sábado, 3 de abril de 2010

Uma década que valeu a pena ter vivido::Marco Aurélio Nogueira

DEU EM GRAMSCI E O BRASIL

A homenagem prestada pelo Departamento de Ciência Política da USP a Gildo Marçal Brandão foi emocionante. À altura do personagem.

Centenas de pessoas se aglomeraram no anfiteatro da História, na tarde do dia 19 de março, para recordar o colega, amigo e companheiro. A banca que o examinaria no concurso de Professor Titular estava presente e pela palavra de Gabriel Cohn, seu porta-voz, tornou público o que todos esperavam: “Entende esta comissão que, por sobrados méritos, cabe a Gildo Marçal a condição de professor titular da USP, e que, doravante, toda referência a esse nosso muitíssimo prezado e saudoso colega deverá ser como titular, que ele aqui passa a ser, por méritos substantivos ainda quando não por designação formal”.

Na ocasião, ao lado de outros, fiz um pequeno depoimento, que reproduzo abaixo.

Não sabemos bem de que modo nascem e crescem as amizades.

Sabemos que partem de pequenas e sucessivas aproximações, afinidades e contrastes que se atraem. Depois, ganham vida própria. Um belo dia, certas pessoas se convertem em parceiras do destino de outras. Incorporam-se à experiência delas.

São famosas as duplas, ou trios, ou quartetos, de amigos que se completam, se complementam e se negam a vida inteira.

Amizades também são feitas de silêncios, hiatos, distâncias, crises, brigas e esquecimentos. São humanas, dinâmicas, contraditórias, imperfeitas. Carregamos muitas culpas por falhas ou desatenções nesse terreno.

Há amigos de diferentes tipos, gêneros e graus. Amigos de parte da vida e amigos da vida inteira.

Alguns que colam em nossa trajetória e com ela se confundem, e amigos que a acompanham mas não se envolvem. Há amigos e conhecidos. Todos nos causam sentimentos de afeição, ternura ou simpatia, sua presença ou lembrança nos agradam, ainda que possam também nos irritar em um ou outro momento. Muitos se tornam tão presentes e entranhados em nossa marcha que muitas vezes nem percebemos direito que eles existem, como se fossem uma paisagem especial ou um dado da natureza. Esquecemos algumas pequenas cortesias e certos gestos mais prosaicos de afeto e gentileza, por exemplo.

Tive a sorte e a felicidade de ter amigos desse tipo especial. Gildo Marçal Bezerra Brandão, professor do Departamento de Ciência Política da USP, foi um deles, especialíssimo. Éramos tão amigos e fizemos tantas coisas em conjunto — coisas que se misturaram umas nas outras — que me sinto estranho ao tentar homenageá-lo nesse momento.

Gildo foi um intelectual e um militante da grande política que nunca torceu o nariz para a pequena política.

Houve uma década em nosso relacionamento que certamente valeu a pena ter vivido. Creio que Gildo pensava do mesmo modo, tantas foram as vezes que conversamos a respeito.

Foi a década entre 1974 e 1983.

Nós nos conhecemos na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, na Rua General Jardim, Vila Buarque, centro da cidade. Dois jovens recém-diplomados, de esquerda. Gildo vindo do nordeste, com a cuia, uma mala cheia de livros e muitas ideias na cabeça. Era formado em filosofia, admirador de Hegel e do Padre Henrique de Lima Vaz. Eu acabara de me bacharelar em Ciências Sociais e estava aberto a todas as influências. Queria ser marxista, como ele.

Queríamos ambos ser comunistas.

Depois de alguns anos de muitas bebedeiras e conversas — como bebemos naqueles anos! —, participamos juntos da criação em 1976-1977 da revista Temas de Ciências Humanas, patrocinada pela editora de Raul Mateos Castell. Era um projeto ambicioso: organizar um espaço para a intervenção teórica dos marxistas, em plena ditadura. O conselho editorial era composto por nós dois, mais José Chasin e Nelson Werneck Sodré, com Raul Mateos onipresente.

Mas a revista tinha uma alma e um motor. Talvez Gildo fosse a alma e eu, o motor.

Fazíamos de tudo, da redação aos contatos, à divulgação e à agitação. Publicamos coisas importantes, e acredito que a revista representou algo de relevante naquele contexto.

Houve algum sectarismo nela, também, certo distanciamento presunçoso em relação à política. Durante os primeiros anos, para nós, a frente de batalha era metodológica, filosófica. A unidade não se fazia na política, mas na teoria, ou melhor, no terreno doutrinário.

Havia uma questão subjacente: o partido comunista. Ele não estava na revista, mas de certo modo fazia sentir sua presença. Era uma espécie de referência para nós. O que fazer para ajudá-lo a resistir, a sobreviver, a voltar a ter atuação na política nacional? Acreditávamos que ao menos parte daquele movimento dependia do alcance de uma teoria social competente, rigorosa, capaz de fazer frente às teorizações “apolíticas” e “acadêmicas” que circulavam então, e cujo centro gerador achávamos que estava na USP.

A partir do seu quinto número — que publica em separata um artigo de Marcelo Gato, então deputado e sindicalista vinculado ao PCB — a revista começa a se abrir para a política. Gildo teve papel decisivo nisso, imprimiu um ritmo firme, impulsionou a revista para a frente democrática que então se constituía e crescia.

Pagamos certo preço por essa inflexão. Temas aproximou-se da vida partidária e não teve como escapar da luta interna que atravessou o PCB por volta de 1980. Sobreviveu até 1981.

Dez belos números. Em seus anos finais, porém, eu e Gildo já não estávamos mais tão presentes.
Fomos fazer outras coisas.

Outras coisas não, uma só coisa, absorvente: o jornal Voz da Unidade, que teve em Gildo um de seus organizadores e seu primeiro editor-chefe, entre 1980 e 1981.

A possibilidade de fazer um jornal comunista explícito, legalizado, foi uma experiência que ninguém esquece. Para o bem e para o mal. Não foi com certeza uma experiência doce e tranquila. Houve muita briga, muita tensão, rupturas e divergências. Mas o saldo foi positivo, valeu por uma década inteira de formação política e intelectual.

Quando Gildo saiu da chefia, eu o substituí. Não estávamos propriamente com as mesmas posições. Ficamos um tempo com as relações esfriadas, deixamos de nos frequentar. Mais um ano e eu também saí do jornal, que em boa medida passou para o controle estrito das direções do PCB.

A Voz da Unidade foi uma tentativa de oxigenar o universo comunista brasileiro. Não é o caso de fazer o balanço da experiência aqui, mas diria que parte do programa que tínhamos para o jornal foi alcançada. Muitos jovens comunistas fizeram a cabeça lendo e distribuindo o jornal. Mas o comunismo brasileiro como um todo não se oxigenou, não passou para outro patamar cultural, não melhorou sua performance organizacional, teórica e política. Perdeu-se nas entranhas e nos desdobramentos da redemocratização.

O que se seguiu depois é o que nos reúne aqui hoje. Gildo perambulou como free-lancer e em 1989 ingressou como professor no DCP da USP. Tornou-se um scholar, um pesquisador, uma referência em sua área de trabalho. Nossa amizade se refez e se ampliou, ficou consolidada, virou história.

Gildo percorreu um périplo rico, que o engrandeceu e o satisfez. Nunca se trancafiou em torres de marfim, não deixou de olhar para a política cotidiana, a pequena política, a que move as pessoas em seu dia a dia. Viveu a vida intensa e generosamente.

Perdeu algumas batalhas, mas nenhuma guerra.

Emoções em disputa:: Merval Pereira

DEU EM O GLOBO

A disputa presidencial deste ano tem uma característica especial: todos os candidatos estão tentando convencer o eleitorado de que são mais preparados que os adversários para dar continuidade ao governo Lula, devido à ampla popularidade do presidente. Mesmo que Lula já tenha escolhido a ex-ministra Dilma Rousseff para representá-lo, na sua própria base partidária, o deputado Ciro Gomes, do PSB, insiste em que é mais bem preparado do que ela para dar continuidade ao governo.

