quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Reflexão do dia - Leôncio Martins Rodrigues

“Parte das ideias do programa (de Direitos Humanos) responde à ideologia e a um modo de pensar de setores da esquerda. Há modismos no texto, análises chinfrins, primitivas. Uma nova elite de origem plebeia ascendeu com o Lula. Chegou ao poder vindo de baixo. Essa elite não eliminou a outra, ao contrário, fez acordos. Pelo impulso do Lula, que tinha consciência de que precisaria de acordos, com Sarney, Renan. Houve aproximação com a elite conservadora.

Engraçado, não houve aliança com a elite moderna, intelectualizada, agrupada em torno do Fernando Henrique.”


(Leôncio Martins Rodrigues, na entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, domingo)

Merval Pereira :: Forjando a união

DEU EM O GLOBO

O governador de Minas, Aécio Neves, deu mais um passo na construção de uma imagem de liderança nacional ao definir claramente sua participação na campanha presidencial como sendo, sem tergiversações, no campo da oposição. A partir da definição de que seu projeto pessoal está intimamente ligado ao projeto nacional do PSDB, e que a unidade da oposição é o pressuposto para a vitória na sucessão de Lula, o governador mineiro deu consequência ao discurso político que vem desenvolvendo desde que decidiu desistir da précandidatura à Presidência

Considerar Aécio Neves um ingênuo ou um político afoito e irresponsável é cometer um grave erro, e os petistas parece que caíram nessa esparrela. Passaram a difundir que o governador mineiro estaria magoado com seu partido e que faria corpo mole na campanha presidencial para não dar apoio à candidatura do governador paulista, José Serra.

Esse raciocínio político tosco não leva em conta que Aécio retirou-se da disputa para se tornar protagonista da decisão tucana. Fez um movimento estratégico que o colocou como um líder com visão de futuro, e não como aquele que provoca uma divisão partidária por interesses imediatistas.

O que o torna o fiel da balança para uma decisão tucana é que seu peso político em Minas e em outras regiões do país, como o Rio, pode não ser suficiente para colocá-lo na liderança das pesquisas, mas é grande o bastante para definir uma eleição nacional.

E esse apetite pela política nacional ele tem demonstrado nas conversas dos últimos dias, com informações atualizadas sobre a situação de diversos estados.

Mas a cada dia que passa Aécio demonstra que sabe que não pode ter dimensão nacional se não cuidar de sua seara política local, e por isso não basta a ele se eleger senador, ou mesmo eleger Antonio Anastasia o governador de Minas.

Por um desses golpes do destino, a candidata adversária Dilma Rousseff é mineira de nascença, embora tenha feito sua vida profissional e política fora do estado.

Minas tornou-se então um ponto fundamental da disputa eleitoral. Juntandose a isso o fato de que o PT mineiro tem uma estrutura forte no estado, e dois candidatos importantes, o ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, “o pai” da Bolsa Família, e o exprefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, temos aí um desafio e tanto para a liderança de Aécio Neves.

Mesmo tendo a eleição para o Senado garantida, de nada servirá a Aécio ser um senador de uma bancada minoritária e fraca, com o PT governando o país e seu estado ao mesmo tempo.

Mesmo elegendo o governador, se a candidata oficial vencer a eleição, com votação forte em Minas, o senador Aécio ficará enfraquecido em Brasília, e o Senado deverá continuar sendo presidido pelo PMDB.

Ao evitar receber o presidente Lula em Minas para a inauguração da barragem em Jenipapo de Minas, no Vale do Jequitinhonha, a região mais pobre do estado, o governador mineiro deixou claro que não alimentará a campanha de Dilma com posições ambíguas.

Como vem acontecendo com frequência alarmante nesses últimos meses, a inauguração transformou-se em campanha eleitoral aberta, com a candidata travestida de ministra fazendo terrorismo eleitoral contra a oposição. As críticas à inoperância do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) transformaram-se, no palanque governista, em ameaça de acabar com o programa em si, como se a barragem que acabava de ser inaugurada pudesse não existir se a oposição estivesse no governo.

Uma amostra de que a disputa será mais que vigorosa, e que o governador mineiro, assim como o paulista, terão que competir com obras com o governo federal antes de se desincompatibilizarem no final de março.

O presidente Lula já anunciou que pretende inaugurar, com Dilma a seu lado, “o máximo de obras possível” até o último prazo legal.

A postura mais engajada do governador mineiro no projeto nacional do PSDB dispensaria até mesmo a alternativa de ele vir a ser o vice numa chapa tucana purosangue. Mas, na entrevista que deu esta semana, o governador Aécio Neves abriu uma brecha na até então irremovível barreira que colocava a essa possibilidade, embora continue negando-a.

Mais importante do que ter dito que “irreversível é só a morte”, foi o governador colocar a questão em termos de ajudar a vitória de Serra à Presidência, no mesmo plano da eleição de governador do estado: “Não acho que eu possa ajudar mais a candidatura do PSDB do que estando em Minas Gerais, eventualmente como candidato ao Senado, ajudando a dar a vitória ao nosso candidato ao governo em Minas Gerais e ao nosso candidato à Presidência da República”.

Nesses termos, se a continuidade da campanha eleitoral demonstrar que a presença de Aécio Neves na chapa do PSDB é mais interessante para o projeto nacional do partido do que sua candidatura ao Senado, ele terá condições de rever sua posição.

Mais uma vez, como na renúncia à pré-candidatura, ele será o senhor da decisão, em uma estratégia de convergência de interesses, e não de divisão.

Ao contrário do que escrevi aqui ontem, o ex-presidente do Chile Eduardo Frei Montalva, pai do candidato derrotado da Concertação Eduardo Frei — também ex-presidente chileno — morreu em um hospital e não na prisão.

Tendo se transformado em opositor do golpe militar que colocou o general Pinochet no poder, Eduardo Frei Montalva foi envenenado, e a prisão dos acusados pelo crime foi decretada na reta final da eleição, dez anos depois de iniciado o processo.

Dora Kramer:: Banho de sol

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O Congresso Nacional bem que tentou submeter a Justiça Eleitoral às suas conveniências, com o arremedo de reforma política aprovada em meados do ano passado.

