Para Renato Lessa, da PUC-Rio, carta de Flávio Bolsonaro após derrota para Lula foi tiro no pé, porque o desqualificou como líder mesmo após votação notável.
Por Vinícius de S. Mendes BBC New/
Correio Braziliense
A ida de Flávio Bolsonaro (PL), candidato
derrotado na eleição presidencial, para a Flórida, nos Estados Unidos, terá
efeitos significativos na vida política do Brasil — sobretudo para o campo da
direita que, na análise do filósofo político Renato Lessa, professor do
Departamento de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
(PUC-Rio), tem agora uma chance de voltar à superfície.
É que, à medida em que o bolsonarismo ficará
politicamente desorganizado, com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) preso, e
seus filhos mais velhos, Flávio e Eduardo, no exterior, diz Lessa, a direita
democrática — que estava "colonizada" — poderá reequilibrar o jogo de
forças com a esquerda, tal como aconteceu depois da Constituição de 1988 até os
anos 2010.
"Sempre que se fala em autocrítica, é para se
referir à esquerda, mas a direita também precisa fazer uma autocrítica. Talvez
esse seja o momento. Seria importante se a política brasileira voltasse ao
eixo", diz ele à BBC News Brasil.
Mas isso não quer dizer que o bolsonarismo, como
fenômeno social, ficará mais fraco. Na verdade, observa ele, é só indo além dos
dados quantitativos que se pode compreender a magnitude dele em sua essência.
Lessa defende que se expressa como força eleitoral
(Flávio teve 59,8 milhões de votos no segundo turno) existe, fora dos
intervalos entre eleições, como um padrão de comportamento cada vez mais comum
espalhado pelo "terreno da brutalidade brasileira".
"Não é apenas político. Isso também produz
subjetividade, um sujeito", afirma ele, que também é pesquisador da
Universidade de Lisboa, em Portugal.
Lessa o chama, desde 2020, de homo bolsonarus:
um sujeito "violento", para quem os adversários são "inimigos
que devem abatidos" e que almeja estabelecer uma espécie de liberdade natural
como norma do convívio social do país, sem mediações das leis ou convenções.
"Tudo o que constitui o 'estado de natureza
brasileiro".
Mas a irrupção do homo bolsonarus na
política brasileira só foi possível, na análise do filósofo, após a ruptura na
trajetória de aprofundamento da democracia causada pelo impeachment de Dilma
Rousseff (PT), entre 2015 e 2016.
Até ali, esse processo — reiniciado com a eleição
de Fernando Henrique Cardoso, então no PSDB, em 1994 — vinha ampliando os
direitos coletivos (sociais, políticos, etc.) e forjando o que ele chama de um homo
democraticus.
"O bolsonarismo é a extrema politização de uma
coisa que existia [antes de 2018] apenas na forma não politizada. Ela estava
espalhada pela sociedade e, ali, passou a ser um fato político. Daí foi para o
mundo eleitoral, tomando os partidos políticos, conquistando cargos e, enfim,
chegando à Presidência".
O bolsonarismo é, assim, um fenômeno inédito na
história política do Brasil, por ser o único movimento que surgiu
espontaneamente, sem herdar nenhum traço de dinâmicas do passado.
Ele lembra, nesse sentido, que mesmo a ditadura
militar, entre 1964 e 1985, manteve algumas lógicas da Constituição de 1946,
tanto quanto do segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954), como as leis
trabalhistas, por exemplo.
"Mas o que aconteceu de 2019 em diante é
apenas destruição", sentencia. "É um fenômeno da categoria de
patologia política".
No entanto, a derrota de Flávio nas urnas, a
segunda de um Bolsonaro diante de Lula, não decreta o fim do bolsonarismo, pelo
contrário. "O homo bolsonarus está disseminado. Basta ver os
patrões demitindo funcionários que votaram no Lula."
Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
BBC News Brasil – O que a viagem de Flávio
Bolsonaro para os Estados Unidos impacta no bolsonarismo?
