segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Uma leitura das circunstâncias - Wilson Figueiredo


À medida que se dissipam as nuvens acumuladas em torno do julgamento da Ação Penal 470, fica novamente à vista a sucessão presidencial na qual dois destinos políticos, daqui a dois anos, vão se cruzar. Do choque sobrará uma das duas candidaturas que colidem na expectativa de 2014. Só haverá lugar para um.  Ao outro pretendente restará tempo para localizar onde plantou o erro cuja conseqüência colherá antes de chegar às urnas. Não há mais tempo a perder. Mensalão e eleição municipal, não demora, serão páginas viradas.

Dilma Rousseff e Luiz Inácio deram a largada lá atrás e, até prova em contrário, nem tiveram o cuidado de respeitar o princípio segundo o qual dois corpos não conseguem ocupar o mesmo espaço. Um dos dois terá de se recolher à modéstia compulsória. Ao outro caberá relatar a seu modo o que se passou, à espera de que o tempo acerte as contas com ambos. Inevitável será que um ganhe e o outro perca. Ao perdedor, a oportunidade de se resignar.

Como não podia deixar de ocorrer, o ex-presidente Lula já se movimenta com a volúpia de recorrer a normas e procedimentos não escritos, na medida ética inferior de cada um. Pelo que lhe diz respeito, o eleitor também tem leitura própria das circunstâncias que se mostram ou se escondem atrás de aparências.  

Lula já era candidato antes de haver eleição à vista. Aprendeu na escola do sindicalismo. Dilma Rousseff bebeu em outra fonte e, pela qualidade revelada, foi uma surpresa quando as primeiras dificuldades entre eles, sobretudo as de natureza ética, se acentuaram assim que  tomou as rédeas nas mãos. Para surpresa de quem via com alguma distância, a diferença já  trincava a relação entre o ex-presidente  e a sucessora. E, pelo efeito inesperado, a diferença pessoal e política entre os dois aconselhou a freada de arrumação. A eleição municipal tem o que contar.

A diferença entre Lula e Dilma Rousseff não foi referida abertamente pelos políticos, mas assimilada como acomodação temporária pela parcela social genericamente referida como classe média. E passou a fazer parte do jogo quando o procedimento do novo governo apontou na direção de valores sem os quais o estilo Dilma Rousseff não passaria de delegação política do titular, até a volta de Luiz Inácio ao poder a que ficou mal acostumado. O antecessor já nem disfarçava a ambição de mando que lhe subiu à cabeça: recusa-se a descer do pedestal e faz um estrago no que já se confunde com desprezo pela democracia, da maneira como a entende e aplica. O que já se esboçava como expectativa de poder para dois era o pressentimento de que, na cadência em que vinham, as duas candidaturas embutidas no exercício do poder prometiam bater de frente. Ainda que a nenhum dos dois interessasse um choque de tal proporção, enquanto fosse possível salvar as aparências sem apagar a suspeita dos que se fartam com as expectativas perturbadoras.

Ficou o pressentimento de que Dilma e Lula vão bater de frente, ainda que não pretendam ir tão longe. Mas será inevitável: a sucessão em destaque, por falta de outra, é a presidencial (num país que deixou para trás as hipóteses sempre à disposição do perdedor). Já não se planta na campanha eleitoral a suspeita de trapaça como salvo-conduto. Ou de ameaças com efeitos que perderam a oportunidade histórica de intimidar.

Para despir o mandato presidencial, Lula recorreu à melhor aluna da sua escola de desgoverno, onde foi para o ralo o princípio republicano segundo o qual não é indispensável ser absolutamente ético, desde que se salve a aparência. Sob o escudo de uma  ex-presidência, que não existe como função pública, Lula exerce a mímica da tutela presidencial. Ocupa o palácio como se fosse hóspede oficial e dá a entender que é ele quem governa. Há quem acredite.

O problema, evidentemente, é da presidente Dilma, que resistiu com discreta galhardia, mas a gentileza na oportunidade eleitoral foi longe demais, e ainda não voltou à distância regulamentar que a separa do ex-presidente. Nos atributos e nas imperfeições do trato político. Não é possível que Dilma Rousseff não se tenha dado conta de que não deve o mandato ao seu antecessor. E, portanto, não tem de pagar o que lhe vem sendo cobrado, de modo às vezes afrontoso.

 É booling o que Lula faz com a presidente, que não contraiu dívida que lhe imponha o desgaste ético com juros e correção monetária. O mandato não pesa como dívida de gratidão e, se a presidente Dilma se sente devedora, deve retribuir é ao eleitor, no  exercício dos poderes avalizados pela cidadania.Ela pagou adiantado a iniciativa do antecessor ao livrá-lo, com sua própria candidatura, do assédio do PT: Não é bom indício o exibicionismo do ex-presidente à margem dos costumes éticos que dignificam a democracia e sustentam a república.

Aproxima-se a hora em que a candidatura Dilma à reeleição será cobrada e entendida  como oportunidade de  valorização ética do exercício do poder, e não o que se viu na campanha eleitoral: a presidente em palanques em situações constrangedoras, pois é a presidente da República e, por extensão, de todos os brasileiros, e não apenas a serviço eleitoral de Lula. Seria um nó difícil de desatar se , daqui a dois anos, a democracia, com o capital eleitoral de 200 milhões de brasileiros, tivesse de escolher entre um ex-presidente Lula e a presidente Dilma Rousseff,  por um descalabro que fosse a soma de todas as pequenas afrontas feitas à cidadania e à democracia (que lhe ensinou nas urnas o suficiente para prosseguir sem interrupções).

Fonte: Jornal do Brasil 

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