Não mexeu na lei a fim de impedir candidaturas de gente de vida pregressa duvidosa, mas alterou a legislação de forma a facilitar o uso do caixa 2 e dificultar a identificação de infratores.

Na ocasião, o Tribunal Superior Eleitoral alertou para os retrocessos e agora preparou uma série de resoluções divulgadas a partir da semana passada e a serem aprovadas até o dia 5 de março próximo, para recuperar a condução do processo no tocante à preservação da conduta de partidos e candidatos.

O "pacote" investe contra as chamadas "doações ocultas", obrigando a identificação de doadores e beneficiados por recursos, permite doações de pessoas físicas pela internet e com cartão de crédito - meios que asseguram registro - e exige o preenchimento de um formulário detalhado sobre a vida processual e financeira de cada postulante a mandato eletivo no momento da inscrição da candidatura.

O tribunal não pode alterar o espírito da lei, mesmo tendo sido de obscurecer o ambiente eleitoral a intenção original. Mas, como aponta um ministro do TSE, nada impede o Judiciário de "primar pela transparência" na regulamentação do texto legal.

É o que se tenta fazer, por exemplo, com a resolução sobre o registro de candidaturas. O veto aos chamados fichas-sujas é impossível enquanto não houver na Constituição uma exceção ao princípio da declaração de culpa só depois de esgotados todos os recursos judiciais.

Vida pregressa não pode ser fator de inelegibilidade, mas o TSE não está proibido de facilitar o acesso do eleitor aos dados da vida do candidato. Pensando nisso, a resolução pede que no formulário do registro de candidaturas os partidos apresentem um histórico detalhado sobre os processos de cada um e um detalhamento minucioso sobre as finanças dos pretendentes, semelhante ao exigido pela Receita Federal.

A ideia do tribunal é pôr todas as informações à disposição do público no site do TSE. Quem quiser, digita o nome e o partido do candidato e pode ter acesso ao histórico. Hoje, além de os dados serem mais genéricos que o pretendido, o exame das informações só pode ser feito no cartório eleitoral.

A preocupação da Justiça Eleitoral é baixar as resoluções de forma a não deixar brechas para a alegação de que o Judiciário extrapola de suas funções e legisla.

Conta em seu favor com o fato de as mudanças feitas pelo Congresso não terem deixado, na redação, explícita a intenção de facilitar a vida dos partidos. Com isso, o tribunal acha que tem margem para trabalhar na interpretação do texto sem exorbitar.

Mesmo assim, é esperada a reação dos partidos que, de público, ainda não se manifestaram, muito embora já tenham sido detectados sinais de abordagens isoladas a um ou outro ministro no sentido de amenizar a austeridade das exigências das resoluções.

Tempo para o Congresso reagir coletiva e objetivamente não há. As resoluções serão discutidas e votadas entre os próximos dias 2 e 5 de março, a primeira semana de trabalho do Poder Legislativo após o recesso.

Além da impossibilidade de se votar novas leis nesse período, elas não valeriam para as eleições de outubro.

Coreografias

O governador de Minas, Aécio Neves, decidiu não acompanhar o presidente Luiz Inácio da Silva e a candidata, a ministra Dilma Rousseff, em visita ontem ao Estado.

Segundo versão tucana, para não "constranger" o governador de São Paulo, José Serra, em sua condição óbvia de candidato do PSDB, à Presidência da República.

"Participar dessa agenda, agora, provocaria especulações", diz alguém identificado nas reportagens como "dirigente tucano".

Especulações de qual natureza? De que Aécio preferiria agradar Lula a se engajar na campanha de seu partido onde joga também o próprio destino? Não faz sentido.

Ademais, o governador até outro dia recebia Lula e Dilma - como fez na visita show às obras de transposição das águas do Rio São Francisco - sem se preocupar com especulações e constrangimentos.

Agora o que mudou é que Aécio não pode mais perder tempo com jogos de aparência e precisa cuidar da realidade: atrair o PMDB, fazer deslanchar a candidatura a governador do vice Antonio Anastasia e assumir um perfil nítido ante o eleitorado.

Humanidades

O resgate de sobreviventes quase uma semana depois do terremoto no Haiti e a avaliação das equipes de que possa haver ainda mais gente viva sob as ruínas mostram o equívoco do ministro da Defesa, Nelson Jobim, de "eufemismo" falar em desaparecidos, e não mortos, 48 horas após a tragédia.

Uma coisa é realismo, outra aspereza de espírito.

José Nêumanne :: O fantasma da vingança espreita a eleição

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A polêmica provocada pelo decreto criador do 3º Programa Nacional dos Direitos Humanos (PNDH) mostra que ainda não acabou a cesura que remonta às origens do Partido dos Trabalhadores (PT) sobre a natureza da democracia pretendida por seus militantes. Será a clássica democracia burguesa de controles e contrapesos exigidos pelos Pais Fundadores da Revolução Americana de 1783, com a adoção de três Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário) autônomos e soberanos, fórmula do francês Montesquieu? Ou a direta, a ser exercida por consultas permanentes à cidadania por plebiscitos e referendos e por conselhos compostos por delegados (neste debate se tem lembrado que soviet significa conselho em russo)? A diferença entre as duas é que a primeira é obviamente imperfeita e a segunda, impossível de ser praticada, tal como define seu significado semântico, conforme disse o cientista político Leôncio Martins Rodrigues em entrevista a este jornal, domingo.

A dúvida traz outra à baila: será a eleição dos mandatários do Executivo e dos representantes do cidadão no Legislativo o momento crucial do exercício do poder pelo povo, como determina a Constituição (no caso do Brasil, mais do que isso, pois nossa democracia é exclusivamente eleitoral), ou apenas um pretexto para galgar o poder e de lá submeter a Nação às próprias convicções? A resposta a essa pergunta é fundamental neste momento em que o País se prepara para viver a sexta escolha direta do chefe do Poder Executivo desde o fim da vigência do acordo negociado na cúpula para a extinção do regime autoritário e sua substituição por um Estado Democrático de Direito, nos moldes definidos na velha democracia burguesa. Luiz Inácio Lula da Silva subiu a rampa do Palácio do Planalto impulsionado por duas votações que manifestaram a inequívoca vontade da maioria do eleitorado de vê-lo no poder. Seu talento inato para se comunicar com o cidadão comum o tornou o mais popular governante do Brasil desde Tomé de Souza e com parcas chances de vir a ser superado nisso, a julgar pelos quadros atuantes na política e na gestão pública.