Renato Lessa – Primeiro que foi um espetáculo
demencial. Ele provoca uma desorganização imensa no campo político
bolsonarista. Os próprios líderes do PL não conseguem disfarçar como ficaram
atônitos e desencontrados porque, aparentemente, nem eles sabiam da opção do
candidato [de sair do Brasil].
É que o bolsonarismo puro não tem 48% de votos. Ele
só conseguiu canalizar esse contingente eleitoral [no segundo turno] porque,
desde 2018, colonizou a direita. O bolsonarismo não sobrevive como força
política se não fizer isso. Então, uma coisa que essa eleição mostrou é que o
campo da direita pode se dissociar dele.
A viagem de Flávio pode ajudar, assim, na
reorganização da direita para além da sua captura pelo bolsonarismo. Sempre que
se fala em autocrítica, é para se referir à esquerda, mas a direita também
precisa fazer uma autocrítica. Talvez esse seja o momento. Seria importante se
a política brasileira voltasse ao eixo.
BBC News Brasil – Desorganizou a base também, de
alguma forma?
Lessa – Não, porque o bolsonarismo segue como essa
possibilidade de destruir toda a acumulação civilizatória que o país vinha
tendo desde, pelo menos, o modernismo, em 1922. O legado da proteção dos
direitos indígenas, do meio ambiente, das universidades, da saúde, tudo o que
se acumulou, principalmente, depois da Constituição de 1988. Como fenômeno
social, ele continua aí, mas, como fenômeno político, ele não sobrevive se não
colonizar a direita.
BBC News Brasil – O argumento de que, agora, ele
está exilado nos EUA tem crescido entre essa base. Não é uma narrativa capaz de
produzir organização?
Lessa – Essa narrativa é completamente delirante. O
Brasil tem um quadro institucional, democrático, em que o próprio partido do
candidato ganhou cargos no Congresso Nacional, elegeu vários governadores, teve
uma plena inserção política pelo país.
BBC News Brasil – E ele teve 59 milhões de votos.
Não é uma força relevante?
Lessa – Eu não quero crer que 59 milhões de
brasileiros acreditam nisso [que ele está exilado]. Esse tipo de interpretação
vem de pessoas fanáticas. As mesmas que acreditam em Terra plana, que o homem
não chegou à Lua, que a vacina chinesa tinha um chip. As lideranças
conservadoras políticas já reconheceram a derrota.
BBC News Brasil – Qual é a avaliação do senhor
sobre o conteúdo da carta que ele publicou depois de chegar aos EUA?
Lessa – É um delírio completo. Cheia de erros, com
mentiras, uma referência fora de contexto ao [diplomata] Ruy Barbosa. Eu diria
que é um documento de patologia política, não de política normal. Sem contar
que ela é um tiro no pé, porque ele se desqualificou como líder mesmo depois de
ter tido uma votação notável. Perdeu sua condição de liderar a oposição.
Agora, outros atores vão tentar ocupar esse lugar.
Os operadores da direita e da extrema-direita já hipotetizam os possíveis
substitutos: a Michele Bolsonaro, o Tarcísio [de Freitas, governador reeleito
de São Paulo] que dizem, equivocadamente, que é da direita moderada.
BBC News Brasil – Pouco mais de meia década depois,
e passada essa eleição e todos seus rescaldos, o que restou do homo
bolsonarus?
Lessa – Ainda é um padrão de comportamento em que
os sujeitos entendem que sua liberdade não pode ser limitada por nenhuma ordem
civilizatória. São orientados exclusivamente por suas ambições, por vontades
que não devem ser jamais reguladas. É um agir sem superego, sem controle.
Esse desejo se expressa nos filamentos do quadro
civilizatório: nos radares que regulam a velocidade nas estradas, no acesso às
vacinas contra doenças, na educação em um modelo coletivo, etc. Não sou ingênuo
de achar que nossa condição civilizatória era uma maravilha, mas havia uma
acumulação em curso.
BBC News Brasil – E por que foi possível
interrompê-la?
