segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

OPINIÃO DO DIA: José Arthur Giannotti

Ser contra o Estado forte e totalitário implica pensar novas formas de representação. Ser contra o capitalismo demanda uma análise cuidadosa de como se forma agora o excedente econômico, levando em conta a clivagem dos mercados transpassados pela luta por novas tecnologias. Depois das experiências do "socialismo real", a mera supressão dos mercados me parece um ideal fora do horizonte. Como é possível, então, conciliar mercados e representação popular? Urge erradicar o defeito do formalismo e do discurso matraca. Enquanto isso, convém não cuspir nas instituições democráticas que já temos, por mais defeituosas que sejam.

José Arthur Giannotti, “Ser de esquerda - tema e variações”. O Estado de S. Paulo, domingo, 9 de fevereiro de 2014

Lula faz embates para preservar Dilma até a Copa

Ex-presidente usará discursos em eventos estaduais e vídeos em um canal da internet para tratar dos assuntos mais espinhosos e responder a opositores

Ricardo Galhardo

O fato de Luiz Inácio Lula da Silva voltar a usar sua tradicional barba é apenas um item do plano estratégico já traçado entre os petistas neste período de pré-campanha: o ex-presidente tomará a linha de frente dos embates públicos com os adversários até o fim da Copa do Mundo, em meados de julho. A ideia é criar a imagem de que sua sucessora e pré-candidata à reeleição, Dilma Rousseff, está concentrada na administração do País e na realização do evento esportivo.

Neste sábado, em Ribeirão Preto, durante um evento do pré-candidato petista em São Paulo, Alexandre Padilha, Lula já foi para cima do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Além de críticas sobre a atuação do magistrado no julgamento do mensalão, os petistas veem Barbosa como possível adversário na sucessão de outubro. Por ser juiz, ele poderá se desincompatibilizar do cargo e se filiar a um partido até abril - o prazo de outros candidatos é outubro do ano anterior, pelo menos 12 meses antes do 1.º turno. "Se quer fazer política, entre para um partido. Mostre a cara", disse o ex-presidente.

Além de rodar o Brasil fazendo campanha para os candidatos petistas a governos estaduais, como já fez no fim de semana com Padilha, Lula vai usar a internet para travar a disputa política em torno de temas espinhosos para o PT, como a defesa da gestão Fernando Haddad na capital paulista, o desempenho da economia, a regulação da grande mídia, o combate à corrupção, a reforma política e a própria Copa do Mundo.

Nos primeiros meses, por questões de agenda, as ações vão se concentrar em São Paulo. Até maio, Lula deverá cumprir compromissos pessoais nos Estados Unidos, na América Latina e na África. A partir de então o ex-presidente vai se dedicar em tempo integral à pré-campanha. As prioridades serão os cinco maiores colégios eleitorais do País - São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Bahia.

A estratégia da pré-campanha foi definida em duas reuniões. A que decidiu o papel de Dilma foi em Brasília e a segunda, que discutiu o uso da internet, na sede do Instituto Lula, em São Paulo.

Segundo um colaborador do ex-presidente, ele não deixou a barba crescer à toa, e sim por um aspecto simbólico. Lula, que tirou a barba durante o tratamento de câncer na laringe em 2011, vinha usando apenas bigode, como é menos conhecido.

Estreias. Desde o início do ano Lula já publicou três vídeos para falar sobre a campanha das Diretas Já (e reforma política), internet (e regulação da mídia) e combate à fome (e programas do governo) em sua página no Facebook, que ultrapassou a marca de 500 mil seguidores.
As mensagens são produzidas no próprio Instituto Lula, mas a equipe de comunicação trabalha com o projeto de um canal de vídeos a partir de maio.

O ex-presidente também deve aumentar o número de entrevistas a jornais regionais. Na sexta-feira o diário A Cidade, de Ribeirão Preto, publicou uma delas na qual Lula faz elogios a Haddad e defende o ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci.

Segundo petistas, a Copa do Mundo é o "último solavanco" antes da reta final da campanha eleitoral. Por isso, até julho a presidente deve manter no governo nomes cotados para a coordenação da campanha, como os ministros Gilberto Carvalho (Secretaria Geral da Presidência) e José Eduardo Cardozo (Justiça).