Lula fez-se conhecer como dirigente sindical desatrelado do peleguismo no controle da organização dos trabalhadores pelo PTB de Getúlio Vargas e do anarcocomunismo que dirigia o sindicalismo antes das greves do ABC, nos anos 70. Incorporou-se à tradição conciliadora que moldou o estilo de importantes homens públicos brasileiros: dom Pedro II, Bernardo de Vasconcelos, Getúlio Vargas e Tancredo Neves. A primeira conciliação, mercê de seu talento para o ecumenismo, deu-se já na fundação do PT. Antes, dizia-se que a esquerda brasileira só se unia na cadeia. Sob sua égide se reuniram egressos de grupos guerrilheiros de posições inconciliáveis com líderes sindicais apartidários (caso dele próprio) e a esquerda católica, dividida entre políticos "progressistas" da democracia cristã e militantes da Teologia da Libertação, em comunidades eclesiais de base e pastorais.

O tão decantado carisma de Lula e sua habilidade de milagroso domador dos gatos desse incrível saco foram insuficientes para levá-lo ao poder e à glória de agora nas três tentativas que fez antes de chegar à Presidência - a primeira contra Collor e outras duas contra Fernando Henrique Cardoso. O milagre da ascensão ao topo do poder só foi possível com a segunda conciliação, fruto de seu oportunismo e iniciada com o abandono do programa socialista, que unia apenas os três grupos originais do PT, e a adoção de um discurso de austeridade fiscal e combate à inflação da era pós-Palocci. O desgaste dos laços que atavam o saco de gatos, amarrado pelos pretensos social-democratas sob Fernando Henrique, permitiu a Lulinha Paz e Amor promover a segunda e ainda mais bem-sucedida conciliação com a escória da velha política brasileira, que os petistas de antanho chamavam de "isso que está aí". A reverência que o atual presidente fez ao ex Sarney, ao evitar a degola dele na presidência do Senado, teve natureza simbólica, pois a certeza do clã maranhense de que o candidato tucano à sucessão de Fernando Henrique, José Serra, tivera papel decisivo na perseguição à herdeira do chefão, Roseana, no episódio da descoberta de dinheiro vivo em seu comitê eleitoral, foi determinante para a desistência da candidatura por ela. E a senha oportuna para a velha plutocracia mudar de palanque, como agora para beijar a mão da guerrilheira aposentada Dilma Rousseff.

É claro que a fisiologia descarada só se curva hoje à Utopia derrotada na guerra suja, mas vitoriosa no confronto ideológico, seja com a direita que desabou com a ditadura, seja com os liberais da pusilânime aliança PSDB-DEM, porque não quer largar o osso do poder. Nisso, aliás, imita o mais poderoso, Lula, que quer eleger a chefe da Casa Civil na convicção (talvez ilusória) de que será conviva de honra nos banquetes da fortuna e da glória depois da posse de quem lhe suceder.

Há, contudo, entre o criador e a criatura mais diferenças do que pode supor sua débil filosofia. Uma delas é que, por menos que saiba disso, o matreiro Lula ajudou a derrubar o autoritarismo de cima do palanque do Estádio de Vila Euclides, em São Bernardo, tornando-se, com todas as honras, herói desta democracia que está aí, por mais imperfeita que ela possa ser. E a guerrilheira desalmada e desarmada participou de um processo de enfrentamento militar que só prolongou a longa noite dos porões. E, depois, penetrou no centro das decisões no vácuo do chefe. Isso induz democratas assustados a imaginar que o 3º PNDH seja um projeto de vingança a ser realizado em seu eventual, embora provável, futuro governo. Enquanto ela não esclarecer isso com todas as letras, este fantasma que reabre feridas já cicatrizadas faz tempo continuará a nos espreitar.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde

Lula acelera o programa de palanques

DEU EM O GLOBO

O presidente Lula disse ontem que até abril vai acelerar o ritmo de inaugurações porque depois a ministra Dilma Rousseff, candidata à sua sucessão, não poderá mais participar desses eventos. E Dilma disse que a oposição quer acabar com o PAC.

Velocidade máxima

Lula avisa que vai acelerar ritmo de inaugurações; Dilma diz que oposição acabará com PAC

Fábio Fabrini Enviado especial • JENIPAPO DE MINAS, ARAÇUAÍ e JUIZ DE FORA (MG)

Em novo evento com ar de campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, précandidata petista à Presidência, provocaram ontem a oposição, prometeram obras e vincularam a manutenção das ações do governo à continuidade da administração do PT. Numa situação inversa à de 2002 — quando os adversários falavam do “risco PT”, caso Lula ganhasse a eleição — a ministra disse em discurso que hoje há o perigo de o PSDB acabar com Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), se vencer as eleições de outubro.

Na entrega de uma barragem de irrigação em Jenipapo de Minas, no Vale do Jequitinhonha (MG), a ministra disse que, após investir contra programas de transferência de renda, uma das bandeiras petistas, os tucanos atacam o PAC. Cobrada no palanque por prefeitos da região, prometeu o asfaltamento de trechos da BR-367. E chorou, ao falar sobre suas origens mineiras.

— Foi o próprio presidente do partido da oposição que disse que acabaria com o PAC como uma das medidas que seriam tomadas, porque o PAC não existe. Ele acabaria com essa história, o que é muito grave, porque estamos justamente inaugurando uma obra concreta, real, que todos vocês sabem que existe — afirmou Dilma, referindo-se à recente entrevista do presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra. — Vira e mexe, quiseram acabar com algum programa do governo Lula. Em 2006, foi a época em que quiseram acabar com o Bolsa Família. Agora, querem acabar com obras como esta que nós estamos aqui inaugurando. E isso nós não vamos deixar.

Falando em seguida, Lula retomou as provocações. Avisou que este trimestre será de muitas outras inaugurações em Minas. O objetivo, segundo ele, é dar publicidade aos responsáveis pelos projetos antes que a legislação eleitoral impeça.

