terça-feira, 4 de maio de 2010

Comparar Serra com Dilma é inevitável:: Orestes Quércia

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Os petistas insistem tanto em falar de FHC e Lula porque sabem que é um risco insuportável instalar Dilma na Presidência

O presidente Lula e o PT pretendem que as próximas eleições sejam uma comparação entre Lula e FHC.

É curioso como, na ânsia de ganhar a eleição e manter o padrão de vida conquistado, dirigentes e parlamentares do PT parecem se esquecer de que sua candidata se chama Dilma Rousseff. Nem sequer citam a ex-ministra em artigos e declarações.

Essa omissão poderia ser considerada uma descortesia com Dilma, mas, na verdade, revela o terror dos petistas: a comparação realmente inevitável é entre Serra e Dilma, que são os candidatos à Presidência.

E não há dúvida de que essa comparação é francamente favorável ao ex-secretário do Planejamento, ex-deputado federal, ex-constituinte, ex-senador, ex-ministro do Planejamento e da Saúde, ex-prefeito e ex-governador José Serra.

Política, como toda atividade humana, precisa ser desenvolvida com o sentido de carreira. As pessoas precisam aprender em níveis de responsabilidade menor para que possam desempenhar satisfatoriamente desafios maiores. Caso contrário, o risco do desastre é grande.

Esse raciocínio é elementar. Nenhum alpinista começa pelo Everest, a maior montanha do mundo.

Senti isso com clareza na minha própria carreira. A experiência de vereador foi fundamental para o sucesso da minha gestão como prefeito de Campinas. Desta, amadureci na política para representar São Paulo no Senado num momento de luta intensa pelas liberdades democráticas.

Do Senado, parti para ser vice-governador, onde aprendi como se comanda uma estrutura como o governo de São Paulo, que desempenhei com forte aprovação popular no momento seguinte. A vida é assim, etapa por etapa, aprendendo sempre para errar pouco e acertar muito.

Na política, a experiência é ainda mais importante. É fundamental disputar eleições, ganhar e perder, pois apenas assim se aprende a liderar, construir maiorias, vislumbrar consensos, arbitrar conflitos, persuadir, fazer impor o interesse público e administrar crises.

É desnecessário ressaltar a dimensão da Presidência. O presidente tem como primeira responsabilidade a garantia da governabilidade num ambiente adverso: dezenas de partidos, ausência de fidelidade, tendência à dispersão. A liderança de quem ocupa a Presidência é essencial para impor o interesse público.

Da mesma forma, o presidente tem a responsabilidade de manter a inflação sob controle e fazer a economia crescer mais, gerando mais emprego e renda para as pessoas.

E há muitas outras responsabilidades, como melhorar a saúde e a educação, aumentar o investimento na infraestrutura, melhorar a segurança.

O presidente tem que ter, obrigatoriamente, visão, liderança, ascendência, respeitabilidade, experiência, interlocução, preparo e vivência.

A Presidência da República não é local para amadores ou novatos em eleição. O país não pode pagar o preço, na melhor das hipóteses, do aprendizado do novo líder. No pior cenário, o país não pode cair na crise causada pela falta de liderança, de visão e de capacidade de seu presidente.

Os petistas insistem tanto em falar de FHC e Lula porque sabem, e toda a sociedade começa a perceber, que é um risco insuportável para o Brasil instalar Dilma Rousseff na Presidência.

Com todo o respeito à ex-ministra, falta-lhe tudo em experiência política, pois ela não disputou até agora uma única eleição e não exerceu nenhum mandato popular.

Percebe-se claramente, em sua fala belicosa e na completa ausência de tato na abordagem de questões políticas, que faltam eleições e mandatos em sua biografia.

Essa falta de experiência seria fatal na hora de construir maiorias, administrar interesses, formar consensos, administrar crises e fazer preponderar o interesse público.

Todos sabem que o presidente Lula contava para a sua sucessão com outros nomes mais qualificados, mas o PT perdeu esses quadros por conta dos muitos escândalos em que se meteu, em especial no célebre mensalão.

Dilma é o nome que sobrou, uma mulher trabalhadora e íntegra. Mas querer que sua primeira experiência como mandatária popular seja a Presidência da República é um desacato ao Brasil.

O eleitor, que não é bobo, já começa a perceber que Serra é infinitamente mais preparado para ocupar a Presidência. Daí o PT querer esconder Dilma atrás de Lula.

Evidentemente, não vai dar certo, pois os candidatos são Serra e Dilma.

É essa a comparação inevitável que o eleitor fará, para desespero dos petistas.

ORESTES QUÉRCIA é presidente estadual do PMDB de São Paulo. Foi governador do Estado de São Paulo (1987-91), senador pelo MDB de São Paulo (1975-83) e candidato à presidência da República nas eleições de 1994.

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