quinta-feira, 22 de julho de 2010

Um copo de vinho, Sr. Marx? :: Martin Jacques

DEU EM GRAMSCI E O BRASIL

Tradução: Zander Navarro

Houve uma batida na porta. “Entre”, eu disse. Era o momento pelo qual eu tinha aguardado. Ele era um pouco menor do que eu esperava, mas não menos imponente, com seus longos cabelos, agora na maioria grisalhos, e uma barba. Suas feições eram um tanto mais escuras do que imaginara. É claro, pensei: “O velho Mouro” [1]. Ofereci uma cadeira, agradecendo por reservar aquele tempo para a entrevista. Ele balançou os ombros, olhou para o gravador com alguma perplexidade e esperou que eu começasse.

“Sr. Marx, o Sr. escreveu no Manifesto comunista, às vésperas da revolução de 1848: ‘Um espectro assombra a Europa, o espectro do comunismo’. O espectro que agora assombra a Europa parece ser muito mais o capitalismo”.

Comecei a explicar o que ocorrera em 1989, mas ele interrompeu com alguma impaciência. “Eu sei, eu sei. Tenho seguido os eventos, não durmo enquanto estou na Sala de Leitura”. “É claro”, pensei, “assento G7” [2]. Como ele parecia bem informado sobre as notícias, apressadamente revisei a minha entrevista.

“O que pensa de 1989? É o fim do comunismo?”

“É fascinante. Um ano notável. Sob alguns aspectos, é como em 1848. Um movimento popular irresistível em muitos países e todos ao mesmo tempo. Mas, desta vez, as revoluções provavelmente sobreviverão. Essas são revoluções pela democracia. Acho que 1989 é o final de 1917. É o final da era da Revolução Russa. Suspeito que ela fracassou”.

Fiquei espantado com a sua disposição de descartar muito do que, afinal de contas, tinha sido feito em seu nome. “Mas”, respondi, “desde o final da década de 1860, o Sr. mesmo passou a ver a Rússia como a candidata mais provável para a revolução”.

“Também escrevi, com Engels, que uma revolução russa poderia ‘oferecer o sinal para a revolução proletária no Ocidente, de tal forma que uma complementaria a outra’ (está no prefácio de uma nova edição russa do Manifesto comunista). Foi o que quase aconteceu. Quase ocorreram revoluções em diversos países europeus no período imediato à Primeira Grande Guerra, para não mencionar apenas a Alemanha, é claro. Mas não era para acontecer. E a Rússia estava no seu próprio caminho, um país com um proletariado muito pequeno e sem tradição democrática. Era a receita para um regime autoritário cruel. E foi exatamente o que ocorreu. Prevíamos o socialismo em termos de emancipação, autogestão e uma avassaladora maioria. Mas, de fato, ocorreu o contrário. Foi um socialismo em nome do povo, mas nas mãos de uma minoria”.

“Mas tudo foi realizado com suas ideias, em seu nome”.

“E daí?”, ele retrucou. “O marxismo se transformou em muitas e diferentes tradições. Esta foi uma delas, e no início parecia promissora. O problema é que ela se tornou ‘o’ marxismo. Tornou-se a linha oficial. Todas as outras tradições, como aquela da Segunda Internacional, foram deixadas na escuridão, foram excomungadas [3]. Como resultado, o marxismo, que tinha crescido no Ocidente, ficou indissoluvelmente ligado ao Oriente, ao atraso, ao despotismo. O socialismo foi separado da democracia. Foi uma tragédia”.

Estava surpreso com a franqueza de Marx. Mas talvez ele estivesse sendo, primeiramente, um filósofo, e somente depois um militante, a despeito do que está escrito em seu túmulo, no Cemitério de Highgate [4]. Insisti um pouco mais: “Mas, certamente, o Sr. precisa aceitar alguma responsabilidade pelo que foi feito em seu nome. Certamente, existia algum autoritarismo incipiente em sua própria perspectiva...”

“Com a nossa ênfase sobre as leis da história e a inevitabilidade do socialismo, demos crédito a um certo autovirtuosismo, a um elitismo, à ideia de que os fins justificam os meios. Mas você não pode seriamente me tornar o responsável pelo que aconteceu no tempo de Stalin, por Deus!”

“Mas o seu estilo debater e polemizar não estabeleceu um mau exemplo para seus seguidores? Foi marcado por um grau de intolerância imitado por muitos, incluindo Lenin”.

Marx parecia incomodado. Gesticulando vigorosamente, disse: “Era a cultura do meu tempo, especialmente nos círculos de refugiados de Londres. De qualquer forma, não posso ser acusado pelo comportamento de outros que sequer conheci”.

“Em seus escritos, o Sr. previu o socialismo como uma consequência inevitável do capitalismo. O Sr. não disse isso uma vez, mas mil vezes. O Sr. escreveu com extraordinária perspicácia sobre o capitalismo, de tal forma que atualmente muitas pessoas que jamais sonhariam se chamar de marxistas foram influenciadas por suas ideias. O Sr. escreveu muito sobre revoluções, particularmente sobre 1848 e a Comuna de Paris. No entanto, escreveu muito pouco sobre o socialismo. Quando os bolcheviques tomaram o poder, eles herdaram pouco mais do que uma folha de papel em branco”.

“Suponho que assumimos que, ao chegar o momento, seria relativamente claro o que precisava ser feito. Fomos culpados, creio, de um certo utopismo. Tudo estaria logo acertado já da noite para o dia. A outra razão é que isto nunca pareceu ser a principal prioridade. Sempre pareceu fazer parte do futuro. Entender o capitalismo era mais importante do que sonhar sobre o socialismo”.

“Está bem, vamos conversar sobre o capitalismo. O Sr. fez duas previsões. Primeiro, que o capital iria se concentrar cada vez mais, que a natureza privada de sua apropriação ficaria mais e mais evidente. E, segundo, que o proletariado industrial cresceria ao ponto de representar a vasta maioria da população e, assim, se tornar o motor central de uma nova sociedade, o socialismo. Mas esta última tendência nunca ocorreu. O proletariado industrial está agora contraindo rapidamente. E a população trabalhadora, longe de ficar mais homogênea, está, de fato, se tornando crescentemente heterogênea”.

“Sejamos claros acerca da história, primeiramente. Depois que saí de cena [5], o proletariado industrial continuou a crescer com grande velocidade em toda a Europa. Isto foi verdadeiro até 1945. Foi somente durante os anos cinquenta que a classe trabalhadora industrial começou a declinar como proporção da força de trabalho. Além disto, ela tinha ficado rapidamente organizada, mais consciente do que eu tinha antecipado”.

“Sua interpretação é válida para a Europa, mas não muito para outros lugares, como os Estados Unidos, por exemplo”.

“É verdade. Em geral, não entendemos bem os Estados Unidos. De qualquer forma, deixando aquele país de lado, aceito que, desde os anos cinquenta ou por aí, a previsão acerca da crescente preponderância do proletariado industrial empacou. É agora claro que o crescimento do proletariado foi a característica de uma era, e não uma tendência permanente. Agora, ele está em declínio. Até o final deste século, constituirá menos de 20% da população trabalhadora deste país”.

“Exatamente. O que significa que durante um tempo o Sr. estava certo sobre a centralidade da classe trabalhadora como motor da mudança, mas esta era agora passou. A classe trabalhadora está em declínio. A sua ação histórica a favor do socialismo não existe mais”.

“Concordo. Foi o nosso grande erro. Durante algum tempo estávamos corretos. De fato, estivemos certos durante setenta anos mais ou menos, até que me rendi. Mas aquela não foi uma conclusão desprezível. Agora não é mais assim; a história pregou uma peça no velho Marx. Além disto, suspeito que o nosso conceito de socialismo deve ser repensado. O que o socialismo quer dizer sem o seu centro social de mudança? Acho que estamos de volta à elaboração”.

De novo, estava surpreso com a disposição de Marx de enfrentar frontalmente os fatos, mesmo quando esses afetavam os fundamentos de seu pensamento. Mencionei isto para ele, que me recordou sua máxima favorita: De omnibus dubitandum (É preciso duvidar de tudo). Precisávamos de alguma “lubrificação” e lembrei-me de como ele gostava de vinho tinto. Ele respondeu com entusiasmo à ideia, embora um tanto surpreso que o Weekend FT não pudesse oferecer um vinho melhor [6].

Continuou: “Discutimos somente uma das minhas duas previsões. Parece-me que a outra era notavelmente precisa. Quaisquer que sejam as tendências à descentralização no interior das firmas, tem ocorrido uma enorme concentração do capital. Veja as grandes companhias globais. Além disto, sempre insisti que o capitalismo era um sistema revolucionário. Mas nunca sugeri que tinha esgotado o seu potencial, embora admita que mesmo eu estou surpreso por sua vitalidade na segunda metade do século 20”.

