Até muito recentemente, ao final do primeiro turno das eleições, o Brasil era percebido como um país pior do que realmente era. A visão oriunda do materialismo vulgar vicejou. O caminho democrático trilhado há mais de 40 anos era pintado como repleto de erros e abusos.
A defesa dos aspectos virtuosos desse caminho suscitava olhares malévolos e assobios de desaprovação quando se falava de números que indicavam uma transição da mediocridade para a conquista dos melhores indicadores econômicos e sociais das Américas. Os rostos se exasperavam e repetia-se categoricamente: quais os números que significavam alguma coisa?
Curiosamente, após a retumbante vitória da
Coligação no segundo turno das eleições, grande parte desse resultado aconteceu
pela mudança do humor no decorrer dos 20 dias da tomada de consciência da
trajetória bem-sucedida com a Frente Democrática ao longo desse tempo, e que
voltava a informar. De repente, brotava dela nas ruas mais sorrisos do que caretas,
mais esperança do que desânimo, o passado é visto com maior serenidade e o
futuro com mais otimismo da vontade.
Sem dúvida, a Coligação eleita merece grande
reconhecimento por essa mudança. Seu discurso no segundo turno das eleições se
alterou após se permitir conquistar e reconquistar pela Frente Democrática e
com ela o mar dos votos da juventude (não nos surpreendemos com as dificuldades
dos jovens e os seus movimentos estudantis aqui e no planeta), dos moderados e
daqueles distantes de posições políticas. Pelo contrário, a Frente Democrática
reforçou os gestos republicanos em seus primeiros passos após a eleição como se
vê nas casas do Congresso Nacional. Ela descreveu mais uma vez o processo
democrático que precedeu sua vitória em termos mais equilibrados e demonstrou
abertura e responsabilidade na construção do futuro. Sem abandonar sua intenção
de promover mudanças profundas, ela moderou as expectativas, aproximando-se de
uma visão palpável e definindo seu espaço como um ambiente de diálogo democrático
e aberto.
Assim como El Cid (1043-1099) venceu batalhas
após sua morte, ela também as venceu antes de iniciar sua vida no governo da
Coligação.
Uma virtude muito valiosa de quem aspira a
liderar um país democraticamente é entender quais setores da população devem
ser convencidos para formar um governo da maioria que permita governar o país.
Essa foi a experiência de François Mitterrand
(1916-1995), que conseguiu levar os Democratas ao poder duas vezes durante a
Quinta República Francesa. Na experiência dele, o problema não era conquistar o
apoio dos moderados, já que ele tinha uma trajetória política levemente
progressista. Na verdade, seus primeiros passos na política foram dados na
direita.
Após ter unificado com sucesso o Partido
Socialista sob sua liderança, um jornalista lhe apontou que muitos eleitores do
partido achavam que ele não era verdadeiramente socialista, mas sim que
“falava” socialista.
Mitterrand, com seu rosto impenetrável de
esfinge, respondeu: “É possível que eu fale socialista, mas falo bem.”
Ele governou por 14 anos e, apesar de suas
falhas, moldou profundamente a França política, social e culturalmente, além de
ampliar seu papel internacional.
Apesar das diferenças em suas circunstâncias,
a Coligação para 2027-2030 enfrenta o problema de 2023-2026: aquela Coligação
ascendeu habilmente à proeminência e agora a atual Coligação precisa se
consolidar como uma gestão democrática estadista. Isso significa reconquistar a
confiança dos amplos setores da população que a reelegeram com a promessa de
mudanças apontadas pela Frente Democrática.
Esses setores não são, e não serão, da
esquerda. Eles esperam uma vida melhor com uma administração democrática e
profissional, maior bem-estar social, melhores condições de trabalho, uma
velhice digna e segurança pública. Tudo isso requer uma economia de boa
qualidade, crescimento, ordem fiscal, um sistema tributário bem fundamentado,
diversificação produtiva e uma abordagem redistributiva. Portanto, quando a
atual Coligação assumir o poder em 2027, não bastará apenas falar bem de um
Brasil Pronto para Mais. Isso deve se refletir em suas ações, em seu tom e em
sua liderança.
A formação de seu gabinete ministerial não
tem tido sinais claros e promissores, a despeito de que os líderes da Coligação
personificados em Lula e Alckmin possuam a fibra política necessária para tal.
O gabinete ainda não foi recebido por todos
os lados, cercado por seus associados mais valiosos, com conhecimento técnico e
experiência política em posições-chave, e para tanto não se deve hesitar em
desagradar aqueles que prefeririam um gabinete mais próximo as agremiações
partidárias da Coligação. É preciso que se contenha essa ideia, limitando-os,
mas é evidente que a abrangência do gabinete com a Frente Democrática precisa
incomodar e os integrantes da Coligação poderão reclamar.
Mas é também preciso ser prudente, pois ainda
não começou. Administrar um governo grande e em parte estrangeiro à Coligação
exigirá habilidade e paciência, vide a recepção à contribuição de André Lara
Rezende, bem como de Monica de Bolle e de Laura Carvalho.
A composição do Congresso recém-eleito
exigirá acordos com a centro-direita e direita democrática, bem como com
setores que apoiaram a Frente Democrática, e que serão incluídos no governo.
Dentro de sua própria coalizão e governo,
haverá tensões alimentadas por aqueles que lutarão para fazer prevalecer
impulsos que podem ser disruptivos, uma vez que histórias e metodologias muito
diferentes coexistiram ali.
Guy Mollet (1905-1975), o líder socialista da
Quarta República Francesa, não estava errado quando disse: “Coligação é a arte
de usar o sapato direito no pé esquerdo sem ficar com calos.” Algo que as
eleições há pouco dos EUA também ilustram.
Os líderes da Coligação personificados em
Lula e Alckmin devem se transformar em artistas excepcionais nessa arte.
Os anos que se avizinham serão difíceis. As
perspectivas econômicas globais e regionais não são promissoras e já sabemos
que as consequências econômicas da pandemia não desaparecerão.
O governo da Coligação cessante deixa um
legado com mais problemas do que conquistas, e nem tudo é atribuível a ele. Há
também responsabilidade por parte das forças que estarão no próximo governo e
que contribuíram para a desordem fiscal, acumulada ao longo de anos. Não será
fácil recuperar o que foi perdido nos anos de pandemia.
Por fim, este mandato terá que lidar com o
resultado do que aí está. Será que ela conseguirá se adaptar a esses tempos? Ou
será uma fonte de confusão, conflito e falta de um terreno comum genuíno?
Quem pode contribuir mais para isso é o próprio novo governo, através do tom que adotar em seu trabalho.
*Ricardo Marinho é Membro da Comissão Própria de Avaliação (CPA) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Representante dos Professores no Conselho Diretor da Associação dos Empregados de Nível Universitário da CEDAE (ASEAC) e professor da UniverCEDAE, da Faculdade Unyleya e da Teia de Saberes.

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