Até agora, os únicos nomes definidos para integrar a campanha são os do presidente do PT, Rui Falcão, o deputado estadual Edinho Silva (PT-SP), o chefe de gabinete de Dilma, Giles Azevedo, o publicitário João Santana e o jornalista Franklin Martins.

Fonte: O Estado de S. Paulo

A depender das ruas, papel de ex-presidente pode ficar em xeque

Claudio Luis de Camargo Penteado, cientista político

A eleição presidencial de 2014 tem atualmente a presidente Dilma Rousseff, candidata a reeleição, como favorita, conforme relatam as pesquisas de intenção de voto. Diferentemente da eleição anterior, de 2010, quando a então ex-chefe da Casa Civil era uma desconhecida e contou com o apoio, a popularidade e a boa avaliação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nesta sucessão ela tem seu mandato, com seus erros e acertos, como principal bandeira política. Nesta eleição Dilma terá de assumir obrigatoriamente o protagonismo na condução de sua campanha.

Isso não quer dizer que o apoio direto de Lula, seu antecessor e padrinho político, não tenha valor estratégico do ponto de vista do marketing eleitoral, das alianças políticas e da capacidade de mobilização de petistas.

Caberá à presidente, porém, a responsabilidade de assumir a frente da sua campanha, construindo um discurso de "continuidade", principalmente nas áreas sociais, e ao mesmo tempo apresentar uma proposta de crescimento econômico, controle da inflação e melhoria de serviços públicos que possa dar conta da demanda de "mudança" já detectada pelos principais institutos de pesquisa do País.

Existe no núcleo da pré-campanha de Dilma a preocupação envolvendo os efeitos e impactos das manifestações que começaram em junho do ano passado, principalmente com os protestos previstos contra a Copa do Mundo (#nãovaitercopa) neste ano.

O caráter difuso dos acontecimentos do ano passado agrupou pessoas de diferentes grupos políticos, sendo seus efeitos eleitorais imprevisíveis.

Uma leitura inicial indica que os protestos não atingem diretamente o eleitorado que costuma votar no PT. Entretanto, Dilma precisa mais do que os eleitores fiéis do partido para vencer e a reverberação das manifestações pode causar a formação de uma opinião pública contrária ao governo federal. Esse movimento seria aproveitado pelos candidatos de oposição, o que poderia arrefecer o favoritismo da atual mandatária e criar um clima de incerteza na disputa eleitoral. Nesse contexto, a popularidade de Lula pode perder a relevância.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Após crítica de Lula ao STF, oposição diz que ex-presidente está ‘ressentido’

Líderes do PPS e do PSDB condenam fala de petista no sábado

Luiza Damé e Carolina Brígido

BRASÍLIA — As críticas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Supremo Tribunal Federal (STF) não passam de amargura, na avaliação da oposição. No sábado, ele atacou os ministros da Corte por darem declarações públicas sobre o processo do mensalão após o julgamento. Para o líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno (PR), os ataques de Lula mostram que ele esperava que os ministros por ele indicados ao STF absolvessem os petistas no julgamento do mensalão. Já o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), disse que falta compostura ao ex-presidente.

O deputado Rubens Bueno avalia que Lula não está em sintonia com as manifestações da população, que pede o fim da corrupção no país.

— Será que a intenção de Lula era que os ministros indicados por ele livrassem a cara da companheirada, que os envolvidos saíssem ilesos? — disse Bueno.

— Lula não é o mais credenciado para exercer o papel de corregedor do Judiciário. Trata as questões do Judiciário sem compostura. O que o descredencia é exatamente a crítica desrespeitosa ao tribunal pelo fato de ter condenado seus companheiros no mensalão. Esse comportamento é fruto do ressentimento pela condenação de seus companheiros — disse o líder tucano.

Bueno reconheceu o direito de Lula de “se solidarizar com os companheiros condenados”, mas argumentou que ele dá um péssimo exemplo quando acusa o STF ter feito um julgamento político dos mensaleiros.

