O Globo
Lula precisa cumprir as promessas e ajustar
as contas públicas. Queda do juros deve vir pela conquista de credibilidade
fiscal
O país viveu uma eleição de emoções radicais
e estamos todos à flor da pele. Havia muito em jogo. Temos agora a chance de em
quatro anos construir uma barreira contra o risco antidemocrático. O Brasil não
pode ficar pendurado no abismo a cada eleição. Há muitas variáveis nessa
equação, uma delas é a economia com suas emergências, volatilidades e tarefas
inescapáveis. Hoje começa a reunião do Copom mais difícil dos últimos tempos.
O mercado mudou suas previsões. Agora a maioria dos bancos acredita que os juros serão mantidos. Na política o assunto é discutido de forma incandescente. Na prática, todos os ativos pioraram muito e talvez a decisão do BC seja de fato manter a Selic.
É hora de o governo jogar água na fervura do
debate econômico interno. A escolha do caminho tem que ser racional. Não há
tempo para experimentações, não se pode correr o risco de errar. O extremismo
de direita está sonhando com uma crise econômica para desestabilizar o governo.
Os atos de Flávio
Bolsonaro após a derrota, não reconhecer o resultado e escrever as versões
insanas da carta golpista, provam que a direita bolsonarista permanece sendo o
que sempre foi: antidemocrática. Ele sabe que perdeu, mas afirmar que houve
fraude é, de novo, usar a mentira como método. Como o pai, Flávio tenta minar a
confiança no processo eleitoral. Desta vez, ele ficou falando sozinho,
felizmente. De Miami,
gravou um vídeo dizendo que pode haver eleição antes de 2030. Esta é a
esperança dele: que haja uma crise.
O presidente Lula
não pode descumprir promessas. Mas como ajustar contas públicas se ele garantiu
manter todos os programas sociais e ampliá-los? É que nunca houve esse
conflito, pelo contrário. Inflação alta,
como a História nos ensinou, não é compatível com inclusão social. Não por
acaso foi depois do Real que as políticas de inclusão ganharam força e
densidade. Existem porém escolhas a serem feitas. A redução forçada dos juros
seria um tiro pela culatra.
O país precisa encontrar o caminho de
diminuir essa escorchante taxa de juros. No momento, o Banco
Central está escrevendo a sua terceira carta em 20 meses de descumprimento
da meta de inflação. Mudar a meta para os juros caírem seria a falsa solução
porque elevaria o índice.
Pode-se dizer que o candidato derrotado
repetiu todas as promessas que o presidente Lula fez durante a campanha,
portanto também não indicava ajuste. Mesmo assim o mercado virou de ponta
cabeça quando o presidente foi reeleito. Os bancos apostavam que o outro
candidato faria um estelionato eleitoral e sabem que Lula não fará isso. Agora
Lula precisa encontrar o caminho estreito entre cumprir as promessas e indicar
como fará o equilíbrio fiscal.
A maior parte do crescimento da dívida é
resultado dos juros altos. Inequívoco. O problema é que eles têm que cair não
por decreto, por alguma fórmula mirabolante, por negacionismo fiscal, mas sim a
partir da credibilidade da política econômica e fiscal. O presidente precisa
escolher para a Fazenda alguém que conquiste confiança e que saiba que não há
ilusionismo possível neste momento.
O que houve no segundo turno foi tão intenso
que vamos demorar a entender inteiramente. Foi um movimento, não foi apenas uma
campanha. Tudo precisou dar certo para que dez milhões de votos a mais fossem
entregues ao presidente Lula. A vitória não teve uma causa, teve muitas. A
esperança aflorou nos jovens, a lembrança foi ativada nos idosos, o medo da
volta dos passados, recente e remoto, assombrou milhões, a corrida pela virada
foi espontânea, alegre, cívica.
Quando todos ainda comemoravam, os mercados
despencaram e os economistas fizeram alertas. A economia é mesmo uma estraga
prazeres. Na semana passada, o real foi a moeda que mais perdeu valor no mundo.
Caiu 8,43%, a segunda maior desvalorização foi do peso colombiano, queda
de1,49%, a terceira, o won da Coreia do Sul, perdendo 0,82%. O Brasil foi
totalmente fora da curva.
Este é um momento delicado. O país precisa
consolidar a vitória da democracia e não frustrar as expectativas dos eleitores
é parte disso. Contudo, precisa também afastar os temores da economia, num
ambiente internacional cheio de incertezas. Ontem foi um dia bom, de queda da
cotação do petróleo. Mas dúvidas pairam sobre os preços das supervalorizadas
ações das big techs. Se o ambiente internacional mudar, será uma variável a
mais na complexa equação econômica do Brasil.

Nenhum comentário:
Postar um comentário