domingo, 18 de outubro de 2026

Vida é poesia, por Ignácio de Loyola Brandão

O Estado de S. Paulo

Namorar era olhar, trocar sorrisos maliciosos. E, se desse, pegar na mão, escondido do irmão

Dois momentos me tocaram fundo na primeira semana de outubro, ambos ligados a esta vida que chegou aos 90. O que chamo de vida é a de todos nós, brasileiros. O primeiro momento, tenebroso, foi a frase de um candidato à presidência do Brasil. Ela me desestruturou. A que ponto de sordidez chega a ambição de poder? A repelente, repulsiva, horrenda referência à prostituição em um cargo atribuída a Simone Tebet me deixou irado, desesperado. É vulgar, de espantosa baixeza, cafajestice. Inadmissível. Em que país vivemos? Ou viveremos?

O outro momento foi da emoção rara, que a vida às vezes nos confere. Um retorno à infância. Aos oito para nove anos fui coroinha na matriz de Araraquara. Já falei disso. E namorei Rosinha Gonçalves, linda. Linda foi até o final da vida. Namorar era olhar e sorrir. Se desse, pegar na mão, escondido do irmão, além de trocar sorrisos cúmplices e maliciosos. Depois, Rosinha passou a namorar Ronaldo Bertoldi, meu melhor amigo, vivo até hoje. Ainda amigo. Depois, comecei um flerte com Margarida Troncon, também Filha de Maria. Esta era uma associação em que todas se vestiam de branco e levavam uma fita azul. Ao se casarem e perderem a virgindade, mudavam de associação e a maioria ia para a de São José. Estas vestiam-se de preto, recebiam uma fita amarela, como minha mãe. Aliás, mamãe e a avó de Marcia eram amigas e desta associação.

Não me lembro de quanto durou o “namoro” com Margarida.

Também não me lembro de outros “namoros” de infância. Vivi, estudei, escrevi livros, casei-me com Bia, tive dois filhos, casei-me outra vez, fui traído, finalmente veio Marcia, estamos juntos há 42 anos, e ela me trouxe Rita, que me deu uma neta, Antonia, que deve ter lido Platão, O’Neill, Beckett, Beauvoir e Kafka no ventre da mãe.

Pois há um mês, terminado um encontro na Feira de Livro de Ribeirão Preto, das mais bem organizadas e consistentes há 25 anos, eu saía do palco e Marcia subiu para me ajudar a descer. Neste momento, uma mulher de 88 anos se aproximou, toda vestida de branco, me abraçou e abraçou Marcia, de 76 anos. Era Margarida Troncon, a namorada da infância.

Temos nos visto na feira da cidade, ela não perde minhas falas. Viúva, com filhas. E o mesmo rosto de quando flertávamos. Só aí fiquei sabendo que Marcia e Margarida, em momentos diferentes, nasceram e moraram na mesma rua de Araraquara, a Cinco, com uma quadra de diferença. Ali cresceram, sem saberem uma da outra. A vida ajeita as coisas ao modo dela. Com poesia, às vezes. •

 

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