E na oposição, o pré-candidato do PSDB, ex-governador paulista José Serra, faz questão de elogiar o governo Lula, aparecendo para o eleitorado como um candidato oposicionista não a Lula, mas a Dilma ou à política do Banco Central.

O economista político Alexandre Marinis, sócio da consultoria Mosaico, ressalva que “política não é estatística”, e que a candidatura de Dilma tem uma série de características sem precedentes na história do país que não permitem ser modeladas estatisticamente.

Mas ele tem estudos que mostram uma forte correlação entre a popularidade do presidente da República e os votos válidos que seus candidatos recebem nas eleições, não apenas a nível federal, mas também para os governos estaduais e municipais.

Na prática, diz Marinis, o fato de Lula ter em torno de 80% de popularidade não quer dizer que Dilma já está eleita, mas historicamente a popularidade do presidente e a votação de seu candidato têm uma correlação muito forte.

Também o cientista político Alberto Carlos de Almeida, especialista em análise da opinião pública, autor do best-seller “A cabeça do brasileiro”, acha uma bobagem esses livros de neurocientistas que definem a emoção do eleitor como um fator chave para o resultado das eleições.

De acordo com Alberto Carlos de Almeida, “é uma obviedade dizer que a emoção conduz o voto do eleitor”.

Lembra que o filósofo escocês David Hume (17111779) escreveu no século XVIII que “A razão é a escrava das paixões”.

“Você precisa querer uma coisa para ir atrás dela, não é racional”. Em uma eleição em que os dois candidatos não têm carisma, e Lula tem carisma demais, mas não está conseguindo transferir votos para Dilma na proporção de sua popularidade, Alberto Carlos de Almeida diz que, pensando na emoção, “o que está em jogo aí é qual dos dois candidatos poderia dar melhor continuidade ao Lula”.

De um lado, o presidente já escolheu a Dilma como sua preferida. A oposição, contrariando o DNA de oposição, tem que dizer que ela é que vai dar continuidade, porque Serra é mais bem preparado.

“Aí é que está a grande emoção que vai ser disputada”, ressalva Almeida, afirmando que a missão de Serra é “misturar os baralhos”.

Toda a estratégia do governo é separar os baralhos, enquanto a oposição terá que tentar dizer para o eleitor que não faz mal misturar os baralhos .

“ Quando você e s t á e m uma eleição, você precisa crescer em cima do mercado do adversário . O mercado eleitoral é restrito, e essa é uma guerra de ocupação de terreno. O voto dos pobres tem que ser conquistado, e o Serra tem que fazer um discurso convincente para esse pessoal”.

O economista político Alexandre Marinis lembra que os 80% de popularidade de Lula conferem à candidata Dilma Rousseff “um grande potencial eleitoral”, embora isso não queira dizer necessariamente que a forte relação entre popularidade e voto transformará Dilma em vencedora nas eleições.

Apesar de os 80 % de aprovação a Lula conferirem a Dilma grande potencial eleitoral, Marinis acha que, em termos de estratégia de campanha para o tucano José Serra, há duas frentes em que ele pode trabalhar dentro do contexto de continuidade que o eleitorado quer.

Uma delas é a desconstrução da imagem de Dilma, ressaltando o fato de que de que ela não tem experiência política. É o que o slogan do PSDB está falando, em experiência.

“Mas eu tenho minhas dúvidas se esta estratégia é suficiente para se contrapor à candidatura governista”, diz Marinis.

Olhando historicamente o impacto que a popularidade do presidente tem nas intenções de votos para os candidatos governistas, fica claro que esse impacto é muito forte.

“Se você olha qual era a taxa de aprovação dos presidentes nas últimas quatro eleições presidenciais, e quais foram os votos válidos que cada um dos candidatos governistas teve, com dados oficiais do TSE, a correlação é muito grande”, ressalta Marinis.

Em 1994, 55% dos eleitores aprovavam o governo de Itamar Franco, e Fernando Henrique, que era seu ministro da Fazenda, teve 54% dos votos válidos; em 1998, Fernando Henrique era aprovado por 58% da população, e teve 53% dos votos válidos na reeleição; em 2002, Fernando Henrique teve 35% de aprovação, e Serra alcançou 39% de votos válidos no segundo turno; e na eleição de 2006, Lula tinha a aprovação de 63% e teve 61% de votos válidos no segundo turno.

“É óbvio que a Dilma não vai ter 80% dos votos válidos.

Se fosse outro candidato, eu diria que ele estaria eleito. Pelo fato de ser a Dilma, você tem uma série de variáveis que não se consegue embutir nos modelos, e nas pesquisas qualitativas”, ressalva o economista político Alexandre Marinis.

“Política não é estatística, tem uma série de nuances.

Mas dá para afirmar categoricamente que a popularidade do presidente é um ativo extremamente forte da candidatura da Dilma”, destaca. (Continua amanhã)

Juiz de fora:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em 2005, quando o publicitário Duda Mendonça confessou à CPI dos Correios que foi pago por meio de caixa 2 para trabalhar na campanha do presidente Luiz Inácio da Silva na eleição de 2002, a oposição fez acordo com o PT e não levou o caso adiante.

Imaginou que a parada de 2006 estava ganha de qualquer forma e dispensou a guerra desgastante. Parou no meio do caminho e ali ficou à espera da vitória por gravidade.

Havia também o problema do então presidente do partido, Eduardo Azeredo, cuja campanha pela reeleição (perdida) para o governo de Minas Gerais havia se servido do mesmo operador ? Marcos Valério ? que viria a prestar serviços ao PT anos depois.

Em 2009 o PSDB entrou com várias ações contra o governo na Justiça eleitoral por campanha antecipada. Perdeu todas.

Em 2010 ganhou duas e está conversando sobre a possibilidade de fazer um acordo de procedimentos proposto pelo PT, só agora preocupado com o "exagero" das ações ainda motivo de deboche por parte do presidente Lula, que diverte plateias com piadas sobre as multas impostas a ele.

Enquanto a oposição perdia sistematicamente na Justiça, o PT não parecia atento à questão da infração a lei eleitoral.

A partir do momento em que o plenário do Tribunal Superior Eleitoral aplicou uma multa de R$ 10 mil e um juiz do TSE determinou outra sanção de R$ 5 mil ao presidente Lula indicando uma tendência, o presidente do partido, José Eduardo Dutra, achou por bem procurar o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra.

Segundo ele, para propor "um acordo de procedimentos" a fim de não "inibir a livre manifestação dos cidadãos".

É de se perguntar: que acordo? Quais procedimentos, se a lei é uma só? Onde já se viu partido, ainda mais dois partidos que disputam a Presidência da República, abrirem diálogo deixando de lado a Justiça quando ela é parte do problema em questão?

Aqui não se trata da manifestação dos cidadãos e sim da movimentação dos partidos em relação ao que pode ou não pode ser feito no período em que as candidaturas não estão registradas e do uso da máquina pública a serviço de candidatos.

Esse argumento de "judicialização" da campanha é artificial. O recurso ao tribunal eleitoral é um instrumento legítimo dos partidos, faz parte do jogo.

O simples fato de a oposição aceitar abrir conversações a respeito indica que há, por parte do PSDB, um interesse de fazer um acerto de cavalheiros pelo qual o partido fique também imune a ações judiciais por parte do PT.

Guardadas as proporções, uma repetição do que já ocorreu no Congresso algumas vezes sempre com ganho de causa para a impunidade.

Ademais, esse tipo de acerto entre partidos significa que os políticos se acertam para apartar a Justiça Eleitoral do processo. Um acordo só seria aceitável e considerado de cavalheiros se fosse nos termos da lei, em que as partes concordam em obedecer estritamente às regras.