— Ele está esperneando porque sua estratégia não deu certo. Não houve perseguição. Foi dada ampla defesa a todos os réus. A sociedade se sente contemplada com esse julgamento porque a justiça foi feita — afirmou o líder do PPS.

O senador tucano lembrou a “chamada” do rei Juan Carlos da Espanha no então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em dezembro de 2007, na cúpula ibero-americana, em Santiago (Chile), e aconselhou Lula a ficar calado:

— Por que não te calas?

O vice-presidente da Câmara dos Deputados, André Vargas (PT-PR), por sua vez, concorda com as declarações do ex-presidente Lula.

— Falou o óbvio. Os caras, em vez de opinar nos autos, opinam em público. Joaquim Barbosa (presidente do STF) e Gilmar Mendes (ministro do tribunal) são especialistas nisso. Falta postura, na minha opinião. Os ministros têm o poder que a Constituição determina. O problema é o comportamento de um ou outro — disse o parlamentar.

Na semana passada, Gilmar afirmou que há indícios de lavagem de dinheiro na arrecadação de petistas para pagar as multas às quais eles foram condenados no mensalão. O ex-deputado José Genoino (PT-SP) e o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares lançaram mão do artifício para conseguir os recursos que somaram quase R$ 2 bilhões.

— E se ficar provado que não tem nenhuma irregularidade! Ele vai responder por isso? É fácil fazer ilações em relação a um partido e depois ficar por isso mesmo — reclamou Vargas.
Para o parlamentar petista, se um ministro comenta um processo publicamente, não tem isenção para julgá-lo:

— Está muito comum isso no Brasil: todo mundo dá palpite e, depois, não tem a isenção necessária para julgar. É a Suprema Corte, é a última instância! Na Suprema Corte dos Estados Unidos não pode nem tirar foto da sessão. Aqui, os caras ficam dando pitaco.

Lula viaja nesta segunda-feira pela manhã para Nova York, nos Estados Unidos. Na terça-feira ele se encontra com o ex-presidente americano Bill Clinton na Fundação Clinton na terça-feira. Ministros do STF procurados pelo GLOBO não quiseram comentar as declarações de Lula.

Fonte: O Globo

"Debate vai começar agora", diz Eduardo Campos

Governador nega que Rands já tenha sido escolhido candidato a sua sucessão e afirma que debate não começa com "nomes". Ele já conversou com Jarbas e João Lyra

Gabriela López

O governador Eduardo Campos (PSB) procurou despistar e reagiu às informações que circulam nos bastidores do PSB de que o ex-deputado Maurício Rands já teria sido escolhido candidato para disputar sua sucessão. Apesar da efervescência dos correligionários para a definição e da movimentação dos possíveis postulantes, o socialista sustentou que o debate em torno da eleição sequer começou, o que ocorrerá hoje. Segundo ele, até o final deste mês serão fechados o programa e o candidato.

"Eu entendo que muitas pessoas só sabem fazer política discutindo os nomes, mas eu aprendi a começar discutindo o que deve nos unir", afirmou, em entrevista ontem na inauguração do Paço do Frevo (leia mais em Cidades). Na cerimônia, houve uma manifestação, pequena, contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. Participantes levantaram faixas reclamando do evento esportivo, enquanto o prefeito Geraldo Julio (PSB) e o governador discursavam.

Rands teria sido escolhido por reunir, no entendimento do governador, perfil político e desprendimento de cargos, já que, em 2012, então filiado ao PT, renunciou ao mandato de deputado federal por insatisfação com as brigas do partido.

Endossando nacionalmente a defesa da "nova política", Eduardo tem dito que primeiro discutirá o programa de governo para depois analisar nomes e formar a coligação. Com o lançamento na semana passada do documento com as diretrizes programáticas que serão defendidas pelo governador na campanha para presidente, hoje os 24 membros da Executiva estadual do PSB se reunirão para fazer sugestões ao material. O mesmo processo ocorrerá nos demais Estados.

