sexta-feira, 3 de julho de 2026

Palanques capengas no Sudeste, por Vera Magalhães

O Globo

Palanques capengas do petista em Minas e do filho de Bolsonaro no Rio indicam problemas na região mais disputada da eleição

A eleição de 2026 será um teste para a validade de vários axiomas tradicionais da política, como a importância da propaganda em rádio e TV, os efeitos da inteligência artificial e, no plano mais concreto, a centralidade da montagem de palanques regionais para fortalecer candidaturas presidenciais e, no limite, decidir uma disputa que tende a ser apertada.

Nesse quesito, o Sudeste brasileiro é o cenário em que as candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro concentram as fichas. Mas, a menos de um mês do início formal da corrida eleitoral, ambos enfrentam problemas bastante sérios para largar com um time promissor e um discurso condizente em colégios importantes da região.

Os desdobramentos consecutivos da Operação Unha e Carne — que atingiu fortemente o grupo do ex-governador Cláudio Castro no Rio de Janeiro — jogam uma dose enorme de imprevisibilidade para o comando bolsonarista “em casa”.

Cenas de uma campanha, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidente faz maratona de inaugurações e reclama de limites ao uso da máquina

Aconteceu ontem em Luís Gomes, município de 9 mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte. Na correria para entregar obras no limite do prazo legal, Lula inaugurou um túnel de irrigação sem uma gota d’água.

“Cadê o dono da empresa que fez esse túnel?”, perguntou, do alto do palanque. O presidente disse que programou a viagem para ver a água chegar, mas “houve um erro de cálculo”. “E esse erro de cálculo fez com que eu chegasse aqui e a água ainda não chegou”, justificou-se.

O atraso frustrou o petista, mas não constrangeu seus áulicos. O ministro Waldez Góes disse que o povo da cidade deveria “olhar para o céu e agradecer a Deus e a Lula”. O prefeito Carlos Augusto de Paiva, o Tututa, descreveu a visita presidencial como uma “dádiva”.

Soberania em IA é mais importante que regulação, por Pablo Ortellado

O Globo

Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros

Uma reportagem publicada ontem no Financial Times revelou que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a proposta é do senador Bernie Sanders).

A dura realidade aonde a política não chega, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

 Alguma coisa está errada e muitos só vão perceber quando ouvirem o barulho dos tiros ou o domínio territorial do crime chegar às suas cidades

Às vezes, as coisas muito próximas são universais. Hesito em escrever sobre o que vejo no cotidiano no Rio de Janeiro, mas não deveria: é algo importante para o País e com grande possibilidade de espalhar-se por todos os cantos.

Encontrei na rua uma amiga e perguntei se estava tudo bem: “Perto de minha casa, apareceu uma cova com 20 mortos. Sempre procuro sair às cinco da manhã para evitar tiroteios, mas, às vezes, precaução não adianta”. Ela vive numa favela chamada Rio das Pedras, dominada por uma milícia acossada pelo tráfico de drogas que quer o domínio do território.

No Dia de São Nunca? Por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

O novo grito de guerra em Brasília é: que tal deixar para depois das eleições?

A carta do senador Flávio Bolsonaro para o governo Trump, via Escritório de Comércio (ou USTR), é um desastre para o próprio Flávio, sob todos os pontos de vista, político, diplomático, até moral. Quer dizer que um novo tarifaço agora não pode, porque é bom para o presidente Lula, mas, depois das eleições, depende de quem ganhar?

O importante para o candidato não é se é bom ou mau para o Brasil e os brasileiros, o que vale é se é bom ou mau para ele e o bolsonarismo, dane-se o resto. Aliás, foi assim em cada passo do bolsonarismo para se aproximar de Trump e se distanciar do Brasil.

Revés para a luta das mulheres, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Muitas entram na vida pública, sofrem violência de gênero e se afastam quando não têm mais serventia

Na conversa que tiveram com Michelle Bolsonaro, a senadora Damares Alves e a governadora Celina Leão custaram a demover a ex-primeira-dama da decisão de deixar completamente a política.