Aí sim, seriam desnecessários os recursos à Justiça. Mas, convenhamos, para isso não é preciso abrir diálogo algum. Basta andar na linha e pronto.

O que parece estar em jogo aqui é outra coisa: um acerto mútuo de não agressão para deixar a Justiça impossibilitada de atuar.

Lições do abismo. De acordo com a cartilha do professor Paulo Vannuchi, ministro dos Direitos Humanos, o papel da imprensa é "informar, cobrar e denunciar". Quando age fora desse limite se transforma em "uma espécie de partido de oposição".

Opinar ou criticar, como faz o ministro, é prerrogativa exclusiva de partido de oposição. Ou "uma espécie de".

Por esse critério, nem às legendas de situação o professor confere a oportunidade de emitir críticas e opiniões. Isso só os partidos de oposição ? ou "uma espécie de" ? têm o direito de fazer.

Seria o caso, então, de o professor se filiar a uma espécie de partido de oposição, já que gosta tanto de criticar e opinar. Só por uma questão de foro íntimo, porque legalmente a Constituição já lhe garante esse direito. Bem como aos demais cidadãos.

O Lula de cada dia:: Villas-Bôas Corrêa

DEU NO JORNAL DO BRASIL

O presidente Lula, inventor e dono da candidatura da ministra Dilma Rousseff, atravessa uma fase de agitação que se explica pela sua estafa, mas não se confirma nas oscilações do seu temperamento e nas contradições de quem não diz coisa não coisa.

Por mais que se queira traçar uma linha de coerência, a cada semana, a cada dia, o presidente tem os seus estouvados improvisos, que saltam dos trilhos da coerência.

E esta semana, se não bateu o seu recorde, disparou na pista das ambiguidades. O líder da campanha parecia mais preocupado com o seu futuro político do que com o morno clima da agenda da sua candidata. Aperreado com as críticas da imprensa – sua obsessiva vítima das mais absurdas cobranças – Lula resgatou o seu discurso de campanha na eleição e na reeleição, para criticar o miserável piso salarial dos professores.

E como no monólogo diante do espelho, denuncia o sucateamento do salário dos professores nos últimos 30 anos. Por um mínimo de respeito ao distinto público não excluiu dos 30 anos os oito anos do seus dois mandatos. Critica-se sem pena da própria pele: “Não é possível a gente – a gente, quem? – depositar a confiança em um professor ou uma professora para tomar conta dos nossos filhos, sabendo que, no fim do mês, não vai levar para casa sequer o suficiente para cuidar da sua própria família. Deve doer na alma esta confissão de um dos fracassos dos seus dois mandatos.

As pesquisas derrubam as desculpas e as potocas presidenciais. Nos últimos meses do segundo mandato, o presidente Lula nem erradicou o analfabetismo de jovens e adultos, na meta enganosa de 2003. O piso salarial do magistério é uma reivindicação veterana do movimento sindical dos professores. O ex-ministro da Educação, senador Cristovam Buarque (PDT-DF) vai direto ao desmentido: ”Creio que ninguém vê esta revolução que o presidente alega ter feito. Não houve nenhuma evolução nas universidades do ponto de vista do número de alunos e professores”. É portanto, uma área intocada para o seu sucessor ou a sucessora da sua obsessão.

O presidente se autoproclama um trabalhador que não conhece descanso, acorda de madrugada “para ler todos os jornais”, mesmo suportando a azia com a dança das letras e a dor de cabeça do esforço para entender o tipo miúdo dos jornais, revistas e da papelada burocrática. Ora, se as contas não mentem, Lula deve bater todos os recordes do presidente que menos tempo passou no Brasil, o que menos noites dormiu no palácio e despachou a papelada burocrática.

Às contas. As viagens presidenciais no AeroLula para os compromissos do candidato a líder mais popular do mundo, impuseram o sacrifício prazeroso de mais de 100 dias no exterior.

Dos 265 restantes, descontados os domingos e feriados, as viagens a pretexto de fiscalizar as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Minha Casa Minha Vida que vai resolver o problema da moradia dos pobres e remediados com um milhão de residências.

E o PAC 2 promete duplicar as obras para a construção em menos de um ano de outro país.

Não me proponho a conferir estatísticas de como o presidente se sacrifica para fundar o país que desperdiçou milênios na incompetência de imperadores e presidentes. Mas, as últimas declarações de Lula sobre os seus planos como ex-presidente são instigantes. Informa aos seus milhões de eleitores que não ficará na confortável casa em São Bernardo do Campo.

Avisa que continuará percorrendo o país, atendendo a todos os convites para voltar aos estados e municípios que solicitem a sua presença. Ora, isto é programa de candidato, que está de olho comprido em 2014. Uma reeleição estraga o esquema. Com mais oito anos, Lula deverá preferir o pijama e chinelo para os cavacos com os amigos de São Bernardo do Campo.

O presidente não é um perdulário. E realmente não precisa dissipar o que ganha e que é muito pouco. Não parece razoável que tenha acertado com a candidata Dilma não disputar a reeleição, se o seu favoritismo for confirmado nas urnas.

Para não pagar os R$ 15 mil da multa aplicada pelo Tribunal Superior Eleitoral lugar tem apelado para todos os recursos.

A especulação política é um dos desafios do repórter. Desde que não seja parcial ou uma especulação leviana. Do que a consciência não me acusa.

Grande farsa :: Miguel Reale Júnior

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Kerrie Howard, diretora da Anistia Internacional, ao comentar a posição do Brasil em face da morte do dissidente cubano Orlando Zapata, disse, com a mais absoluta razão: "Não se pode criticar a questão dos direitos humanos apenas quando é conveniente."

Todavia, essa submissão da defesa dos direitos humanos pelo governo Lula a outros interesses não é novidade, como revela a posição assumida em órgãos internacionais. Assim, quando da vigência da Comissão de Direitos Humanos da ONU, substituída depois pelo Conselho de Direitos Humanos, o país de Lula votou favoravelmente à no-action motion para proteger a China na questão dos direitos humanos. O Brasil, em 2003 e em 2004, votou contra as resoluções que condenavam a Rússia pela lesão a direitos humanos na República da Chechênia.

Recentemente, como um dos 47 membros do Conselho de Direitos Humanos, o Brasil acompanhou a proposta cubana de não reprovar o Sri Lanka, país onde cerca de 70 mil pessoas haviam sido mortas em perseguição política e centena de milhares, deslocadas internamente.

Apesar da violação sistemática de direitos humanos na Coreia do Norte, com execuções e torturas de dissidentes políticos, o Brasil se absteve, em 2008 e em 2009, na Assembleia-Geral da ONU e no Conselho de Direitos Humanos, quanto à tomada de medidas e sanções em face dessas ofensas gritantes. O mesmo com o Congo e o Sudão.

Na linha de desprezo aos direitos humanos, vistos como válidos apenas quando interessa, o "diplomata" Marco Aurélio Garcia banalizou a morte de Orlando Zapata, em greve de fome, ao relativizar: "Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro." Essa declaração é um gravíssimo desrespeito a valores fundamentais, pois cinicamente justifica a sua afronta por ser usual.

Discípulo do "diplomata" Marco Aurélio, o presidente Lula, em El Salvador dois dias após a morte de Zapata, disse: "Não se pode fazer julgamento de um país ou julgar a atitude de um governo por uma atitude de um cidadão que resolve entrar em greve de fome."

Lula tratou como um cidadão qualquer o dissidente Zapata, em greve de fome como ato de resistência civil silenciosa e preso de consciência conforme a Anistia Internacional, dando ao fato cores de ato de cidadão tresloucado, ao qual se refere como um qualquer, ignorando ter sido preso em vista de seus escritos e suas manifestações de oposição política.