Lessa – É que, desde a eleição de Jair Bolsonaro [à
Presidência, em 2018], há uma novidade radical no Brasil. Não se trata só da
transferência de poder de uma vertente política para outra, de uma força capaz
de ganhar eleições, mas da ascensão de um movimento de destruição do ambiente
no qual a política brasileira vinha sendo conduzida até então. Ele tem
características tão disruptivas que, naquela época, nem nome tinha. Houve uma
espécie de perplexidade analítica. Nós estávamos vendo um fenômeno inaudito,
que se apresentava com uma brutalidade total, sem mediações. Precisamos
recorrer aos repertórios que já dispúnhamos.
Vários nomes foram mobilizados para tentar
esclarecer o que era aquilo, mas o que ganhou força mesmo foi
"fascismo". Mas era estranho, porque o programa do fascismo
histórico, no contexto italiano da década de 1930, almejava, de fato, uma
organização social rigorosa. O conceito de "totalitarismo" cabia
muito bem para explicá-lo: era a tentativa de colocar a sociedade inteira dentro
do Estado, esvaziando qualquer espontaneidade, qualquer particularidade
associativa. Aquele fascismo queria normalizar cada milímetro da sociedade.
O Brasil de 2019 era justamente o contrário: o
objetivo era soltar a sociedade ao máximo, jogá-la na liberdade total,
desregulamentar as leis até que ela fosse governada apenas por suas próprias
dinâmicas espontâneas, em que os sujeitos são naturalmente desiguais. Cabe a um
direito público minimizar essa desigualdade.
Não é à toa que a Constituição de 1988 apareceu como
uma vítima [durante a campanha de Flávio]: ela é um direito público,
uma dessas referências civilizatórias — fruto de um longo processo que o Brasil
foi construindo durante no século 20. O horizonte utópico do bolsonarismo é
destruir isso completamente. Isso não é apenas político. Também produz
subjetividade, um sujeito. É o homo bolsonarus.
BBC News Brasil – Essa ideia de liberdade se
constitui em oposição a quê?
Lessa – É uma liberdade irrestrita, natural, como
se houvesse apenas nós e a natureza. Ela está em contraponto à liberdade
regulada, consolidada há muito tempo no Ocidente, que é a ideia de que o meu
direito à liberdade é absolutamente idêntico ao seu e que, se eles colidirem,
existe um marco legal para regular esse conflito potencial. Nesse sentido,
estamos diante da brutalização da política.
BBC News Brasil – Esse sujeito irrompeu só nos
últimos anos no cenário brasileiro?
Lessa – Esse discurso já tinha consumidores
potenciais antes de ser inventado. Ele contou com uma grande sorte. Poderia ter
ficado onde sempre ficou: sendo vociferado por marginais sem peso político. Mas
é como se os seus receptores já tivessem instalados e espalhados pelo país
inteiro, falando uma linguagem parecida: a dos homens violentos. Tudo já estava
aí: a tortura, a perseguição, a violência. O que não existia era um ponto de
coagulação em que essas coisas pudessem se sintetizar e ganhar consistência
política.
O bolsonarismo é a extrema politização de uma coisa
que existia [antes de 2018] apenas na forma não politizada. Ela estava
espalhada pela sociedade e, ali, passou a ser um fato político. Daí foi para o
mundo eleitoral, tomando os partidos políticos, conquistando cargos e, enfim,
chegando à Presidência.
BBC News Brasil – Ele é dominante no cotidiano do
país atualmente?
Lessa – Não é assim. Parte do eleitorado vota nesse
grupo por achá-lo uma melhor alternativa. Na verdade, são as lideranças que
preenchem as características do homo bolsonarus: a linguagem belicosa e
acusatória, a utilização da palavra não para se comunicar, mas como uma arma de
depreciação, a percepção do adversário como um inimigo que deve ser abatido.
Na campanha do segundo turno, em 2018, Jair
Bolsonaro fez um discurso prometendo mandar a esquerda para a "ponta da
praia". Ele se referia à Ponta da Praia, na Restinga de Marambaia [no Rio
de Janeiro], onde os militares jogavam cadáveres de presos políticos durante a
ditadura. Ou seja: se eles pudessem, matavam. São invólucros de uma violência
extrema que é contida somente porque ainda existem ambientes institucionais em
que a violência não pode chegar às últimas consequências.
