quinta-feira, 5 de novembro de 2026

'Dark Horse', só na nuvem; se não chover, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O filme classificado por Flávio Bolsonaro como obra-prima ameaça não chegar aos cinemas

Parte do dinheiro da produção mandada para lavar no Texas poderá sustentar senador nos EUA

Que pena, estamos ameaçados de nunca ver a obra-prima "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro, numa tela de cinema! Obra-prima é como o filme foi classificado por seu produtor-associado, levantador de dinheiro, filho do personagem e talvez receptador de parte do orçamento, Flávio Bolsonaro. Não sei das credenciais do ex-futuro presidente da República como crítico de cinema, mas sua insistência em dizer que "Dark Horse" é uma obra-prima nos faria ir correndo conferir. Obras-primas do cinema —algumas— são "Em Busca do Ouro" (1925), de Chaplin, "Ladrões de Bicicletas" (1948), de Vittorio de Sica, "Um Corpo que Cai" (1958), de Hitchcock. Estaria "Dark Horse" nesse time?

As dúvidas que as urnas deixaram, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

A formidável vitória do presidente não apaga o fato de que quase 60 milhões preferiram um candidato extremista

Terão grande importância as escolhas da direita e sua disposição de não apostar em quem é desafeto da democracia

O Brasil saiu das eleições presidenciais tão dividido quanto nelas entrou. Assim continuará? Depende muito do que acontecer com a extrema-direita e do que o governo e as forças democráticas fizerem para garantir a normalidade política.

É cedo para dizer o que será do extremismo depois de sua segunda derrota. Muito menos o que será de sua liderança, com Bolsonaro-pai na cadeia e o filho-herdeiro acoitado por Trump. O Bolsonarismo continuará sendo seu sinônimo ou outros líderes lhe darão novo nome e sobrevida? Neste caso, manterão os ultra a capacidade de aglutinar o vasto campo das direitas nas disputas pelo Palácio do Planalto?

Este país tem uma Constituição, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

Se Lula quer ser coerente com suas promessas de futuro, pode começar já

Pragmatismo não pode significar cumplicidade com degradação institucional

"A democracia está novamente em xeque." "O Brasil continuará sendo um país soberano." "Ninguém está acima da lei." "A floresta vale mais em pé do que destruída."

O discurso de Lula na abertura da Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2026, combinou alertas urgentes sobre o presente com um esboço de sua visão de futuro.

No discurso da vitória, um mês depois, Lula revelou o que diz ter aprendido com a inesperada mobilização popular que lhe garantiu a reeleição. Contra expectativas, espalhou pelo mundo um sopro de esperança democrática e também um método. Da experiência emergiu uma inteligência coletiva e orgânica para enfrentar tecno-oligarcas que abalam o fair play eleitoral sem qualquer possibilidade de regulação pública e transparência.

Polêmica religiosa dos juros leva Lula à TV e BC para a malhação do Judas, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Banco Central não corta Selic, que pode ficar na mesma por meses, dado o tumulto

PIB mais lerdo tende a acirrar o conflito político sobre programa econômico

Desde o domingo de Todos os Santos, passando por Finados, parte da opinião pública foi às redes para discussões encarniçadas sobre política monetária, quem diria, com muita profissão de fé e propaganda. Muita gente ficou feliz com a promessa de que as taxas de juros pudessem cair do céu.

O risco real ou, francamente, imaginário de que Lula 4 fosse enfeitiçado por ideias heterodoxas agitou a praça do mercado e economistas-padrão, o que acirrou as guerras religiosas. O boato de que o presidente pudesse nomear para o Banco Central uma bancada de oposição heterodoxa à Gabriel Galípolo também não ajudou.

Dado o climão, o presidente deve dizer algo sobre a importância de política de gastos prudente no pronunciamento que deve fazer no domingo. Pouco. Melhor do que nada.

Cruzada nas redes contra juros altos não muda necessidade de ajuste, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

A primeira sinalização a ser feita será fechar o Orçamento de 2027

Ajuste forte ou gradualismo: para quem?

A polêmica em torno do plano do economista André Lara Rezende ajudou a impulsionar nas redes sociais a visão de petistas de que, com a vitória de virada do presidente Lula nas eleições, dá para fazer uma cruzada contra a alta dos juros nos moldes do exército de Janones.

A ofensiva, no entanto, em nada muda a incerteza que paira no ar. Além do Brasil, outras democracias do Ocidente, de um jeito ou de outro, estão enfrentando esse debate fiscal. Cada país com sua particularidade.

Reeleito, Lula tem hoje um problema real imediato: precisará sinalizar mais previsibilidade. Se vai fazer um ajuste mais pelo lado da receita ou pelo lado da despesa, ou uma mistura das duas opções. Se vai ser rápido ou devagar, se adotará o gradualismo ou nem isso.

A primeira sinalização a ser feita será fechar o Orçamento de 2027. Essa é a mais urgente.

Garantia do status quo, por William Waack

O Estado de S. Paulo

A eleição para um novo presidente do Senado é só daqui a três meses, mas já se tornou a questão política mais urgente. A reeleição de Davi Alcolumbre seria o retrato acabado de um conluio de contornos sórdidos entre os Poderes, que nasceu da necessidade urgente de seus articuladores (Alexandre de Moraes, Davi Alcolumbre e o próprio Lula) de escapar das consequências imediatas das investigações de escândalos de corrupção.

Ganhou alicerces poderosos com o resultado da eleição presidencial, embora as eleições estaduais e do Congresso prometessem o contrário. A causa disso é a desarticulação da oposição, visivelmente sem liderança efetiva, neste momento. Mas também o fato de que um bom pedaço dessa oposição, no Senado e na Câmara, tem interesse num conluio que garanta aos donos de partidos os mesmos acessos a diversos fundos, além da máquina pública. Ou seja, o status quo promete mais do que seu rompimento.

Consolidação fiscal gradual é chave para crescer, por Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

O ajuste fiscal deve ser feito por etapas, mas sob um plano completo e aprovado desde a primeira hora, de modo a pavimentar a rápida queda do risco e do juro

Há duas premissas básicas para qualquer plano de consolidação fiscal. A primeira é a viabilidade política. A segunda, a distribuição de medidas relevantes para estabilizar a relação dívida/Produto Interno Bruto (PIB) em alguns anos. O resultado buscado: juros menores e aumento das possibilidades de endividamento sustentável e do crescimento do PIB.

O plano de ajuste miraria um superávit primário crescente até o nível de 1,5% a 2% do PIB em quatro anos. A alternativa, produzir ajustes agressivos para um ou dois anos, não seria aprovada no Congresso e, caso fosse, jogaria a economia em recessão em 2027.

BC não se dobra a pressões políticas, por Alvaro Gribel

O Estado de S. Paulo

Sozinho no combate à alta de preços, BC segue sendo âncora da economia em um cenário de incertezas

O Banco Central decidiu por unanimidade manter a taxa Selic em 13,75% ao ano, dez dias após o segundo turno das eleições que garantiram ao presidente Lula mais um mandato. A decisão é amparada pelos dados, já que houve uma forte piora das expectativas de inflação. Mais do que os números do mercado, o que pesou foi a projeção do próprio BC, que se descolou do centro da meta.

A atual diretoria demonstrou, mais uma vez, que não está preocupada com pressões políticas, mesmo após dias de debate em torno de uma tese do economista André Lara Resende que defendia cortes e tabelamento da taxa Selic.