E ainda: “É a minha vez de citar meus escritos para você. ‘A burguesia não pode existir sem revolucionar constantemente os instrumentos de produção, e em consequência as relações de produção e, com elas, as relações totais da sociedade. Um constante revolucionar da produção, a permanente perturbação de todas as condições sociais, uma duradoura incerteza e agitação distinguem a época burguesa de todas as precedentes. Todas as relações que são fixas, congeladas, com o seu padrão de preconceitos e opiniões antigas e veneráveis, são varridas... tudo o que é sólido se desmancha no ar’. Nada mal, hein? E escrevi isto em 1848, bem antes do meu trabalho em O capital. Não é uma má descrição daquela década”.

“Não há nenhuma dúvida de que o Sr. foi extraordinariamente preciso acerca do dinamismo do capitalismo. Aliás, o Sr., mais do que qualquer outro, influenciou as pessoas que pensam sobre o assunto atualmente. Ao mesmo tempo, no entanto, o Sr. subestimou inteiramente a capacidade de adaptação do capitalismo, de construir um sempre crescente padrão de vida. Mais, o Sr. realmente não imaginou que era um sistema capaz de reformar-se, de se tornar bem mais humano do que era quando escreveu”.

Marx se curvou para frente, serviu-se de outra taça de vinho, parou por um momento e então disse: “Certamente, subestimei a capacidade de a classe trabalhadora, através da organização coletiva, contrapor-se à tendência de sua renda estagnar ou declinar. Isto está claro. Mas contesto em parte o segundo ponto. Já bem antes que eu saísse de cena, partidos socialistas de massa, normalmente se intitulando de marxistas, estavam se enraizando e abrindo caminhos em termos de reformas. Engels e eu reconhecemos a importância fundamental do voto universal. Você conhece a introdução de Engels para o meu livro A luta de classes na França, escrita em 1895? Ali ele argumenta que o voto universal tornara obsoletos os métodos insurrecionais de 1848 e a Comuna de Paris. Mais, ele sugeriu também que o Estado poderia ser reformado por dentro”.

“De qualquer forma, as reformas realizadas na Europa Ocidental certamente foram além dos seus sonhos mais intensos. Em seus últimos dias, é verdade que o Sr. reconheceu o valor das reformas graduais, e até mesmo viu este caminho como a melhor esperança naquele tempo, mas sempre com base na crença de que num certo momento ocorreria uma revolução. Examinando agora em perspectiva, o Sr. seria simpático a um de seus seguidores, o revisionista Eduard Bernstein, que se tornou um poderoso defensor do gradualismo, ao ver o processo de reforma como mais importante do que a meta final, a revolução?”

Marx pareceu incerto sobre como responder. Alisou a barba e disse:

“Em retrospecto, acho que estava certo até o fracasso das revoluções na Europa Ocidental, no início do século 20. Aquele período marcou o final da possibilidade de revoluções nos países capitalistas avançados. A melhor opção passou a ser o caminho da reforma. Os partidos da Segunda Internacional, como a Social Democracia alemã, provavelmente ofereceram o melhor modelo de longo prazo”.

“Se é assim, o Sr. vê o seu legado pensando na União Soviética ou, por exemplo, na Suécia?”

“Ambos são parte do legado. Mas agora está claro que o primeiro caso se esgotou, fracassou. Por outro lado, a tradição social-democrata permanece plena de possibilidades históricas”.

Marx tirou seu relógio de bolso do lado esquerdo do colete.

“Preciso seguir meu caminho”, disse. “Preciso encontrar uma pessoa em Maitland Park Road” (a sua casa anterior).

“Brevemente, então, um ou dois temas finais. Onde tudo isto deixa o marxismo no final do milênio?”

“Vamos ser claros. Nunca subscrevi o marxismo. Lembre-se quando eu disse: ‘Tudo que sei é que não sou um marxista’. Mas não posso negar que agora existe uma tradição marxista. Parece que o sentido de 1989 é que o cordão umbilical que ligava o marxismo a 1917 está rompido. O marxismo finalmente se tornou plural, se tornou marxismos. Ao mesmo tempo, perdeu a sua exclusividade. Assume seu lugar ao lado de outras tradições em posição de igualdade e não de predominância. Depois de mais de um século, é assim que deveria ser”.

“Mas, então, o que permanece?”

“Acho que já respondi muito sobre isto. Apenas acrescentaria que o capitalismo está vivo e saudável e, da mesma forma, portanto, está a desigualdade e a injustiça. Está tudo à nossa volta”.

“O Sr. tem algum arrependimento em sua vida?”

“Por que deveria ter? Citando Hamlet:

Sure, he that made us with such large discourse,
Looking before and after, gave us not
That capability and godlike reason,
To fust in us unused...” [7]

Quando percebi, ele já tinha saído. Cocei meus olhos. Teria sido um sonho ou uma exclusiva para terminar com todas as exclusivas?

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Martin Jacques é professor visitante da London School of Economics. Foi editor da revista Marxism Today (1977-1991). É autor de When China Rules the World. The Rise of the Middle Kingdom and the End of the Western World (2009). Esta “entrevista com Karl Marx” foi originalmente publicada no Financial Times, Londres, em 10 de janeiro de 1990.
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Notas
[1] Apelido de Marx entre seus familiares e amigos.

[ 2] Referências à Sala de Leitura e à cadeira favorita de Marx no Museu Britânico. Foi o seu ambiente principal de trabalho, em especial, durante a década de 1850.

[3] Uma organização de partidos de esquerda (social-democratas, socialistas e trabalhistas). Nasceu em 1889, organizada pela facção marxista que rompeu com a Associação Internacional dos Trabalhadores e, por esta razão, chamada de “Segunda Internacional”.

[4] Em seu túmulo, no cemitério londrino de Highgate, estão inscritos o parágrafo final do Manifesto comunista (“Proletários de todos os países, uni-vos!”) e a igualmente famosa frase extraída das Teses sobre Feuerbach (“Os filósofos apenas interpretaram o mundo em vários sentidos; a questão é transformá-lo”).

[5] Marx morreu em 1883.

[6] O suplemento de final de semana do Financial Times, onde esta entrevista foi publicada.

[7] Shakespeare, William (1602), Hamlet. Ato IV, cena 4.

Expressão de vontade:: Dora Kramer

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

No geral o eleitorado cresce, mas o registro de jovens (16 e 17 anos) votantes decresce. Eles eram 2,5 milhões na última eleição presidencial, quando havia 125,9 milhões de eleitores no Brasil, e são 2,3 milhões agora, quando há 135,8 milhões de pessoas aptas a votar no País.

A primeira e mais óbvia explicação que nos ocorre é o desinteresse motivado pela desqualificação da mão de obra do ramo: quanto menos confiança inspira a atividade política, mais afastados tenderiam ficar os jovens.

Mas por que só os jovens e não os eleitores como um todo?

É o tipo da pergunta que não se pode responder apenas pelo exame dos registros da Justiça Eleitoral, porque adolescentes de 16 e 17 foram autorizados a votar a partir da Constituição de 1988, mas o direito é facultativo. Nessa idade só vota quem quer.

Dos 18 aos 70 anos de idade (a propósito, entre os setentões o eleitorado cresceu de 5,5 milhões em 2006 para 6,2 milhões em 2010) o voto é obrigatório; o registro, portanto, compulsório.

Pelo critério aplicado aos jovens de 16 e 17 anos fica impossível saber se o desinteresse se estende, ou não, a outras faixas etárias, classes sociais e níveis de escolaridade.

Saber ninguém sabe ao certo o motivo da redução de eleitores entre os adolescentes. Culpar a torpeza dos políticos e a inépcia dos partidos é sempre mais fácil. Inclusive porque pode realmente ser um dos fatores, senão o principal.

Talvez valesse a pena perguntar a eles numa pesquisa específica. Na consulta empírica a (des)motivação varia, mas não varia muito: uns dizem que não têm paciência de pensar no assunto, outros alegam que não há estímulo temático ou pessoal.

Ou seja, a agenda em pauta não é estimulante e os candidatos também não justificam "o trabalho" de prestar atenção no tema, escolher um deles e no dia determinado ir até a seção eleitoral para votar.

Note-se um aspecto não explorado dessa questão: para o bem ou para o mal, a expressão de vontade é um dado essencial na discussão sobre o voto do adolescente, coisa que não é levada em conta no voto dos demais. O mesmo ocorre com os maiores de 70 anos.

Argumenta-se que o voto deve ser obrigatório porque o dever cívico é um imperativo sem o qual a democracia correria o risco de sucumbir à ilegitimidade, pois "o brasileiro" não teria condições de discernir sobre a importância do exercício desse direito e tenderia a se ausentar em massa. Faltaria acrescentar ao arrazoado "por preguiça".

