terça-feira, 3 de novembro de 2026

Desigualdade e perda de poder aquisitivo alimentam insatisfação com republicanos, por Humberto Saccomandi

Valor Econômico

Pesquisas e projeções apontam que o Partido Democrata deve obter a maioria na Câmara e é favorito também no Senado

Os americanos devem votar com a carteira nas eleições de amanhã, o que é um mau presságio para o Partido Republicano, do presidente Donald Trump. A economia dos EUA está crescendo, mas pesquisas indicam que a situação econômica é a principal preocupação dos eleitores e que eles avaliam mal o desempenho do governo Trump nessa área. Essa insatisfação parece estar relacionada à perda de poder de compra no curto prazo e ao aumento da desigualdade no longo prazo.

Os republicanos controlam hoje o Congresso. Mas pesquisas e projeções apontam que o Partido Democrata deve obter a maioria na Câmara e é favorito também no Senado. A mídia americana alerta sobre a possibilidade de uma onda azul (a cor dos democratas), que poderia fazer a oposição a Trump vencer em tradicionais bastiões republicanos, como o Texas.

Dos seis temas mais citados pelos americanos como importantes nesta eleição, cinco têm a ver com a economia. O primeiro é justamente a situação econômica geral, mencionada por 87%, segundo pesquisa Gallup divulgada na semana passada. Em seguida estão a saúde e a situação no Irã, citados por 77%. Esses, porém, também são temas prevalentemente econômicos, já que o custo dos planos de saúde subiu com Trump e a guerra encareceu combustíveis e energia. Em quarto lugar está o preço dos combustíveis, com 72%. Em quinto vem a imigração, citada por 67%. E, logo abaixo, a questão da renda e da distribuição da riqueza, citada por 66%.

Mais de metade (51%) dos eleitores se dizem insatisfeitos com a sua situação financeira atual, contra 49% que estão satisfeitos, segundo pesquisa NBC News divulgada no domingo. A diferença, na margem de erro da pesquisa, pode parecer pequena, mas essa foi a primeira vez em que o número de insatisfeitos é maior, em quase 30 anos de pesquisa. Ou seja, há mais americanos descontentes hoje do que na grande crise financeira de 2008/9. O índice de sentimento do consumidor, da Universidade de Michigan, está nos menores patamares da série histórica.

Os eleitores responsabilizam Trump e suas políticas por essa piora. Apenas 26% dos americanos aprovam a gestão da economia pelo presidente, segundo pesquisa AP-Norc de outubro. E só 17% aprovam como ele lida com o custo de vida. Oito em cada dez americanos querem mudanças significativas nas políticas econômicas. Isso é uma reversão importante em relação ao primeiro mandato de Trump, quando a economia era o seu ponto forte. Além disso, apenas 33% dos americanos aprovam a ação do presidente no Irã (pesquisa Pew) e só 34% a sua atuação nas tarifas comerciais (pesquisa Harris).

O presidente se reelegeu prometendo revitalizar a economia dos EUA e reduzir a inflação (que superou 9% em meados do governo Joe Biden) e os preços dos combustíveis. Dados divulgados na semana passada mostram resultados positivos e negativos.

O Produto Interno Bruto (PIB) americano cresceu 3,4% no terceiro trimestre (taxa anualizada), o ritmo mais forte em um ano e acima da expectativa dos mercados. Essa expansão foi puxada pelos investimentos das empresas e pelos gastos dos consumidores. O desemprego, em 4,2% (setembro), se mantém num nível historicamente baixo, e os pedidos de seguro-desemprego estão no menor patamar em décadas.

Como pode, então, uma economia que cresce com desemprego baixo, lucros empresariais elevados e valorização das bolsas produzir insatisfação generalizada? A resposta talvez esteja na perda do poder de compra nos últimos anos e no aumento da desigualdade, fenômeno que vem ocorrendo há décadas.

"Os eleitores não votam pelo PIB", disse o estrategista republicano Doug Heye à agência Bloomberg. "A inflação ainda é alta, e acho que esse número, no fim das contas, é o mais importante." Cada vez que o eleitor paga alguma coisa, sente a perda do poder aquisitivo, o que gera frustração, observa Heye.

A inflação subiu para 3,7% em setembro, no acumulado de 12 meses, puxada por combustíveis e energia. O dado ficou acima do esperado e um ponto a mais do que em novembro de 26de 2024, quando Trump venceu a eleição presidencial atacando justamente a alta de preços.

No entanto, o custo de vida provavelmente é mais sentido pelos segmentos baixos e médios, que comprometem uma parcela maior de sua renda em gastos essenciais que estão aumentando acima da média, como itens de alimentação, saúde, combustíveis e energia.

O custo médio dos planos de saúde oferecidos pelos empregadores, os mais usados nos EUA, subiu 11% desde o início de 2025, acima da inflação acumulada de 5,4% no período. Já o custo do chamado Obamacare, plano de saúde que atende principalmente pessoas de renda baixa e média que não têm o plano empresarial, aumentou 58%, devido ao corte do subsídio federal.

O preço da gasolina disparou mais de 50% desde o início deste ano. O do diesel, 77%. Comer fora de casa ficou 6,2% mais caro. A taxa média de financiamento imobiliário estava em 7,24% na última semana de outubro, contra em geral menos de 4% até 2022. Juros maiores encarecem a compra da casa própria.

A Tax Foundation estima que as tarifas comerciais adotadas pelo governo Trump elevaram o gasto médio das famílias americanas em US$ 1.000 em 2025 e em US$ 820 neste ano. Já a guerra no Irã custou até agora a cada família americana cerca de US$ 1.120 em gastos extras apenas com combustíveis, segundo estimativa da Universidade Brown.

Como o salário médio do trabalhador está estagnado em termos reais desde o início do governo Trump, isso significa que boa parte da população perdeu poder aquisitivo nesse período. Nos últimos 12 meses, houve uma perda de salário médio real de 0,7%, segundo o Birô de Estatísticas do Trabalho dos EUA.

Ou seja, o país está enriquecendo, mas uma parcela importante da população está empobrecendo relativamente. É a chamada recuperação da economia em formato de K, na qual os ricos ficam mais ricos, enquanto o restante em geral empobrece.

A desigualdade e a concentração de renda aumentaram substancialmente nos EUA nas últimas décadas. Segundo o Escritório de Orçamento do Congresso americano (CBO), a participação do 1% de maior renda na renda total do país dobrou, de 7% para 14% entre 1979 e 2022 (último dado). A fatia da renda dos 60% intermediários (a classe média) caiu 6 pontos percentuais. Do mesmo modo, em 1989 o 1% mais rico detinha 22,8% da riqueza no país; em junho deste ano, esse percentual estava em 32,5%, segundo o Fed (o BC americano). Já a faixa que vai dos 50% aos 90% mais ricos (que também inclui parte da classe média) viu sua participação na riqueza cair de 35,7% para 28,8%.

Pesquisas acadêmicas indicam que costuma haver uma tolerância da sociedade com o aumento da desigualdade quando uma boa parte da população acredita que, ainda assim, melhorará de vida. Isso parece não estar ocorrendo agora. E esse sentimento ameaça se voltar contra Trump e os republicanos amanhã.

 

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