domingo, 1 de novembro de 2026

O risco da escolha errada na economia, por Míriam Leitão

O Globo

A luta democrática se trava também na economia. Se o novo governo Lula errar, vai fortalecer o discurso antidemocrático

Na economia, um erro de diagnóstico é fatal. E há uma discussão dentro do Planalto que pode levar a um erro de diagnóstico. O presidente Lula quer evitar o que houve no começo do segundo governo Dilma em que a inflação subiu e o PIB entrou em forte recessão, deteriorando o apoio popular. Está certo. Mas, como evitar? Um grupo diz ao presidente que o erro foi cometido pela tentativa de ajuste em 2015, ou seja, por Joaquim Levy. Outro grupo diz que foram os erros acumulados no primeiro mandato da presidente, ou seja, por Guido Mantega. Quem tem razão é o segundo grupo. É a doença que se combate e não o remédio. O presidente está com mais ouvidos para o primeiro.

De 2010 a 2014, no final do segundo mandato de Lula e durante o primeiro governo Dilma, as distorções se acumularam. Os preços da energia foram represados e se tornaram artificiais, os indicadores fiscais maquiados, os bancos públicos usados para financiar o Tesouro, a contabilidade criativa escondeu o rombo. A situação atual está longe de ser a de 2014, mas também precisa de correções. O subsídio ao diesel já custa mais de R$ 50 bilhões, as despesas anunciadas na campanha não foram ainda dimensionadas, nem incluídas no orçamento, a dívida aumentou demais no terceiro mandato.

As políticas sociais são eficientes e sustentáveis apenas se a inflação estiver baixa. Uma família só pode ampliar seu consumo se conseguir equacionar suas dívidas. Neste momento, o país está em pleno emprego. Na sexta-feira, saiu a menor taxa de desemprego da série histórica. Mesmo assim, as pessoas estão com aperto no orçamento por causa das dívidas. É preciso ajudar os endividados a sair da crise, porém evitar novos endividamentos. O crescimento da economia através do estímulo ao crédito esgotou-se. Há ajustes a serem feitos no governo, nas famílias e nas empresas. O melhor é ouvir quem dá os conselhos sensatos.

Não é sensato mudar a meta de inflação para os juros caírem porque eles não vão cair. Vai aumentar a desconfiança na gestão fiscal e mais juros serão exigidos na rolagem dos títulos. Não é sensato achar que se o governo forçar o crescimento, a dívida pública vai cair. A dívida é contabilizada como percentual do PIB sim, mas o caminho a se chegar a isso é outro. O governo precisa dar um sinal de que vai equilibrar suas contas, isso leva a uma revisão da expectativa em relação à trajetória da dívida. O ajuste leva a menos inflação e então os juros podem cair.

Quem acha que o problema é o Banco Central está equivocado. Nos Estados Unidos, Donald Trump culpou Jerome Powell e quando nomeou Kevin Warsh achou que os juros cairiam. Nas duas primeiras reuniões, as taxas subiram. O problema não era Powell, mas a inflação provocada pela guerra contra o Irã. Na economia, também há o pensamento negacionista, e ele é tão prejudicial quanto o que cerca a ciência ou o clima. Não é o antibiótico que se deve combater, mas a doença. E o antitérmico só reduz a febre, não enfrenta a causa.

Seria importante o presidente nomear uma pessoa que elevasse a confiança de que os problemas serão enfrentados como eles são realmente. É bom que seja um político, não ligado ao mercado financeiro, que se cerque de bons economistas, que tenha capacidade de interlocução com o Congresso e receba poderes como formulador da política econômica e fiscal. O importante é que tenha entendido a delicadeza do momento e a necessidade de agir para tirar as dúvidas razoáveis que pesam sobre as contas do governo neste momento.

A luta democrática se trava em várias trincheiras. Eu, como jornalista de economia, sei que esta é a mais impopular. Porém, se Lula errar na economia fortalecerá quem faz o discurso antidemocrático. Os derrotados na última eleição não tinham qualquer proposta coerente de ajuste fiscal. O mercado acreditou neles contra as evidências. A dívida pública caiu no governo Bolsonaro não por virtude fiscal. Ele deu calote nos precatórios, os juros caíram por causa da pandemia, a inflação subiu elevando o PIB nominal e o governo fez um truque pegando do Banco Central o dinheiro da alta das reservas em reais para reduzir a dívida. Escrevi aqui sobre isso.

A extrema direita não tem virtude alguma, nem mesmo na economia. Mas é preciso que o presidente faça como fez em 2003 e siga os conselhos certos, para fazer um bom governo, inclusivo e progressista

 

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