Correio Braziliense
A formidável e surpreendente vitória de Lula
contra a extrema-direita no Brasil foi ponto de honra. Exemplo para o eleitor
norte-americano
A democracia é o pior regime de governo, excetuados todos os outros. A frase é de Winston Churchill. É uma verdade incontestável. A guerra contra o Irã, que as forças armadas dos Estados Unidos não conseguiram resolver, provocou a derrota de Donald Trump. Os eleitores colocaram os democratas na frente de governos, fizeram a maioria nas duas casas do Congresso e ainda elegeram sete brasileiros para câmaras estaduais. O Partido Democrata alcançou feito só comparável à vitória obtida em pleito após o escândalo de Watergate, quando repórteres do Washington Post descobriram que o então presidente Richard Nixon havia determinado a invasão do escritório do Partido Democrata.
Na eleição deste ano, a recomendação da
oposição foi a seguinte: vote como os brasileiros. A formidável e surpreendente
vitória de Lula contra a extrema-direita no Brasil foi ponto de honra. Exemplo
para o eleitor norte-americano. Deu certo. Os democratas conquistaram cadeiras
no Senado em estados onde não venciam há décadas. No Kansas, a vitória de Adam
Hamilton é a primeira do partido na disputa pelo Senado desde 1932. No Texas,
James Talarico se tornou o primeiro democrata a vencer desde 1988. Na Carolina
do Sul, Annie Andrews deu ao partido a primeira cadeira no estado desde 1998.
No Maine, o democrata Troy Jackson derrotou a republicana Susan Collins, que
ocupava o cargo havia quase 30 anos.
A disputa no Texas foi a mais cara da
história fora de uma eleição presidencial, com mais de meio bilhão de dólares
gastos em publicidade. O bilionário Elon Musk investiu mais de US$ 200
ilhões para apoiar o republicano Ken Paxton, que perdeu. Mais de 100
mulheres democratas foram eleitas para o próximo Congresso, o maior número da
história, segundo a Bancada de Mulheres Democratas.
A estratégia republicana de redesenhar
distritos para ampliar a vantagem na Câmara não deu o resultado esperado em
estados-chave. Nos EUA, os mapas distritais costumam ser refeitos depois do
Censo, para refletir mudanças na população. Pressionados por Donald Trump,
estados governados por republicanos fizeram redesenhos para dificultar a
retomada da Câmara pelos adversários. No Texas, democratas venceram em três dos
cinco distritos alterados. Na Flórida, ficaram com três dos quatro
redesenhados.
A eleição nos Estados Unidos é diferente da
realizada no Brasil. Não há um documento de identidade nacional. Cada estado,
ou condado, decide que documento é válido para o eleitor exercer seu direito de
voto. Também não há um método uniforme de votação e de apuração. Em alguns
estados, a eleição é feita em cédulas de papel. E a apuração é manual. Em
outros, existe urna eletrônica. Mas quem faz a apuração, por consenso, é a
Associated Press, uma agência de notícias particular. É assim, desde a
independência do Texas, e sua posterior incorporação aos Estados Unidos, em
1846, quando a AP começou a transmitir notícias. A agência faz as projeções que
são aceitas em todo país. Não há contestação. Donald Trump reconheceu a vitória
dos adversários. "Eles trabalharam bem", comentou.
Visto de Brasília, o resultado das eleições
norte-americanas significa alívio. As negociações com o pessoal de Brasília
deverão ser mais amenas, até porque os postulantes à sucessão de Trump viram
surgir uma barreira enorme para chegar à Casa Branca na sucessão do chefe.
Marco Rubio, secretário de Estado, cubano ressentido, terá que fazer concessões
aos brasileiros que, segundo o eleitor norte-americano, encararam o fascismo e
conseguiram derrotar o monstro autoritário. As tarifas impostas por Trump
estarão sob intensa crítica em todo mundo.
Juros e dívida pública — O Banco Central
decidiu manter a taxa Selic, que determina os juros no país, em 13,75% ao ano.
É a maior do mundo, acima da taxa praticada na Rússia, país que está em guerra.
A interessante crítica de André Lara Resende, que foi presidente do Banco
Central, é oportuna. O governo brasileiro pagou, ano passado, R$ 1,007 trilhão
a título de juros da dívida interna, contraída em bancos brasileiros. No mesmo
período, o governo gastou R$ 170 bilhões com o pagamento do Bolsa Família.
Mais complicado ainda é que, sem o pagamento
da taxa de juros, que é a maior despesa do governo, a relação entre receita e
despesa é equilibrada. O que causa desequilíbrio é justamente a taxa de juros.
A Selic, enlouquecida, na prática, funciona como uma Bolsa Família para
investidores. Eles estão protegidos da inflação, porque seus rendimentos são
indexados à Selic. Se forem desindexados, como investidores pretendem fazer com
salários, aposentadorias e pensões, o país resolve o problema. O governo gastou
seis vezes mais com o pagamento de juros, do que com o Bolsa Família. Os
números não mentem.

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