— Neste trimestre, vamos precisar visitar muito Minas e vamos precisar pegar todas as obras em Minas, que são muitas, inclusive de barragens, para que a gente possa inaugurar, porque, a partir de abril, o Geddel (Vieira Lima, ministro da Integração Nacional) não estará mais no governo, a Dilma não estará mais no governo e quem for candidato não pode nem subir no palanque comigo. É importante que a gente inaugure o máximo de obras possível, para que possa mostrar quem foram as pessoas que ajudaram a fazer as coisas neste país.

Dilma é só elogios para Aécio Neves

Apesar das críticas à oposição, Dilma afagou o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), cuja popularidade é alta no estado, e elogiou seu trabalho em conjunto com o Planalto.

Construída por R$ 203,9 milhões, a barragem — que servirá para irrigação e criação de peixes, entre outros fins —, teve R$ 20,4 milhões de contrapartida do governo mineiro e foi executada pela Ruralminas, órgão vinculado ao Palácio da Liberdade.

— Os prefeitos de Minas e o governador Aécio têm sido parceiros exemplares, republicanos do governo federal e têm, conosco, enfrentado o desafio que é mudar o Brasil — disse Dilma, diante de um público estimado em três mil pessoas.

Mais tarde, ao inaugurar uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Juiz de Fora, Lula reafirmou que vai viajar pelo Brasil e reclamou da ausência de Aécio: — Vai ser uma situação complicada porque estamos em ano eleitoral, e a disputa já começou. Estou em uma atividade institucional de presidente da República e aqui deveria estar o governador de Minas. É preciso que essa parceria funcione, mas na eleição, vou vir aqui falar da minha candidata, e o Aécio, do candidato dele. A partir de junho, o que vale é: quem é Cruzeiro, é Cruzeiro.

Quem é Atlético, é Atlético — disse Lula, anunciando que Dilma deixará o governo em 3 de abril, prazo estabelecido pela Justiça Eleitoral.

As viagens por Minas, segundo colégio eleitoral do país, vão se intensificar, na previsão do Planalto. Além de evitar o confronto com Aécio, o objetivo é estreitar os laços de Dilma com o eleitor mineiro. Ao discursar ontem, ela lembrou que nasceu em Belo Horizonte, onde estudou até iniciar o curso de economia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), quando a perseguição da ditadura militar a forçou a se mudar para o Rio Grande do Sul. Com a voz embargada e lágrimas nos olhos, concluiu: — Não vou concordar com que haja um discurso para saber se sou mineira ou não. Não tenho a menor dúvida de que sou. Quero dizer e vocês sabem que é assim na vida: a gente pode sair do estado onde nasce, mas ele não sai da nossa alma e do nosso coração.

Na entrega de uma escola técnica em Araçuaí, Lula fez uma referência aos seus antecessores, e, assim como Dilma, sugeriu que uma eventual mudança de poder seria um retrocesso: — Que me desculpem os adversários, mas nós vamos ganhar para poder ter continuidade. Se para tudo o que está acontecendo neste Brasil e a gente volta ao passado, todo mundo sabe como é que é.

PSDB reage a 'artimanha do PT'

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em nota, sigla diz que rivais repetem "fantasia" de 2006

Carolina Freitas

Coube ontem à senadora Marisa Serrano (PSDB-MT) rebater as críticas feitas pela ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, durante a maratona de eventos que a petista cumpriu em Minas Gerais. Vice-presidente do PSDB, Marisa soltou nota em resposta à tese de que seu partido quer pôr fim aos programas do governo Lula.

A tucana afirmou que Dilma adota as mesmas "artimanhas do PT". A sigla, segundo ela, investia já em 2006 na "fantasia sobre o fim dos programas sociais e a privatização de empresas estatais". Ao comentar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), Marisa subiu o tom. "Os brasileiros sabem que o PAC não é um programa de obras e sim um slogan publicitário."

A senadora afirmou que o PSDB deseja "o aperfeiçoamento das estatais e a continuidade do Bolsa-Família" e reivindicou a autoria do benefício, dizendo que a posição vale para "todos os programas sociais criados" quando PSDB presidia o País.

SERRA

Já o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), criticado pelo PT por sua própria estratégia publicitária, prometeu ontem que continuará a "esconder" o logotipo do governo em materiais de divulgação de ações administrativas. "Tucano é nota 100 em esconder a autoria das coisas. Nem todo mundo no Brasil é nota 100 nessa matéria, pelo contrário", disse, ao apresentar kits escolares da rede estadual. "O material é de muito boa qualidade, no estilo tucano: esconde o nome do governo."

Só que os únicos itens do kit que não traziam o logotipo do governo eram a borracha e o apontador. Mochila, caderno, lápis, caneta e cola tinham o símbolo estampado. "Tucano é avesso a fazer publicidade quando está no governo. Não se pode dizer que a gente usa a máquina governamental para promover sequer o governo, quem dirá o partido."

Serra diz que não faz propaganda com a máquina de governo

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

"Tucano é nota 100 em esconder a autoria das coisas", afirmou o governador paulista durante evento

Valéria Gonçalves/AE

Serra entrega material e ônibus escolar

SÃO PAULO - O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), disse nesta terça-feira, 19, que não vai usar a máquina pública para promover sua gestão ou seu partido. Provável candidato tucano à Presidência nas eleições deste ano, Serra disse que, sempre que possível, continuará a "esconder" o logotipo do governo do Estado em materiais de divulgação de ações administrativas, seguindo o "estilo tucano".

"Tucano é nota 100 em esconder a autoria das coisas. Nem todo mundo na política do Brasil é nota 100 nessa matéria, pelo contrário", afirmou em evento da Secretaria de Estado da Educação, na capital, para depois recusar-se a detalhar a quem se referia.

A promessa foi feita durante cerimônia para a apresentação de kits escolares e de materiais esportivos e de construção que começam a ser entregues a escolas estaduais para preparar os prédios para o início do ano letivo. "O material é de muito boa qualidade, no estilo tucano: esconde o nome do governo", disse em discurso a cerca de 300 professores, na Escola Estadual Raul Fonseca, na Saúde, zona sul da cidade.

Apesar do discurso do governador, os únicos itens do kit escolar que não traziam o logotipo do governo de São Paulo eram a borracha e o apontador. Mochila, caderno, lápis, caneta e cola tinham o símbolo estampado.

