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Os rumos da economia sob Lula ou sob Flávio
Bolsonaro
Além do significado político, a eleição presidencial do domingo 4 será, para a economia, ainda mais decisiva do que aquela de 2002, quando a vitória de Lula impediu o ingresso do País na Alca e a privatização da Petrobras, acredita o economista Marcelo Manzano, professor do Instituto de Economia da Unicamp e diretor do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da mesma universidade. “Muito mais estará em jogo, não apenas porque o projeto de país representado por Lula é radicalmente diferente daquele defendido por Flávio Bolsonaro, mas também porque o cenário internacional nos coloca diante de desafios enormes. Caso a oposição vença, o nosso futuro estará ameaçado.”
Com Lula, ocorrerá o oposto. Reconhecido
internacionalmente como hábil negociador e estrategista, o petista terá
condições de aproveitar um cenário de grandes transformações na geopolítica
mundial para consolidar o Brasil como potência regional e conquistar graus
de soberania que nos habilitem rumo a uma sociedade mais desenvolvida, próspera
e justa, acrescenta o economista. Com Flávio Bolsonaro, prossegue Manzano,
parece evidente, pelas próprias declarações do candidato, que estaremos
completamente subordinados aos interesses dos grupos econômicos dos Estados
Unidos, que, provavelmente, farão conosco o que têm feito na Argentina de
Javier Milei, isto é, “uma profunda desconstrução das instituições nacionais e
uma pilhagem de nossos recursos naturais”.
Segundo o diretor do Cesit, o resultado da
eleição será decisivo ainda para determinar o papel do Brasil no cenário
global. Com Lula, teremos chance de participar do novo mundo que se abre com a
emergência da China e os desafios colocados pelas transições ecológica e
digital, com altivez e soberania, em condições de conquistar uma posição estratégica.
Com Flávio Bolsonaro, abriremos mão das condições de comandar o nosso futuro,
delegando aos interesses de uma potência decadente os nossos principais ativos
− terras-raras e minerais críticos, petróleo e energia limpa, água abundante −,
abandonando de vez os esforços de reindustrialização.
O presidente reeleito enfrentaria limitações
para acelar o crescimento da economia. O senador representa a destruição
definitiva da Constituição de 1988 e das políticas de inclusão
No cenário doméstico, prevê o economista,
haverá com o senador um ataque frontal à Constituição de 1988, que, a duras
penas, tem permitido ao Brasil avanços sociais de grande importância, entre
eles a consolidação do SUS, a universalização do ensino público, o
estabelecimento das cotas raciais e sociais e a política de valorização do
salário mínimo. É importante lembrar que nas propostas econômicas do filho 01,
elaboradas pela economista Daniella Marques, defende-se a retomada do programa
de privatização das estatais e a desvinculação dos orçamentos das políticas de
saúde, educação e previdência social, o que significaria um retrocesso brutal,
com dramáticas consequências sobre a vida de todos os brasileiros,
especialmente os mais pobres. Com Lula, teríamos ao menos a garantia de manutenção
dessas políticas e, apesar das dificuldades fiscais, seria possível avançar em
outras frentes, como a política nacional de cuidados, a reforma agrária, a
expansão das escolas integrais e o avanço da formalização das relações de
trabalho.
Em relação à dívida pública, sob o
bolsonarismo, a estratégia será cortar despesas fiscais, principalmente por
meio do ataque ao financiamento das políticas sociais, com uma nova reforma da
Previdência para produzir um grande superávit primário e tentar reduzir a dívida.
“O esforço seria, contudo, inglório, como vimos ocorrer em 2015 na desastrosa
política de austeridade do ministro Joaquim Levy”, dispara Manzano.
Com Lula, talvez se faça a revisão da meta de
inflação, essencial para proporcionar à diretoria do Banco Central
justificativas técnicas para transitar rumo a um nível de juros bem mais baixo.
“Considerando a hipótese de um cenário externo mais benigno e um governo Lula
em condições de acelerar a taxa de crescimento do PIB para um patamar entre
3,5% e 4% ao ano, assistiríamos a uma estabilização da relação dívida pública-PIB,
equacionando o problema de forma virtuosa, não por meio do sacrifício social,
do desemprego e do aumento da desigualdade”, conclui o economista.