As costuras "oficiais" sobre o candidato devem "começar" na próxima semana, já que o presidente estadual do PSB, Sileno Guedes, quer fechar as contribuições para o programa até a sexta (14). Os partidos da base do governo estadual serão convidados a fazer sugestões.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Pimenta da Veiga entra na briga

Deputado Marcus Pestana sai da corrida para cuidar da campanha de Aécio Neves a presidente

Larissa Arantes

O PSDB anuncia hoje o candidato do partido ao governo de Minas nas eleições desse ano e, no próximo dia 20, realiza um grande ato de oficialização da chapa com a presença de lideranças estaduais e nacionais da sigla. A expectativa é a de que hoje o ex-ministro Pimenta da Veiga seja confirmado como o nome do partido na disputa.

Inicialmente, o evento tucano estava marcado para o dia 14, mas foi alterado pela legenda na última sexta-feira. Na mesma data, o ex-presidente Lula desembarca em Belo Horizonte para lançamento da candidatura do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel.

Durante o fim de semana, o presidente do PSDB de Minas, deputado federal Marcus Pestana, se reuniu com lideranças do partido e com o próprio Pimenta da Veiga. Mesmo com o nome do ex-ministro praticamente definido, Pestana tentou se cacifar, principalmente no interior do Estado, para conseguir ser o candidato do partido.

Ontem, porém, ele evitou confirmar se vai abrir mão de sua candidatura. Apenas disse que ainda estava nas “conversas finais” sobre a questão. “Até amanhã (hoje) vou amadurecer o meu posicionamento e vou redigir o meu pronunciamento amanhã (hoje) de manhã”.

Pestana contou ainda que muitas lideranças que o apoiam chegaram a defender a realização de prévias no PSDB. “Estavam animados com a minha possível candidatura”, completou.

O presidente estadual do partido enfatizou que é hora de o PSDB se colocar na disputa já que o petista e ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, o principal oponente nas eleições de outubro, “está colocando o time na rua”. “Ele está vindo com muita estrutura. Não podemos esperar mais”, avaliou.

A influência do ministro em “áreas do Estado simpáticas ao PSDB” também é motivo de preocupação entre os tucanos.

Pimenta da Veiga também evitou comentar o teor da coletiva de imprensa de hoje quando questionado se haveria a confirmação de seu nome. “Não posso te adiantar o que será”, respondeu. O ex-ministro relatou ainda que esteve com Pestana em Juiz de Fora, na Zona da Mata, no sábado, apenas “para debater a situação política da região”.

Presidência. De acordo com um aliado tucano que pediu anonimato, Pestana terá uma função estratégica na campanha eleitoral do senador e presidenciável Aécio Neves. “Ele vai assumir um cargo importante na coordenação da campanha nacional do Aécio e vai ser candidato a deputado federal novamente”, garantiu.

Segundo mesma fonte, apesar de não assumir o posto de comando, Pestana vai ser responsável por concretizar alianças e montar palanques pelo país.

PMDB
Pleito. O PMDB ainda não definiu o dia, mas também deverá organizar, ainda neste mês, evento para oficializar a candidatura própria. O senador Clésio Andrade deverá ser o escolhido.

Fonte: O Tempo (MG)

Resolução vai submeter alianças estaduais à cúpula do PSDB

Colegiado comandado por Andrea Neves, e não o marqueteiro, definirá estratégia de comunicação

Cristian Klein

SÃO PAULO - Pré-candidato ao Planalto e presidente nacional de seu partido, o senador mineiro Aécio Neves tem introduzido mudanças na organização do PSDB que tornam a legenda mais semelhante ao modelo centralizado do maior adversário dos tucanos, o PT.

Amanhã, a Executiva nacional do PSDB deve aprovar resolução que submeterá as políticas de alianças estaduais à cúpula da agremiação. O objetivo é garantir que a campanha de Aécio seja impulsionada por candidatos estaduais competitivos, sem que os caciques regionais atrapalhem o projeto presidencial.

Outros dois movimentos de Aécio Neves são a tentativa de unificar a área de comunicação dos 27 diretórios estaduais e o novo formato decisório para a equipe de propaganda política. No lugar da figura autônoma do marqueteiro-estrela, as estratégias em torno da imagem do senador serão compartilhadas por um colegiado presidido por Andrea Neves, irmã do senador.

