Folha de S. Paulo
Direita decente escapou de se tornar cúmplice do que teria sido um novo governo Bolsonaro
Flávio da derrota nos mostrou o que teria
sido o Flávio da vitória: golpe, Willer Tomaz e Trump
A última campanha presidencial de Luiz Inácio
Lula da Silva passou pela avenida celebrando o que Silas, Décio e Manoel
chamaram de brisa que a juventude afaga, chama que o ódio não apaga.
Passaram pela avenida jovens com esperança e velhos com memória; mulheres que apavoram o fascismo, Ana Elisa, Ana Júlia, Tábata, Érika, Marina, Benedita, Simone; o ex-cobrador de ônibus André Janones lutando nas redes e os velhos sindicalistas lutando nas ruas; a garotada de esquerda tentando repensar as utopias e direitistas que, quando votaram em Lula, passaram em um teste de convicção democrática em que pouca gente passaria; artistas e atletas que merecem respeito infinito por terem dado a cara a tapa na hora do vamos-ver.
Mas, sobretudo: os idosos que votaram em
cadeira de rodas, os indígenas e ribeirinhos que foram votar de barco, os
moradores de periferia que foram votar mesmo quando os prefeitos não
lhes ofereceram ônibus.
Todos nossos problemas acabaram? De jeito
nenhum. O único problema do qual nos livramos foi a bala de revólver que estava
prestes a nos acertar na cabeça.
Três dias depois da eleição, já era óbvio o
tamanho do desastre de que escapamos.
Após a derrota, Flávio
Bolsonaro recusou-se a
reconhecer a vitória de Lula, porque é golpista como o pai. Fugiu para os
Estados Unidos, país para cujo governo já tinha prometido as
riquezas brasileiras em troca de apoio na eleição. Fugiu com a ajuda de
aliados corruptos de Milei, provando que os mutreteiros de extrema
direita são solidários uns com os outros.
Vai viver nos Estados
Unidos, bem pertinho do dinheiro que recebeu de Daniel
Vorcaro, uma grana que a cada dia que passa tem mais cara de caixa
dois do que de financiamento para filme vagabundo de ex-ator da novela
"Mutantes". Um caixa dois que pode ser bem parrudo, porque também
pode incluir dinheiro que Willer Tomaz,
que já está nos Estados Unidos faz tempo, talvez mantenha em contas em que
Flávio também seja "usuário Master".
No dia seguinte à derrota, véspera da fuga, a
Bolsa de
Valores despencou. Era o mercado gritando a plenos pulmões que
Flávio havia lhe prometido coisas muito diferentes do que dizia aos brasileiros
em sua propaganda de campanha.
O Flávio da derrota nos mostrou o que teria
sido o Flávio da vitória: golpe, Willer Tomaz e Trump, tudo que o bolsonarismo
sempre foi.
Para quem conhece Flávio, sua fuga não foi
surpreendente. No Rio de Janeiro, todos sabemos que, cedo ou tarde, Flávio
desmaia.
No PL, inclusive, já existe
um deputado de São Paulo que mente que é príncipe e o Kelmon, que mente que é
padre. Um maluco mentindo que é presidente não causará estranheza.
A direita decente deve muito a essa vitória
de Lula. Ela escapou de se tornar cúmplice do que teria sido um novo governo
Bolsonaro. E ganhou quatro anos para se desvencilhar do golpismo. Torço para
que não os desperdice como desperdiçou os últimos quatro.
Afinal, na próxima eleição, a democracia
brasileira não poderá contar com Lula candidato. Não sabemos se mais alguém
será capaz de mobilizar a memória dos pobres brasileiros do tanto que a
democracia já fez por eles, do tanto que eles já fizeram por si mesmos com
ajuda da democracia.

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