Folha de S. Paulo
Voto distrital misto é tema relevante na
discussão sobre a muito falada e sempre evitada reforma política
Questão, contudo, não pode ser resolvida às
pressas e muito menos na base do acerto entre cúpulas partidárias
No clima ainda conturbado do pós-eleições, o
Congresso levanta um tema relevante para o debate sobre a muito falada e sempre
evitada reforma política.
A possibilidade de adoção do voto distrital
misto pode inaugurar uma agenda positiva no aperfeiçoamento do sistema
eleitoral e partidário.
Antes de embarcarmos em perspectivas otimistas, é preciso conferir se não se trata apenas de uma reação momentânea a votações de deputados em números equivalentes e até superiores aos obtidos em eleições majoritárias.
Ao que parece, desenha-se, de fato, um
casuísmo, tendo em vista a pressa do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB),
em aprovar a mudança nos menos de dois meses que restam à atual legislatura,
até meados de dezembro.
O prazo exíguo indica a ideia de se fazer uma
alteração dessa magnitude no sistema de representação por acertos entre cúpulas
partidárias, sem a participação dos representados, os primeiros interessados em
entender direito o novo mecanismo para a escolha de deputados.
É uma discussão antiga que remonta à
Constituinte e que de lá para cá foi tentada várias vezes sem sucesso.
Congressistas eleitos por regras em vigor têm enorme resistência em mudá-las
por receio de pôr em risco a sobrevivência nos respectivos mandatos.
A mesma objeção ocorre agora em vários
partidos —notadamente nos maiores, PL e PT— que discordam
entre si das normas propostas no novo sistema de votação.
Por enquanto, o que temos é só um tema posto
em cena para dar a ideia de que os atuais congressistas estão preocupados em
melhorar a qualidade da representação.
Ao que se vê pela ausência de sugestões para
a inclusão do eleitorado no debate, não estão minimamente dispostos a
esclarecer a população sobre benefícios e malefícios do voto distrital misto. O
sistema favorece o vínculo entre eleitos e eleitores, mas tem pontos
discutíveis sobre a real melhoria no exercício da delegação popular.
O debate sério, portanto, requer tempo,
transparência e inclusão.

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