Mesmo assim, Serra disse acreditar que os políticos do PSDB são "recatados" em matéria de propaganda. "Tucano é avesso a fazer publicidade quando está no governo. Não se pode dizer que a gente usa a máquina governamental para promover sequer o governo, que dirá o partido", afirmou. "Os tucanos são imbatíveis nessa matéria. Está no DNA. É uma virtude."

Questionado sobre a importância de esconder a autoria das ações governamentais, Serra disse não querer influenciar o voto dos eleitores. "Você faz, mas as pessoas ficam sem saber, portanto você não está induzindo o voto de ninguém."

Entrega

O Programa de Preparação do Ano Letivo inclui a distribuição de material escolar e livros didáticos à rede estadual, além do fornecimento de materiais de construção para pequenos reparos nas escolas. Neste ano, o governo de São Paulo gastou R$ 282 milhões com o pacote.

Segundo o secretário da pasta, Paulo Renato Souza, o material já chegou a "praticamente todas" as escolas do Estado. O prazo para entrega é a semana que antecede o carnaval, até do dia 12 de fevereiro.

A cerimônia emprestou palco ainda para a entrega das chaves de ônibus escolares a prefeitos de 12 cidades da Grande São Paulo.

Inauguração vira comício para Dilma

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A ministra Dilma Rousseff, candidata à sucessão presidencial, deu tom de comício ontem à inauguração de uma barragem no Vale do Jequitinhonha (MG). Diante de 3 mil pessoas e ao lado do presidente Lula, Dilma também ressaltou ser mineira e ter estudado em Belo Horizonte.

Em discurso, ministra afirma que oposição planeja acabar com o PAC

Fausto Macedo, enviado especial Jenipapo de Minas e Eduardo Kattah, enviado especial em Araçuaí

Na primeira agenda do ano eleitoral em território mineiro e sob administração do PSDB, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou sua candidata à sucessão presidencial, ministra Dilma Rousseff, para uma inauguração transformada em comício em Jenipapo de Minas, no Vale do Jequitinhonha, região castigada pela miséria e exclusão. Diante de 3 mil pessoas, Dilma prometeu imediata liberação de verbas para asfaltar trechos da BR 367, rodovia que corta Minas e vai até a Bahia. Ovacionada, teve o nome gritado em coro.

Na festa, para inauguração da barragem do Rio Setúbal, a ministra da Casa Civil relançou o discurso do medo, acusando a oposição de planejar o fim no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

"Aliás o próprio presidente do partido de oposição disse que acabaria com o PAC porque o PAC não existe e ele acabaria com essa história do PAC", disse a ministra, referindo-se à entrevista do presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), para a revista Veja desta semana. "É muito grave. Porque nós estamos aqui justamente inaugurando uma obra concreta e real que todos vocês sabem que existe e que está aqui ao lado."

Embalada, continuou a "satanizar" os rivais. "Vira e mexe querem acabar com algum programa do governo Lula. Em 2006, foi a época em que eles queriam acabar com o Bolsa-Família. Agora o objetivo é acabar com obras como esta que estamos inaugurando."

AFAGOS PARA AÉCIO

Apesar de centrar fogo no campo do adversário José Serra, ela dirigiu afagos ao governador de Minas, Aécio Neves - que evitou a agenda alegando compromisso "em outro lugar", segundo Lula. "Os prefeitos aqui de Minas e o governador Aécio Neves têm sido parceiros exemplares e republicanos do governo federal", disse Dilma. "A barragem é uma obra do PAC com parceria produtiva e muito bem-sucedida com o governo de Minas."

Em seguida, a candidata do PT emendou: "Aqui temos prefeitos e prefeitas que sabem que o PAC é uma obra concreta. Aí eu queria aproveitar e dar uma notícia para vocês. Há pouco o presidente determinou. Nós ligamos para o DNIT e o presidente decidiu que vamos agora prometer mais uma obra. Que nós iremos cumprir, o asfaltamento dos dois trechos da BR 367. Será novamente uma obra do PAC. O PAC é isso. Nós cumprimos o que prometemos."

MINEIRICE

A ministra também aproveitou o palanque para reforçar seus vínculos com Minas. "Eu não vou concordar que haja uma discussão para saber se eu sou mineira ou não sou. Eu não tenho a menor dúvida de que eu sou mineira. Em que pese eu ter saído de Minas, passado uma parte da minha vida no Rio Grande do Sul, eu quero dizer a vocês: a gente pode sair do Estado onde nasce, mas ele não sai da nossa alma e do nosso coração."

Depois do discurso de Dilma, foi a vez do presidente Lula assumir o microfone e anunciar a estratégia para o ano eleitoral, que inclui uma maratona de viagens a Minas, sob o domínio tucano.

"Eu disse para o Geddel (Vieira de Lima, ministro da Integração) que nestes primeiros três meses de 2010 vamos precisar visitar muito Minas. Vamos precisar pegar todas as obras que têm aqui, e são muitas, para que a gente possa inaugurar tudo porque a partir de abril o Geddel já não estará mais no governo, a Dilma já não estará mais no governo. E quem for candidato não pode nem subir no palanque comigo. Então, é importante que a gente inaugure o máximo de obras possível para que a gente possa mostrar quem foram as pessoas que ajudaram a fazer as coisas neste país."

Mais tarde, ainda no Vale do Jequitinhonha, Lula levou Dilma para a inauguração de uma escola técnica na cidade de Araçuaí. E voltou a cutucar a os adversários, afirmando ter certeza da vitória petista na disputa presidencial.

"Sabem que eu não posso discutir eleição. A única coisa que eu tenho certeza é de que nós vamos fazer a sucessão presidencial. Que me desculpem os adversários, mas nós vamos ganhar para poder terem continuidade essas coisas." Antes, Dilma já havia reiterado a tese de que o PSDB planejaria o fim do PAC.

Ao lado do presidente, Dilma ainda participou da inauguração da nova fase da Usina Termelétrica de Juiz de Fora, a primeira do mundo a operar com etanol, além do gás natural.

