quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Olha o PIB aí, gente!


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


O presidente Lula acredita numa bala de prata contra a crise: a redução da taxa de juros. Para alguns analistas, não existe risco de alta da inflação

Na semana passada, o alto índice de aprovação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa pesquisa do instituto Datafolha supreendeu a todos: 70% de bom e ótimo. Não faltaram análises para explicar o fenômeno, ora atribuído ao recall das políticas sociais do governo, ora à capacidade de comunicação do presidente Lula. Ontem, veio a explicação: o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cresceu 6,8% no terceiro trimestre deste ano na comparação com o mesmo período do ano passado. Em relação ao trimestre anterior, a alta foi de 1,8%. Foi por essa razão que o presidente Lula desafiou os mais pessimistas e anunciou o melhor Natal de todos os anos de seu governo.

No coqueiro

O PIB é a soma das riquezas produzidas pelo país. Teve alta de 6,3% nos últimos 12 meses terminados em setembro e de 6,4% , somente em 2008. É o melhor índice desde o começo da série em 1996. Seu valor chegou a R$ 747,3 bilhões. Os números parecem dar razão ao presidente Lula de que vivemos num outro mundo. A indústria cresceu 7,1%; a agropecuária, 6,4%; o setor de serviços, 5,9%. O destaque na indústria foi a construção civil, com alta de 11,7%. Motivo: o aumento de 32% de crédito para habitação. Também houve forte expansão dos investimentos: 19,7%. O consumo das famílias continuou ascendente, com alta de 7,3%. E os gastos do setor público subiram 6,4%, ou seja, ligeiramente acima do PIB.

Onze entre 10 economistas avaliam que esse PIB subiu no coqueiro, pois não reflete o impacto da crise mundial e deve desabar. Os sinais estariam trocados em relação ao desempenho real da economia nas últimas semanas, com notícias de que as montadoras, siderúrgicas e mineradoras suspendem suas atividades, concedem férias coletivas ou demitem. Nas lojas de eletrodomésticos e concessionárias de automóveis, os sinais de que o crédito está empoçado são gritantes. Os preços desabam, quase ninguém compra. Os juros estão altos, o consumidor pôs as barbas de molho. O presidente Lula, porém, aposta na força de inércia do “espetáculo” do PIB, mesmo com o apagão financeiro mundial. Avalia que o Brasil pode resistir graças aos gastos do governo e ao pensamento positivo de empresários e trabalhadores. Essa é a lógica do espantoso discurso do “sifu”, no qual compara a economia a um doente no hospital. O povão entenderia o espírito da metáfora.

Bala de prata

O Brasil tem uma trajetória histórica de expansão anticíclica. Graças a isso houve a nossa industrialização. A receita foi câmbio favorável às exportações, investimentos públicos na atividade produtiva e discurso político otimista, motivador da nação. O populismo de Getúlio Vargas cumpriu esse papel. O modernismo bossa-nova de Juscelino Kubitschek também. Até o “Pra Frente Brasil” do regime militar, num terceiro e bem-sucedido de ciclo de substituição das importações, teve esse efeito durante o “milagre econômico”. Será que o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), menina-dos-olhos do segundo mandato, cumprirá esse papel ? É uma aposta de alto risco, mas está sendo feita pelo Palácio do Planalto.

O presidente Lula acredita numa bala de prata contra a crise: a redução da taxa de juros. Para alguns analistas, não existe risco de alta da inflação. A economia mundial está entrando em recessão, alguns países estão em deflação (recessão com queda de preços). Aqui os preços também deverão cair. Nosso problema seria outro: o desemprego bate à porta das fábricas, lojas e escritórios.No fundo, Lula acredita que o novo presidente dos Estados, Barack Obama, prepara um pacote trilionário para tirar seu país da recessão, o que pode reaquecer a economia mundial.E avalia que terá atravessado o Rubicão da crise se impedir uma onda de desemprego. Para isso, precisa manter e baratear o crédito, convencer empresários a não demitir e investir e estimular os trabalhadores a continuar comprando. Tudo isso pode ser uma grande ilusão, mas não terá a menor chance de evitar uma recessão por aqui se o próprio presidente de República não acreditar nele mesmo. Com perdão para a inversão da metáfora “desenvolvimentista”, é melhor voar como a galinha do que virar uma minhoca na crise.

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