sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Voto distrital para barrar influencers entra em pauta, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Uma postagem recente do candidato derrotado à Presidência Renan Santos, do Missão, surpreendeu quem acompanha a política nacional de perto. Na publicação, o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), conhecido pelo perfil combativo, convidou os brasileiros a uma volta ao passado, aos tempos em que o debate político era baseado em propostas, e adversários não eram tratados como inimigos.

O mote foi o encontro amigável entre Renan e a deputada estadual do PT eleita por São Paulo, Duda Hidalgo, na noite paulistana, após uma apresentação da banda dele, e cujo registro circulou nas redes sociais. “Muita gente chocada com a interação pacífica e bem-humorada entre a gente que pensa diferente”, observou. “Há 20 anos atrás, este era o mundo em que a gente vivia”, completou. “Mas desde que surgiram os algoritmos de redes sociais, a gente começou a se radicalizar, ao ponto de um passar a odiar o outro, e odiar o outro virou uma profissão”, criticou sobre a polarização entre bolsonarismo e petismo.

Renan salientou que o mais saudável seria divergir e disputar vários temas, mas convivendo socialmente. Ao fim, exortou os seguidores a romperem a polarização em seu entorno. “Vamos construir algo melhor para todos nós”, concluiu. Até a noite de quinta-feira (14), a postagem havia alcançado mais de 3,5 milhões de visualizações.

Renan acerta ao afirmar que “odiar virou uma profissão”. Há mais de uma década, o ódio se tornou o combustível das redes sociais, como revelou o repórter do New York Times Max Fisher, no livro “A máquina do caos”. Entre 2017 e 2018, constatou-se que viralizavam as publicações nos matizes de ódio, conspiração e extremismo. “Perceberam que quanto mais incendiária era a postagem, mais a plataforma a espalhava”, disse o autor.

Foi nessa conjuntura que os “influencers” cresceram e passaram a disputar espaços no Congresso com os políticos tradicionais. Na semana passada, a coluna mostrou que os dez deputados federais mais votados no país se forjaram nas plataformas. O PL tem quatro nomes na lista: Nikolas Ferreira (MG), Lucas Pavanato (SP), André Fernandes (CE) e Júlia Zanatta (SC). Os outros são: Erika Hilton (Psol-SP), Kim Kataguiri (Missão-SP), Jeffrey Chiquini (Novo-PR), Sâmia Bomfim (Psol-SP), Tabata Amaral (PSB-SP) e Ana Elisa (PT-MG).

Em paralelo, muitos ampliaram o capital de votos. Mais votado no país, Nikolas saiu de 1,47 milhão de votos em 2022 para 3,1 milhões. Erika Hilton passou de 256,9 mil para 1,58 milhão de votos. Por sua vez, sigla oficial do bolsonarismo, o PL deu um salto impressionante depois de filiar o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2021. Em 2018, ainda com o nome PR, havia eleito 33 deputados federais. Abrigando o bolsonarismo, triplicou a bancada em 2022, com 99 parlamentares eleitos. Neste ano, 121 deputados do PL saíram vitoriosos das urnas. O primeiro efeito dessa expansão da bancada foi justamente o difícil convívio entre os moderados e os bolsonaristas, de perfil radicalizado, obrigando o líder a fazer reuniões separadas com os dois grupos. Em contraponto, as legendas de centro encolheram. Juntos MDB, Republicanos e a federação União Brasil-Progressistas, que já foi a maior força parlamentar, elegeram 164 deputados. Em 2022, esse placar foi de 189.

Nesse cenário, caciques do Centrão se uniram à bancada da esquerda, encabeçada pelo PT, a fim de aprovar, ainda neste ano, o voto distrital misto como modelo para a eleição proporcional (deputados e vereadores). Segundo uma fonte a par da articulação, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), pretende pautar a discussão em novembro, logo após o segundo turno da eleição.

Lideranças das legendas envolvidas nessa movimentação ressaltam que a aprovação do novo sistema, que passaria a vigorar em 2030, deve ocorrer até dezembro. O receio de que com o fortalecimento da bancada do PL e Novo a partir de 2027, reduzem as chances de aprovação da proposta. “O PL é contra”, disse à coluna uma liderança da sigla.

Em contrapartida, a percepção das lideranças do Centrão e do PT é de que o novo sistema seria capaz de fortalecer os partidos políticos e, ao mesmo tempo, barrar a eleição dos “influencers”.

O próprio Hugo Motta já se manifestou favorável ao voto distrital misto, depois de participar de um evento na Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) em março. “Nós temos propostas acerca do voto distrital misto, que me parece que nesse momento seria a proposta que atende aos anseios de todos aqueles que querem ver cada vez mais a boa política sendo discutida”, afirmou. Motta também acredita que a mudança contribui para impedir a eleição de representantes do crime organizado, que se infiltraram na política.

Defensores do modelo argumentam que a eleição dos “influencers” fragiliza a democracia porque esses parlamentares se formaram nas redes, sem vinculação aos partidos. Um dos pioneiros na defesa desse modelo foi o ex-senador José Serra (PSDB-SP), que teve sua proposta chancelada pelo Senado, mas sem nunca avançar na Câmara.

 

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