Colaborou Kelly Lima

PSDB mantém crítica ao PAC e acusa Dilma de terrorismo

DEU EM O GLOBO

Em nota, partido diz que ministra recorre à "retórica do medo e da mentira" e que programa é "peça de ficção"

Maria Lima

BRASÍLIA. A cúpula do PSDB reforçou ontem as críticas ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que diz ser um fiasco eleitoreiro, mas reagiu ao discurso de Dilma Rousseff, que acusou a oposição de querer acabar com a iniciativa. Em nota oficial e em entrevistas, líderes tucanos acusaram Dilma de recorrer “ao terrorismo” e à “retórica do medo e da mentira”, como na campanha presidencial de 2006, quando o PT espalhou que, se eleito, o tucano Geraldo Alckmin, privatizaria a Petrobras e bancos oficiais.

“Diante de sua reconhecida falta de experiência política, a ministra Dilma Rousseff adota as conhecidas artimanhas do PT que, historicamente, aprimorou de maneira nunca vista a retórica do medo e da mentira. Foi assim em 2006, quando criou a fantasia sobre o fim dos programas sociais e da privatização de empresas estatais.

Felizmente, não se consegue enganar o povo o tempo todo”, diz a nota assinada pela vice-presidente do partido, Marisa Serrano. O presidente Sérgio Guerra está no exterior.

A nota frisa que o PSDB quer melhorar o desempenho das estatais e continuar o Bolsa Família, assim como os programas sociais criados quando o partido era governo; mas repete as críticas de Guerra. “O PAC não passa de um amontoado de obras sem foco nem objetivo”, diz. “Está claro que o PAC é apenas uma peça de ficção”.

— Dilma não tem estatura moral para atacar o PSDB. Na campanha passada tentaram aterrorizar o povo. Todos sabem que o PSDB sempre governou com responsabilidade. Essa tática do terrorismo não vai colar! — reagiu o senador Marconi Perillo (PSDB-GO).

O líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), disse que Dilma partiu para o baixo nível. E atacou o PAC: — A Dilma é uma decepção! É gestora do quê? Gestora de baixo nível? Apelar para o baixo nível, a calúnia, a mentira, difamação? O que o Sérgio Guerra disse é real, o PAC em três anos não executou mais que 33% das obras previstas. Foi um fiasco

Queda do investimento piora contas externas, diz Ricupero

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Denyse Godoy
Da Reportagem Local


A crise econômica internacional de 2008/2009 continuará afetando o fluxo de investimento estrangeiro para o Brasil por alguns anos ainda, na avaliação de Rubens Ricupero, ex-secretário geral da Unctad, ex-ministro da Fazenda (governo Itamar Franco) e colunista da Folha.

Devido a essa menor disponibilidade de dinheiro, ficará mais difícil para o país cobrir o deficit nas suas transações correntes (as quais englobam, por exemplo, operações comerciais do Brasil com outras nações e remessas de lucros feitas por empresas estrangeiras instaladas no país). Se essa conta fica negativa, significa que o país está mandando mais dinheiro para fora do que recebendo, então precisa atrair recursos de outras nações a fim de se equilibrar.Ricupero alerta, porém: "É preciso tomar cuidado com a dependência excessiva do financiamento externo, especialmente quando o investimento está diminuindo". Leia abaixo trechos da entrevista concedida por ele.

FOLHA - Os investimentos estrangeiros no mundo todo foram muito afetados pela crise. Mas quais são as perspectivas para a recuperação desse fluxo nos próximos anos?

RUBENS RICUPERO - Acho que não veremos tão cedo um retorno do investimento aos elevados patamares da sua época de ouro, na década de 1990. Ninguém está prevendo uma forte volta da atividade econômica nos próximos três a quatro anos no mundo industrializado, o que é um diferencial a favor dos emergentes. Mas isso significa que os empresários adotarão uma certa cautela, já que não vislumbram um cenário de grande demanda. Em um momento de grande insegurança, é difícil que exista o otimismo que leva ao investimento produtivo de longo prazo.

FOLHA - Que efeitos essa tendência trará para o Brasil?

RICUPERO - O cenário é preocupante. Há dois anos as contas externas brasileiras voltaram a ser deficitárias, e a expectativa da maior parte dos especialistas é que esse saldo negativo se amplie. O país está esperando atrair consideráveis volumes de investimento para os seus principais projetos, como os de infraestrutura e o pré-sal, e usar esses recursos para cobrir o buraco. Pode ser que não aconteça. O Brasil deve receber menos do que imaginava. E ainda surgem economistas defendendo a ideia de que o estágio de desenvolvimento no qual o país se encontra "permite" que tenha contas externas ruins.

FOLHA - Por que o senhor discorda dessa ideia?

RICUPERO - Só faria sentido se fosse realmente possível contar com esses recursos de outros países. E não é o que a realidade internacional sugere. É preciso tomar cuidado com a dependência excessiva do financiamento externo, especialmente em um momento no qual o investimento está diminuindo.

FOLHA - Como resolver isso?

RICUPERO - É essencial aumentar a taxa de investimento e de poupança do setor privado. Para conseguir isso, deve-se atacar o problema da expansão exagerada dos gastos do governo, diminuindo o seu peso e abrindo espaço para a atuação das empresas.

Rombo na Previdência cresce e chega a R$ 42,9 bi

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O déficit da Previdência Social cresceu de R$ 36,2 bilhões em 2008 para R$ 42,9 bilhões no ano passado. Foi um salto de 12,65%, resultante da crise econômica que levou à perda de vagas e à queda nos recolhimentos previdenciários. Mas, no ano, a arrecadação do setor foi recorde: R$ 182 bilhões.

Rombo da Previdência Social cresce 12,6% e fecha ano em R$ 42,9 bilhões

Apesar da arrecadação recorde de R$ 182 bilhões, impacto da crise no 1.º semestre prejudicou as contas do INSS

Fabio Graner

BRASÍLIA - A combinação de receitas em ritmo mais fraco e despesas em aceleração fez o déficit da Previdência Social dar um salto e fechar 2009 em R$ 42,9 bilhões. Foi um crescimento de 12,65% em termos reais ? considerando o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) ? em relação a 2008, quando, pela primeira vez desde 2005 o saldo negativo da Previdência havia registrado queda, fechando em R$ 36,2 bilhões.