BBC News Brasil – Esses ambientes seriam mais
geridos pelo Poder Judiciário, por exemplo?
Lessa – Eles acreditam que a democracia é um
governo da maioria. A tensão com o Judiciário vem da ideia de que tudo o que
não pode ser eleito pelo voto é ilegítimo. Nessa lógica, os tribunais devem se
submeter ao poder da maioria, e não serem atores contramajoritários que podem
decidir contra essa maioria política, isto é, operando dentro do quadro legal
do país.
BBC News Brasil – Mas eles estão questionando, justamente,
o resultado eleitoral agora.
Lessa – É que, quando perdem a eleição, eles
questionam tudo.
BBC News Brasil – Isso não é resultado de um
fenômeno global? Há semelhanças com o caso de Javier Milei, na Argentina, ou
com Donald Trump, nos Estados Unidos, por exemplo? Ou seja, existe um homo
trump ou um homo milei?
Lessa – Certamente. O MAGA [Make America Great
Again, revivido por Trump na campanha de 2015], nos Estados Unidos, tem um
comportamento próprio, uma linguagem, um padrão. O Milei também. Esses
autocratas chegam ao poder apenas porque conseguem criar movimentos com
subjetividades adequadas. São pessoas que acreditam nessas coisas e agem
conforme elas. É por isso que temos que inventar as nossas subjetividades
também. E elas estão por aí: na música brasileira, na juventude, nos quilombos,
na vida universitária, na própria política, disputando espaços. Temos argamassa
suficiente para formá-las.
BBC News Brasil – O homo bolsonarus é uma
consequência da construção do Brasil, portanto.
Lessa – Claro. Cada lugar tem sua própria
argamassa. A história norte-americana convive com a tradição de uma direita
muito dura, do Sul, do supremacismo branco — um racismo muito mais acentuado do
que o do Brasil. Na França, isso se expressa na saudade da época da ocupação
alemã, da República de Vichy, e,
na Espanha, com a lembrança do franquismo.
Cada país tem um encaixe histórico com suas
possibilidades de gerar protótipos destrutivos à acumulação civilizatória que o
Ocidente foi fazendo ao longo do século 20. Na verdade, eles são a própria
destruição do século 20. Querem voltar ao período do pré-Iluminismo, lá no
século 17.
BBC News Brasil – O homo bolsonarus, na sua
análise, se funda no reforço à "desigualdade natural dos sujeitos",
sem mediações. Porém, o lulismo vigorou no Brasil por mais da metade deste
século e ganhou a eleição novamente agora. Por que isso foi possível? Há ali um
desejo oposto, isto é, de uma "igualdade artificial"?
Lessa – Lulismo e bolsonarismo não são termos
comparáveis, porque não pertencem à mesma categoria. Prefiro mais falar da
"presença de Lula no quadro político brasileiro contemporâneo",
porque ele é um personagem estratégico no processo de democratização do país.
Um dos primeiros a notar isso foi o próprio
Fernando Henrique Cardoso. Lula representa a inclusão de uma perspectiva de
mais igualdade social no campo da democracia, em um período de transição que
consolidou os direitos políticos, liberais, individuais e sociais, isto é, os
direitos coletivos. Foi esse lastro que o fez sair vitorioso nas eleições de
2002 e de 2006. O lulismo é isso.
O bolsonarismo é uma categoria de patologia
política. Ele redesenhou a sociedade brasileira em moldes individualistas,
colando, de forma muito ajustada, com a narrativa do empreendedorismo, que não
veio dele. Trata-se de uma mutação do mundo do trabalho, de uma fragmentação [dos
modelos coletivos] para carreiras individuais.
Mas, no Brasil bolsonarista, ela foi recepcionada
como sintoma do desejo dessa liberdade natural. As pessoas entendem que não
precisam ser protegidas pelo Estado, que ele é um algoz do qual precisam se
livrar para empreender.
BBC News Brasil – Como esse sujeito se formou tão
rapidamente, isto é, em um intervalo de pouco mais de uma década, considerando
que, na sua análise, o esforço por direitos coletivos era parte do sucesso da
"presença de Lula"?