Traça-se também um paralelo entre o voto e o pagamento de impostos. Se este é obrigatório aquele também deve ser, diz-se.

Pois bem, mas a faixas em tese economicamente não ativas e, no caso dos púberes, ainda não amadurecidas sob vários aspectos (o cívico inclusive) é conferida a prerrogativa da escolha.

Um contrassenso.

Conviria pesquisar se a maioria do eleitorado (126,5 milhões, descontados os jovens de 16 e 17 anos e os adultos entre 70 e 79 anos de idade) também não estaria profundamente desinteressada em participar da política, por meio de eleições, em virtude da pobreza da temática e do desempenho da mão de obra à disposição no mercado.

Se o voto fosse facultativo para todos isso poderia ser medido tal como se mede agora o grau de envolvimento dos adolescentes. Registradas quedas, provavelmente partidos e políticos ver-se-iam na obrigação de melhorar e estaria, portanto, estabelecida uma relação mais justa entre o direito de votar e o dever de merecer ser eleito.

Nisso se insere - em lugar de absoluto destaque, registre-se - a decisão dos candidatos de participar ou não de debates. Nesse assunto, e em vários outros, mandam os marqueteiros: reza a norma deles que quem está na frente nas pesquisas, não é bom de serviço na arte da comunicação ou não tem suficiente preparo para enfrentar um embate não deve se arriscar a um acidente de percurso.

Perfeito. Mas e o eleitor entra onde? Na obrigação de comparecer em 3 de outubro?

O ideal seria que pudesse escolher só votar mediante o estabelecimento de uma relação mais justa entre o direito de escolher e a obrigação de merecer ser eleito.

Os caçadores e o elefante :: Demétrio Magnoli

DEU EM A O ESTADO DE S. PAULO

Dois dias atrás, no meio da tarde, em cerimônia no Palácio do Itamaraty, Lula sancionou a primeira lei racial da História do Brasil. São 65 artigos, esparramados em 14 páginas, escritos com o propósito de anular o artigo 5.º da Constituição federal, que começa com as seguintes palavras: "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza." O conjunto leva o título de Estatuto da Igualdade Racial, uma construção incongruente na qual se associa o princípio da igualdade ao mito da raça, que veicula a ideia de uma desigualdade essencial e, portanto, insuperável.

O texto anticonstitucional, aprovado em 16 de junho por um acordo no Senado, é uma versão esvaziada do projeto original. No acordo parlamentar suprimiram-se as disposições que instituíam cotas raciais nas universidades, no serviço público, no mercado de trabalho e nas produções audiovisuais. Pateticamente, em todos os lugares, exceto no título, o termo "raça" foi substituído pela palavra "etnia", empregada como sinônimo. Eliminou-se ainda a cláusula que asseguraria participação nos orçamentos públicos para os "conselhos de promoção da igualdade étnica", órgãos a serem constituídos paritariamente nas administrações federal, estaduais e municipais por representantes dos governos e de ONGs do movimento negro.

Mas o que restou é a declaração de princípios do racialismo. A lei define uma coletividade racial estatal: a "população negra", isto é, "o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas". Dessa definição decorrem uma descrição racial do Brasil, que se dividiria nos grupos polares "branco" e "negro", e a supressão oficial das múltiplas identidades intermediárias expressas censitariamente na categoria "pardos". Implicitamente, fica cassado o direito de autodeclaração de cor/raça, pois o poder público se arroga a prerrogativa de ignorar a vontade do declarante, colando-lhe um rótulo racial compulsório. O texto funciona como plataforma para a edificação de um Estado racial, uma meta apontada no artigo 4.º, que prevê a adoção de políticas raciais de ação afirmativa e a "modificação das estruturas institucionais do Estado" para a "superação das desigualdades étnicas".

A fantasia que sustenta a nova lei consiste na visão do Brasil como uma confederação de nações-raças. Nessa confederação o princípio da igualdade deixaria de ser aplicado aos indivíduos, convertendo-se numa regra de coexistência entre coletividades raciais. Os cidadãos perdem o estatuto de sujeitos de direitos, transferindo-o para as coletividades raciais. Se o Poder Judiciário se curvar ao esbulho constitucional, estudantes ou trabalhadores da cor "errada" não poderão apelar contra o tratamento desigual no acesso à universidade ou a empregos arguindo o princípio da igualdade perante a lei, pois terão sido rebaixados à condição de componentes de um grupo racial.

Nos termos do estatuto racial, que é um estatuto de desigualdade, a "população negra" emerge como uma nação separada dentro do Brasil. O capítulo I fabrica direitos específicos para essa nação-raça no campo da saúde pública; o capítulo II, nos campos da educação, da cultura, do esporte e do lazer; o capítulo IV, nas esferas do acesso à terra e à moradia; o capítulo V, na esfera do mercado de trabalho; o capítulo VI, no tereno dos meios de comunicação. O pensamento racial imagina a África como pátria da "raça negra". A nova lei enxerga a "população negra" como uma nação diaspórica: um pedaço da África no exílio das Américas. O capítulo III determina uma proteção estatal particular para as "religiões de matriz africana".

A supressão do financiamento público compulsório para os "conselhos de promoção da igualdade étnica" e dos incontáveis programas de cotas raciais na lei aprovada pelo Senado refletiu, limitada e parcialmente, o movimento de opinião pública contra a racialização do Estado brasileiro. Uma vertente das ONGs racialistas interpretou o resultado como uma derrota absoluta - e pediu que o presidente não sancionasse o texto esvaziado. Surgiram até vozes solicitando uma consulta plebiscitária sobre o tema racial, algo que, infelizmente, não se fará.

O Ministério racial, que atende pela sigla enganosa de Seppir, entregou-se à missão de alinhar sua base na defesa do "estatuto possível". Para tanto reuniu pronunciamentos de arautos do racialismo, como o antropólogo Kabengele Munanga, uma figura que chegou a classificar os mulatos como "seres naturalmente ambivalentes", cuja libertação dependeria de uma opção política pelo pertencimento ao grupo dos "brancos" ou ao dos "negros". Na sua manifestação o antropólogo narrou uma fábula sobre os caçadores mbutis, da África Central, denominados pigmeus na época da expansão imperial europeia.

Os caçadores de Munanga almejam abater um elefante, mas voltam para a aldeia com apenas três antílopes, "cuja carne cobriria necessidades de poucos dias". As mulheres e crianças, frustradas, contentam-se com tão pouco e não culpam os caçadores, mas Mulimo, deus da caça, a divindade desse povo monoteísta. Os caçadores voltarão à savana e, um dia, trarão o elefante.

A fábula é apropriada, tanto pelo seu sentido contextual como pelas metáforas que mobiliza. Ela remete a um povo tradicional, fechado nas suas referências culturais, que serviria como inspiração para a imaginária nação-raça diaspórica dos "afro-brasileiros". Os caçadores simbolizam as lideranças racialistas, que já anunciam a intenção de usar o estatuto racial para instituir, por meio de normas infralegais, os programas de cotas rejeitados no Senado. O elefante representa o Estado racial completo, com fartas verbas públicas para sustentar uma burocracia constituída pelos próprios racialistas e dedicada à distribuição de privilégios.

Munanga não falou das guerras étnicas na África Central. É que o assunto perturba Mulimo e prejudica a caçada.


Sociólogo, é doutor em Geografia Humana pela USP

Plínio, o provocador :: Eliane Cantanhêde

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - No próximo dia 26, Plínio Arruda Sampaio faz 80 anos. Viu e participou de muita coisa que ocorreu neste país nas últimas seis décadas, pelo menos. Em 1964, fugiu de Brasília de carro com um casal amigo e os dois filhos pequenos de André Reis, um figuraça do velho "partidão", que os "emprestara" para fingir que era uma família.

Depois de 12 anos no exílio, no Chile e nos EUA, ele articulou com Fernando Henrique e Almino Afonso, ex-ministro de Jango, o Partido Socialista Democrático Popular (PSDP), que já tinha até programa e manifesto, mas não vingou. Segundo ele, FHC roeu a corda e passou a defendeu a união do antigo MDB contra a ditadura.

Plínio pulou para outra empreitada e fez o primeiro estatuto do PT em 1980. Mas, com o tempo, se desiludiu: "Acompanhei a virada do PT para a direita. Aí, fim de papo". E foi um dos fundadores do PSOL, pelo qual concorre agora contra Serra, Dilma e Marina, na condição de "nanico". O dissidente do PT nasceu com discurso vigoroso, mas condições frágeis.

Com uma curiosa trajetória, que começa na comportada democracia cristã -era deputado do PDC quando, aos 32 anos, relatou a reforma agrária na Câmara-, Plínio saiu do centro, guinou para a esquerda e fincou raízes na extrema esquerda, se é que é possível falar em extrema esquerda no Brasil.