Em entrevista à Associated Press, Lula explicitou toda a sua "sensibilidade" aos direitos humanos de presos políticos: "Greve de fome não pode ser um pretexto dos direitos humanos para libertar as pessoas." "Imaginem se todos os bandidos presos em São Paulo fizerem um jejum para pedirem sua libertação."

O que espanta não é Lula ter dito isso. Os absurdos presidenciais têm sido reiterados, apesar deste não ferir apenas a nossa inteligência, mas a nossa sensibilidade moral. O que espanta é o contraste: o Lula de ontem e o de hoje.

Lula teve o exemplo de dois de seus próximos colaboradores, Paulo Vannuchi e Frei Betto, que, como presos políticos, empreenderam greve de fome em 1972 em busca da justa reivindicação de não serem separados em diversos estabelecimentos, como medida de segurança pessoal. Essa greve com emoção é relatada por Frei Betto nos livros Cartas da Prisão e Diário de Fernando. Nesse último livro, que reproduz o testemunho de outro preso, Frei Fernando Brito, registra-se que até os carcereiros vieram solidarizar-se com eles em greve de fome.

O secretário da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Ivo Lorscheiter, enviou à época carta ao ministro da Justiça pedindo que as reivindicações dos presos em greve de fome fossem atendidas. Conta Frei Fernando: "A greve de fome aprofunda-nos a vida espiritual... o sentido evangélico de nosso gesto." Em Cartas da Prisão, Frei Betto, com seu estilo preciso, diz sobre a greve de fome: "Não é fácil controlar o apetite da imaginação.

Ainda bem que o espírito se mostra mais forte que a carne."

Em 11 de dezembro de 1989, às vésperas do segundo turno entre Lula e Collor, Abílio Diniz foi sequestrado por ativistas políticos (argentino, chileno e canadense) que desejavam arrecadar fundos para a guerrilha em El Salvador. Condenados, passados dez anos, entraram em greve de fome exigindo o retorno a seus países. Lula foi visitá-los no Hospital das Clínicas. Ligou, então, para o presidente Fernando Henrique para pleitear que fossem atendidos, argumentando que a morte mancharia a biografia do presidente.

José Gregori, secretário nacional de Direitos Humanos, em conjugação com o Itamaraty, promovia a assinatura de tratado de troca de prisioneiros com a Argentina e o Chile, a permitir o envio dos presos a seus países. Durante o tempo em que havia as tratativas para essa troca de prisioneiros, a Secretaria de Direitos Humanos, conta José Gregori, recebia telefonemas de Marco Aurélio Garcia em campanha pela expulsão dos presos em greve de fome.

Em 2000, professores paranaenses entraram em greve de fome para reivindicar melhoria salarial e em Curitiba receberam a visita de solidariedade de Lula.

Lula mesmo, quando preso político, fizera greve de fome.

Se não fosse evidente a distinção entre preso político e preso comum, a experiência vivida por Lula deveria tê-lo instruído sobre a diferença entre as duas classes de presos. Para Lula, o respeito a merecer os presos políticos estava à mão, nos livros e na vida de amigos acima lembrados. Mas Lula preferiu, com relação a Zapata, seguir o determinado pela versão do jornal oficial de Cuba, o Granma, que o descreveu como preso comum insubordinado.

Lula pôs no mesmo saco presos políticos e comuns para desculpar Cuba. Antes, já ignorara as ignomínias praticadas na China, na Coreia do Norte, na Rússia e no Sri Lanka.

Como se vê, não passa de uma grande farsa defender os direitos humanos a serem desprezados conforme a conveniência.

Advogado, professor titular da faculdade de direito da USP, membro da Academia Paulista de Letras, foi Ministro da Justiça.

Alberto Goldman: 'O foco das eleições não pode ser aqueles que não são os candidatos'

DEU EM O GLOBO

Goldman diz que PSDB não permitirá que debate se concentre entre FH e Lula

Dada a largada da pré-campanha do ex-governador José Serra à Presidência pelo PSDB, o novo governador de São Paulo, Alberto Goldman, deixa claro que o partido não vai permitir que o debate eleitoral se concentre na comparação entre as gestões de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva, como quer o PT. Para ele, isso não passa de uma tentativa de esconder a “fragilidade” da candidatura de Dilma Rousseff, pré-candidata do PT.

“Eleição é escolha. Lula e FHC não são os candidatos”, afirma, convicto de que a vitrine de Serra, o governo de São Paulo, é superior à de Dilma. O PAC, para ele, é um desastre em termos de ação de execução: “Não se realizou”.


Leila Suwwan, SÃO PAULO

O GLOBO: Como andam os preparativos da campanha de José Serra à Presidência?

ALBERTO GOLDMAN: Eu diria que ela já começou esta semana, quando ele fez um discurso no qual apresentou um conjunto de valores, conceitos e visão de governo. Isso será a substância da campanha, o resto são instrumentos.

E como o senhor vê o discurso feito pelo outro lado da disputa, que chamou os opositores de "viúvos da estagnação"?

GOLDMAN: Mostra a fragilidade da candidatura da Dilma. A comparação entre os dois candidatos hoje revela de forma muito flagrante as diferenças. A consistência, formação, vivência e experiência que o Serra traz é muito diferente daquilo que a Dilma trás, pelo histórico de vida de cada um. Esse quadro, na minha opinião, é muito favorável ao Serra, e obriga o PT a fugir desse confronto e buscar um outro confronto: Lula com FHC. Buscam uma comparação pretensamente desfavorável, mas as pessoas têm consciência clara do que foi cada época e quais eram as conjunturas. Interessa comparar o que cada um dos candidatos pode realizar.

Serra disse que torce pelo êxito administrativo de seus adversários. É uma sinalização de que não serão renegados os feitos da gestão Lula?

GOLDMAN: Se a coisa é correta, não interessa de onde vem. O que não está correto, evidentemente, precisa mudar.

Há insinuação de que uma mudança de governo mudaria políticas, o Bolsa Família.

GOLDMAN: Será preciso deixar claro. Algumas coisas devem mudar, mas precisa dizer o que mudar e como mudar.

O que precisa mudar?

GOLDMAN: Por exemplo, o relacionamento político que deve existir com o Congresso, que foi deteriorado no primeiro mandato, aquela tristeza. Aquilo não é aceitável.

Outro ataque é o rótulo de Estado mínimo e omisso.

GOLDMAN: Mas quando, no Brasil, o Estado foi mínimo? Omisso, às vezes foi, por incompetência dos governantes. Vejo, hoje, que o Estado foi omisso em vários momentos, não enfrentou temas importantes, como a segurança pública. Por que deixam só nas mãos dos estados? É um problema nacional.

O PT sustenta que a gestão FHC foi pequena.

GOLDMAN: E no que eles mudaram da gestão FHC? Só se entenderem que o governo máximo é a contratação de pessoas. O Estado mínimo é aquele que não cumpre seu papel. Nós defendemos o Estado forte, atuante, incentivador e articulador. Deixamos para a atividade privada o que é próprio dela. O Estado não é apropriado para fazer negócios.

Qual é a fragilidade da candidatura Dilma?

GOLDMAN: Quando me perguntam o que acho dela, digo que não sei. Não sei dizer. O que é? Qual o grande feito dela? Qual a experiência, a ação, a responsabilidade que ela teve? Se me disser que é o PAC, vou dizer que é o contrário. Os projetos do PAC são um desastre do ponto de vista de uma ação executiva. Não se realizaram. Não têm se realizado.

Como descolar Dilma do presidente, da popularidade de Lula?

GOLDMAN: Não tem que descolar nada. É só apresentar os candidatos. O foco não pode ser aqueles que não são os candidatos.