A subordinação dos arranjos locais ao projeto nacional aproxima os tucanos dos petistas, que historicamente sempre põem a conquista da Presidência da República em primeiro lugar, mesmo que à custa de realizar intervenções traumáticas. Em 2010, a direção nacional do PT obrigou o apoio da seção estadual do Maranhão à reeleição de Roseana Sarney, contrariando a vontade da maioria do partido local de se aliar ao candidato do PCdoB ao governo, Flávio Dino.

Os tucanos, no entanto, evitam falar em intervenção. "Ela [a resolução] não deve ser interpretada como ato de força, de imposição, mas de integração do partido. Vamos ouvir, analisar, considerar e respeitar as realidades locais. É um mecanismo para a direção nacional do partido ter participação mais ativa na política local", afirma o senador da Paraíba Cássio Cunha Lima, um dos vice-presidentes do partido e integrante do núcleo da pré-campanha de Aécio.

Cunha Lima afirma ser o proponente da resolução e lembra que o acompanhamento das alianças estaduais pela direção nacional tucana sempre aconteceu, embora não houvesse um mecanismo explícito de controle. Outro dirigente, que prefere o anonimato, diz que resoluções similares já foram editadas e descumpridas.

"O partido não tinha unidade para impor isso. Era uma federação e cada um pensava de um jeito. Na hora do "vamos ver", o partido não fazia valer [o interesse da direção nacional]. Respeitava o dono do partido no Estado. Só em alguns casos contrariava um cacique municipal. Mas hoje há unidade e o partido fala uma linguagem só", afirma o tucano.

O dirigente afirma que a resolução só é possível porque o PSDB desfruta de uma unidade só experimentada na reeleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1998. Em 1994, 2002, 2006 e 2010, aponta, faltou coesão e adesão à campanha presidencial nos Estados. Nas últimas três disputas, com José Serra e Geraldo Alckmin, teria sido "um desastre". "As candidaturas não resultaram de uma unidade. Cada seção fez o que quis. Nem houve tanta antecedência para se trabalhar quanto agora", diz.

De acordo com a mesma fonte, a candidatura Aécio também se favorece pelo fato de o presidenciável ser parlamentar e não chefe do Executivo, o que o teria impedido, de acordo com o estatuto do PSDB, que o senador também se elegesse presidente do partido. Isso não foi possível com Serra e Alckmin, que eram prefeito e governador antes de se candidatarem.

O dirigente diz que agora o PSDB nacional "tem força para tomar essas decisões" e poderá levar situações de impasse "à última consequência, quando necessário" e vetar arranjos indesejados.

A medida, no entanto, é vista mais como uma baliza do que uma arma com o propósito de dobrar alguma seção partidária. "Não vislumbramos intervenções. É uma vacina", diz o tucano.

O objetivo, de acordo com o dirigente, é evitar duas situações principais em que a candidatura presidencial fica "sem condições de se movimentar" no Estado.

A primeira é a dos candidatos "laranjas", ou seja, concorrentes fracos a governador lançados pelos caciques regionais. Neste caso, o interesse paroquial é tão arraigado que a prioridade pode ser o de apenas formar uma chapa proporcional a deputado para eleger o líder local e "mais um ou dois". Ou pode ser que o cacique, no fundo, esteja torcendo para que o adversário de um aliado ganhe a eleição. Ou prefira preservar seu status de oposição. De todo modo, o "laranja" serve de desculpa do dirigente regional em relação à cúpula nacional para não apoiar um nome mais competitivo de outros partidos que daria um palanque melhor à candidatura presidencial.

A segunda situação é a da aliança na qual a instância local entrega "tudo" - sobretudo o tempo de TV - para um grupo concorrente [no plano nacional] sem contrapartida à altura. Com isso, inibe a campanha do partido ao Planalto, já que o governador apoiado não faz campanha para o presidenciável da legenda.