Há quem entre em campanha para ganhar, custe o que custar (em vários sentidos). Não é o caso do octogenário Plínio, que entrou porque seu partido decidiu ter candidato próprio sem ter opções de nomes e porque ele quis um espaço para pregar a justiça social.

Na sua opinião, FHC e Lula avançaram pouco nessa questão fundamental, porque a redistribuição de renda é lenta e tem sido via salário, não via capital. Mas ressalva: "Eu não sou contra governos, sou contra o Estado brasileiro".

Numa eleição polarizada, Plínio pode cumprir o papel de... provocador. O que pode ser muito bom.

O risco do fiscal da esquina :: Clóvis Rossi

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - Duas coisas incomodam muito nesse episódio da violação do sigilo fiscal de Eduardo Jorge Caldas Pereira, o vice-presidente do PSDB. Uma é a óbvia: a inescapável sensação de que funcionários do Estado sentem-se à vontade para agir sordidamente.

Afinal, ninguém vai conseguir convencer ninguém, salvo os petistas hidrófobos, de que o acesso aos dados se deu por mera curiosidade ou para que a funcionária agora exposta os exibisse para a família. O objetivo, evidente, foi o de lançar sujeira na campanha eleitoral.

Objetivo, de resto, atingido, independentemente do que venha a acontecer com a funcionária: os dados tornaram-se públicos e a única coisa que a vítima da violência do Estado pode fazer é reclamar, protestar, denunciar.

O segundo incômodo está dado pela constatação de que qualquer um pode acessar dados sigilosos sob guarda do Estado.

Afinal, a investigação aberta pela própria Receita descobriu que foram feitos ao menos cinco acessos ao imposto de renda de Eduardo Jorge, mas apenas a consulta atribuída à funcionária agora afastada ocorreu sem "motivação", ou seja, fora de procedimentos de rotina do fisco e sem autorização judicial.

Primeiro: autorização judicial deveria ser a única maneira de a Receita ter acesso a dados de quem quer que seja. Aceitar que a violação faça parte de "procedimentos de rotina do fisco" é abrir uma autoestrada imensa para todo tipo de criminalidade, eleitoral ou de qualquer outra natureza.

Não dá para acreditar que todos os agentes fiscais sejam imunes à tentações, sejam os mais honestos seres humanos na face da Terra. Não existe um único conjunto humano com essas características.

Vale nesse caso o que se diz de ditaduras: o problema é menos o general que a chefia e mais a arbitrariedade do guarda da esquina. Ou, no caso, do fiscal da esquina.

O uso do cachimbo pode entortar a boca:: Maria Inês Nassif

DEU NO VALOR ECONÔMICO

A incorporação do discurso udenista ao arsenal dos candidatos à Presidência é tão velha quanto a relativamente nova democracia brasileira. Aliás, até mais velha. O padrão da UDN, criada em 1945 e extinta em 1965 pela ditadura militar que ajudou a implantar, tem interditado o debate político desde a redemocratização, em 1985. Em 2010, 35 anos após a sua extinção, ainda é o padrão de discurso oposicionista. 55 anos depois de sua criação, com uma ditadura de 21 anos no meio, volta invariavelmente em períodos eleitorais.

O PT cumpriu seu destino de oposição udenista de 1989 a 2002, quando, enfim, tornou-se governo pelo voto direto. No caso, prevaleceu o discurso moral. A partir de 2003, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assumiu o governo, os partidos excluídos do poder assumiram, eles próprios, o udenismo como padrão de comportamento oposicionista. Trazido das eleições anteriores, o udenismo pós-Lula, comandado pelo PSDB e pelo ex-PFL, além da referência moral, vem carregado de conservadorismo. O período pós-2002, com um partido de esquerda no poder, trouxe à cena um padrão UDN completo, com barba, cabelo e bigode: discurso moral, agressividade, anticomunismo e conservadorismo de costumes.

É quase um atavismo: o partido mais udenista da política brasileira, o ex-PFL, hoje DEM, renovou quadros, pôs gente nova à frente da direção e o discurso continua o mesmo. Indio da Costa, o jovem vice-candidato do candidato a presidente pelo PSDB, José Serra, entrou no cenário nacional acusando o PT de ligação com a guerrilha colombiana, as Farc. Além de ser uma afirmação temerária, ela tem por objetivo provocar o velho anticomunismo que todo mundo supunha estar enterrado com o próprio comunismo, depois do fim da União Soviética. Mas isso é mais que um atavismo. É um discurso destinado a uma faixa do eleitorado conservador que rejeita ideologicamente o PT. PSDB e DEM embarcaram na retórica anticomunista para manter um eleitor que já é sua reserva de mercado.

O problema de adotar esse tipo de discurso é que isso provoca confusão de personagens e da história. Por essa retórica, estão a salvo do julgamento da história personagens que até hoje perambulam pela cena política, políticos gestados pela ditadura e que deram apoio ao governo autoritário que matou, torturou, censurou e cerceou os poderes do Legislativo e do Judiciário. Estão a salvo também os que se aliaram a eles - mesmo aqueles que, no passado, tiveram passagens pelos movimentos de resistência à ditadura. Como esse é um discurso maniqueista, traz, implícita ou explicitamente, a condenação àqueles que se opuseram ao regime. A anistia que esse pensamento conservador tanto defende para os agentes públicos que torturaram e mataram é negada aos que lutaram contra o regime militar e permaneceram à esquerda do espectro político depois da redemocratização.

Se a referência for a história, os três candidatos melhor colocados na disputa presidencial estão no mesmo barco. José Serra (PSDB) foi da Ação Popular, um racha da Juventude Universitária Católica (JUC) que flertou com o marxismo e, posteriormente, acabou se incorporando ao PCdoB - embora Serra não tenha se incorporado, ele próprio, à luta armada. Dilma Rousseff fez a opção pela luta armada contra a ditadura e cumpriu alguns anos de cadeia por isso, além de ter sido barbaramente torturada - e embora não tenha participado diretamente de nenhuma ação. Marina Silva militou no Partido Revolucionário Comunista (PRC), já no período em que a oposição havia abandonado a via armada como tática de contraposição ao regime.

Sem o viés conservador, essas informações são muito mais um sinal de que o país cumpre o seu destino democrático do que uma "denúncia". Graças a pessoas como Serra, Dilma e Marina, o país vive uma democracia. Graças a eles, em outubro acontecerá o primeiro turno das eleições presidenciais. Por causa da luta que eles participaram, alguém será eleito pelo voto direto e secreto. Pela ação de pessoas como eles, a imprensa terá plena liberdade para cobrir o pleito. Os candidatos poderão fazer comícios, ocupar as ruas e falar o que pensam nos palanques, no rádio e na TV.

A eleição de 2010 se deve àqueles que lutaram contra a ditadura, militando no partido de oposição permitido pelo regime, o MDB, ou nos partidos clandestinos que optaram ou não pela luta armada. Isso não é uma denúncia, é uma feliz constatação. O país agradece, comovido, a pessoas como o deputado José Aníbal (PSDB-SP), companheiro de Dilma na Polop; ao candidato ao Senado Aloysio Nunes (PSDB-SP), que militou na ALN; ao candidato ao governo do Rio, Fernando Gabeira (PV), que foi do MR-8. Aos ex-comunistas do velho Partidão, o PCB, organização que rejeitou a via armada - o governador Alberto Goldman (PSDB-SP), o ex-prefeito César Maia (DEM-RJ), o senador Arthur Virgílio Neto (PSDB-AM), o ex-deputado Roberto Freire (PPS-SP), entre tantos outros. Aos hoje petistas que vieram de organizações que optaram pelo confronto armado com a ditadura - José Genoíno (que participou da Guerrilha do Araguaia), José Dirceu, Fernando Pimentel, Marco Aurélio Garcia, Ricardo Zarattini, Rui Falcão, Franklin Martins, Carlos Minc, entre outros. E a outros que botaram a cara para bater mobilizando grandes contingentes de trabalhadores em greves que colocaram profundamente em xeque o regime autoritário - como o próprio presidente Lula.

Deve-se o presente a muitos, muitos mesmo, que hoje apoiam o governo ou estão na oposição, mas igualmente, e no mesmo momento, enfrentaram riscos, viram companheiros morrer, perderam amigos ou pessoas da família - e chegaram, juntos, ao momento em que a sociedade brasileira comemorou a democracia.

Em eleições, existe espaço para qualquer discurso ideológico. Isso é democracia. O que não convém é manipular a história, nem relativizá-la. Não são tantos anos que separam as eleições de 2010 dos movimentos pela democracia, onde muitos tucanos e petistas que hoje se batem estavam no mesmo barco.


