terça-feira, 11 de agosto de 2026

Quando se conta com o ovo que a galinha sequer pôs na urna, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Disputa interna no PT e nas corporações sobre um quarto mandato arrisca minar as chances de Lula obtê-lo

A perspectiva de futuro anunciada pela postulação do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está mais clara nas disputas internas desencadeadas no governo e no PT do que nas propostas protocoladas no TSE.

Quatro vezes maior que aquele apresentado em 2022, o programa é mais uma prestação de contas do que foi feito neste mandato do que um plano de voo para o seguinte. Nenhum candidato faz programa de governo para anunciar desvinculação de gastos mas a promessa de ampliação no alcance e escopo das políticas públicas não é acompanhada dos meios para viabilizá-las no Orçamento da União.

É possível que se queira fazer parte disso retomando um naco dos R$ 50 bilhões em emendas parlamentares, citadas quatro vezes no programa, mas o insucesso deste intento até aqui recomenda ceticismo. Decantadas reformas, como a administrativa e do Judiciário, não merecem uma única menção. Pela profusão (11 menções) com que a IA é citada, deve haver expectativas, mas sua incorporação à gestão pública produz eficiência, não milagres.

Interpretação alternativa à tradicional visão fiscalista, por Pedro Cafardo

Valor Econômico

Mesmo com esforço fiscal, o elevado custo financeiro continua impulsionando a expansão da dívida

O discurso dominante entre economistas ligados ao mercado diz que os recentes aumentos da dívida pública são consequência direta do excesso de gastos públicos. Há controvérsias. Outros economistas, da área acadêmica, sustentam que essa tendência decorre da elevação exagerada das taxas de juros e da estrutura do sistema financeiro brasileiro.

Um trabalho acadêmico do professor da PUCSP Ernesto A. Moura, mestre em economia política, propõe interpretação alternativa à visão fiscalista tradicional. Ele entende que a dinâmica fiscal brasileira exige analisar conjuntamente política monetária, estrutura bancária, composição da dívida pública e mecanismos de financiamento do desenvolvimento.

Moura observa que a elevação da dívida bruta de 71,7% do PIB em 2022 para 78,7% em 2025 e 81,9% em junho último ocorreu principalmente pelo custo do serviço da dívida, fortemente influenciado pelas altas taxas de juros e pela estrutura do sistema financeiro.

Avanço e estagnação, por Jorge Okubaro

O Estado de S. Paulo

Em média, a despeito da melhora observada nos últimos anos, o ensino no Brasil não tem desempenhado o papel essencial que dele se espera, de oferecer oportunidades de progresso a todos

É auspicioso o avanço do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) anunciado na semana passada pelo Ministério da Educação. Aferido a cada dois anos, o Ideb é o principal indicador da qualidade do ensino brasileiro. Baseia-se nas notas alcançadas pelos estudantes em Português e Matemática e nas informações sobre aprovação e reprovação.

Ainda assim, o Ideb não alcançou metas que deveriam ter sido atingidas em 2021 pelo final do ensino fundamental (do 5.º ao 9.º ano) e pelo ensino médio. A pandemia da covid-19 é apontada como a principal causa do atraso. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, diz que o impacto das políticas do governo ainda não foi captado pelo Ideb (relativo a 2025), mas deverá ter reflexo na próxima avaliação. Quanto ao ensino médio, Barchini lembrou que, em 1988, apenas 7% dos matriculados no primeiro ano concluíam o curso; o índice atual é de 80%. “É uma escola tardia no Brasil, a gente está aprendendo a fazer o ensino médio agora.”

Na piscina com o ‘hub’ da corrupção, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Mau exemplo na política é gasolina na fogueira de golpistas e nazistas, numa fusão explosiva

Uma imagem vale mais do que mil palavras? Muitas vezes, sim, como a foto de oito políticos, alegres e sorridentes, alguns de copos nas mãos, refrescando-se na piscina do rancho de um advogado bastante conhecido, e polêmico, que está na mira na Polícia Federal por... lavagem de dinheiro.

Lava-se dinheiro daqui, lambuzam-se biografias dali e la nave va na política, enquanto grupos radicais se multiplicam com rapidez e audácia cada vez maiores, reunindo gente de tendências nazistas, machistas, misóginas e golpistas – e com ânsias de explodir a República.