Michelle havia acabado de comunicar a Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que renunciaria não só à presidência do PL Mulher, como também não concorreria ao Senado pelo DF e se desfiliaria do partido.

Ela estava afastada do núcleo decisório da campanha à Presidência do enteado Flávio Bolsonaro, encontrava dificuldades para emplacar aliadas como candidatas e vinha sendo atacada nas redes por pessoas próximas do também enteado Eduardo Bolsonaro.

As primeiras provas de que o RJ está no rumo de ser o primeiro narcoestado do Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Com prisão de ex-presidente da Alerj e de bicheiro, surgem mais provas de domínio do crime

Governo e Legislativo eram comandados por PL e parte do centrão, mas corrupção é mais extensa

Tráfico de drogas e de armas, lavagem de dinheiro, Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP), Amigo dos Amigos (ADA), policiais corruptos, bicheiros, padrinhos bandidos do Carnaval, roubança de dinheiro público e seus agregados políticos de direita arruínam o poder estadual do Rio de Janeiro —note-se, porém, que políticos de vários partidos podem estar na lista da mesada do crime.

Talvez o crime já tenha se infiltrado no comando de outros estados. Não o sabemos. No caso do Rio, temos as primeiras evidências de um narcoestado no Brasil. O termo "narco" talvez seja limitado para descrever o poder de organizações criminosas diversas sobre Legislativo, Executivo e Judiciário fluminenses. O problema, de qualquer modo, é aterrorizante, e tem conexão federal, por meio do PL, o partido do senador Flávio Bolsonaro, e de ramos do centrão.

Uma defesa da ineficiência, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Na regulação de produtos viciantes, como drogas e bets, é preciso evitar estímulos ao uso

Isso significa limitar a publicidade e cuidar para que empresas não consigam expandir mercados

Falar mal da propaganda de bets na CazéTV se tornou uma unanimidade nacional. Não vou, em nome de uma suposta liberdade de expressão comercial, defender o direito dos jovens locutores de convidar telespectadores a fazerem uma fezinha, mas acho importante apontar o dedo para outros atores, mais especificamente para o Congresso Nacional. Desde 2024 está claro que a publicidade das bets se tornou um problema. Desde 1930 sabemos que em 2026 haveria uma Copa do Mundo, evento midiático em que empresas ligadas a futebol, como bets e cervejarias, se esbaldam.

Empurrados para o digital, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Quando o idoso se vê indefeso diante da tela, o Estado lava as mãos e o joga para a família

O atendimento presencial é garantido pelo Estatuto do Idoso. O Brasil finge ignorar isso

É outro vídeo que recebi, este de meu amigo Luiz Fernando Janot. Não sabemos quem o escreveu ou interpretou. Mas sabemos que cada cena e cada palavra que contém são verdadeiras. As imagens mostram idosos em bancos e hospitais, tentando conviver com seu pior inimigo: o smartphone. O texto, na voz de uma mulher, diz:

"Quando uma tecnologia não respeita a biologia humana ela não é inovação. É o descaso fantasiado de modernidade. E a punição para quem não consegue passar pela barreira da tela é o abandono. Agências vazias, portas fechadas e a recusa de um atendimento presencial.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sanção contra brasileiros desperta preocupação

Por O Globo

É bem-vinda colaboração americana no combate a facções criminosas. Risco são medidas arbitrárias

No fim de maio, o Departamento de Estado americano anunciou que as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) seriam classificadas como organizações terroristas a partir de 5 de junho. Menos de um mês depois da entrada em vigor da medida, o Departamento do Tesouro impôs sanções financeiras a dois cidadãos brasileiros e três empresas instaladas aqui, sob suspeita de ligação com o PCC. O governo americano acusa o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada de liderar uma estrutura de lavagem de dinheiro com atuação nos Estados Unidos que movimentou mais de US$ 30 milhões de origem ilícita e de usar criptomoedas para transferir fundos ao PCC no Brasil. Sua secretária Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira é acusada de atuar como intermediária na coleta do dinheiro.