A crise financeira global, que afetou a economia brasileira fortemente no primeiro semestre do ano passado, prejudicou as contas do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). É que, com os cortes de vagas nos primeiros meses do ano e a lenta recuperação do emprego nos meses seguintes, o ritmo de crescimento da receita previdenciária desacelerou. Em 2008, quando a economia estava a pleno vapor, as receitas haviam tido expansão real de 9,15%. No ano passado, a alta caiu para 6,1%. De qualquer forma, o desempenho não pode ser considerado ruim, tanto que a arrecadação de 2009 ainda foi recorde: R$ 182 bilhões.

O secretário de Políticas de Previdência Social, Helmut Schwarzer, afirmou que no segundo semestre de 2009, especialmente no fim do ano, a arrecadação do INSS voltou a crescer com mais velocidade, refletindo a recuperação da atividade econômica. Esse ritmo melhor, combinado com a contribuição recolhida sobre o décimo terceiro salário, fez com que a Previdência tivesse superávit de R$ 1,8 bilhão em dezembro.

O estrago foi maior, em 2009, pelo lado das despesas. Refletindo o aumento do salário mínimo de R$ 415 para R$ 465 e também do pagamento de sentenças judiciais, o gasto com benefícios previdenciários subiu 7,3% em termos reais no ano passado, atingindo o valor também recorde de R$ 224,9 bilhões. Em 2008, o crescimento das despesas havia sido de apenas 1,1% ante o ano anterior.

O quadro de deterioração das contas da Previdência em 2009 lembra o período de 2002 a 2006. Naquela época, os reajustes reais do salário mínimo eram aleatórios e não foram acompanhados de forte arrecadação, por causa das ainda baixas taxas de crescimento da economia e do mercado de trabalho. Para Schwarzer, essa situação não se repetirá este ano. Ele avaliou que a arrecadação terá um expansão mais forte, em consequência da retomada firme da atividade econômica.

Apesar disso, ele não arriscou assegurar que o déficit voltará a cair neste ano. A elevação do salário mínimo para R$ 515 e a alta real dos benefícios previdenciários para quem ganha acima do piso devem continuar puxando as despesas para cima. Para que o déficit diminua em 2010, a arrecadação terá de crescer mais do que o conjunto dos benefícios previdenciários. Schwarzer considerou que isso será possível, mas preferiu não se comprometer com projeções, que serão divulgadas apenas depois de análise das contas que será feita em conjunto com os ministérios da Fazenda e do Planejamento.

No ano passado, nem a Previdência urbana, que normalmente apresenta números mais equilibrados, conseguiu fechar com saldo positivo e teve déficit de R$ 2,582 bilhões. Schwarzer ponderou que o resultado negativo só ocorreu por causa de compensações de benefícios entre governo federal e Estados e municípios ? que gerou despesa líquida de R$ 1 bilhão ao INSS ? e pelo pagamento de sentenças judiciais. Sem esses dois fatores, segundo ele, teria ocorrido um superávit de R$ 3,6 bilhões. "A situação é de quase equilíbrio na Previdência urbana."

No caso da Previdência rural, em que o nível de contribuição é muito reduzido, houve déficit de R$ 40,3 bilhões, ante R$ 34,9 bilhões em 2008. O crescimento pode ser explicado quase totalmente pela elevação do salário mínimo.

Triplica o desemprego entre jovens

DEU EM O GLOBO

De acordo com estudo do Ipea, o desemprego entre os jovens de 16 a 20 anos triplicou de 7%, em 1987, para mais de 20%, em 2007. Na faixa de 21 a 29 anos, o desemprego mais que dobrou, de 5% para 11%. Em 2007, havia 4,8 milhões de jovens desempregados.

Ipea: desemprego triplicou entre os jovens

Estudo mostra que, entre 1987 e 2007, índice passou de 7% para 20% na faixa etária dos 16 aos 20 anos

Vivian Oswald

BRASÍLIA. Estudo divulgado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que é preocupante a falta de investimento na juventude brasileira. Um dos maiores desafios para o governo é lidar com o desemprego crescente entre os jovens e os efeitos que o problema terá no futuro deles. Na faixa etária dos 16 aos 20 anos, a taxa de desemprego passou de 7%, em 1987, para mais de 20%, em 2007. Na faixa dos 21 aos 29 anos, o desemprego mais que dobrou, passando de 5% para 11% no mesmo período.

Em 2007, havia 4,8 milhões de jovens desempregados, 60,74% do total de desempregados no país. O desemprego nesta faixa etária é três vezes maior que entre adultos. Especialmente elevado (19,8%) era o número de jovens que não estudavam nem trabalhavam.

Má qualidade do emprego também tem destaque Outro problema é a má qualidade do emprego oferecido aos jovens. Segundo o livro “Juventude e políticas sociais no Brasil”, do Ipea, 50% dos jovens entre 18 e 24 anos trabalham sem carteira assinada, assim como 30% da faixa entre 25 e 29 anos.

Os jovens se submetem a empregos piores e abrem mão de parte do período de educação.

— Quanto mais cedo se começa, menores as oportunidades pela frente — disse o diretor de Políticas e Estudos Sociais do Ipea, Jorge Abrahão de Castro.

O Ipea destaca que as décadas de 80 e 90 foram muito difíceis para juventude. Os empregos destinados aos jovens foram ocupados por pessoas mais velhas, principalmente nos bancos e na construção civil.

— Nunca tivemos décadas tão dramáticas para a juventude.

Houve uma inflexão da inclusão do jovem no mercado de trabalho — disse o presidente do Ipea, Marcio Pochmann.

O estudo afirma que as ações do governo para os jovens não são coordenadas. Fenômenos como as altas taxas de evasão escolar, índices alarmantes de morte precoce ou a reprodução de desigualdades centenárias entre as novas gerações confirmam uma trajetória irregular e de fracassos na faixa etária entre 15 e 29 anos. Segundo o Ipea, o país não está tirando o melhor proveito do bônus demográfico que a onda jovem possibilita.

— O Brasil chegou um pouco tarde com políticas públicas para a juventude — diz Pochmann.
O livro diz que as políticas públicas federais “carecem de marco referencial mais coeso acerca do conceito de juventude”. Cada órgão busca tratar das questões que consegue identificar. Não há sequer uma faixa etária única.

