Folha de S. Paulo
Agressões a eleitores de partidos adversários
se sobressaem em relação a assassinatos por matadores de aluguel
Levantamento preliminar indica mais casos de
bolsonaristas hostilizando petistas que o oposto em 2022 e 2026
Um lado foi à luta e virou o jogo, o outro
fugiu. Entre o mandato e o exílio, transcorreu a eleição.
O voto é a forma pacífica de resolver conflitos políticos, mesmo quando os lados são tão opostos como desta vez. Em princípio, nas democracias a urna tira de cena a força. "Em princípio" porque a democracia, em parte alguma, aboliu a violência política. Vira e mexe, ela assoma, em graus e doses variadas, como na pancadaria da polícia contra manifestantes na França ou em reações extremas dos que desaprovam o resultado. Viu-se isso nas eleições presidenciais passadas dos Estados Unidos e do Brasil.
Suprimir o adversário é uma solução que não
deveria existir, mas aí está. Violência política e democracia convivem,
inclusive a violência política em sua forma letal.
Da primeira posse de Lula
(PT),
em 2003, até a tentativa de golpe bolsonarista, em 2023, aconteceram ameaças,
tentativas e assassinatos consumados contra políticos e ativistas. Um total de
1.228 casos, sendo os políticos 63,1% das vítimas. A incidência de assassinatos
é cinco vezes maior no Norte (13,9 casos por milhão de eleitores) que no Sul
(2,6) e acontece mais nos governos de direita que nos de esquerda (56,1 por ano
contra 25,9 em média), segundo dados do Núcleo de Instituições Políticas e Movimentos Sociais do Cebrap.
Há culpa de Jair
Bolsonaro neste cartório, mas o fenômeno acontece em todos os
estados e anos.
Nos 20 anos pesquisados, o ataque ao
adversário teve método e frieza. Predominou um estilo de assassinato político,
o de mortes planejadas, encomendadas a um matador de aluguel (87,5% efetuadas
com arma de fogo). Em regra, os envolvidos no conflito político de que resultou
a violência se conheciam, mas um lado delegava o serviço de eliminação do outro
a um intermediário, especialista no ofício. Uma violência política profissionalizada.
Essa é a rotina da violência política
brasileira. Nas duas últimas eleições presidenciais, porém, tem sido outra
coisa. Em vez da modalidade calculada e asséptica, sobressaiu uma violência
política eruptiva.
Em Padre Bernardo (GO), um petista comemorava
a vitória na rua, gritando "é Lula, é Lula", quando um motorista atirou. Morte instantânea. Podia ser neste
ano, mas foi em 2022. O conflito agudo entre apoiadores de partidos opostos
aconteceu já naquela eleição em que o Bolsonaro da cédula era o pai.
A eleição de 2026 repetiu o fenômeno, com
agressões verbais e físicas pelo país. Em General Carneiro (MT), um vereador disparou, ferindo duas pessoas de uma festa
lulista. Uma vereadora petista levou uma tijolada na cabeça em Montes Claros (MG). Em Porto União
(SC), um eleitor de Lula celebrava a reeleição quando levou cinco tiros vindos de um carro. Uma pesquisa
rigorosa está por fazer, mas um levantamento preliminar indica mais casos de
bolsonaristas hostilizando petistas, em 2022 e 2026, que o oposto.
É uma violência que emerge da situação de
tensão, reativa, imediata. Em vez do matador frio da rotina, é o eleitor comum,
sentindo-se ultrajado, quem age. E o faz com as armas à mão: pode ser um
tijolo, como o que foi parar na cabeça da vereadora, um carro ou uma arma. O
alvo é genérico, identificado por símbolos, cores, adesivos. A agressão afeta
uma pessoa, mas visa um grupo. É ação guerreira de uma comunidade contra outra.
As duas últimas eleições foram momentos de
confronto político intenso. A competição restrita a dois extremos produziu
fronteira moral intransponível entre comunidades políticas opostas ávidas por
derrotar o inimigo.
Essa intolerância para com o adversário não
combina com democracia. De novo, em princípio, na prática aí está. Como a cada
dois anos tem eleição, a animosidade permanece acesa. A fuga do candidato de um
dos lados não significa que a fronteira tenha desmoronado nem que a chama da
violência política tenha se apagado.

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