Esse é exatamente o caso que se desenha no Mato Grosso do Sul, Piauí e, possivelmente, Ceará e na Bahia. No Estado do Centro-Oeste, o deputado federal tucano Reinaldo Azambuja planeja apoiar o senador petista Delcídio Amaral e ficar com a vaga do Senado na chapa majoritária. O arranjo, no entanto, já encontra resistência na direção do PT, que proíbe alianças com partidos que fazem oposição ao governo federal.

No Piauí, por outro lado, o acordo está adiantado e cria uma situação desfavorável a Aécio, que ficaria sem um palanque forte. Pela costura, o ex-prefeito tucano de Teresina, Silvio Mendes, seria vice na chapa do deputado federal Marcelo Castro, do PMDB, e que teria como candidato ao Senado o atual governador Wilson Martins (PSB).

Pela legislação, Castro poderá usar sua propaganda eleitoral no rádio e TV como palanque eletrônico à reeleição de Dilma Rousseff - já que o PMDB é aliado nacional do PT. Mas não poderá fazer o mesmo, se quiser defender Aécio. Pelo arranjo, o presidenciável tucano dependerá mais da campanha de rua e na internet, enquanto seus prováveis adversários, Dilma e Eduardo Campos (PSB), poderão ocupar espaços na TV. A presidente contará com candidatura própria do PT, o senador Wellington Dias, que lidera as pesquisas, e o governador de Pernambuco terá à disposição a propaganda de Wilson Martins ao Senado.

Silvio Mendes afirma que a situação do PSDB no Estado é muito difícil e bem pior do que, em 2010, quando ele mesmo concorreu ao governo estadual e perdeu no segundo turno. Há quatro anos, lembra, a aliança foi com o DEM, que praticamente desapareceu no Piauí depois da criação do PSD, em 2011, e com o PPS, que agora planeja participar de uma aliança com 12 pequenos partidos, encabeçada pelo ex-prefeito de Paulistana, Luís Coelho (PRP). Os tucanos também perderam os dois deputados federais que tinham.

"Abriram espaço para nós, na [vaga de] vice. O PSDB conseguiu um espaço e não terá outro, porque não tem como construir. Já tentamos", diz Silvio Mendes.

O ex-prefeito afirma que chegou a chamar o ex-senador Freitas Neto para concorrer, mas o convite foi recusado. "Eu já fui em 2010. [O candidato] pode passar vexame. Quem aceitaria?", argumenta. O tucano conta que já expôs a dificuldade a Aécio e sabe que a direção nacional aprovará a resolução para controlar as alianças estaduais. "Se houver, seremos cumpridores da resolução. Executiva nacional é para isso. Senão, seria anarquia. Mas estaremos fora do espaço que poderíamos ter", diz.

No Ceará e na Bahia, onde o PSDB também cogita se coligar com o PMDB, a situação é diferente, porque a expectativa é que os pré-candidatos aliados, respectivamente o senador Eunício Oliveira e o ex-ministro Geddel Vieira Lima, teriam o compromisso de não fazer campanha para Dilma Rousseff e dariam palanque a Aécio.

Na Paraíba, o PSDB também tende a não lançar um nome próprio e pode apoiar a reeleição do governador Ricardo Coutinho (PSB), que pedirá votos para Eduardo Campos. O pré-candidato tucano é o senador Cássio Cunha Lima, ironicamente, o mesmo que propõe a resolução para controlar as alianças estaduais. A medida, no entanto, pode facilitar o trabalho do senador, cotado para assumir a coordenação-geral da campanha de Aécio Neves.

Para Cunha Lima, até a situação no Piauí pode ser aceita pela direção nacional, pois "depende de como isso se operacionalizará no dia a dia da eleição". O parlamentar diz que políticos e analistas partem de uma "lenda urbana da política brasileira" de que palanques só se formam da maneira tradicional, com candidatura própria.

"Não sou dono da verdade, mas isso está errado. Aqui, na própria Paraíba, por exemplo. Em 2010, eu fui candidato a senador, apoiava Serra, e o Ricardo Coutinho apoiava Dilma. Nem por isso deixamos cada um de fazer campanha para o seu candidato. Serra teve um dos melhores desempenhos do Nordeste, na Paraíba", diz o tucano.