Uma recondução de Lula leva também ao
confronto com limites da política econômica adotada até agora, diz o economista
José Augusto Gaspar Ruas, do Instituto de Pesquisa e Estudos Econômicos e
Sociais. “Não acredito que reste muito mais fôlego para continuar com o
crescimento puxado por um consumo, diante do tamanho do endividamento das
famílias e das empresas.”
A taxa de juros não cairá rapidamente,
portanto, um novo governo Lula terá dificuldade em manter o crescimento. Apesar
da reconstrução de alguns instrumentos importantes de política industrial, como
a organização da Petrobras, restam poucas formas de dinamizá-la diante dos
bloqueios para usar o Estado e as receitas fiscais com esse objetivo. “Não se
consegue deslanchar um pacote de investimento significativo, mesmo com bons
programas como a Nova Indústria Brasil e o Minha Casa, Minha Vida. Tanto que a
Formação Bruta de Capital Fixo, principal indicador do investimento, segue
muito baixa como proporção do PIB, distante do que foi no fim do segundo
mandato, em 2009 e 2010.”
Com o País subordinado aos EUA, em um mandato
de Flávio Bolsonaro, é de se esperar a privatização, em primeiro lugar, dos
Correios, abertura no setor de petróleo, inclusive na Margem Equatorial,
entrega de terras-raras e algum ajuste no Pix, em troca de um punhado de
investimentos que não serão capazes de ativar a economia brasileira.
O espelho do Brasil amanhã, na hipótese de o
bolsonarismo vencer, é a Argentina hoje, com aumento expressivo da pobreza,
compara o economista Saulo Abouchedid, professor da Facamp. Esse efeito ocorre
pela revisão, por Milei, de políticas sociais importantes e o resultado é um
aprofundamento da recessão. “A única via possível em um governo Flávio
Bolsonaro para o crescimento econômico é por meio da concentração de renda. A
tendência é repetir o que ocorreu no governo do pai dele, um crescimento não
inclusivo no período anterior à pandemia.”
“O espelho do Brasil amanhã, na hipótese de o
bolsonarismo vencer, é a Argentina hoje, com aumento expressivo da pobreza”,
acredita o economista Saulo Abouchedid
Em relação ao governo Lula, o desafio é
acelerar o crescimento econômico “sob a pressão fiscal eterna do mercado”, mas
sem deixar de atender as áreas sociais. “Acredito que haverá mais espaço para a
queda de juros no Lula 4. E uma tentativa de buscar alternativas na política
fiscal, para não abandonar uma política inclusiva e a política industrial”, projeta
Abouchedid.
Para o economista André Luiz Passos Santos,
sócio da BPCT Consultoria, a julgar pelas políticas econômicas de Jair
Bolsonaro e pelas declarações da assessoria econômica de Flávio, é de se
esperar um conjunto de medidas fiscais contracionistas, na tentativa de deter o
crescimento da relação dívida/PIB, caso ele vença as eleições. O resultado
provável será aumento do desemprego e da desigualdade, contração ou o
crescimento lento do PIB, queda no consumo das famílias e, contraditoriamente,
uma continuidade da expansão da relação dívida/PIB, pelo enfraquecimento do
Produto Interno Bruto.
De um eventual novo mandato de Lula, além da
continuidade das atuais políticas econômicas que preservam os gastos de
natureza social e a manutenção da propriedade das empresas estatais, espera-se
que, por se tratar provavelmente de seu último mandato presidencial, o
presidente avance em pautas como justiça fiscal, transporte gratuito, revisão
das relações entre mercado financeiro e BC e, no limite, revisão das amarras
fiscais vigentes, para possibilitar a ampliação do espaço orçamentário ao
investimento público em infraestrutura, sublinha Santos. “O caminho seria
ampliar a base fiscal, o que sempre foi bastante difícil aos governos, desde
Getúlio Vargas, pela resistência organizada das elites econômicas”, destaca.
“Em caso de vitória de Lula, a tendência seria tentar manter a ampliação dos
mercados de exportação e o equilíbrio precário entre os interesses chineses e
estadunidenses, o que a competente diplomacia profissional brasileira tem
feito.”
Publicado na edição n° 1433 de CartaCapital, em 07 de outubro de 2026.

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