O Globo
Eleitores escolheram quem acreditam poder
atender seus interesses, não necessariamente quem se parece com eles
Direita e esquerda têm uma tendência irresistível a idealizar vitórias. Jair Bolsonaro, em 2018, e Donald Trump em 2024, falaram em “libertação da pátria” e “restauração moral” da sociedade. Na esquerda, o “triunfo da consciência democrática” foi o mote do discurso da vitória de Lula em 2022. Agora, a virada épica do petista sobre o rival, reza a narrativa vencedora, deveu-se à mobilização da juventude que saiu às ruas para lutar contra o fascismo. Quem ganha a eleição gosta de acreditar que o eleitor abraçou seus ideais mais elevados. A possibilidade de que ele tenha votado para gastar menos no supermercado, ganhar mais benefícios, melhorar de vida, ficar com o “menos pior” ou simplesmente se livrar de quem governa fica sempre em segundo plano.
Parte da esquerda brasileira entregou-se
outra vez a esse devaneio nas eleições americanas de terça-feira. Reportagens e
artigos descreveram a lavada dos democratas contra os republicanos como a
“vitória da diversidade” — fruto da mobilização de comunidades negras, latinas
e indígenas que, unidas por um mesmo ideal, promoveram um levante contra o
ultraconservadorismo branco de Donald Trump. Muito bem.
Que a eleição trouxe avanços de
representação, isso é fato e merece ser celebrado. Outra coisa, porém, é
atribuir o resultado à força do discurso identitário. Não foi o que ocorreu,
como sugeriram as campanhas dos festejados “pioneiros”. A de Gina Hinojosa,
primeira latina eleita governadora do Texas, concentrou-se em promessas
econômicas, algumas francamente populistas, como distribuir cheques de US$
1.500 às famílias do estado. Abdul El-Sayed, o primeiro muçulmano eleito
senador, resumiu assim sua plataforma:
— Tirar dinheiro da política, pôr dinheiro no
bolso do cidadão e aprovar o Medicare for All.
Deb Haaland, primeira governadora indígena,
eleita no Novo México, priorizou educação, custo de vida, segurança e saúde;
Chris Pappas, primeiro homem abertamente gay eleito senador, foi mais explícito
e disse que não concorria “para fazer História”. Sua plataforma concentrou-se
na recuperação do poder de compra. Nenhum desses candidatos deixou de
apresentar suas origens, sua fé ou sua orientação sexual — mas não fez delas o
tema da campanha.
Os eleitores tampouco parecem ter tomado a
representatividade como bússola. Parcelas das comunidades agora celebradas pelo
levante contra o ultraconservadorismo branco ajudaram a levá-lo ao poder dois
anos antes. Em 2024, Trump praticamente dobrou sua fatia no eleitorado negro
(foi de 8% para 15%) e recebeu 48% dos votos hispânicos, quase a mesma
percentagem que levou a democrata Kamala
Harris, 51%. A mudança na preferência desse eleitorado agora, pede,
portanto, outra explicação que não o voto identitário. Até o momento, essa
explicação parece ser o custo de vida. A guerra contra o Irã encareceu os
combustíveis e espalhou seus efeitos pela economia. A insatisfação com os
preços — que ajudou a eleger Trump em 2024 — em 2026 foi crucial para derrotar
seu partido.
Se o resultado das midterms não foi a vitória da
política de identidades, isso deveria alegrar os progressistas. Candidatos de
grupos minoritários conquistaram eleitores sem se limitar a falar pelos seus;
eleitores escolheram quem acreditam poder atender seus interesses, não
necessariamente quem se parece com eles. Os candidatos ampliaram suas pautas, e
os votantes suas opções.
A perda de centralidade do discurso
identitário na esquerda americana, evidentemente, não significa o fim do
identitarismo. Mas permite esperar que comece a perder força — na política, na
cultura, nas universidades e nas relações de trabalho — a ideia de reduzir as
pessoas a seu gênero, raça, religião ou orientação sexual e fazer dessas
características uma medida de valor moral.

Ok
ResponderExcluirThaís sendo Thaís,rs.
ResponderExcluirO texto da colunista, correto e claro, é totalmente CONTRADITÓRIO com seu título! Lamentável, Thaís! Como ela, também acho o identitarismo problemático em muitos casos, mas não dá pra forçar que, com base nos exemplos e argumentos usados, ele tenha perdido as eleições nos EUA.
ResponderExcluirBasta ver as eleições no Congresso Brasileiro que evidenciam a apropriação das pautas das identidades pela direita. As mulheres mais vitoriosas foram da direita. A deputada campeã no RJ, uma indígena. Identitarismo em política dá em fascismo.
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