, o trabalhador de qualquer categoria
profissional tem como requisito de formação um nível de conhecimento não só dos
ofícios, que não pode ficar reduzido ao que era o trabalho no século XIX.
O trabalho em qualquer setor sintetiza
conhecimentos que dependem de um alargamento significativo da informação
cultural recebida na educação de cada um. Em países civilizados a redução da
jornada veio acompanhada da regulamentação oficial de como ocupar o tempo livre
na sociedade pós-moderna.
Na Itália os sindicatos atuam na indicação de
que o tempo livre da redução da jornada deve ser ocupado em atividades
culturais, como a arte, a literatura, o teatro. Maneira de ampliar o modo de
pensar.
Adriano Olivetti tinha biblioteca em suas
indústrias que o trabalhador podia frequentar, o processo de trabalho
organizado de tal modo que podia ser interrompido por qualquer trabalhador, sem
afetar o trabalho dos demais, para ir à biblioteca da fábrica ler um livro. Há
países em que empresas promovem concertos durante o trabalho.
A redução da jornada tem por função superar a
ignorância e o senso comum pobre e tosco, insuficiências manifestas em falas e
atos de candidatos a deputado e até de um à Presidência da República. Com essas
limitações não há cidadãos. Pode haver fanatismo religiosos, mas não
civilização.
A questão da jornada tem sido questionada por
gente que não sabe o que é de fato trabalho, que hoje todo trabalho é social. O
deputado, vestido com seu terno caro de tecido azul parlamentar, não sabe que
seu traje vem da linha de produção, mesmo que formalmente ele próprio nada
produza.
Tratar o trabalhador que se reconhece na
atualização da jornada de trabalho como ocioso expressa desconhecimento da
realidade social do mundo de hoje. Em que até o trabalho da cozinha doméstica
foi profundamente transformado, o que torna obsoleto que o marido trate a
esposa como sua proletária ou mesmo escrava.
Políticos de direita, apenas para ganhar
votos nas eleições recentes, decidiram votar a favor da redução da jornada,
apesar de serem ideologicamente contrários a ela. Já com a intenção declarada,
pelo candidato da direita a presidente da República, de que mal tome posse
“regulamentará” a lei de modo a anular-lhe os efeitos sociais.
Através da mentira aos eleitores seu
propósito é assegurar o ganho extraordinário dos setores subcapitalistas e
retrógrados minoritários do capitalismo brasileiro. Representa quem ganha com o
trabalho barato do outro e seu cúmplice político que por ele vota contra a
medida. Entende que a extensão da jornada se deve porque a produtividade do
trabalhador é baixa. Na verdade, a baixa produtividade expressa a incompetente
organização subcapitalista do trabalho. Portanto do capital nele aplicado e de
quem o personifica.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

Perfeito.
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