Valor Econômico
Ala política ganha força e coloca em xeque agenda liberal
A provável criação do Ministério da Segurança
Pública, condicionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à aprovação da
proposta de emenda constitucional que dá mais instrumentos à União no combate
ao crime organizado, abrirá uma vaga na Esplanada que pode interessar ao
vice-presidente Geraldo Alckmin.
A PEC foi aprovada na terça-feira (3) pelo Senado, movimento que coincide com as discussões preliminares sobre a composição do próximo governo. Em relação ao destino de Alckmin, porém, ainda há mais de um cenário traçado dentro e fora do PSB.
Há os que insistem que seu nome deveria
permanecer entre os cotados para o Ministério da Fazenda: já era crescente a
preocupação no mercado com a resistência de Lula em cortar despesas obrigatórias,
quando começou a ganhar corpo entre a ala mais desenvolvimentista do PT uma
proposta formulada pelo economista André Lara Resende para levar a Selic a 7,5%
em um espaço de 12 meses e, depois, mantê-la em um intervalo entre a meta de
inflação (3%) e a soma da inflação com o PIB potencial do país (5,5%). Seus
defensores argumentam que a medida levaria a uma economia fiscal, embora seus
críticos alertem que ela pode causar uma fuga de capitais com efeito danoso
sobre a taxa de câmbio e a inflação.
Aliados de Alckmin ponderam que sua eventual
nomeação para o Ministério da Fazenda poderia ajudar a ancorar as expectativas.
Em primeiro lugar, em razão de seu histórico. Quando governou São Paulo, o
então tucano implementou um programa de ajuste fiscal mirando o custeio em
diversas áreas, reduziu o ritmo de investimentos, cortou despesas com pessoal,
avançou com um programa de concessões e otimizou compras públicas. Haveria,
portanto, uma sinalização de que ele tem disposição e experiência para adotar
medidas teoricamente impopulares, mas necessárias.
A outra mensagem, talvez subliminar e ainda
mais importante neste momento, é o que alguém como Alckmin não estaria disposto
a fazer à frente da equipe econômica. Em outras palavras, patrocinar medidas
heterodoxas.
Nesse contexto, uma ideia levantada por
aliados do vice-presidente seria Lula nomeá-lo para uma missão declaradamente
temporária no Ministério da Fazenda, com prazo pré-determinado de um ano e em
uma espécie de transição, até que o governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT),
pudesse assumir a pasta em definitivo. Dessa maneira, Fonteles não enfrentaria
o desgaste de ter que cortar despesas, virar alvo do próprio PT e ainda deixar
o governo do Estado depois de se reeleger para mais quatro anos de mandato.
O estabelecimento de um prazo informal de um
ano para arrumar a casa daria uma saída pela porta da frente a Alckmin,
argumentam essas fontes, evitando maiores desgastes para o vice-presidente da
República. Se desse tudo certo, Lula ainda poderia ir estendendo a missão até
quando fosse mais conveniente.
Outra possibilidade citada é a nomeação de
Alckmin para o novo Ministério da Segurança Pública.
Em 2022, quando já havia sido indicado para a
vaga de vice na chapa de Lula, ele publicou um artigo para defender a criação
da pasta - medida que estava no programa de governo do atual mandato e acabou
adiada sucessivamente. O texto, aliás, dá algumas pistas do seu pensamento
sobre o assunto.
Como o crime não tem fronteiras, escreveu, o
governo federal deve ser o grande protagonista, mas manter uma “boa parceria”
com Estados e municípios. Polícias militares e guardas municipais devem estar
presentes nos territórios, pontuou, e a Força Nacional poderia se tornar uma
Guarda Nacional de Caráter Permanente.
À época, Alckmin defendeu maior aplicação de
tecnologia para combater o crime transfronteiriço, como o tráfico de armas e
drogas, em integração com o Ministério da Defesa e acordos internacionais.
Também apontou experiências para a ressocialização de presos e investimentos no
sistema penitenciário, entre elas iniciativas implementadas em São Paulo quando
foi governador.
É inegável a capacidade de articulação
política do vice-presidente da República com governadores dos mais variados
partidos. Sua interlocução com outros Poderes também é acima da média, ativo
que pode ser estratégico para quem deve ter sob seu guarda-chuva a Polícia
Federal em tempos de sucessivas crises institucionais.
O contato com os Estados Unidos e governos
vizinhos demandará atenção, depois que Washington incluiu facções criminosas
brasileiras na lista de grupos terroristas e lançou o Escudo das Américas
envolvendo diversos países da região. Após o tarifaço americano, Alckmin foi um
dos negociadores brasileiros.
Deve-se ponderar, contudo, que a sinalização
é de que Lula ainda levará alguns dias até anunciar quem estará ao seu lado na
fotografia inaugural do próximo mandato. Da parte do vice-presidente, o que se
diz é que não há convites. Como de costume, a discrição é máxima.
Em outra encarnação, quando foi governador de
São Paulo pelo PSDB, Alckmin foi criticado por petistas pelas medidas que
adotou para ajustar as contas do Estado e pela conduta da polícia paulista.
Agora, seja na Fazenda ou em um Ministério da Segurança Pública, pode ajudar o
governo comandado pelo PT a resolver dois dos problemas que mais preocupam o
brasileiro: o endividamento e a violência. Ambas as possibilidades lhe
garantiriam um bom posicionamento no tabuleiro eleitoral de 2030.

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