De quercista a braço direito de Serra

DEU EM O GLOBO

Goldman participa ativamente da elaboração da estratégia da campanha tucana à Presidência

SÃO PAULO. Com a missão de manter a “máquina preparada, azeitada e aquecida” por nove meses, Alberto Goldman, de 72 anos, assume hoje o comando do governo de São Paulo. O tucano, conhecido tanto pela discrição quanto pelo gênio forte, se considera “aposentado” das urnas, após quase quatro décadas de vida política, iniciada como militante clandestino do PCB, com passagem pelos quadros quercistas do PMDB e finalizada como escudeiro da alta cúpula do PSDB paulista. Homem de confiança de José Serra, participa ativamente da elaboração da estratégia da campanha tucana à Presidência.

No Palácio dos Bandeirantes, assegura que as únicas mudanças serão nos horários e métodos. Serra é notívago.

Goldman, madrugador. “O ritmo será mantido. Mais do que o Serra, que tocava com os arreios todo mundo, não dá para fazer”, brinca, dizendo que o chefe é “cobrador”.

— Não quis ser candidato, não me interessa.

Foram 40 anos de atividade política, mandatos e eleições. Mas vou continuar militando e trabalhando. Só não vou voltar a ser engenheiro civil — diz, lembrando sua formação acadêmica, pela Universidade de São Paulo, em 1960, estimulada pelos pais, imigrantes judeus.

Goldman não tardou, porém, a trocar o escritório de engenharia pela militância clandestina no PCB. Após a edição do AI-5, se filiou ao MDB e foi eleito deputado estadual.

Em seu segundo mandato, em 1974, já era líder da oposição. A cara barbeada foi a próxima a se extinguir, fruto de um desafio lançado contra o então governador Paulo Egydio.

— Era 1975. Ele disse que, no final do governo dele, o Tietê estaria despoluído, e se poderia pescar no rio. Eu estava com a barba sem fazer há alguns dias e disse que ia deixar a barba crescer e só iria tirar quando pudesse pescar no Tiete. Faz 35 anos e eu ainda não posso pescar — lembrou Goldman.

O cachimbo ele abandonou há quase oito anos. Hoje, fuma charutos, mas sempre fora do expediente no palácio, devido à proibição legal e à “patrulha” de Serra.

— Ele conseguiu passar ileso como líder do MDB. Ele negociava. Nas manifestações, era o negociador com os coronéis.

Sempre falava: “Minha única arma sempre será o cachimbo”. Em vez de ser preso, conseguiu soltar muitos colegas — lembra o vereador Juscelino Gadelha.

Na redemocratização, Goldman ficou pouco tempo como filiado ao PCB. Sem mandato, foi acolhido pelo governador Orestes Quércia e logo migrou para o PMDB, onde ficou por quase uma década.

— Goldman dribla quando necessário e enfrenta quando é preciso — resume o chefe da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira, lembrando que o colega é jogador de basquete assíduo.

Os enfrentamentos, algumas vezes, já levaram Goldman a bate-bocas acalorados com adversários. Os dribles são reservados para a política interna, onde nutre a fama de conciliador. Não se considera um homem muito mudado pelo tempo, mas ex-colegas de resistência, especialmente petistas, avaliam que ele trocou o socialismo pelo neoliberalismo, especialmente por liderar movimentos desestatizantes.

— Todos mudamos porque o mundo mudou. O muro caiu na cabeça da gente! — diz Roberto Freire, presidente do PPS, amigo desde a época do partidão. — Para nós, foi dramático. A revolução cubana era um exemplo de um novo mundo que poderíamos criar, isso na época da guerra Fria e do Vietnã. Hoje somos capazes de ver a decadência e decrepitude disso.

Goldman e Freire integraram a primeira comitiva parlamentar a furar o bloqueio a Cuba —o s passaportes brasileiros tinham carimbos com proibição de viagem — e se encontraram com Fidel Castro. Após se desentender com correligionários comunistas e quase presidir o PMDB, no qual depois foi praticamente sufocado, Goldman se filiou ao PSDB, em 1998.

Já tucano, cumpriu mais dois mandatos na Câmara dos Deputados (1999-2007), período no qual se destacou como forte “quadro técnico” e feroz opositor do PT, especialmente à época do mensalão.

— Ele é uma pessoa discreta, mas de posições firmes. Eu nunca vi perder a cabeça, é muito autocontrolado e objetivo — diz o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP).

Porém, já foi levado, em 2005, pelo então presidente da Casa, Severino Cavalcanti, a um destempero raivoso. Goldman não tolera desaforo, e não gostou de ser lembrando de uma antiga denúncia, do ano em que foi ministro dos Transportes (1992-1993) de Itamar Franco. À época, um jornal publicou indícios de direcionamento no edital de concessão da Via Dutra.

Dias depois, Itamar ordenou a suspensão dos editais, que foram refeitos. Goldman sempre negou qualquer irregularidade.

A sintonia fina de transição, acompanhada pessoalmente por Serra, chegou a suscitar intrigas internas, de que haveria um temor no governo do “efeito Lembo” — alusão ao espírito crítico e autônomo de Cláudio Lembo, o vice que sucedeu Geraldo Alckmin em 2006 e que classificou a máquina paulista de um Fusca 68 disfarçado de Maserati.

Para passar longe das analogias automobilísticas, Goldman escolheu comparar o governo do estado a um avião: — Vou fazer todo o possível para deixar o estado bem preparado, bem azeitado e bem aquecido, para que o próximo governador pegue o avião em nível de cruzeiro — disse, sem citar o candidato tucano ao cargo, Geraldo Alckmin, com quem já teve entreveros.
No entanto, Goldman nega os atritos.

Chama os desentendimentos com Alckmin de “conversas francas” e garante que, até o fim do mês, as diferenças serão superadas, e a chapa tucana estará fechada. (Leila Suwwan)

Oposições preparam caravana para Serra

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Com apoio do PMDB e do DEM, tucanos de Pernambuco organizam caravana para o lançamento da pré-candidatura do ex-governador de São Paulo à Presidência, no próximo sábado, em Brasília

Sheila Borges


Com a saída de José Serra do governo de São Paulo, quarta-feira (30), os tucanos priorizam agora a organização do evento que o lançará oficialmente, no próximo sábado (10), à Presidência da República. O presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra, informou esta semana, em seu twitter, que a legenda espera reunir aproximadamente três mil pessoas em Brasília – o dobro da capacidade do Centro de Convenções Brasil 21, local previsto para a cerimônia. A expectativa é superar o encontro que o PT organizou para dar publicidade à pré-candidatura de Dilma Rousseff, que, também na quarta, deixou o Ministério da Casa Civil.

Os líderes do PSDB estão embalados com os números da mais recente pesquisa de opinião sobre a corrida presidencial, que colocou Serra em boa vantagem em relação à pré-candidata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Por isso, no evento do dia 10, querem mostrar a unidade dos partidos de oposição e a consistência dos palanques que estão sendo construídos nos Estados em torno do projeto de Serra. Os oposicionistas de Pernambuco já estão se mobilizando.

A expectativa é que a caravana pernambucana seja representativa. Não agregue apenas os senadores e os deputados federais que já estão em Brasília. Deputados estaduais, prefeitos, vereadores e líderes políticos devem fazer parte do grupo. “Estamos mobilizando representantes de todos os segmentos. Queremos levar no mínimo 30 prefeitos, de 12 a 15 deputados e vereadores, além de representantes da juventude e da mulher”, adiantou a deputada estadual Terezinha Nunes (PSDB), uma da coordenadoras da caravana das oposições.

A disposição dos aliados pernambucanos de José Serra é mostrar à opinião pública que a pré-candidatura do ex-governador de São Paulo mobiliza a sociedade de forma ampla. “Não irão apenas os membros das executivas dos partidos”, frisou o presidente regional do DEM, Mendonça Filho. Para fortalecer o elo de ligação entre Serra e os correligionários pernambucanos, camisas estão sendo confeccionadas para os integrantes da caravana. Quem tem mandato, deverá pagar a passagem aérea do próprio bolso. Quem não tem, poderá contar com uma alternativa que está sendo estudada pelos líderes das agremiações: o aluguel de um ônibus que facilitará o deslocamento.