Maria Inês Nassif é repórter especial de Política. Escreve às quintas-feiras

Chávez deu errado:: Míriam Leitão

DEU EM O GLOBO

O preço do caminho escolhido por Hugo Chávez ficou claro no relatório divulgado pela Cepal. A América Latina cresce este ano mais de 5%. O Brasil mais de 7%. A Venezuela vai ter uma queda de 3%. É a segunda pior recessão depois do Haiti, que tem uma boa explicação para seu número negativo. A crise da Venezuela é resultado das escolhas de um governante equivocado.

Os erros políticos do presidente Hugo Chávez são mais falados, mas ele é também um péssimo administrador e tem criado para a economia venezuelana uma série espantosa de incertezas. Isso inibe o investimento.

A Venezuela enfrentou uma severa crise energética provocada por uma seca, mas como sabem todos os que têm hidrelétricas: secas acontecem. Por isso é preciso ter garantias em investimentos em outras fontes de energia que possam suprir as oscilações da oferta.

Não era de se esperar que a Venezuela, com suas enormes reservas de petróleo, tivesse que enfrentar uma crise de energia, com racionamento. Isso mostra falta de planejamento.

O autoritarismo de Chávez virou incerteza regulatória.

Ele muda as regras quando quer. As políticas e as econômicas. Tem hostilizado empresas estrangeiras e até o capital nacional privado. Qualquer divergência com um de seus ditames pode ser suficiente para que desabe sobre a empresa alguma mudança de regra. E tudo tem sempre o objetivo explícito de perseguir qualquer voz discordante.

Recentemente, o Banco Central venezuelano encampou o Banco Federal, uma instituição privada, que acabou sendo estatizada. Agora fica claro por quê. O banco tinha ações da TV que tem uma posição mais crítica a Chávez, a Globovisión. O governo está anunciando que vai nomear conselheiros para a emissora, coisa que pode fazer, já que é agora um dos acionistas.

A Venezuela já está pagando o custo político de um governo como esse. O país há muito tempo não é uma democracia. As regras das eleições são manipuladas para favorecê-lo; mas quando não favorecem, Chávez tira poderes do administrador de oposição que foi eleito. A Constituição tem sido alterada com frequência apenas para favorecer seu projeto de eternização do poder. Tudo é tão claramente autoritário que é espantoso que o regime chavista tenha tantos defensores no governo brasileiro.

Nunca é demais dizer: uma coisa é manter boas relações com a Venezuela, outra, diferente, é defender Hugo Chávez. O presidente Lula e seus dois ministros das relações exteriores Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia defendem Chávez. Parecem desconhecer as lições da História de governantes que chegaram ao poder pelo voto e usaram o poder para destruir as bases da democracia que os elegeu.

A Cepal trouxe números inequívocos no relatório divulgado ontem. As projeções da instituição para o crescimento na região são: Brasil, 7,6%; Uruguai, 7%; Paraguai, 7%; Argentina, 6,8%; Peru, 6,7%; Bolívia, 4,5%; Chile, 4,3%, apesar do terremoto; México, 4,1%.

Dois países estão em recessão: Haiti, 8,5%; e Venezuela, -3%.

Outras análises mostram a mesma tendência de que a Venezuela tenha recessão este ano e continue no ano que vem com o PIB negativo.

Além disso, o país enfrenta uma longa inflação, a maior da região. Há vários anos a inflação está em dois dígitos e este ano está próximo de 30%. Em maio, a enviada especial do GLOBO a Caracas, Mariana Timóteo da Costa, mostrou que a inflação e a grave crise de desabastecimento estão tirando popularidade do presidente.

É por isso que Chávez está mais uma vez tentando um espetáculo de marketing.

Este ano há eleições para o Congresso e há risco de que ele perca. Ele saiu à cata de algo espetacular para capturar a atenção pública.

Foi mais fundo que podia: exumar o cadáver de Simón Bolívar. Seria cômico se não fosse uma forma patética de manipular a opinião pública.

O Chile pediu para enviar senadores para acompanhar as eleições venezuelanas em setembro e pediu à OEA uma atitude de maior vigilância às eleições. O Conselho Nacional Eleitoral controlado por Chávez, como tudo mais rejeitou com uma nota em que afirma que: não permitiremos que nenhum ator alheio à Venezuela intervenha e coloque sob suspeita a vontade soberana do povo. Curioso. Hugo Chávez interfere e dá palpite em todas as eleições da região principalmente no Peru, Equador e Bolívia sem mostrar o mínimo respeito à vontade soberana do povo desses países.

Há entre os governistas mais aguerridos a impressão de que o país deve agradecer ao presidente Lula por ter sido magnânimo e não ter tentado um terceiro mandato; que ele o teria se tivesse tentado. Um equívoco.

A indiscutível popularidade do presidente Lula não era garantia de que ele ganharia a eleição se tivesse a possibilidade de tentar. Para abrir o caminho para essa tentativa, Lula teria que mudar a Constituição. Na Colômbia, o ex-presidente Álvaro Uribe foi informado pela Suprema Corte de que nem deveria tentar um terceiro mandato apesar da popularidade que tinha. Aqui, Lula também teria os mesmos obstáculos. O Brasil não aceitaria que o presidente seguisse o caminho do continuísmo chavista e tem estado atento a qualquer tentativa de se repetir aqui alguns dos truques do modelo Hugo Chávez.

O caminho do desrespeito às leis não tem volta e leva ao fracasso político e econômico.

É apenas uma questão de tempo. Para a Venezuela, a conta econômica chegou. A proposta intervencionista e autoritária de Chávez deu errado. A Venezuela está perdendo o melhor momento da região.

'Vai empobrecer muito a campanha'

DEU EM O GLOBO

Gabeira critica decisão de Cabral e diz que trará prejuízos aos eleitores

Duílo Victor e Rafael Galdo

Principal adversário de Sérgio Cabral (PMDB) na disputa pelo governo do Rio, o candidato a governador pelo PV, Fernando Gabeira, disse ontem que a decisão do peemedebista de não participar de debates empobrece a campanha e põe o estado numa posição de atraso. Para Gabeira, a postura de Cabral não condiz com a tradição democrática do Rio, causando prejuízos para os eleitores.

Às vezes, na expectativa de ganhar alguns votos, a pessoa subtrai da população o direito de ela conhecer os projetos em confronto afirmou. Vai empobrecer muito a campanha.

Num estado tão avançado, com tradição democrática tão grande, chegamos às eleições do princípio do século XXI e o governador não vai ao debate. Isso nos coloca numa situação de atraso. No mesmo nível da educação: na lanterna acrescentou, referindo-se à penúltima posição do Rio no ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para ensino médio em escolas estaduais.

Candidato cobra ações para o Rio no programa de Serra Assim como seu adversário, Gabeira fez campanha ontem na Zona Oeste. Enquanto Cabral se reunia com empresários em Bangu, o verde se encontrou à tarde, em Campo Grande, com cerca de 50 bombeiros, policiais e lideranças comunitárias, antes de visitar uma clínica privada em Santa Cruz.

Mais cedo, Gabeira também fez um discurso em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do Rio, num protesto do Sindicato Estadual dos Enfermeiros contra Cabral.

Estamos aqui para apoiar a demanda deles (servidores) por melhores salários e condições de trabalho disse Gabeira, sem prometer, no entanto, aumentos salariais.

Ainda sobre a saúde, no início da manhã o verde propôs que a conclusão do Hospital de Queimados, na Baixada, fosse incluída no programa do candidato à Presidência pelo PSDB, José Serra.

A proposição foi feita numa reunião do verde com integrantes da equipe de campanha do tucano, entre eles o coordenador do programa de governo de Serra, Xico Graziano, num hotel em Copacabana. Gabeira cobrou ainda o compromisso do presidenciável com a construção da Linha 3 do metrô, ligando a Praça Quinze, no Rio, a Itaboraí, proposta de mais de 10 anos e também repetida por Cabral.

Primeiro, trabalhar para transformar trem em metrô de superfície, mas (também) o compromisso de construir a linha (de metrô) até Itaboraí. Pelo menos os três quilômetros da Baía de Guanabara disse.

Anteontem, Graziano já havia se reunido com o candidato do PSDB ao governo de Minas, Antonio Anastasia, seguindo uma orientação de Serra para encontros com candidaturas regionais.

Serra veste a camisa da Rio 2016

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Tucano quer criar centros regionais de excelência para formação de atletas e treino de delegações estrangeiras

Claudio Nogueira

Durante visita ao Comitê Olímpico Brasileiro, onde conheceu o projeto da Rio 2016, o candidato do PSDB à Presidência, José Serra, garantiu o apoio, caso eleito, à realização plena dos Jogos Olímpicos no Rio. E elogiou a cidade sem deixar de alfinetar os seus adversários.

Até quando tem más administrações, o Rio de Janeiro continua sendo a cidade mais bonita elogiou Serra. Vamos ter Jogos maravilhosos, e se depender de mim, vou dar tudo para que assim seja.

