quarta-feira, 21 de julho de 2010

Campanha antiquada no novo século:: Rosângela Bittar

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Uma dose de desprezo às definições frias do calendário formal é necessária para se delimitar desde quando está no ar, na realidade dos fatos reais, a campanha eleitoral. Assim, nesses praticamente três anos de campanha eleitoral da candidata do governo à Presidência da República- sem contar o período de campanha permanente em que o nome para a disputa não esteve definido -, e nesses seis meses de campanha eleitoral do candidato da oposição, ainda não surgiu a inovação, o instrumento, o mecanismo, a peça, a ideia que poderia identificar esta sucessão presidencial com a atualidade. A campanha de 2010 não ganhou sua marca da modernidade, não parece contemporânea.

Ainda. Há, nos staffs do marketing, esses ainda em alta total, uma tênue esperança. A de que, se houver ainda um sinal de vanguarda nesta campanha, ele virá de algo ligado à Internet, ainda a conferir mais à frente porque, até agora, nada aconteceu.

Mas não será no que diz respeito à arrecadação de recursos, expectativa frustrada até o momento pelas dificuldades operacionais e obstáculos erguidos por operadoras de crédito, amarras difíceis de desatar.

Pela Internet, embora não represente o avanço digno de registro, como seria a contribuição financeira, está funcionando o twitter, que as avaliações definem como um instrumento diferente nesta campanha que tem se revelado produtivo. Qual a contribuição do twitter?

Em outras campanhas, qualquer declaração do candidato tinha que ser feita em uma entrevista na qual havia a interferência do interlocutor, seja na formulação das perguntas, na réplica ou comentário. Hoje, o candidato posta uma notícia e não tem o contraditório imediato. A partir daí, os veículos da imprensa multiplicam aquele recado, deixando o candidato mais preservado, inacessível a uma contestação.

A possibilidade de algo acontecer no meio Internet, apesar dos pesares, que são muitos - influência relativa pela baixa audiência em comparação ao rádio e televisão, mau uso desde 1998, quando começou, e empregado mais para a maledicência que para o bem - será na área de mobilização. Não é seguro, porém, que as campanhas consigam fazer redes de relacionamento que possibilitem atingir esse objetivo.

Os comícios já não acontecem, como fato político, há tempos e nesta campanha já foram firmadas teorias a respeito deste tipo de evento. Não porque tenha sido um fiasco o comício do PT-PMDB no Rio, marcado para iniciar com passeata em nobre e histórico trajeto da política, da Candelária à Cinelândia, a série de comícios da candidata Dilma Rousseff. Choveu, é verdade, mas não se deve à chuva o erro de estimativa de 100 mil pessoas para as efetivas mil, ou 5 mil, ou 15 mil em determinado horário, enfim, qualquer número que diferentes matemáticos tenham apresentado. Não importa.

Os comícios funcionam de maneiras diferentes para cada candidatura. No caso do PT e Dilma, pelo fato de terem Lula no palanque e militantes animados na plateia, seria natural que quisessem aproveitar o comício para dar uma demonstração de força, para efeito nas reproduções em telejornais. Mas não têm nada muito a ver com a eleição.

São 135 milhões de eleitores, disse ontem o Tribunal Superior Eleitoral, e, digamos que um comício de absurdo sucesso reúna 50 mil, não é nada. Mostra-se na TV, grava-se uma tomada para o horário eleitoral gratuito (cada vez menos estão sendo aproveitados nesses programas) e nada se vê mais de emoção.

Existem estudos que mostram que o comício é um ato político de políticos para políticos, um discurso unilateral, um brilhareco pessoal, às vezes, ou nem isso com a falta de oradores admiráveis que assola o país. São, hoje, uma gritaria sem fim. O eleitor não se sente incluído na cena.

Não se trata de novidade, avanço ou atualidade, mas a eficácia em que se aposta nesta campanha de 2010 é mesmo a exposição do candidato no rádio e televisão. Tanto no horário eleitoral gratuito, que vai começar em 17 de agosto, como em telejornais diários das emissoras comerciais como protagonista de algum fato político.

Os telejornais comprometeram-se a apresentar os candidatos diariamente, fazendo a cobertura de sua agenda, a partir do início de agosto, de forma equânime, o que leva sua direção de campanha a prepará-los para aparecer no ar durante 60 dias, em situações positivas e com um discurso inteligente. Há campanhas que dão a isto o segundo peso em importância, logo depois do horário eleitoral gratuito. Só não dão a ele o primeiro lugar porque o horário gratuito é editado pelas próprias campanhas e só vai ao ar o que a direção de marketing quer. Os telejornais seguem o critério jornalístico. Em compensação, os telejornais são um espaço de grande audiência e maior credibilidade que o horário eleitoral gratuito.

Os debates também ainda têm seu peso. A impressão de leigos é que o debate, tarde da noite, um programa que apresenta um discurso complexo, cansativo, é geralmente visto só por quem já tem o voto definido. Porém, a avaliação técnica é outra. As análises de campanha mostram que o debate deixa um resíduo que se consolida nos dias seguintes. O eleitor faz considerações sobre o que viu, ouve comentários, conversa com amigos e colegas de trabalho, e as impressões sobre o debate se multiplicam.

No quesito uso da máquina pública para fazer campanha eleitoral privada e disputar o voto esta campanha está se apresentando não só reacionária, atrasada, anacrônica, como registra grave retrocesso. Nunca a máquina e o abuso de poder político foram instrumentos usados com tanta intensidade, desfaçatez e imprudência como hoje. Nem nos grotões da campanha eleitoral com par de botina e chapa, nomeação do fiscal de impostos e delegado de polícia, as ilegalidades tinham os níveis de hoje. Um recorde de 2010.


Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

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