Lessa – Não são mudanças abruptas. As pessoas
continuam aí. O homo bolsonarus não é toda a população brasileira, e
tampouco os sucessos eleitorais desse grupo não se explica pelo simples fato de
todo mundo ser um pouco homo bolsonarus. A novidade é a perspectiva da
destruição. As coisas tinham continuidade.
Veja só: a própria ditadura militar manteve a
legislação trabalhista, a sindicalização, o recrutamento eleitoral... Ela até
organizou eleições — e era, ainda assim, uma ditadura: torturava presos
políticos, matava, etc. Ela rompeu com a República criada em 1946 ao mesmo
tempo em que herdou elementos dela. O ponto delicado desse diagnóstico é que,
no Brasil de 2019, a irrupção da destruição encontrou um terreno onde essa
planta podia se espalhar.
BBC News Brasil – Que terreno?
Lessa – O terreno da brutalidade brasileira. A
violência que sempre existiu entre nós. O hábito de subjugar determinadas
pessoas — os mais pobres, os negros, as mulheres, os indígenas, os tipos
sociais marcados pela vulnerabilidade —, tudo que constitui o estado de
natureza brasileiro: os empresários que não pagam impostos, os patrões que não
arcam com direitos sociais de suas empregadas domésticas, os patrões que dão
calote no Fundo de Garantia delas. Vão desde ilegalidades pequeninas do dia a
dia até as grandes fraudes
"vorcarianas".
Há uma violência difusa na sociedade brasileira,
uma espécie de magma social em que a iniquidade, a desigualdade, a indiferença
e até a crueldade estão presentes. O que a gente vinha tentando fazer, desde a
Revolução de 1930, a Constituição de 1946 ou a Constituinte de 1988, era tentar
criar um regramento universalizável que transformasse esse magma de alguma
forma.
BBC News Brasil – Mas um dos argumentos comuns da
historiografia social brasileira é que o país se construiu, justamente, sobre
esse magma violento. Até que ponto seu diagnóstico percebe apenas que o país
voltou à norma?
Lessa – Muitas coisas estão em disputa nas
sociedades. Há disputas para ver quem governa e outras, substanciais, para
saber quem nós somos, que tipo de país queremos ou qual é nosso horizonte
normativo. Desde o modernismo, houve um esforço em recriar o Brasil por meio da
arte, da literatura, da sensibilidade, da imaginação e do direito público.
Foi o Código Eleitoral de 1932, que deu direitos
políticos às mulheres, por exemplo. O direito do trabalho com a ideia de que os
patrões têm certas obrigações e os trabalhadores têm direitos, etc. Essa
tentativa de alcançar a liberdade natural, agora, é como se quiséssemos voltar
para antes de 1922, antes do modernismo. Mas a sociedade reagiu. Os jovens
estão aí na rua. O homo bolsonarus existe, mas o 'homo democraticus'
também.
BBC News Brasil – Era a próxima pergunta: qual
sujeito venceu nas urnas? O homo democraticus?
Lessa – Sim, porque foi uma explosão de
participação popular. A rua fez a diferença, do mesmo jeito que tinha feito no
movimento das Diretas Já, em 1985, ou na campanha da anistia [em 1979]. Se, em
2013, as pessoas foram às ruas de um jeito que ainda não entendemos direito,
ela voltou agora com força, mas com foco, e sem o comando de um partido
político. Mas esse sujeito que irrompeu ainda não está totalmente formado.
Temos que ver os desdobramentos daqui em diante.
A questão é, também, sobre como impedir que o homo
bolsonarus seja o protótipo do comportamento brasileiro, porque ele é como
um personagem do qual as pessoas vão adotando. Elas não são assim [bolsonaristas],
simplesmente. Na verdade, elas vão se encaixando nesse protótipo por
afetividade, por identidade ideológica. Ele tem poder de atração. Nesse
sentido, o homo bolsonarus é uma criatura artificial. A outra metade dos
brasileiros, que não votou nesse candidato, que não é redutível ao homo bolsonarus,
só precisava se encontrar para conversar e produzir uma outra figura
artificial.