Estrutura do Pan O candidato foi recebido pelo presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman, presidentes de federações esportivas e medalhistas olímpicos como o judoca Flávio Canto e Nalbert, do vôlei. Depois da apresentação, Nuzman exibiu um panorama da preparação da Rio 2016, ressaltando que todos os equipamentos do Pan-Americano de 2007 serão utilizados. O presidente do COB também falou sobre os investimentos na infraestrutura urbana e na segurança pública que consumiu R$ 562 milhões no Pan 2007, contra os R$ 20 milhões planejados e anunciou a inauguração de um Instituto Olímpico para cursos de capacitação e gestão esportiva. O presidente do COB pediu a ajuda do candidato para investir no desporto escolar e na formação de atletas de alto rendimento.

Nós precisamos de mais de R$ 200 milhões ao ano do Ministério do Esporte, além de um aumento da lei de incentivo fiscal de 1% para 4%. afirmou Nuzman. O esporte agora merece.

Serra ganhou um agasalho da delegação olímpica, com seu nome bordado nas costas. O tucano prometeu investir na segurança pública e no transporte urbano da cidade e propôs a criação de centros de excelência esportiva.

Não são investimentos caros, e podem ser feitos com muita rapidez. Eles podem abrigar as delegações estrangeiras, e depois ficarão para sempre. Um centro desses é uma máquina de produzir atletas.

Indio no ataque Acompanhando Serra, o candidato a vice na chapa, Indio da Costa, retomou os ataques ao PT quando foi indagado sobre as ações contra ele na Justiça.Eles (o PT) que tem ligações com as Farc, eles que tem que se explicar.

Indio também disse que não foi recriminado pelos destemperos recentes: Comigo, ninguém reclamou.

Indio volta a desafiar Dilma a responder sobre as Farc

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Paola de Moura e Rafael Rosas, do Rio

Em campanha no Rio, ontem, o candidato à Presidência do PSDB, José Serra, virou coadjuvante do seu candidato a vice, o deputado federal Índio da Costa (DEM). Novamente Índio atacou a candidata do PT, Dilma Rousseff, desta vez com mais ênfase. Visivelmente alterado por conta das acusações feitas pelo ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, de que era despreparado, Indio disse que entrou na campanha para falar o que pensa e que Dilma é quem tinha que responder se o governo teria ligação com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Em meio a uma caminhada no centro da Taquara, bairro da Zona Oeste do Rio, Indio reuniu a imprensa para falar do assunto. "Tem mais algum repórter aí? Chama todo mundo que eu vou falar só uma vez", pediu o candidato. "A pergunta que até agora não foi respondida e que a Dilma tem que responder é se o PT tem ou não ligações com as Farc", frisou Indio, acrescentando que a adversária também deveria dizer se há ligações das Farc com o narcotráfico. "O que eu vejo é que infelizmente a gente mora no meio de uma guerrilha urbana alucinada por causa do narcotráfico. Qual a opinião da Dilma sobre isso?", completou, referindo-se ao Rio.

O deputado ainda lembrou o caso da quebra de sigilo bancário o vice-presidente do PSDB Eduardo Jorge Caldas Pereira. "Chega a ser ridículo eles falarem em processo e em baixar o nível da campanha. Será que ela acha legal e que merece respeito quebrar o sigilo bancário e fiscal de um cidadão brasileiro? Será que isso é baixar o nível da campanha?", indagou Indio.

Inicialmente o corpo-a-corpo na Taquara era só mais uma forma de gerar um fato político para Serra, que foi ao Rio dar entrevista fechada à TV Brasil e depois participar de um evento de apresentação do projeto das Olimpíadas de 2016 no Comitê Olímpico Brasileiro (COB), na Barra da Tijuca.

No entanto, percebendo que o evento no COB não tinha gerado muita notícia, já que Serra se negou a falar de outro assunto a não ser esporte, os assessores, liderados pelo deputado federal Otávio Leite (PSDB-RJ), providenciaram a caminhada na Taquara, bairro próximo à Barra, onde há um comitê de campanha. Além disso, Serra havia passado por constrangimentos, já que o presidente do comitê, Carlos Arthur Nuzman, exibiu imagens da vitória da campanha olímpica, com várias cenas do presidente Lula, do governador e do prefeito do Rio, Sérgio Cabral e Eduardo Paes, todos opositores do candidato do PSDB. Rapidamente cabos eleitorais foram mandados para região levando mais de 20 faixas e galhardetes.

Antes de sair para a caminhada, Índio já havia falado sobre a reação do PT as suas declarações.
"O PT é que está nervoso. Tem que ver com eles lá", disse o candidato, acrescentando que já colocou os documentos que comprovariam as ligações do partido com as Farc no Twitter. Segundo Indio da Costa, mais de 1,5 milhão de pessoas já teriam acesso a esses documentos via microblog. "Isso é público, é conhecido", se referindo aos links sobre reportagens feitas pelos jornais "Gazeta do Povo", de Curitiba, e da revista "Cambio", que publicou no site.

No entanto, entre o COB e a Taquara, Indio da Costa foi informado de que o PT protocolou ontem no Tribunal de Justiça do Distrito Federal uma ação civil por danos morais contra ele e o PSDB. O partido também já havia protocolado uma ação criminal por difamação e injúria no Supremo Tribunal Federal (STF) e na Procuradoria Geral da República contra Índio e uma ação eleitoral contra o PSDB, exigindo direito de resposta no site do partido.

De qualquer forma, para a campanha de Serra, falar sobre segurança no Rio é providencial já que o tema continua sendo a principal preocupação da população. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) estão em apenas algumas favelas da Zona Sul e Tijuca e a população tem mostrado seu temor nas pesquisas qualitativas.

Álvaro Dias acusa PT de imaturidade

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ricardo Chapola

Descartado de ocupar a vaga de vice-presidente da República na chapa de José Serra (PSDB), o senador Álvaro Dias (PSDB) atacou ontem o PT ao dizer que a oposição foi imatura na interpretação das declarações do atual vice tucano, Índio da Costa, sobre relações do PT com as Farc.

"Imaturidade foi a exploração política que o PT fez do episódio, e não a conduta do Índio", disse o senador. Na época, a escolha tucana pelo deputado do DEM foi bastante criticada, por ser ele um político muito jovem. Na mesma linha de discurso de Serra e Sérgio Guerra, Dias considerou que "em nenhum momento Índio da Costa disse algo de novo". O senador disse que muitas pessoas já disseram a mesma coisa, e que, por isso, o PT usou a questão de forma eleitoreira.

Para relativizar a repercussão das declarações de Índio veiculadas em vídeo na internet - e removidas da rede em seguida - Dias afirmou ser um assunto de pouca relevância.

A declaração de Índio foi alvo de crítica do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, que atribuiu ao vice "comportamento de idiota". Para Álvaro Dias, o PSDB nada fará em reação a essa agressão. "O ministro foi infeliz e agrediu indevidamente um parlamentar como Índio, um rapaz e um político dotado de muitas prerrogativas institucionais."

'Gerente' de comitê do PT é investigado

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Leandro Colon

BRASÍLIA – O Ministério Público Federal investiga, há dez dias, a ligação do empresário Benedito de Oliveira Neto, o Bené, com o governo e a campanha de Dilma Rousseff (PT). O objetivo é apurar indícios de que ele seria "financiador" da campanha de Dilma e estaria recebendo "verbas indevidas" do PT, além de benefícios em contratos com o governo.Bené é sócio da Dialog Serviços de Comunicação e Eventos e sua família é dona da Gráfica Brasil. Juntas, as duas empresas receberam R$ 216 milhões do governo desde 2006.

Indio agora insinua ligação entre PT e facção criminosa

DEU EM O GLOBO

Natanael Damasceno

Depois de acusar o PT de ter ligações com as Farc e com o narcotráfico, o deputado federal Indio da Costa (DEM-RJ), candidato a vice na chapa do tucano José Serra, insinuou ontem uma relação entre o PT e uma facção criminosa do Rio.

O que eu vejo é que, infelizmente, a gente mora no Rio de Janeiro no meio de uma guerrilha urbana alucinada por conta do narcotráfico. O Comando Vermelho, já há vários indícios de ligação com as Farc. E qual a opinião da Dilma sobre isso? Veja só: o PT e as Farc, as Farc e o narcotráfico, o narcotráfico e o Rio de Janeiro, o Comando Vermelho, com indícios muito claros de relacionamento. Ela (Dilma) tem que dizer o que acha. Se acha que tem ou não tem nenhum problema nessa relação.

Em seguida, Indio afirmou: O maior problema que a gente tem de segurança pública é o tráfico, é a entrada ilegal de armas no país. Até helicóptero já derrubaram aqui. Quem financia isso é o tráfico de drogas. E o tráfico de drogas financia as Farc. Eu quero, agora, saber o que Dilma tem a dizer sobre isso.

