terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Raymundo Costa:: Crônicas da eleição no Rio de Janeiro

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Houve meses, nos últimos anos, em que Lula não passava 15 dias sem ir ao Rio de Janeiro. A eleição de Sérgio Cabral (PMDB) para o governo estadual mudou a relação malquerente entre o presidente da República e os Garotinho, primeiro Anthony, depois sua mulher Rosinha. Lula e Cabral continuam bons amigos. O mesmo não pode ser dito da relação pessoal do governador com a candidata do presidente à sucessão, Dilma Rousseff.

A oposição acompanha com interesse os desdobramentos das articulações eleitorais no Rio, muito embora, por enquanto, nada lhe indique que o governador possa mudar de palanque. Entre os maiores colégios eleitorais do país, o Rio é o Estado no qual a oposição tem mais problemas para armar um palanque que evite o desastre que foram para ela as eleições de 2002 e 2006, com os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin.

Em 2002, havia uma atenuante: um candidato local, Anthony Garotinho, que concorreu a presidente pelo PSB. No primeiro turno, Serra ficou com um modestíssimo terceiro lugar, atrás de Lula, que teve 3,2 milhões de votos, e do vencedor Garotinho, que levou 3,4 milhões de votos. Hoje Garotinho é candidato ao governo pelo PR, partido da base governista. Mas já se queixa do tratamento diferenciado do governo federal às candidaturas do PR e do PMDB.

Em 2006, sem um candidato do Rio entre os nomes na urna eletrônica, Lula fez 4 milhões de votos, e o tucano Geraldo Alckmin, 2,4 milhões. Impressionante foi o desempenho de Heloisa Helena (P-SOL), com 1,4 milhão de votos. Exatos 17,1% do eleitorado carioca, porcentual que a oposição e observadores bem situados no Palácio Guanabara avaliam que será facilmente ultrapassado pela candidata do PV, a senadora Marina Silva.

O Rio é tão importante quanto Minas Gerais para o PSDB. Um bom desempenho na cidade quebraria um tabu: é mantra do PT a frase "Serra não entra no Rio."

Depois que venceu as eleições de 2004, para a prefeitura, e de 2008 para o governo de São Paulo, Serra passou a fazer um comentário sugestivo e bem humorado sobre mudanças de situação. Diz que às vezes pensa em pedir recontagem dos votos no Rio, pois sempre que cruza a ponte aérea encontra muita gente que diz ter votado nele em 2002 (o placar foi 6,3 milhões para Lula e 1,6 milhão para Serra, no segundo turno).

A aposta do PSDB na candidatura de Fernando Gabeira (PV) ao governo do Estado, portanto, tem sua lógica. Mesmo com a divisão do palanque, com Gabeira para o governo, um tucano para vice, um candidato do PPS e outro do DEM para as duas vagas ao Senado. O tempo de televisão e rádio do Democratas é o argumento pragmático para convencer o PV da conveniência de ter o DEM na coligação partidária.

O que Serra articula no Rio é o que um interlocutor assíduo de Sérgio Cabral chama de "arte do possível" - se Gabeira ajudar a alavancar a candidatura de Marina Silva no Rio, o que é previsível tendo em vista o desempenho do deputado nas últimas eleições municipais, já prestará um grande serviço à candidatura do tucano, pois então terá rachado o eleitorado Lula-Dilma. O segundo turno é outra história.

Vale um parênteses: os tucanos avaliam que a presença de Marina e não a ausência de Ciro Gomes (PSB) já assegura que a eleição não terá o caráter plebiscitário imaginado por Lula.

Quando o desconforto entre Sérgio Cabral e o PT era mais intenso, devido à candidatura Lindberg Farias ao Palácio Guanabara, o PSDB propôs o apoio dos tucanos e do Democratas ao governador. Cabral recusou, apesar das boas relações pessoais que mantém com Serra e dos problemas crescentes com o Planalto.

Após mais de três anos de relações privilegiadas e de apoio quase incondicional do governo do Rio a Lula, ele não teria como explicar a seu eleitorado um repentino afastamento do presidente. A candidatura Lindberg foi um aborrecimento político para Cabral, mas o que bateu na alma do governador foi o tratamento que recebeu do Planalto nas discussões ainda em curso sobre a exploração de petróleo na área do pré-sal.

Cabral diverge de Dilma sobre o pré-sal e outros assuntos relacionados ao Rio. E não esquece o "chega pra lá" que levou do ministro Franklin Martins (Comunicação Social), quando tentou divergir do projeto, numa reunião de governadores.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

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