BBC News Brasil – O bolsonarismo, nesse sentido,
pode acabar?
Lessa – Não. O homo bolsonarus está
disseminado. Basta ver os patrões demitindo funcionários que votaram no Lula,
gente sendo morta por aí. Ele não está derrotado.
BBC News Brasil – Até que ponto a ideia de homo
bolsonarus não é apenas a continuidade de uma característica estrutural do
Brasil?
Lessa – Eu não colocaria nesses termos. As coisas
são concomitantes. A democracia brasileira, por exemplo, tinha uma trajetória.
Ela vinha em uma sequência desde o Fernando Henrique Cardoso até ser quebrada
pelo impeachment [da presidente Dilma Rousseff, em 2016] — que só
existiu porque ela não tinha maioria no Congresso. Todo mundo perdeu ali: os
atores que aceleraram o processo — o PMDB e o PSDB desapareceram —, a direita,
a centro-direita, a esquerda. Só a extrema-direita se beneficiou. Ela viu uma
brecha para se tornar uma força eleitoralmente majoritária nas eleições de
2018. É que tem coisas que acontecem porque há uma preparação de longo prazo, e
tem outras que se dão pela conjuntura do momento.
A vitória do Lula, em 2022, foi uma tentativa de
repor o PT em uma sequência nova. O partido voltou ao poder acreditando que
poderia retomar a história a partir da interrupção da trajetória da democracia
pelo impeachment da Dilma. O problema é que essa linha de continuidade
já tinha sido quebrada. Havia outra trajetória com novos sujeitos políticos,
com a fortíssima politização evangélica, com a utilização das mídias sociais,
com as novas formas de fazer luta política — pela imprensa, pelas reuniões,
pela vida no parlamento. A captura das mentes é incontrolável.
BBC News Brasil – O PT ganhou a eleição de novo. De
onde ele parte agora?
Lessa – Ele tem que criar uma nova trajetória. Mas
essa eleição foi diferente, porque, em 2022, não havia essa percepção comum de
que o inimigo principal é o bolsonarismo.
BBC News Brasil – Uma das interpretações clássicas
da sociedade brasileira também chegou a um 'tipo' de homem: o 'cordial',
descrito por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, de 1936. Há alguma relação entre esses
dois sujeitos?
Lessa – Nenhuma. Sérgio chamou a atenção para o
quanto a dimensão afetiva é essencial nas interações em contextos que pedem uma
regulação impessoal. Tinha a ver mais com chamar um político de "meu
amigo" [para conseguir benefícios]. A dimensão da afetividade está
ligada ao mundo privado, dos afetos, enquanto a dimensão da política tem a ver
com procedimentos de natureza universal. Esse sujeito traz sentimentos do mundo
afetivo para resolver problemas do mundo público. O homem cordial não é
violento. Na verdade, ele pode ser violento, mas por outras razões, outros
circuitos. O homo bolsonarus exige um sujeito violento. Ele está
convencido de que o adversário é um inimigo que precisa ser abatido.
BBC News Brasil – O senhor também escreve que o
bolsonarismo almeja "acabar com a estatalidade" da sociedade. Mas por
que ele compete pelo controle do Estado?
Lessa – Porque é a única maneira de conseguir
poder. Até a década de 1970, os inimigos da democracia tinham no golpe de
Estado o mecanismo predileto para tomar o poder. Era tanque na rua, ditadura
militar, etc. Hoje, as eleições são vistas como uma oportunidade. Não é isso
que a literatura chama de populismo? Aquilo que consegue poder via eleições
"democráticas", porque todo mundo votou, etc., mas cujo resultado é a
desfiguração do quadro que permitiu a própria eleição.
BBC News Brasil – Em 2020, o senhor dizia que o
bolsonarismo era um "animal artificial em formação", e projetava sua
derrota. Agora, com a virada de Lula, o que sobreviverá dele?
Lessa – Não dá para saber, mas agora sabemos que
existe resistência. Não foi só uma vitória eleitoral: foi um sintoma dessa
resistência. Foi a dispersão do homo bolsonarus.

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