Site de governo reproduz críticas a Indio

DEU EM O GLOBO

Ministério do Planejamento acusou estagiário e tirou vídeo do ar; Procuradoria vai apurar se órgão cometeu irregularidade

André de Souza


BRASÍLIA. A Procuradoria-Geral Eleitoral vai abrir um procedimento administrativo para apurar se o Ministério do Planejamento cometeu irregularidade eleitoral ao exibir em seu site um vídeo com críticas ao deputado federal Indio da Costa (DEM-RJ), candidato a vice-presidente na chapa de José Serra (PSDB). O vídeo, com uma reportagem do Jornal da Noite, da Rede Bandeirantes, exibida na segunda-feira, foi reproduzido na terça-feira no canal do YouTube do ministério. Por volta das 12h de ontem, o vídeo foi removido, com a justificativa de que foi postado erroneamente por um estagiário.

A reportagem traz críticas a Indio pelas declarações de que o PT tem ligações com o narcotráfico e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Além de declarações de Serra, da presidenciável Dilma Rousseff (PT), dos presidentes do PSDB, Sérgio Guerra, e do PT, José Eduardo Dutra, a reportagem continha a entrevista do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, na qual ele chamou Indio da Costa de idiota: É uma pessoa despreparada.

E é ruim inclusive para o candidato da oposição colocar uma pessoa que se comporta como um idiota.

E há comentários desfavoráveis dos jornalistas Fernando Mitre e Boris Casoy.

São uma espécie de mau momento na política. Uma demonstração de descuido e imaturidade do candidato a vice, que acabou retirando o que disse afirmou Mitre, a respeito também do fato de Indio ter chamado Dilma de ateia.

Mostra que Indio está despreparado e será um fardo para Serra. Imagine você se ele algum dia tiver que assumir o poder comentou Casoy.

A assessoria de imprensa do Planejamento admitiu o erro e informou que a reportagem foi colocada no ar por engano por um estagiário. Como o ministro foi um dos entrevistados, o vídeo foi acrescentado, justificou a assessoria. O certo seria postar apenas vídeos em que o ministro fala sobre assuntos ligados às ações do ministério.

A página oficial não repercute temas eleitorais sob nenhuma circunstância. Consideramos que, nesse caso, houve falha e a substituição da matéria já foi providenciada. Reconhecemos e lamentamos o erro, diz a nota do ministério.

Ministro: Acho que fizemos uma bobagem Paulo Bernardo reconheceu o erro e disse que a veiculação no site foi uma bobagem, mas que não houve má fé.

Acho que fizemos uma bobagem. O pessoal do ministério pôs no site uma entrevista que ficou fora de lugar. O site não é para discutir nada referente a eleição. Eles fizeram de boa fé. O pessoal pega todas as matérias que saem e põe indistintamente. Acho de fato que é inadequado.
Walter Costa Porto, ministro do Tribunal Superior Eleitoral de 1996 a 2001, disse que o ministério pode ser penalizado e que a punição dependerá da extensão do dano causado pelo vídeo. A professora de Direito Constitucional da Faculdade de Direito da USP Mônica Herman acredita que ocorreu uma ação irregular, mas que, como o ministério admitiu o erro e retirou o vídeo, poderá haver um atenuante em eventual julgamento.

O PT ingressou ontem, na Justiça de Brasília, com uma ação civil por danos morais contra o PSDB e Indio da Costa.

O partido pede uma indenização, alegando que Indio fez afirmações difamatórias contra a sigla e Dilma. O PT pede que o juiz fixe o valor da indenização, alegando que as declarações de Indio sobre as Farc e o narcotráfico tiveram repercussão no país inteiro.

A ação civil foi protocolada junto à 13aVara Cível de Brasília.

Como de praxe e para fins processuais, o PT fixou o valor em R$ 40 mil. Mas os advogados do partido disseram que esse é o valor global que não precisa servir de referência para o magistrado, que é quem define a quantia de indenização.

Estas falsas afirmações, de que o partido é ligado ao narcotráfico , às Farc e ao que há de pior e que sua candidata é ateia e esfinge do pau oco, são prejudiciais à imagem do partido e capazes de gerar o dano moral indenizável, sustenta o PT na ação.

O PT já entrou com outras duas ações: uma criminal contra Indio e outra eleitoral, pedindo direito de resposta ao PSDB. Assessores de Indio disseram que advogados farão sua defesa.

Liberado jingle de Collor com apoio a Dilma e Lula

DEU EM O GLOBO

Lessa tentou proibir a música na campanha, mas TRE deu ganho de causa ao adversário

Odilon Rios

MACEIÓ. O Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas (TRE-AL) informou ontem que foi concedida liminar autorizando a circulação do jingle de campanha do senador Fernando Collor (PTB), candidato ao governo do estado, que faz referência ao presidente Lula e à presidenciável Dilma Rousseff (PT). Anteontem, o exgovernador Ronaldo Lessa (PDT), que tentará voltar ao cargo em outubro, questionou o uso do jingle. Ele argumentou que Collor não pode fazer propaganda ligando sua imagem à dos petistas, já que seu partido, o PTB, está coligado nacionalmente com o PSDB de José Serra.

A liminar foi concedida pelo juiz Antônio Carlos Gouveia. Segundo o site G1, a Comissão de Apoio a Juízes Auxiliares da Propaganda Eleitoral (Caja), ligada à Secretaria Judiciária do TRE-AL, informou que o mérito da sentença ainda será avaliado pelos três juízes que formam a comissão.

Os envolvidos serão notificados e terão 48 horas para apresentar defesa. O jingle diz É Lula apoiando Collor, é Collor apoiando Dilma pelo bem dos mais carentes. (...) Os três pelo bem de Alagoas. O jingle de Lessa também faz referência a Lula, mas não cita Dilma: É Lessa, é Lula juntos por Alagoas.

Jornal proibido de circular após ação de Lessa Também em Alagoas, o semanário Extra foi proibido de circular a pedido da Justiça Eleitoral.

A ação foi movida por Lessa e aceita pelo juiz da propaganda do TRE, Pedro Ivens. O magistrado concluiu que o veículo divulgou pesquisa sem registrá-la no tribunal. Esta é a segunda vez que Lessa entra na Justiça contra meios de comunicação.

O jornal existe há 11 anos e tem linha considerada independente, denunciando atos ilegais de grupos políticos e magistrados no estado.

Dossiê: suspeita de violar IR é sindicalista do ABC

DEU EM O GLOBO

A analista da Receita suspeita de violar, sem razão profissional, o sigilo fiscal do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, é Antônia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva, funcionária da Receita em Santo André, no ABC paulista. De 2005 a 2007, foi secretária-geral do Sindicato Nacional da Carreira Auditoria da Receita Federal do Brasil (Sindireceita) de Santo André, ao qual é filiada. Investigada pela Receita, ela disse ontem ao presidente do Sindireceita não se lembrar de ter acessado os dados. Eduardo Jorge responsabilizou o comitê de campanha de Dilma Rousseff, que reagiu às "ilações infundadas".

Suspeita é do ABC

Analista da Receita, que já foi dirigente sindical, acessou dados fiscais de tucano

Germano Oliveira e Jailton de Carvalho

A analista fiscal Antônia Aparecida Rodrigues dos Santos Neves Silva, de 45 anos, funcionária da Receita Federal em Santo André, no ABC paulista, está sendo investigada pela Corregedoria da Receita Federal em Brasília por ter acessado imotivadamente os dados fiscais do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge Caldas. A movimentação financeira do tucano, protegida por sigilo fiscal, foi parar em suposto dossiê preparado pela campanha da presidenciável petista, Dilma Rousseff, que nega envolvimento.

Antônia Aparecida recebeu ontem intimação para depor no processo administrativo aberto pela Corregedoria da Receita como suspeita de ter acessado, sem motivação profissional, os dados da movimentação financeira do tucano. Ela é filiada ao Sindicato Nacional da Carreira Auditoria da Receita Federal do Brasil (Sindireceita) e, entre 2005 e 2007, foi secretária-geral do Sindireceita de Santo André. É funcionária da Receita desde 1995.

Analista diz não se lembrar de acesso

Com base nas suspeitas sobre Antônia Aparecida, levantadas em sindicância interna, o secretário da Receita, Otacílio Cartaxo, determinou há duas semanas o afastamento dela de um cargo de confiança que ocupava numa unidade da Receita em Mauá.

Numa conversa com o presidente em exercício do Sindireceita , Hélio Bernardes, a analista disse, segundo ele, que não se lembra de ter acessado as declarações de renda de Eduardo Jorge.

Ela disse que iria fazer um levantamento sobre papéis e anotações pessoais para checar se, de fato, fez consulta aos dados fiscais do tucano. E levantou a hipótese de que sua senha tenha sido usada por outra pessoa.

