domingo, 4 de outubro de 2026

Sem utopias, por Merval Pereira

O Globo

Votaremos este ano sem ânimo, sem utopias, sem esperança de melhoras. No máximo, tentaremos evitar nas urnas que o candidato que consideramos pior prevaleça.

Em 2022 o Supremo Tribunal Federal (STF) teve papel relevante, garantindo a democracia antes, durante e depois da campanha presidencial. Interveio até mesmo no dia da eleição, quando bloqueios ilegais nas estradas pretendiam impedir que eleitores nordestinos, majoritariamente lulistas, chegassem às urnas para votar. Hoje, o mesmo Supremo Tribunal Federal está mais uma vez envolvido com a eleição, mas do outro lado da mesa, não como mantenedor da ordem e da democracia, mas como fator de desestabilização eleitoral, interferindo indevidamente a favor do presidente Lula, que busca a reeleição.

Pode-se dizer que os ministros do STF estão coerentemente na mesma posição, mas naquele 2022 estavam protegendo a democracia, garantindo que o presidente eleito, o mesmo Lula, assumisse o governo legitimamente vencido nas urnas. Hoje, está pretendendo ajudar um dos candidatos, que por acaso é Lula, que em 22 representava a defesa da democracia e prometia um governo de união nacional contra golpistas, e hoje é um candidato que faz “o diabo” para vencer uma eleição.

Se em 2022 tínhamos a razão, que depois se mostrou necessária, de defender a democracia, este ano temos a campanha mais insossa e desanimadora a que já assistimos desde a redemocratização. A defesa da democracia continua como prioritária, mas se em 2022 quem abusou do poder para tentar se reeleger foi Bolsonaro, hoje, quando tem nas mãos as rédeas do governo, Lula faz igual ou aprofunda mais a distorção das regras eleitorais, e o Supremo Tribunal Federal dá pretextos a uma batalha jurídica entre os partidos que disputarão o segundo turno.

O país continua dividido, como em 2022, e o governo Lula não teve capacidade para ampliar seu apoio na sociedade, pois fechou sua gestão em torno dos seus, sem realizar a união nacional tão necessária. Votaremos este ano sem ânimo, sem utopias, sem esperança de melhoras. No máximo, tentaremos evitar nas urnas que o candidato que consideramos pior prevaleça. Foi um final de campanha melancólico, com os ministros do STF e do TSE assumindo o lugar dos candidatos, tomando decisões que influenciam o debate. A crise no Judiciário está chegando a um ponto em que algo precisa ser feito, porque estão interferindo na vida do país de maneira indevida e com muita frequência, defendendo pontos de vista pessoais. A proibição agora foi uma atitude pessoal, política do juiz, que tomou partido – a ministra Estela Aranha no TSE e Gilmar Mendes no STF, que distorceu a lei para colocar Renan Santos no debate, indevidamente. A decisão que incluiu Zema nos debates também já fora errada – foi uma interpretação alargada do TSE. Gilmar Mendes colocou Renan Santos no debate sem nenhuma razão jurídica – é uma teoria dele, e ninguém quer saber o que ele pensa, ou deixa de pensar. O que importa é a lei, e ele não cumpre. Está-se criando às vésperas da eleição uma insegurança que permitirá mil acusações, ilações, que só fazem reduzir a confiança no judiciário brasileiro.

Em 2022, tivemos um candidato que trabalhou o tempo todo para desmoralizar o judiciário. Agora, temos ministros e juízes de tribunais superiores entrando nestas disputas políticas baixas, arranjando pretextos para prejudicar um candidato e ajudar outro – no caso Lula. O que vai acontecer no país, quando se perde a confiança no STF? Mas se agora ele também age mal, onde vamos parar? Os dias finais de campanha serão muito tensos, porque qualquer erro de um ou de outro - e já aconteceram muitos - afeta o resultado final. Não sabemos o que vai acontecer.

Nunca tivemos esta situação. Lula parece não ter aprendido com as várias campanhas presidenciais que disputou. Depois de três derrotas seguidas, duas no primeiro turno para Fernando Henrique e seu Plano Real, venceu quando se defrontou com um adversário de carne e osso, José Serra, não para utopias: o caçador de Marajás e o Real. Ele mesmo tornou-se uma utopia, venceu as outras eleições, e fez a sucessora. Agora, pode perder para uma distopia.

Um comentário:

  1. Merval tua ótica é vista como partidário do Lula analisando a sua campanha dos eleitores do PT desiludidos cansados de tantas promessas e de tantos descaminhos com 20 anos de governo por outro lado a campanha do Flávio é cheia de esperança que está mobilizando de norte a sul do país do Brasil as pessoas para votarem pra dar um basta nessa situação que você descreveu essa ditadura disfarçada em democracia que vivemos
    Essa defesa da democracia de Moraes e do Lula é tudo fachada tudo mentira , cada um buscando poder dinheiro e fama a situação do Brasil hoje é calamitosa estamos entrando em falência moral , social e econômica devido à irresponsabilidade e a corrupção do governo do PT e do Lula
    os eleitores do Flávio Bolsonaro estão cheio de esperança por um Brasil melhor livre e de progresso em que seus cidadãos usufruam das riquezas do país

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