O discurso dos oposicionistas no Estado é priorizar, por enquanto, a organização do evento de Serra. Depois, será a vez de esquematizar a festa para o pré-candidato a governador do grupo, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB). Internamente, não se cogita outra alternativa para enfrentar o governador Eduardo Campos (PSB), que disputará a reeleição. Após a Semana Santa, eles já começam a pensar nesse evento, mas tudo vai depender do “aceno” de Jarbas, que chegou na quinta-feira (1º) de uma viagem oficial que fez à Tailândia. Além do PSDB, do PMDB e do DEM, fazem parte do grupo oposicionista o PPS e o PMN.

Serra entrega carta de renúncia à Assembleia

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O ofício em que o governador de São Paulo José Serra comunica sua renúncia ao presidente da Assembleia Legislativa foi publicado no Diário Oficial do Estado de São Paulo. No texto, o governador diz que se desincompatibilizou do cargo ontem para concorrer às eleições de outubro.

José Serra é pré-candidato do PSDB à Presidência da República. Em carta ao presidente da Assembleia Legislativa, deputado Barros Munhoz (PSDB), ele comunicou que se afasta "do cargo de governador do Estado no dia 2 de abril", de acordo com dispositivo constitucional, para se "candidatar a cargo eletivo, no próximo pleito de 3 de outubro deste ano".

O vice-governador Alberto Goldman assume interinamente até terça-feira, quando será diplomado na Assembleia, às 15 horas, e empossado em cerimônia, prevista para as 16 horas, no Palácio dos Bandeirantes.

Aécio rebate Lula e provoca Dilma

DEU NO ESTADO DE MINAS

Ex-governador afirma que foi o PSDB que iniciou o processo de mudanças no país e que não basta à ex-ministra vir ao estado para conquistar o voto dos mineiros. É preciso ter propostas

Juliana Cipriani, Enviada especial a São João del-Rei

Em sua primeira viagem a São João del-Rei logo depois de ter deixado o cargo, o ex-governador Aécio Neves (PSDB), pré-candidato ao Senado, disse ontem que concorda com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quando ele afirma que o candidato que quiser vencê-lo nesta eleição terá de “enfiar o pé no barro” e trabalhar mais do que ele . Segundo Aécio, o PSDB tem condições de vencer o PT e mostrar ao eleitor que o partido é que foi o responsável pelo início das mudanças no país. “Acho que nós temos condições de mostrar que estamos na matriz dessas mudanças. Temos todos que melhorar o Brasil”.

Em relação à pré-candidata Dilma Rousseff (PT), que escolheu Minas para começar a campanha rumo ao Planalto, Aécio afirmou que não adianta a ex-ministra simplesmente vir ao estado. É preciso que ela apresente propostas concretas para os mineiros. “Eu acho que, mais do que visitas, nós queremos propostas para Minas Gerais. O governador José Serra deve apresentar brevemente um conjunto de ações para Minas Gerais, que diz respeito a investimentos”, disse.

Aécio anunciou que vai ao lançamento da pré-candidatura de Serra, no dia 10. Na avaliação do ex-governador, o PSDB não entrou tarde na disputa pela Presidência, como criticam alguns aliados, principalmente do DEM. “Acho que está no tempo. O tempo correto é este. Nós estamos a quase seis meses das eleições A partir do dia 10, acho que temos todas as condições de travar um bom debate e estou muito confiante na vitória”.

Fernando Henrique Cardoso: 'Sem emoção ninguém ganha a eleição'

Em entrevista durante o evento de lançamento do livro Relembrando o que Escrevi, o ex-presidente da República fala sobre as eleições de outubro.

Veja abaixo.

Clique o link direto para o canal:

Alianças de Gabeira e de Cabral em crise

DEU EM O GLOBO

O PV decidiu romper com a candidatura de Cesar Maia ao Senado e excluí-lo da aliança de Fernando Gabeira para o governo do estado.

Já na chapa do governador Sérgio Cabral, há uma guerra entre Lindberg (PT) e Picciani (PMDB).

Fogo amigo ameaça alianças no Rio

PV de Gabeira quer excluir Cesar; no grupo de Cabral, Lindberg e Picciani estão em guerra

Cássio Bruno

A pré-campanha no Rio já virou uma guerra. Mas não entre adversários.

Os dois principais nomes da disputa pelo governo do estado sofrem com fogo amigo.

De um lado, Fernando Gabeira (PV) — muito criticado pelo até então aliado e presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia — deverá anunciar, na próxima semana, o rompimento com o ex-prefeito Cesar Maia (DEM), que concorreria ao Senado em sua chapa. Do outro, o governador Sérgio Cabral (PMDB), candidato à reeleição, tenta administrar o confronto pesado entre seus dois pré-candidatos ao Senado: o ex-prefeito Lindberg Farias (PT) e o presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani (PMDB).

Gabeira já havia manifestado o desejo de excluir Cesar Maia da aliança por causa da rejeição ao ex-prefeito na classe média carioca. A intenção do verde, porém, provocou forte reação de Rodrigo Maia, que saiu em defesa do pai e pôs em risco a coligação formada por PV, DEM, PPS e PSDB. Segundo o presidente nacional do DEM, “ou Gabeira tem o apoio de todos os partidos ou não tem de nenhum deles”.

E atacou: “A rejeição a Cesar Maia só ocorre no Posto 9, na Praia de Ipanema, onde Gabeira toma sol”.

As últimas declarações de Rodrigo Maia, publicadas ontem no GLOBO, sacramentaram de vez a decisão de Gabeira, que, há três semanas, participou de um encontro do DEM. No evento, o verde declarou que Cesar Maia “é o melhor candidato ao Senado”. O PV indicará a vereadora Aspásia Camargo para disputar uma vaga no Senado.


Aliança com PSDB e PPS seria mantida

O presidente regional do PV, Alfredo Sirkis, inimigo político de Cesar, disse que, agora, o problema está resolvido.

— Eles (Rodrigo e Cesar) vão seguir a vida deles. É melhor assim. Com a saída do DEM, o tempo na propaganda eleitoral na TV não será problema.

Teremos três ou quatro minutos para fazer um bom programa. E é o suficiente.

Eles acham que estamos nos suicidando. Não estamos. Só não compensa o tempo de TV com o desgaste que teremos com Cesar junto à classe média — afirmou Sirkis.

A intenção de Sirkis é manter a aliança com o PPS e o PSDB, como ocorreu nas eleições de 2008, quando Gabeira foi candidato a prefeito. No PSDB, porém, há divergências. O presidente regional do partido, José Camilo Zito, já disse que não apoia Gabeira.

E o presidente regional do PPS, deputado estadual Comte Bittencourt, afirmou que o partido ficará com Cesar Maia. O PPS deverá indicar Marcelo Cerqueira para o Senado.

— Anteciparam (a campanha) para fevereiro e março, o que deveria ocorrer somente em junho. O que há é um processo de discussão de alianças. Não há ruptura do que ainda não existe. Para manter as características de atuação do PV e do Gabeira, não cabia uma aliança com Cesar Maia — disse Sirkis.

Gabeira disse que só vai se pronunciar sobre qualquer decisão dele e do PV depois da Semana Santa.

Na última quinta-feira, ao saber dos ataques de Rodrigo Maia, o pré-candidato evitou entrar em polêmica: — É assim? Tudo bem. Eu não vou bater boca com ele pelo jornal. Se ele acha tudo isso, então, estamos conversados.

