Folha de S. Paulo
Virada histórica de Lula sobre Flávio
Bolsonaro reduz riscos para a democracia
Na economia, presidente terá de lidar com
herança maldita que ele próprio criou
Entre a sabedoria das massas e a loucura das multidões, o Brasil se pautou, talvez excepcionalmente, pela primeira. A população preferiu reentronizar um Lula enfraquecido a entregar as chaves do Planalto a um Flávio Bolsonaro com representação reforçada no Legislativo. É uma atitude inteligente, considerando o histórico antidemocrático do bolsonarismo. Prova-o a recusa de Flávio em reconhecer de imediato que sofreu uma derrota por mais de 4 milhões de votos de diferença.
A ideia básica por trás do sistema de freios
e contrapesos é não deixar que nenhum agente concentre poderes demais.
Normalmente essa é uma tarefa distribuída entre diferentes instituições, mas
nada impede que o eleitorado cumpra a função. Cumpriu. E muito oportunamente,
quando se leva em conta que a cúpula do Judiciário nacional, que deveria
constituir a linha de frente nessa tarefa, vive um enorme déficit de
credibilidade e não cessa de cometer erros
em série. No próprio dia da eleição, cometeu mais dois.
Em termos de votos, Lula deve um bom pedaço
de sua histórica virada à redução, do primeiro para o segundo turno, do
absenteísmo e dos brancos e nulos —um fenômeno raro.
Basicamente, Lula foi reeleito porque pôde contar com os sufrágios de pessoas
que ou se recusaram a apoiá-lo no primeiro escrutínio ou não consideraram
importante fazê-lo. Não dá para confundir isso com um cheque em branco.
Se o resultado do pleito representa um grande
alívio institucional, não tem efeitos tranquilizadores sobre os rumos da economia.
Para reeleger-se, Lula deu rédeas ainda mais soltas à incontinência fiscal que
caracterizou seu terceiro mandato. Enfrenta agora o duplo desafio de apresentar
uma estratégia crível para lidar com o crescimento
da dívida pública e tornar o inevitável estelionato eleitoral
palatável para os que acreditaram em suas promessas.
Não sou muito otimista, mas, depois de
domingo (25), não há como não reconhecer a extraordinária capacidade do
presidente de dar a volta por cima quando tudo parece perdido.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário