Correio Braziliense
Lula necessita abrir o núcleo decisório do
governo às forças que autenticamente compuseram essa frente ampla, para que os
agentes que falam em seu nome reflitam na prática essa intenção
O deputado André Janones afirmou, em uma das
últimas mensagens que dirigiu antes do segundo turno aos apoiadores virtuais de
Lula que organizou nas redes sociais, que o próprio Lula dissera a ele que,
"nas eleições anteriores, tinha sido eleito por um partido, mas agora
seria eleito pelo povo". O futuro da governabilidade do país depende de
que Lula esteja realmente convencido do que disse.
A significativa vitória no segundo turno, com números muito expressivos, não terá sido motivada por adesão a uma agenda apresentada por ele. Se assim fosse, teria impactado as urnas já no primeiro turno. A grande virada decorre, fundamentalmente, da (auspiciosa) rejeição do extremismo autoritário por parte de uma majoritária parcela da população que é muito maior do que o eleitorado de qualquer partido ou coligação. Felizmente, a maioria da população tomou consciência a tempo do risco que corria a democracia e transformou o segundo turno num plebiscito a favor da democracia.
Resta esperar que Lula tenha aprendido a
lição (mesmo que com quatro anos de atraso). Sua candidatura não foi uma lista
partidária: no segundo turno, tornou-se — ainda que não reconhecida
explicitamente — uma "frente ampla", no sentido clássico do termo:
união de forças políticas bastante diferentes em defesa de um núcleo de valores
centrais que está sob grave ameaça — no caso, a democracia e o Estado de
Direito. Por conseguinte, a maioria eleitoral não autoriza o eleito a perseguir
unilateralmente seu programa político; seu mandato é o de articulador de um
acordo nacional, produto de um pacto entre os diferentes segmentos da sociedade
que pretendem viver sob a democracia e o Estado de Direito: partidos,
sindicatos, associações profissionais e empresariais, organizações da sociedade
civil.
Somente uma pauta estruturante negociada de
forma autêntica e transparente com todos esses atores sociais permitirá superar
os enormes obstáculos que estão na volta da esquina e que ameaçam fazer
derreter o futuro governo na paralisia decisória e na ameaça de uso partidário
do instrumento do impeachment. Não são perigos triviais: uma maioria de direita
(dividida entre uma fração profundamente clientelista e outra fração
extremista) em ambas as Casas do Legislativo, maioria essa que tem incentivos
ao bloqueio de qualquer iniciativa de política pública de natureza
redistributiva ou de resgate dos padrões de legalidade e moralidade na vida
pública; um ajuste fiscal que se vai impor independentemente da vontade do
governo de turno (seja por meio de medidas de política fiscal, seja por meio de
desvalorização cambial e inflação); uma fragilidade financeira do setor público
que compromete toda e qualquer iniciativa de enfrentamento dos problemas
nacionais pelo governo federal.
Sem pactuar com segmentos sociais relevantes
uma agenda mínima, em troca do apoio ativo desses mesmos segmentos pressionando
as instâncias institucionais (em especial legislativas e judiciárias) em defesa
dos pontos acordados, o caminho do futuro governo é tortuoso e frágil. Somente
a pressão social externa, vinda da sociedade organizada, poderá remover os
obstáculos impostos às políticas modernizadoras, desde o interior das
instituições, pelos grupos de interesses especiais e pela polarização
ideológica.
O que se propõe aqui não é um estelionato
eleitoral, nem ignorar o programa escolhido pelas urnas: as urnas escolheram
uma configuração de poderes que, se observadas as regras procedimentais da
democracia (das quais Lula é inequivocamente um defensor), não apenas impedirá
quaisquer propostas que tenha a coligação vencedora, mas imporá severos
retrocessos em políticas públicas e regras institucionais. O papel histórico de
Lula será, ao contrário, atuar dentro dessas regras democráticas (e sob essa
correlação de forças conjuntural desfavorável) para preservar, na máxima
extensão possível, as conquistas sociais que ficarão sob ameaça.
Somente uma articulação social ampla,
captando apoios fora da coalizão do Executivo, permitirá conter a pressão do
poder econômico para que o custo do ajuste recaia sobre os mais pobres; somente
uma coligação com a sociedade civil permitirá avançar medidas de restauração do
caráter republicano do funcionamento de muitos aspectos de instituições como o
judiciário, as big techs ou as emendas orçamentárias. Ignorar essa realidade, e
pretender que os recursos de poder isolados do Executivo levarão a resultados
nessas arenas fundamentais, significaria abrir mão da única possibilidade de
que o interesse público e a proteção aos mais vulneráveis sejam defendidos com
alguma eficácia no novo quadro sombrio que se avizinha.
Essa necessidade de buscar pactos sociais
traz consigo uma consequência instrumental: para viabilizar a interlocução com
os demais agentes, Lula necessita abrir o núcleo decisório do governo às forças
que autenticamente compuseram essa frente ampla, para que os agentes que falam
em seu nome reflitam na prática essa intenção. Isto traria ainda um imenso
benefício adicional: ao dar protagonismo decisório real a novos agentes, fora
do núcleo duro partidário que controlou o terceiro mandato, Lula poderia
finalmente entregar como legado histórico um conjunto de líderes, localizados
em vários pontos do espectro ideológico, que seria capaz de continuar
conduzindo a bandeira da democracia. Ao dar espaço real a essas novas gerações,
Lula diminuiria o risco de reencontrar daqui a quatro anos os extremistas
autoritários estando em posição ainda mais frágil e arriscada do que a que
superou nesta eleição.
*Ysadora Monteiro e Adrian Albala — respectivamente, membro e diretor do Núcleo de
Estudos sobre Bicameralismo e Instituições Comparadas (Nebic) da Universidade
de Brasília (UnB)

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