O retrato da confraria do orçamento secreto, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Na piscina, a confraria dos independentes, proprietários de bilhões de reais em emendas

A turma representativa – a democracia representativa dos oligarcas do Congresso – aboletada na piscina. O retrato da confraria dos independentes, os autossuficientes. Independentes da República, no sentido de que à margem dos rigores para com a coisa pública, deputados e senadores, sovacos ao alto, unidos e festivos pela perversão autoritária – a propriedade sobre dezenas de bilhões de reais do Orçamento da União, um fundo eleitoral paralelo – que os desobrigou de fazer política e que consagrou o mandato parlamentar como um fim em si mesmo.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não pode haver retrocesso na reforma tributária

Por O Globo

Flávio e Caiado cometem erro grave ao sugerir revisão do modelo de impostos aprovado em 2023

São irresponsáveis as promessas de campanha dos candidatos à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD) de revisar a reforma tributária. Aprovada em 2023, a unificação dos impostos sobre o consumo deu um primeiro passo para acabar com o pandemônio tributário que sempre caracterizou o Brasil, complicando a vida das empresas e afugentando investidores. Foi resultado de amplo consenso no Congresso, depois de décadas de debates e embates. E previu um período de transição de dez anos, para que todos consigam se adaptar à nova estrutura de impostos. Obviamente, deixou muitos insatisfeitos que, em ano eleitoral, fazem pressão sobre os candidatos para tentar deter os avanços.

Aprendendo coisa errada, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Indivíduos definem seus padrões de comportamento olhando para os pares

Sucessão de escândalos na alta política mostra persistência da corrupção

Onde aprendemos o certo e o errado? Há respostas para todos os gostos. Para alguns, tudo o que é preciso saber acerca do bem e do mal está nas Escrituras. Para outros, é questão de berço: são os pais que ensinam aos filhos o que deve ou não ser feito. Há até quem diga que são os livros de filosofia que cumprem essa função.

Não afirmo que essas explicações estão todas erradas, mas elas me parecem subcasos de uma resposta mais geral. Para saber como devemos nos comportar, nós olhamos para o lado e vemos o que as pessoas costumam fazer. Não é uma coincidência que as palavras "ética" e "moral" derivem respectivamente dos termos grego ("éthe") e latino ("mores") para "costumes". Assim, se você vive numa comunidade religiosa, se comportará como os religiosos a seu lado, que se inspiram numa determinada escola de interpretação da Bíblia. Se vive num bairro afluente de cidade grande, se comportará como seus vizinhos e todos dirão que o padrão foi fixado pela educação recebida no lar.

Autonomia financeira dá lugar às alianças partidárias, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Novas regras eleitorais e financiamento público desestimulam coligações na disputa à Presidência

Na base do cada um por si no plano nacional, partidos investem nos estados para crescer no Congresso

Nesta eleição, está combinado, a maioria dos partidos vai jogar separado. Só o PT entra na disputa presidencial do jeito tradicional, coligado a seis legendas: PSB, PSOL-Rede, PDT, PV e PC do B.

Não deixa de ser uma ironia o partido com vocação a protagonista, cuja política de alianças só foi aceita por imposição da realidade, ser o único que concorre acompanhado. No campo limitado à esquerda, é verdade, mas ali com um Geraldo Alckmin (PSB) na figuração do centro.

Para Flávio Bolsonaro, a melhor mulher é sempre um homem, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Vice dos sonhos sempre foi Ciro Nogueira, senador do PP envolvido na teia Master

Escolha do deputado Alfredo Gaspar evidencia o isolamento da candidatura bolsonarista

A escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para companheiro na chapa presidencial mostra que, para Flávio Bolsonaro e sua base mais radicalizada, a melhor mulher é sempre um homem.

Toda a busca de meses por uma vice mulher funcionou como tentativa de ganhar tempo diante dos reveses da campanha bolsonarista —as revelações do caso Dark Horse e a ligação íntima do filho 01 com o empresário picareta Daniel Vorcaro. E sobretudo a briga pública com a ex-primeira-dama Michelle, alvo de discursos misóginos nas redes.