Valor Econômico
Uma postagem recente do candidato derrotado à
Presidência Renan Santos, do Missão, surpreendeu quem acompanha a política
nacional de perto. Na publicação, o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL),
conhecido pelo perfil combativo, convidou os brasileiros a uma volta ao
passado, aos tempos em que o debate político era baseado em propostas, e
adversários não eram tratados como inimigos.
O mote foi o encontro amigável entre Renan e a deputada estadual do PT eleita por São Paulo, Duda Hidalgo, na noite paulistana, após uma apresentação da banda dele, e cujo registro circulou nas redes sociais. “Muita gente chocada com a interação pacífica e bem-humorada entre a gente que pensa diferente”, observou. “Há 20 anos atrás, este era o mundo em que a gente vivia”, completou. “Mas desde que surgiram os algoritmos de redes sociais, a gente começou a se radicalizar, ao ponto de um passar a odiar o outro, e odiar o outro virou uma profissão”, criticou sobre a polarização entre bolsonarismo e petismo.
Renan salientou que o mais saudável seria
divergir e disputar vários temas, mas convivendo socialmente. Ao fim, exortou
os seguidores a romperem a polarização em seu entorno. “Vamos construir algo
melhor para todos nós”, concluiu. Até a noite de quinta-feira (14), a postagem
havia alcançado mais de 3,5 milhões de visualizações.
Renan acerta ao afirmar que “odiar virou uma
profissão”. Há mais de uma década, o ódio se tornou o combustível das redes
sociais, como revelou o repórter do New York Times Max Fisher, no livro “A
máquina do caos”. Entre 2017 e 2018, constatou-se que viralizavam as
publicações nos matizes de ódio, conspiração e extremismo. “Perceberam que
quanto mais incendiária era a postagem, mais a plataforma a espalhava”, disse o
autor.
Foi nessa conjuntura que os “influencers”
cresceram e passaram a disputar espaços no Congresso com os políticos
tradicionais. Na semana passada, a coluna mostrou que os dez deputados federais
mais votados no país se forjaram nas plataformas. O PL tem quatro nomes na
lista: Nikolas Ferreira (MG), Lucas Pavanato (SP), André Fernandes (CE) e Júlia
Zanatta (SC). Os outros são: Erika Hilton (Psol-SP), Kim Kataguiri (Missão-SP),
Jeffrey Chiquini (Novo-PR), Sâmia Bomfim (Psol-SP), Tabata Amaral (PSB-SP) e
Ana Elisa (PT-MG).
Em paralelo, muitos ampliaram o capital de
votos. Mais votado no país, Nikolas saiu de 1,47 milhão de votos em 2022 para
3,1 milhões. Erika Hilton passou de 256,9 mil para 1,58 milhão de votos. Por
sua vez, sigla oficial do bolsonarismo, o PL deu um salto impressionante depois
de filiar o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2021. Em 2018, ainda com o nome PR,
havia eleito 33 deputados federais. Abrigando o bolsonarismo, triplicou a
bancada em 2022, com 99 parlamentares eleitos. Neste ano, 121 deputados do PL
saíram vitoriosos das urnas. O primeiro efeito dessa expansão da bancada foi
justamente o difícil convívio entre os moderados e os bolsonaristas, de perfil
radicalizado, obrigando o líder a fazer reuniões separadas com os dois grupos.
Em contraponto, as legendas de centro encolheram. Juntos MDB, Republicanos e a
federação União Brasil-Progressistas, que já foi a maior força parlamentar,
elegeram 164 deputados. Em 2022, esse placar foi de 189.
Nesse cenário, caciques do Centrão se uniram
à bancada da esquerda, encabeçada pelo PT, a fim de aprovar, ainda neste ano, o
voto distrital misto como modelo para a eleição proporcional (deputados e
vereadores). Segundo uma fonte a par da articulação, o presidente da Câmara dos
Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), pretende pautar a discussão em
novembro, logo após o segundo turno da eleição.
Lideranças das legendas envolvidas nessa
movimentação ressaltam que a aprovação do novo sistema, que passaria a vigorar
em 2030, deve ocorrer até dezembro. O receio de que com o fortalecimento da
bancada do PL e Novo a partir de 2027, reduzem as chances de aprovação da
proposta. “O PL é contra”, disse à coluna uma liderança da sigla.
Em contrapartida, a percepção das lideranças
do Centrão e do PT é de que o novo sistema seria capaz de fortalecer os
partidos políticos e, ao mesmo tempo, barrar a eleição dos “influencers”.
O próprio Hugo Motta já se manifestou
favorável ao voto distrital misto, depois de participar de um evento na
Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) em março. “Nós
temos propostas acerca do voto distrital misto, que me parece que nesse momento
seria a proposta que atende aos anseios de todos aqueles que querem ver cada
vez mais a boa política sendo discutida”, afirmou. Motta também acredita que a
mudança contribui para impedir a eleição de representantes do crime organizado,
que se infiltraram na política.
Defensores do modelo argumentam que a eleição
dos “influencers” fragiliza a democracia porque esses parlamentares se formaram
nas redes, sem vinculação aos partidos. Um dos pioneiros na defesa desse modelo
foi o ex-senador José Serra (PSDB-SP), que teve sua proposta chancelada pelo
Senado, mas sem nunca avançar na Câmara.
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