sábado, 7 de novembro de 2026

O voto brasileiro, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

A formidável e surpreendente vitória de Lula contra a extrema-direita no Brasil foi ponto de honra. Exemplo para o eleitor norte-americano

A democracia é o pior regime de governo, excetuados todos os outros. A frase é de Winston Churchill. É uma verdade incontestável. A guerra contra o Irã, que as forças armadas dos Estados Unidos não conseguiram resolver, provocou a derrota de Donald Trump. Os eleitores colocaram os democratas na frente de governos, fizeram a maioria nas duas casas do Congresso e ainda elegeram sete brasileiros para câmaras estaduais. O Partido Democrata alcançou feito só comparável à vitória obtida em pleito após o escândalo de Watergate, quando repórteres do Washington Post descobriram que o então presidente Richard Nixon havia determinado a invasão do escritório do Partido Democrata. 

Na eleição deste ano, a recomendação da oposição foi a seguinte: vote como os brasileiros. A formidável e surpreendente vitória de Lula contra a extrema-direita no Brasil foi ponto de honra. Exemplo para o eleitor norte-americano. Deu certo. Os democratas conquistaram cadeiras no Senado em estados onde não venciam há décadas. No Kansas, a vitória de Adam Hamilton é a primeira do partido na disputa pelo Senado desde 1932. No Texas, James Talarico se tornou o primeiro democrata a vencer desde 1988. Na Carolina do Sul, Annie Andrews deu ao partido a primeira cadeira no estado desde 1998. No Maine, o democrata Troy Jackson derrotou a republicana Susan Collins, que ocupava o cargo havia quase 30 anos. 

A disputa no Texas foi a mais cara da história fora de uma eleição presidencial, com mais de meio bilhão de dólares gastos em publicidade. O bilionário Elon Musk investiu mais de US$ 200  ilhões para apoiar o republicano Ken Paxton, que perdeu. Mais de 100 mulheres democratas foram eleitas para o próximo Congresso, o maior número da história, segundo a Bancada de Mulheres Democratas. 

A estratégia republicana de redesenhar distritos para ampliar a vantagem na Câmara não deu o resultado esperado em estados-chave. Nos EUA, os mapas distritais costumam ser refeitos depois do Censo, para refletir mudanças na população. Pressionados por Donald Trump, estados governados por republicanos fizeram redesenhos para dificultar a retomada da Câmara pelos adversários. No Texas, democratas venceram em três dos cinco distritos alterados. Na Flórida, ficaram com três dos quatro redesenhados. 

A eleição nos Estados Unidos é diferente da realizada no Brasil. Não há um documento de identidade nacional. Cada estado, ou condado, decide que documento é válido para o eleitor exercer seu direito de voto. Também não há um método uniforme de votação e de apuração. Em alguns estados, a eleição é feita em cédulas de papel. E a apuração é manual. Em outros, existe urna eletrônica. Mas quem faz a apuração, por consenso, é a Associated Press, uma agência de notícias particular. É assim, desde a independência do Texas, e sua posterior incorporação aos Estados Unidos, em 1846, quando a AP começou a transmitir notícias. A agência faz as projeções que são aceitas em todo país. Não há contestação. Donald Trump reconheceu a vitória dos adversários. "Eles trabalharam bem", comentou.

Visto de Brasília, o resultado das eleições norte-americanas significa alívio. As negociações com o pessoal de Brasília deverão ser mais amenas, até porque os postulantes à sucessão de Trump viram surgir uma barreira enorme para chegar à Casa Branca na sucessão do chefe. Marco Rubio, secretário de Estado, cubano ressentido, terá que fazer concessões aos brasileiros que, segundo o eleitor norte-americano, encararam o fascismo e conseguiram derrotar o monstro autoritário. As tarifas impostas por Trump estarão sob intensa crítica em todo mundo. 

Juros e dívida pública — O Banco Central decidiu manter a taxa Selic, que determina os juros no país, em 13,75% ao ano. É a maior do mundo, acima da taxa praticada na Rússia, país que está em guerra. A interessante crítica de André Lara Resende, que foi presidente do Banco Central, é oportuna. O governo brasileiro pagou, ano passado, R$ 1,007 trilhão a título de juros da dívida interna, contraída em bancos brasileiros. No mesmo período, o governo gastou R$ 170 bilhões com o pagamento do Bolsa Família.

Mais complicado ainda é que, sem o pagamento da taxa de juros, que é a maior despesa do governo, a relação entre receita e despesa é equilibrada. O que causa desequilíbrio é justamente a taxa de juros. A Selic, enlouquecida, na prática, funciona como uma Bolsa Família para investidores. Eles estão protegidos da inflação, porque seus rendimentos são indexados à Selic. Se forem desindexados, como investidores pretendem fazer com salários, aposentadorias e pensões, o país resolve o problema. O governo gastou seis vezes mais com o pagamento de juros, do que com o Bolsa Família. Os números não mentem.

 

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