domingo, 29 de abril de 2012

Diário do Cine PE 2012

Luiz Zanin

A inteligência de Jorge Furtado

RECIFE – Não digo que a inteligência seja tudo na vida – ou mesmo no cinema. Às vezes até atrapalha. Mas é bom quando posta em prática, e da maneira como o faz Jorge Furtado em Até a Vista.

O curta-metragem, me informam, faz parte de uma série para TV a cabo. Algo como dez episódios, ou coisa assim, dirigidos por diretores conhecidos. Jorge é um deles.

A história é a de um candidato a cineasta que descobre uma boa história, escrita por um argentino. Vai até Buenos Aires, tentar comprar os direitos do livro e encontra a figura, um certo Borges Escudero. Este tem um pedido a fazer: cede os direitos em troca de uma viagem ao Brasil, para reencontrar uma certa pessoa que ele conheceu tempos atrás.

O pequeno filme é uma aula sintética de humor, amor e ternura pelos personagens. Não poupa, no entanto, alguma dose de ironia e distanciamento crítico, ao comentar as relações entre brasileiros e os vizinhos, as dificuldades dos cineastas, etc.

Enfim, há inteligência e humor, termos que se aproximam muito. Coisa rara hoje em dia. A ser saudada quando aparece. É um refresco.

Paraísos Artificiais

Como costuma acontecer (há exceções) as entrevistas coletivas fazem mais esconder o filme que revelá-lo. Foi o que se passou na coletiva de Paraísos Artificiais, de Marcos Prado. A autocongratulação entre atores, diretor e jornalistas pouco acrescentou à compreensão de um filme de proposta ousada, porém com problemas de decolagem, como acontece com certos aviões.

Prado tenta um mergulho no universo jovem, das drogas, das raves. (Bem, ele mesmo diz que o termo rave é inadequado, pois este designa uma festa por tempo limitado, enquanto o que os jovens frequentam os festivais de música eletrônica, vários dias, em regiões paradisíacas, festas muito intensas, com muita droga e bebida.)

Enfim, o filme se divide entre o Rio, nordeste brasileiro e Amsterdã, com a condução da protagonista Erika (Nathalia Dill), no papel de uma DJ.

O filme, cujo título se deve a Baudelaire, tem muitas cenas de sexo, entre homem e mulher e entre mulheres, uso de drogas e conflitos familiares. Não abandona, no entanto, apesar dessa “temática” forte, um certo plano de voo de baixa altitude, talvez com vistas a um diálogo mais fácil com o público. E também de baixa profundidade. De fato, a impressão que se tem é de superficialidade.

No entanto, é muito bem filmado – mais uma vez por Lula Carvalho, que trabalha muito e bem, seguindo os passos do pai o consagrado Walter Carvalho. Quer dizer, o filme tem qualidade, é muito bem filmado, mas ressente-se de uma visão um tanto epidérmica da juventude, de sua relação com as drogas ou com o sexo. No próprio debate foi abordado o tema da juventude, essa geração ultraplugada, que atende pelo nome de “geração T (de testemunha), que posta tudo no twitter ou no Face no momento mesmo que o está vivendo. Aconteceu na sessão do filme no Cine Teatro Guararapes. Acontece o tempo todo. Talvez se pudesse fazer uma relação entre essa sensação opressiva de viver um eterno presente e o uso de drogas, mas não se fez.

Muita coisa fica no ar e, no desfecho, que óbvio não citarei, tudo parece bem arrumadinho demais, todas as pontas são unidas e não se dá um respiro para que o espectador tire suas próprias conclusões. Por isso, por mais que o filme às vezes “ameace” ser bom, acaba não passando de um plano mediano.

Acho que foi pouco pensado.

Girimunho

Duas velhas senhoras se tornam mais próximas quando o marido de uma delas morre. As mulheres interpretam os seus próprios papéis, quer dizer, empenham-se naquilo que no meio cinematográfico costuma se chamar de “autoficção”. Um termo que coloca sério problema para definir fronteiras entre o documentário e a ficção e tem se prestado mais a confusão que esclarecimento. Ao refazerem suas existências diante da câmera, estariam essas senhoras criando vidas novas ou se prestando a uma espécie de relatório etnográfico?

Talvez nada disso mais importe. Eduardo Coutinho, autor de Cabra Marcado para Morrer e Jogo de Cena, dois títulos referenciais do cinema brasileiro, disse que nem podia ouvir mais falar nessa questão. Falso problema, segundo ele. Girimunho retoma tudo isso tomando por título esse termo já de ressonância roseana. Envolve o espectador no torvelinho do mundo das mulheres, sem explicitar o que é documental ou ficção. Inventa-se ou registra-se.?Tudo isso passa em especial pela fala e presença de de Bastú (Maria Sebastiana Alves), viúva de um certo Feliciano, e sua vizinha.

O filme é feito de palavras, mas também sons, silêncio, sombras. Aposta, em sua dimensão poética, no caráter sensorial do cinema, produzindo a imersão na magia sertaneja, numa localidade chamada São Romão, interior de Minas.

Nesse trabalho, os diretores Helvécio Marins e Clarissa Campolina aproximam-se do ar misterioso do conterrâneo ilustre da literatura, Guimarães Rosa, que encontrava na fala sertaneja a elaboração metafísica das grandes questões. Vida, morte, o passar do tempo, o aqui e o além. Problemas sem solução, porém impossíveis de serem evitados pelo pensamento humano, escandem-se poeticamente, não de forma racionalista ou expositiva. É a filosofia que não diz seu nome, mas nem por isso é menos profunda.

Se Girimunho tem problemas de comunicação com o público mais amplo é porque este já está condicionado ao cinema linear e digestivo vendido pela publicidade. O fato de um filme como este e O Homem que Não Dormia estrearem no mesmo dia de um mega blockbuster como Os Vingadores não deixa de ser simbólico e interessante. São o minúsculo contraponto do cinema autoral brasileiro ao tsunami comercial de Hollywood. Tirem suas conclusões.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

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