— Avançou-se bastante nos últimos anos, mas as políticas para juventude padecem dos mesmos problemas de outras políticas: falta coordenação entre os níveis federal, estaduais e municipais — disse Pochmann.

O jovem pobre e negro é uma das maiores vítimas da atual falta de políticas específicas. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), a população entre 15 a 29 anos era de cerca de 50,2 milhões em 2008 (26,4% da população total).

Desses, 30,4% podem ser considerados pobres, pois suas famílias têm renda familiar per capita de até meio salário mínimo. Na faixa entre 15 a 17 anos, apenas 48% cursam o ensino médio, o nível de ensino adequado à idade.

Na área rural, este índice não passa de 30,6%. Também é grande a população de jovens nesta faixa de idade que não concluiu o ensino fundamental: 44%. Outros 18% estão fora da escola.

As principais causas do abandono escolar, segundo o Ipea, são as oportunidades de trabalho para os jovens do sexo masculino (42,2%) e a gravidez para as moças (21,1%). O secretário Nacional da Juventude, Beto Cury, apontou uma série de programas do governo para os jovens e afirmou que fez-se mais pelo grupo nos últimos cinco anos do que nas últimas décadas.

O livro aponta violência e acidentes de trânsito como maiores responsáveis pelas mortes de jovens: “Os óbitos por causa violenta vêm aumentando seu peso na estrutura geral da mortalidade no Brasil desde os anos 1980, afetando, principalmente, jovens do sexo masculino, pobres e negros, com poucos anos de escolaridade, que vivem nas áreas mais carentes das grandes cidades do país

NOTAS RIO DE JANEIRO

Aspásia é candidata do PV ao Senado

Vereadora é escolhida para chapa com Gabeira para governador. Verdes devem se aliar a PSDB, PPS e DEM

Depois de ter definido a candidatura do deputado federal Fernando Gabeira para governador, o PV decidiu ontem que também terá candidato ao Senado em outubro. O nome escolhido foi da vereadora carioca Aspásia Camargo. A definição foi da Executiva Regional do partido, que se reuniu ontem. O PV deve se aliar ao PSDB, PPS e DEM.

Segundo a vereadora, o PV decidiu que as duas candidaturas são prioritárias e serão mantidas, ainda que sejam feitas outras alianças. Os verdes deixaram em aberto a outra vaga para o Senado — serão eleitos dois senadores por estado em 2010 — e as composições das chapas para deputado federal e estadual.

Aspásia disse que a polêmica sobre o fato de Gabeira ter palanque duplo no Rio para presidente — Marina Silva (PV) e José Serra (PSDB) — foi superada. “O sistema eleitoral brasileiro é flexível, a gente vê de tudo na federação. As realidades políticas de cada estado são diferentes”, justificou a vereadora. A intenção do PV é repetir a aliança que apoiou Gabeira para a Prefeitura do Rio em 2008. O problema, porém, é a resistência do presidente do PV, Alfredo Sirkis, à candidatura do ex-prefeito do Rio, Cesar Maia, a senador. Apesar de ter ocupado cargo de secretário nas gestões de Maia, Sirkis é contra a candidatura do ex-prefeito.

Gabeira

· PSDB quer que o PPS, o DEM e o PV comecem logo a divulgar o nome de Fernando Gabeira ns Baixada e no interior . Para o partido, o provável candidato ao governo só é bem conhecido na capital. O diretório estadual do PPS, desde o ano passado aprovou a indicação de Gabeira como candidato ao governo.

Aliados 1

· A aliança em torno da candidatura de Fernando Gabeira (PV) a governador enfrenta dificuldades entre os coligados:DEM, PSDB e PPS. Os tucanos terão o vice, e os candidatos a senador são são César Maia e outro nome do bloco. O problema que há muita gente do PSDB e do PV não está a fim de fazer campanha para César Maia.

Aliados 2

· Para complicar, o prefeito de Duque de Caxias e presidente do PSDB estadual, Zito, dizem que não apóia Gabeira de maneira alguma. Segundo fontes ele fechou um acordo para a reeleição de Sérgio Cabral e para e para a eleição de Jorge Picciani, presidente da ALERJ, para o Senando.

Aliados 3

· No próprio PPS fala-se que a um grupo que faz campanha aberta pela reeleição de Sérgio Cabral. José Serra, como se vê tem muito trabalho para unir todos em um único palanque de Gabeira.
Aliados 4

· Comenta-se que o governador de S. Paulo, José Serra conversou ontem com o prefeito de Duque de Caxias/RJ, José Camilo Zito (PSDB). Assunto: Cobrar apoio à candidatura de Gabeira ao Governo do Rio de Janeiro.

Gabeira longe do PSDB no 1º turno

DEU EM O GLOBO

Deputado subirá ao palanque de Marina Silva; e vice, ao de SerraPré-candidato ao governo do estado do Rio, o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) não estará no palanque do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), pré-candidato à sucessão presidencial. Em uma reunião na noite de segunda-feira, em São Paulo, ficou acertado que, durante o primeiro turno, Gabeira só subirá ao palanque da senadora Marina Silva, précandidata do PV à Presidência: — Ele estará no palanque, nas campanhas da TV e internet, e fará corpo a corpo exclusivamente com a candidata — diz o vereador Alfredo Sirkis, presidente do PV no Rio.

Segundo ele, o fato de Gabeira não aparecer ao lado de Serra durante a campanha não inviabiliza a aliança com o PSDB.

— Inicialmente, a ideia era que ele estivesse no palanque do candidato do PSDB à Presidência. No entanto, conversamos e entendemos que Gabeira deve estar, no primeiro turno, ligado somente a Marina, e isso não nos afasta da aliança. O PSDB vai indicar o vice de Gabeira, e esse vice subirá ao palanque do Serra e participará da campanha dele.

Nomes como os dos deputados Luiz Paulo Corrêa da Rocha, Márcio Fortes e Otávio Leite e também o de Patricia Amorim, atualmente presidente do Flamengo, estão cotados para a vaga de vice de Gabeira.

— O PSDB tem lideranças históricas no Rio.

Serra terá um palanque poderoso mesmo sem contar com Gabeira — diz a vereadora Aspásia Camargo (PV-RJ), pré-candidata ao Senado.