Anteontem, Rodrigo Maia ironizou a intenção de Gabeira de romper com o DEM: — O Gabeira recebe meia dúzia de mensagens contra Cesar Maia na caixa postal do computador e entra em TPM.

O presidente do DEM voltou a criticar Gabeira ontem: — É um problema deles (romper com Cesar e o DEM). O Sérgio Cabral vai ganhar a eleição com essa decisão do Gabeira — disse.

Por e-mail, Cesar Maia atacou os aliados do pré-candidato. “Gabeira é vítima dos seus, que, na verdade, querem usá-lo para se elegerem”, disparou o ex-prefeito. E completou: “Para mim, aumenta a votação. Para ele (Gabeira), elimina a chance (de vencer Cabral)”. No Twitter, Cesar declarou apoio ao pré-candidato do PSDB à Presidência, José Serra.

Acusações de enriquecimento


Já Cabral terá de buscar o entendimento entre Lindberg e Picciani. Em entrevista a um programa de TV que irá ao ar amanhã, o presidente da Alerj ataca o petista. Segundo Picciani, “Lindberg teve comportamento de criminoso” ao responsabilizá-lo pelo vazamento de informações à imprensa sobre a decisão da Justiça de quebrar o seu sigilo bancário e fiscal e o de sua família por suspeitas de desvios de verbas na prefeitura de Nova Iguaçu. E concluiu: “Lindberg vai ter que explicar é à Justiça como ele e seus familiares criaram 12 empresas contratadas irregularmente pela prefeitura”.

Lindberg rebateu: — Este senhor (Picciani) se acha o dono do Rio. Ameaça, chantageia, joga sujo. É baixo. Gosta de dizer que todos o temem. Mas eu não tenho medo dele e muito menos dos seus métodos. Vou processá-lo. Ele vai ter que provar tudo isso.

Em seguida, o petista atacou novamente Picciani: — Em 1994, Picciani tinha um Corcel velho. Era assim que fazia campanha nos subúrbios do Rio.

Hoje é um grande fazendeiro, um dos maiores criadores de gado do Brasil. Se alguém tem que se explicar como enriqueceu, não sou eu.

Picciani respondeu por meio de sua assessoria: “Os meus problemas foram enfrentados e resolvidos.

Espero que o Lindberg enfrente e resolva os dele”.

Cabral tem outra dor de cabeça.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem pressionado o governador aliado a apoiar o senador Marcelo Crivella (PRB), que disputará novamente uma vaga no Senado. Lula atenderia a um pedido de seu vice, José Alencar (PRB). O presidente vem ao Rio na próxima terça-feira.

— Conversarei com Cabral sobre esses problemas e outros assuntos no domingo (hoje). Mas isso tudo é uma disputa de espaço natural. É uma coisa que vai se ajeitar — minimizou o vice-governador, Luiz Fernando Pezão.

Em janeiro, Cabral ficou furioso com o encontro entre o pré-candidato ao governo do estado pelo PR, o ex-governador Anthony Garotinho (PR), e a pré-candidata à Presidência pelo PT, a ex-ministra Dilma Rousseff. Garotinho, a exemplo de Cabral, faz parte da base aliada de Lula, mas o governador não pretenderia ver os aliados petistas no palanque de seu adversário.

Pré-candidata mistura elogios a Lula e Fernando Henrique

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Bernardo Mello Franco
Da reportagem local

Às vésperas de uma eleição com clima de plebiscito, Marina Silva parece ser a única política brasileira capaz de apontar virtudes no presidente Luiz Inácio Lula da Silva e em seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Em palestras e entrevistas, a pré-candidata do PV ao Palácio do Planalto tem se equilibrado nos elogios aos governos de PT e PSDB.

"Precisamos ter a humildade de reconhecer as conquistas dos últimos 16 anos", repete a senadora, num discurso-exaltação que mistura a estabilização econômica dos tucanos e o avanço social dos petistas.

Em caravana a Pernambuco, na semana passada, Marina enquadrou Lula e FHC na categoria de "mantenedores de utopia". Ela comparou a dupla a unanimidades nacionais, como o ambientalista Chico Mendes (1944-1988) e o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997).

Depois, disse buscar um lugar na mesma galeria.

"Não tenho preconceito em recolher as coisas boas das pessoas", justifica.

Por onde passa, a senadora tem festejado o equilíbrio monetário e fiscal conquistado na gestão de FHC -período em que os petistas acusavam o governo de arrochar salários e se curvar aos ditames do Fundo Monetário Internacional.

Ao comentar o governo Lula, ela cita de cabeça os números que mostram aceleração no crescimento e na distribuição de renda. E se desmancha em elogios ao Bolsa Família, tachado de eleitoreiro pela intelectualidade tucana.

A boa vontade de Marina com Lula e FHC também se alastra para o campo pessoal. Em visita a Garanhuns (PE), na última quarta-feira, ela se disse emocionada por estar na terra natal do presidente.

Questionada sobre uma possível contradição entre o discurso e as críticas ao governo, invocou o tempo em que foram companheiros no PT:

"Tenho 30 anos de investimento de carinho e afeto no presidente Lula. Quando a gente investe amorosamente em alguém, os laços criam raízes".

Evitado por colegas de PSDB, que temem que o desgaste de sua imagem contamine a pré-candidatura de José Serra, FHC é uma referência cada vez mais presente nas falas de Marina -que diz admirá-lo como ex-presidente e intelectual.

Após se reunir com pastores evangélicos, ela se comparou ao ex-presidente, tachado de ateu na eleição municipal de 1985.

"É a segunda vez que as pessoas estão interessadas na fé de um político. A primeira foi com Fernando Henrique. Disseram que ele não tinha fé, e ficavam perguntando isso para constrangê-lo", disse.

Palanque para Dilma, Rio tem convênios federais triplicados

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Incremento se deu entre 2007 e 2009, sob Cabral, que se tornou aliado de Lula
Rio lidera investimentos do PAC concluídos até agosto, com R$ 27 bi contra R$ 9,9 bi de SP e R$ 5,1 bi de Minas, governados pelo PSDB

Raphael Gomide
Da Sucursal do Rio

Aliado próximo e autodenominado "melhor amigo de infância" do presidente Lula, o governador do Rio, Sérgio Cabral, conseguiu, em três anos, multiplicar por 3,6 os convênios do governo federal com o Estado em relação aos quatro anos de Rosinha Matheus. Se contabilizados os R$ 700 milhões estimados para 2010, o total chegará a 5,6 vezes.
Cabral, candidato à reeleição, conta com o veto de Lula à emenda que muda a repartição dos royalties do pré-sal e tira mais de R$ 7 bilhões do Rio.
Em comparação com a antecessora, Cabral foi favorecido pela criação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) em 2007, na segunda gestão de Lula. O Rio é hoje o maior beneficiado por obras do programa.

Para assegurar um palanque forte à pré-candidata governista, Dilma Rousseff, a soma dos convênios entre a União e o Rio atingiram R$ 1,23 bilhão entre 2007 e 2009, em comparação a R$ 342,9 milhões (valor atualizado pelo IPCA-E médio), de 2003 a 2006, anos em que Rosinha governou com Lula na Presidência, com ataques mútuos.

O montante recebido por Cabral também é quase o dobro do obtido pelo Estado entre 2000 e 2002 (Garotinho governou de 2000 a março de 2002, e Benedita, de abril a dezembro de 2002), R$ 651 milhões.

Os convênios também representam mais de duas vezes os R$ 603,6 milhões que Minas Gerais recebeu em acordos firmados com a União no período.

As verbas do Rio aumentaram à medida que se solidificou a parceria entre Cabral e Lula, que no primeiro turno das eleições de 2006 se atacavam. Hoje, cada evento público do presidente no Rio é repleto de elogios intermináveis de Cabral a Lula, que os retribui.
Em sua última visita à favela da Rocinha, o presidente falou de uma parceria "que nunca tinha antes existido". O governador citou por várias vezes que o Rio é o Estado que mais recebe recursos do governo federal.