Relatório final da sindicância interna da Corregedoria da Receita informa que os dados fiscais de Eduardo Jorge foram acessados indevidamente em outubro do ano passado, numa unidade da Receita em São Paulo (seria uma referência ao estado). A partir do resultado da sindicância, a corregedoria abriu processo administrativo disciplinar, que pode resultar até na demissão da servidora. Antônia está lotada na Receita de Santo André e exercia um cargo de confiança DAS 1 em Mauá.

Secretário não falou do afastamento

Otacílio Cartaxo determinou o afastamento de Antônia do cargo de confiança no dia 8. Uma semana depois, Cartaxo compareceu à Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ), mas não revelou o nome da suspeita e disse que ainda estava investigando se o acesso tinha sido imotivado ou não. Segundo ele, a investigação da corregedoria estava sob sigilo, conforme estabelece a lei 8.112, o estatuto do servidor público.

A corregedoria tem até 120 dias para concluir as investigações.

Mas o corregedor-geral, Antônio Carlos DÁvila, disse que deve encerrar a apuração em até 60 dias.

No Senado, Otacílio Cartaxo disse que os dados do tucano teriam sido acessados cinco ou seis vezes. A corregedoria exclui os outros acessos porque teriam sido feitos por ordem judicial a partir de uma investigação que estava em curso contra Eduardo Jorge na Procuradoria da República no Distrito Federal.

Ao receber a intimação ontem, Antônia Aparecida, que mora em Mauá e está de férias, ligou para o sindicalista Hélio Bernardes negando que tenha acessado as declarações fiscais de Eduardo Jorge, embora a sua senha tenha sido usada para um dos cinco ou seis acessos às informações sigilosas do tucano. Embora ela seja do ABC, nega que seja filiada ao PT.

Segundo ela disse por telefone ao presidente do Sindireceita, nunca foi filiada a partido político.

O presidente do Sindireceita, que é filiado ao PTB de Goiás, diz que a entidade não tem cor partidária e não é ligada a uma central sindical.

No Sindireceita tem gente filiada a vários partidos, do PT ao PR e PTB, aos mais variados partidos, mas o Sindireceita não é filiado a nenhuma central sindical e não acredito que os funcionários da Receita possam ser manipulados por qualquer partido político disse Bernardes.

Ele afirmou que Antônia Aparecida foi de fato delegada do Sindireceita em Santo André e São Bernardo do Campo de 2005 a 2007, mas que hoje é apenas sindicalizada, sem ocupar cargo na direção do sindicato.

O Sindireceita pôs um advogado à disposição de Antônia Aparecida, para que ela possa se defender no processo administrativo aberto contra ela pela Corregedoria da Receita.

Antônia Aparecida disse ao presidente do Sindireceita que não sabe como sua senha foi usada para ter acesso aos dados de Eduardo Jorge.

O acesso foi imotivado com o uso de sua senha. Mas, durante a investigação, precisamos saber qual o IP do computador em que a senha foi usada. Afinal, como ela nega que tenha acessado os dados de Eduardo Jorge, precisamos saber agora em que máquina foi usada a senha da Antônia, para ter os acessos feitos em outubro do ano passado. No curso do processo administrativo vamos saber o IP do computador e ver se ela está falando a verdade ou não disse Hélio Bernardes, que põe em dúvida a transparência da investigação.

O mais grave não é saber quem acessou os dados do Eduardo Jorge, mas quem vazou os dados para a imprensa. Afinal, investigação sobre acessos imotivados é corriqueira na Receita e pode ser punida com advertência ou suspensão do cargo.

Ele disse que ofereceu assessoria jurídica a Antônia Aparecida para ela se defender, mas que, se for culpada, o sindicato não vai passar a mão na cabeça.

Estamos oferecendo amplo direito de resposta a ela, mas, se ela for culpada, deve ser punida conforme a legislação.

Eduardo Jorge culpa campanha de Dilma

DEU EM O GLOBO

Tucano volta a acusar petistas por vazamento; Serra afirma que houve um "crime contra a Constituição

Flávio Freire

SÃO PAULO e RIO. Alvo do vazamento de seus dados fiscais, o vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, disse ontem acreditar que a analista tributária Antônia Aparecida Silva, suspeita de ser responsável pelo acesso ilegal de sua declaração de Imposto de Renda, não teria agido sozinha.

Ele voltou a acusar o comitê de campanha da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, de envolvimento no crime: Não tenho dúvida de que o documento (com dados vazados) publicado na imprensa teve origem no comitê de campanha do PT. Vazaram meu IR de cinco anos, então quero que essa investigação seja feita a fundo, já que outras pessoas também podem ter tido acesso a dados de outros anos disse ele, que já havia entrado com uma ação na Corregedoria da Receita pedindo que o órgão divulgasse o nome de quem vazou seus dados.

Nas informações vazadas à imprensa, constam depósitos na conta corrente do tucano, feitos com recursos vindos de venda de imóveis, como registrado no IR, no total de R$ 3,9 milhões.

Não adianta só revelar quem acessou, mas por qual motivo essa pessoa fez isso afirmou Eduardo Jorge.

O candidato tucano à Presidência, José Serra, disse ontem no Rio que o uso da máquina pública para quebrar o sigilo fiscal do vice-presidente de seu partido é um crime contra a Constituição. Ao comentar a acusação de Eduardo Jorge de que o vazamento teve origem no comitê do PT, Serra disse que isso não o surpreende: Isso não é surpresa nenhuma.

Isso é crime contra a Constituição.

Quebrar sigilo, usar a máquina pública para disputar a eleição é erradíssimo disse Serra, após corpo a corpo relâmpago em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, acompanhado de seu candidato a vice, Indio da Costa (DEM-RJ).

O presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), culpou o PT pelo vazamento.

Segundo ele, a campanha de Dilma atua nos subterrâneos da conspiração. Ele aproveitou o episódio para ironizar declaração recente de Dilma de que tucanos estavam baixando o nível ao associar o PT às Farc: A Dilma disse que nós estávamos baixando o nível da campanha, mas são eles que atuam no subterrâneo da conspiração.

Eles (PT) trabalham com grupos de fiscalização, com grupos de quebra de sigilo. É preciso ter juízo, gente.

Petista reage a 'acusações sem provas'

DEU EM O GLOBO

Lula diz que Receita é quem precisa prestar esclarecimento sobre o caso

Gerson Camarotti, Maria Lima e Cristiane Jungblut

BRASÍLIA. A candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, reagiu ontem à declaração do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, que acusou o comitê de campanha petista de envolvimento na divulgação de seus dados fiscais. Dilma disse que essa é uma ilação infundada e uma acusação sem provas.

A candidata reagiu às acusações de que um grupo do PT estaria fazendo dossiês contra adversários, em entrevista à TV Brasil: Quem deduzir isso está fazendo ilações infundadas, está jogando acusações sem provas e está sobretudo cometendo injúria e difamação sem prova disse Dilma.

Já o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a Receita é quem precisa prestar esclarecimento: A Receita é intocável, é intocável para todos, para presidente da República. Se eu pedir declaração do meu pior inimigo, a Receita tem que me denunciar.

Dilma afirmou ainda que declarações como a de Eduardo Jorge são uma tentativa de se tirar proveito eleitoral: A gente tem de ter cautela e cuidado para não sair por aí fazendo insinuações que só tendem a beneficiar alguém dentro do processo eleitoral. Tem de ter cuidado. Acho que é de todo oportuno, para preservação da qualidade do momento político brasileiro, que todas as acusações sejam feitas com provas.

Nem ilações podem ser feitas.

O PT também reagiu. O presidente nacional do partido, José Eduardo Dutra, negou envolvimento da sigla e disse que o partido é o maior interessado em esclarecer os fatos: Se ele (Eduardo Jorge) está fazendo uma acusação, tem de provar. Do ponto de vista eleitoral, o que a gente ganharia em vasculhar a vida do Eduardo Jorge, que é o famoso quem? Tenham a santa paciência! Somos os maiores interessados a que se chegue ao responsável.

Tenho convicção de que esse dossiê não partiu do PT.

Dutra: Pedimos abertura do inquérito à PF Na avaliação de Dutra, o PSDB quer usar o caso ao máximo para atingir Dilma: Pedimos abertura do inquérito à PF, o PSDB não. Não queremos ficar com essa fita banana neste período eleitoral, para eles ficarem fazendo ilação sobre nós disse.

O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PTSP), também negou envolvimento de petistas.

Para fazer um soneto :: Carlos Pena Filho



Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere um instante ocasional
neste curto intervalo Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial

Ai, adote uma atitude avara
se você preferir a cor local
não use mais que o sol da sua cara
e um pedaço de fundo de quintal

Se não procure o cinza e esta vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse
antes, deixe levá-lo a correnteza

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza
ponha tudo de lado e então comece.