segunda-feira, 12 de abril de 2010

Desforra e rancor:: Fernando de Barros e Silva

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Para quem esperava uma oposição desdentada, sem discurso e na defensiva, o ato de lançamento da candidatura José Serra à Presidência, anteontem, indicou que as coisas não serão exatamente assim. Havia em Brasília uma militância numerosa e francamente entusiasmada -cultura petista-, a ponto de um veterano do PSDB com senso de humor comentar: "Que maravilha, conseguimos reunir todos os tucanos do país".

Como já se frisou, a fala de Serra pregando a "união do país" foi firme porém modulada -de "estadista". O tom geral do evento, no entanto, foi bem mais agressivo.

Em fevereiro, no congresso que lançou a candidatura Dilma Rousseff, havia entre os petistas um nítido sentimento de desforra. Celebravam a vitória política do lulismo, tendo vivo na memória o ambiente de velório do encontro anterior, ocorrido sob o impacto do mensalão. A famigerada fala de Jorge Bornhausen -"vamos acabar com aquela raça"- foi então citada (e linchada) compulsivamente, numa espécie de ritual catártico do PT.

Anteontem, o clima era menos de desforra do que de rancor. Humilhada pelo lulismo, a oposição desrecalcou seus demônios. Serra fez alusão às "falanges do ódio". Mas coube aos coadjuvantes mostrar as garras. O presidente do DEM, Rodrigo Maia, disse que o governo "não gosta da imprensa livre" e tenta controlar a liberdade de expressão, que confunde acesso à terra com "ruptura do direito de propriedade" e que o país "seria hoje uma Venezuela" não fosse a constante vigilância dos democratas.

Roberto Freire, presidente do PPS, foi além. Disse que o "Estado forte" defendido por Dilma, "da forma como vem se articulando com grandes conglomerados privados, e na visão totalizante de controle sobre as liberdades das instituições da sociedade civil, inclusive da imprensa, está longe das concepções da esquerda e mais se assemelha à idolatria estatista do fascismo". Foram, os dois, muito aplaudidos. Vale para registro e reflexão.

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