Trata-se ainda de solução política conveniente para Lula. Dos três maiores Estados, São Paulo e Minas Gerais estavam sendo geridos pelos tucanos José Serra e Aécio Neves. No Rio, conta com o apoio incondicional para Dilma. "Ainda nem começou a campanha, mas é evidente que ela é a minha candidata", já declarou Cabral.

Maior destino turístico do país, palco da Olimpíada de 2016 e da Copa de 2014, o Rio carece de obras de infraestrutura e pena na Segurança Pública. O PAC das Favelas investe nos complexos do Alemão, Manguinhos e Rocinha.

Tabela da Secretaria de Fazenda do Estado, com os valores corrigidos pelo IPCA-E Médio, mostra que os investimentos federais aumentaram muito em 2009. Em 2007, primeiro ano do PAC, os investimentos federais totalizaram R$ 217 milhões, e aumentaram 23,5%, para R$ 268 milhões, em 2008.

Em 2009, houve o maior salto, com R$ 746,2 milhões liquidados. Montante semelhante deve ser recebido neste ano, de acordo com o secretário de Fazenda, Joaquim Levy. "Estamos mantendo o ritmo das obras. Não discutimos se um detalhe está ou não no convênio, para evitar que a obra pare. Pagamos", disse.

De acordo com levantamento do site Contas Abertas, o Rio lidera com folga investimentos em obras do PAC concluídas até agosto. São considerados investimentos em infraestrutura logística, energética e gastos em saneamento e com o Luz para Todos. O Rio soma R$ 27 bilhões, contra R$ 9,9 bilhões de São Paulo, R$ 5,1 bilhões de Minas Gerais e R$ 4,8 bilhões do Rio Grande do Sul, Estados que vêm logo abaixo.

Morte e vida Severina (Auto de Natal Pernambucano) – parte 11::João Cabral de Melo Neto

O RETIRANTE APROXIMA-SE DE UM DOS CAIS DO CAPIBARIBE

— Nunca esperei muita coisa,
é preciso que eu repita.
Sabia que no rosário
de cidade e de vilas,
e mesmo aqui no Recife
ao acabar minha descida,
não seria diferente
a vida de cada dia:
que sempre pás e enxadas
foices de corte e capina,
ferros de cova, estrovengas
o meu braço esperariam.
Mas que se este não mudasse
seu uso de toda vida,
esperei, devo dizer,
que ao menos aumentaria
na quartinha, a água pouca,
dentro da cuia, a farinha,
o algodãozinho da camisa,
ao meu aluguel com a vida.
E chegando, aprendo que,
nessa viagem que eu fazia,
sem saber desde o Sertão,
meu próprio enterro eu seguia.
Só que devo ter chegado
adiantado de uns dias;
o enterro espera na porta:
o morto ainda está com vida.
A solução é apressar
a morte a que se decida
e pedir a este rio,
que vem também lá de cima,
que me faça aquele enterro
que o coveiro descrevia:
caixão macio de lama,
mortalha macia e líquida,
coroas de baronesa
junto com flores de aninga,
e aquele acompanhamento
de água que sempre desfila
(que o rio, aqui no Recife,
não seca, vai toda a vida).

Cruje el muro de caña

DEU EM EL PAIS (ESPANHA)

Joaquín Villalobos

Fidel Castro se preparó para enfrentar una invasión estadounidense, derrotar rebeliones contrarrevolucionarias, evadir atentados contra su vida y resistir al embargo estadounidense, pero no se preparó para pelear contra hombres dispuestos a dar la vida en una huelga de hambre; ni para enfrentar a un puñado de mujeres que protestarían pacíficamente, ni para lidiar con grupos musicales que, con el más subversivo de los mensajes, le cantarían a centenares de miles de cubanos "que la normalidad no es pecado".

Fidel basó su defensa estratégica en mantenerse como víctima. La belicosidad del exilio de Miami y de los Gobiernos estadounidenses han sido en esto su principal soporte. Pero ahora no puede culpar al imperialismo por el heroísmo de los opositores, ni pelearse contra las ganas de bailar de los cubanos luego de haberlos hastiado con medio siglo de consignas políticas.

Para un sector de la izquierda, Cuba es una especie de baluarte moral del continente, un Vaticano revolucionario. Muchos líderes de centro izquierda latinoamericanos no se atreven a cuestionar al régimen, por el miedo a blasfemar. Sin embargo, la revolución es ahora victimaria y está siendo moralmente derrotada por sus víctimas. La posición de Fidel estuvo justificada durante un tiempo, pero en política no hay santos y Fidel Castro es ahora, en sentido estricto, el único dictador del continente. Chávez y otros son aprendices.

El futuro del régimen cubano es el tema más crucial en la agenda política latinoamericana. Su final, además de problemas de seguridad y migratorios, podría desencadenar un efecto dominó sobre las izquierdas populistas y extremistas que modificaría seriamente el mapa político regional. Sin embargo, muy pocos se atreven a hablar de su final porque consideran débil a la oposición, muy fuerte al régimen o temen que Fidel viva cien años y que los cambios no comiencen hasta su muerte, como ocurrió con Franco. Pero la España franquista no estaba en bancarrota, la oposición fue poco visible en casi toda la Europa del Este y más fuerte era la Unión Soviética y, sin embargo, se acabó.

En Cuba el cambio depende de tres relojes que están en cuenta regresiva: el biológico de Fidel, el del cambio generacional y el del aguante social de los cubanos. El problema no es cuánto más vivan Fidel y Raúl, sino cuánto más pueden conservar el poder en medio de la peor crisis económica y social del régimen y en el momento de menor fortaleza física de ellos. Cuando acabó la cooperación de la ex Unión Soviética, se desataron protestas que Fidel todavía pudo controlar facilitando la salida de miles de balseros en 1994. En el escenario actual tendrían tres caminos: expulsar gente como siempre han hecho, reprimir o reformar. Pero expulsar no tiene ahora justificación; reprimir terminaría dividiendo al Ejército y Fidel se ha opuesto a los intentos reformistas de Raúl.

La octogenaria vieja guardia amarró todo en torno al caudillo y no construyó institucionalidad. Justificando las destituciones de Pérez Roque y Lage, Fidel Castro escribió: "La miel del poder, por el cual no conocieron sacrificio alguno, despertó en ellos ambiciones...". La meritocracia cubana se fundó religiosamente en la lealtad a la jerarquía, en la fe en la doctrina y en el culto al sacrificio para expiar el pecado original de la ambición. Esto abrió las puertas a la simulación, la hipocresía y el oportunismo y se las cerró al debate, la inteligencia y la eficiencia. La generación que luchó y la que no luchó quedaron separadas; los guerrilleros de la Sierra Maestra se convirtieron en sabios sin importar si estaban educados y los jóvenes que educó la revolución, pero que no hicieron sacrificios, quedaron bajo sospecha. Los profesionales formados en los últimos 50 años son peones del sistema, y no importa que los científicos ganen una miseria y anden en bicicleta. La educación masiva fue una meta propagandística sin relación con la economía, la movilidad social y el acceso al poder. La vieja guardia aplastó a los jóvenes que educó y por ello existen prostitutas que son doctoras o ingenieras. En Cuba lo que la gente dice no es lo que la gente piensa. La apatía es rechazo popular y la simulación, una práctica normal entre los dirigentes con menos de 60 años. Es obvio que hay oposición dentro del partido y del Gobierno, y que la cohesión es pura ficción. La fragilidad es tal que así como pueden sobrevivir un tiempo más, también pueden derrumbarse mañana. El régimen cubano ya no tiene ninguna salida estratégica: o se reforma o muere.

Joaquín Villalobos, ex guerrillero salvadoreño, es consultor para la resolución de conflictos.