No Brasil e nos Estados Unidos foi a sociedade civil que conteve movimentos que colocavam em risco as instituições e os direitos civis; a Lula e aos democratas resta entender as razões da vitória
As realidades das eleições no Brasil e nos Estados Unidos são em tudo distintas, mas os tombos que bolsonarismo e trumpismo levaram num intervalo de poucos dias têm em comum a resposta rotunda da sociedade dos dois países a riscos concretos e já experimentados para a normalidade democrática. O povo foi às ruas, às redes e às urnas e disse, alto e bom som, que a democracia é um valor absoluto e que líderes com propensões autocráticas e uma agenda personalíssima podem ter seu apelo, mas não são capazes de dar respostas duradouras e seguras aos desafios complexos de um mundo em profunda e rápida transformação.
A fuga canhestra de Flávio Bolsonaro dois
dias depois de sua derrota encolheu drasticamente sua votação de quase 60
milhões de votos. Se ainda não havia, espantosamente, clareza para uma parcela
da população de quanto sua candidatura à Presidência da República atendia
apenas e tão somente ao projeto de poder da família, o roteiro de filme B de
sua saída do Brasil escancarou.
Muito ainda se discute sobre a resiliência do
bolsonarismo, e ainda há aquele núcleo duro que defende a fuga como medida
necessária diante de uma perseguição injusta. Mas o campo da direita nunca
esteve tão aberto para uma renovação em bases mais racionais, que apresente ao
Brasil um programa diferente da esquerda, não apenas uma promessa fraudulenta
de copiar programas sociais ao mesmo tempo que acena ao mercado com um ajuste
rigoroso — um estelionato evidente que, nem assim, conseguiu dissuadir largo
contingente de eleitores de depositar um voto em alguém com tantas denúncias,
filho de um ex-presidente que tentou perpetrar um golpe de Estado.
Não foi só o PT que virou o jogo entre o
primeiro e o segundo turnos, e Lula precisará ter o tirocínio de entender as
múltiplas razões de sua improvável virada. A largada de seu quarto mandato se
dá num ritmo ainda lento, de quem parece querer acreditar que recorrer aos
velhos parceiros e às ideias de sempre será suficiente para fazer frente à
missão de governar com um Congresso de direita, ruas que o puxam à esquerda e
contas que exigem austeridade.
Quanto a Donald Trump, o tsunami democrata
foi um basta, assustadoramente tardio, a um rosário de bizarrices da economia à
geopolítica, tendo como ápice a desarrazoada guerra no Irã. Depois de espantosamente
reconduzirem o republicano à Casa Branca após experimentarem seu estilo e seu
completo desapreço pelas instituições e pela tradição democrática, os
americanos parecem ter acordado da letargia que lhe permitiu avançar jardas na
depredação desses pilares nos últimos dois anos e ainda espalhar pelo mundo
todo rastros de sua sanha destruidora.
Num mundo em que trilionários pareciam
convencidos de que seu dinheiro inevitavelmente determinaria nas mãos de quem o
poder ficaria, foi um fator demasiadamente humano, a reação popular, que pautou
a mudança de rota. Tal movimento já mostra ter plantado sementes noutros
continentes e confirma uma das maiores belezas da democracia: seu caráter
pendular e sua capacidade de recalcular a rota quando um grupo político, um
populista incontido ou um extremo ideológico promovem caos econômico e
perseguição a grupos sociais, religiosos ou étnicos, estigmatizam ou perseguem
a ciência, as instituições que têm de atuar na fiscalização e na contenção e,
no limite, ameaçam o futuro da humanidade ao investir contra a paz e a necessidade
de conter a emergência climática.
Nas mãos dos vencedores, sejam eles Lula, no
Brasil, ou os democratas, nos Estados Unidos, foi depositada a enorme
responsabilidade de entender a vitória como circunstancial e condicionada à
capacidade de dar respostas a todos esses fatores para lá de espinhosos.
A tal primavera democrática só florescerá se servir para enterrar sectarismos e dar início a uma era em que prevaleçam bom senso, comedimento de governos e parlamentos e visão de que o futuro tem de ser construído. A saúde civil demonstrada pela sociedade aqui e acolá é um bom combustível, mas só será útil se for catalisada por políticos comprometidos que compreendam seu tempo histórico.

Muito bom!
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