domingo, 4 de outubro de 2026

Sobre o afeto que se encerra, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

É preciso distinguir a polarização política e ideológica da afetiva, que contempla convivência cívica e até mesmo amor

A máquina de ódio religiosa transfunde polarização afetiva na política: campanhas se orientam pelo escândalo do outro

Diante do show de horrores com esqueleto fora do armário oferecido pelo STF, vale perguntar se alguma parte cabe à polarização social. Não é exclusividade nossa, acadêmicos norte-americanos já se inquietam com esse fenômeno nas universidades. É preciso, entretanto, distinguir polarização política da afetiva. A primeira contempla posições ideológicas, com maiores ressonâncias onde se exacerbe a divisão entre conservadores e progressistas. A segunda, convivência cívica e, mesmo, amor. Mas as duas podem se superpor.

Entre nós, a superposição é estimulada pela identificação do campo antiprogressista ao bolsonarismo. Embora este termo já se distancie de um nome próprio à extrema direita, o fantasma do capitão assombra a memória democrática como objeto malsoante. Não apenas por seu espírito golpista, muito pelo legado negativo da grosseria de linguagem, indiferença à vida humana, ataques à educação. Matéria-prima da náusea.

Só que o cotidiano visto pelas lentes de uma sociologia do imediato mostra outra face da polarização. Um caso ilustrativo: alguém com fortes convicções direitistas, mas em quem se reconhecem algumas virtudes pessoais, repercute em conversa uma suposta declaração do imunologista Anthony Fauci de que ivermectina e hidroxicloroquina poderiam ter salvado vidas. Fauci não disse nada disso, calou-se na audiência do Senado americano (29/6/2026). O interlocutor, porém, é categórico: "O capitão estava certo".

Esse adepto não pode, entretanto, ser definido como réplica antropológica de seu ícone. Anestesiado, ele simplesmente não absorve fatos reais, é um Pedro Bó (o personagem crédulo de Chico Anísio) do afeto. Contra a corrupção política, recita o mensalão, o petrolão ou despesas de cartão do presidente da República. Personaliza tudo no epíteto "ladrão". Apenas esquece a voracidade financeira do clã predador da democracia, da ganância imobiliária, da associação com a criminalidade miliciana. E mesmo sabendo da quinta-coluna entreguista, anuncia, pimpão: "vamos libertar o país". Ingênuo parceiro do golpismo permanente.

Um caso singular, certo. Mas inteligível como holograma do laço social estruturado pelo vaivém entre desafecção e afecção. O indivíduo se dessensibiliza quanto a fatos sórdidos (pregação de extermínio físico, elogio da tortura), na vertigem do fascínio libidinal por um espectro, sobre o qual projeta instintos silenciados. Zero cognição: uma cabeça, uma estrutura de ressentimento internalizada.

Isso pode coexistir com civilidade ou com violência, como entre 2018-22, período de inédito antagonismo afetivo, teoricamente sonhado pelo politólogo Carl Schmitt: o inimigo funda a política. A máquina de ódio religiosa transfunde polarização afetiva na política: campanhas eleitorais se orientam pelo escândalo do outro. Nem santas católicas escapam de ataques misóginos e racistas, contaminando ministros do STF "terrivelmente" qualquer coisa. Em sangria institucional desatada, trocam a liturgia interna pela hemorragia do cargo.

Questão intrigante é que polarização nenhuma explica o desejo repulsivo de ver o país transformado em modelo de narcoestado, como o Rio de Janeiro em 8 anos de bolsonarismo. Na exaustão dessa violência continuada, há vislumbres de socorro: fora da dinâmica fascista ou patológica, o corpo social não vota na aberração miliciana

*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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