O colega de partido, que prefere não ser identificado, discorda de Cunha Lima. Diz que já é difícil operar a campanha quando o governador não é do partido e ainda mais quando o candidato a governador da aliança faz campanha para outro concorrente ao Planalto. Em sua palavras, a campanha à Presidência, neste caso, "não rende", pois os integrantes da chapa proporcional do partido tendem a associar suas imagens ao candidato a governador defensor do outro presidenciável. Por outro lado, o tucano relativiza a importância, em sua opinião, exagerada à necessidade de se aparecer no horário eleitoral da TV. "Só a TV não resolve. A batalha aérea é a televisão. Mas embaixo tem que ter a infantaria, distribuir papel e fazer reuniões", afirma o dirigente.

Fonte: Valor Econômico

PSDB quer referendar alianças

BRASÍLIA – O PSDB reúne a Executiva Nacional amanhã para adotar a mesma estratégia usada pelo PT nos últimos anos: todas as alianças estaduais terão de ser referendadas pela direção nacional tucana. Assim como os petistas farão com Dilma Rousseff, todos os esforços serão concentrados para tornar Aécio Neves presidente da República em outubro.

De acordo com o líder do partido na Câmara, Antonio Imbassahy (BA), não se trata de repetição do mesmo centralismo democrático adotado pelo petistas. Mas da conjunção de esforços para que não se repitam episódios de campanhas anteriores, quando a pulverização das forças estaduais enfraqueceu a candidatura nacional.

Também está praticamente vetada a aliança com o PT para os governos locais. Em disputas anteriores — no Acre, por exemplo, a aliança com os tucanos é histórica — deverá ter um desfecho diferente este ano. Márcio Bittar será o candidato ao governo estadual e enfrentará o petista Tião Viana, que tenta a reeleição.

Outra pressão ocorrerá em Mato Grosso do Sul, na aliança desenhada pelo senador Delcídio Amaral (PT) com o deputado federal Reinaldo Azambuja (PSDB). "Não tome isso como fechado, tudo ainda será analisado", confidenciou Imbassahy à reportagem.

Proximidade. Já em Pernambuco, a aliança será com o candidato indicado pelo governador, Eduardo Campos (PSB). Apesar do crescimento na influência de Daniel Coelho no quadro partidário e de muitos correligionários defenderem que ele deveria ser candidato ao governo, a tendência é que o PSDB indique um nome para o Senado. "Temos um jovem político líder, o Daniel Coelho, que muitos companheiros gostariam de ver candidato ao governo. Mas estamos vendo uma situação de aproximação muito bem construída com esse desejo de várias pessoas de indicarmos um nome para o Senado. Temos dois nomes notáveis: o ex-presidente do PSDB senador Sério Guerra e o deputado federal Bruno Araújo", afirmou Imbassahy. (PTL)

Fonte: Estado de Minas

Campos nega escolha de Maurício Rands para a sucessão estadual de PE

Ex-petista agora é filiado ao PSB, partido do governador e pré-candidato à Presidência da República

Letícia Lins

RECIFE — O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), negou que já tenha escolhido o ex-deputado Maurício Rands, ex-petista e atualmente filiado ao PSB, para disputar a sucessão estadual pela Frente Popular, coligação de 14 partidos que levou o socialista ao Palácio do Campo das Princesas, por duas vezes seguidas. Da Frente não faz mais parte o PT, partido com o qual Campos rompeu depois vê-lo em crise na disputa pela prefeitura de Recife, em 2012.

Rands foi um dos pivôs da crise, que levou o PT a expor suas fraturas. Ele pretendia disputar a prefeitura, e tentou ser indicado na convenção do PT recifense, mas foi derrotado pelo então prefeito João da Costa. O grupo de Rands - a CNB, Construindo um Novo Brasil - não aceitou o resultado e a executiva nacional impôs o nome do Senador Humberto Costa. Pouco depois, ele divulgava uma carta saindo do partido e renunciando ao mandato de deputado federal. Rands também entregou a secretaria que ocupava no governo Eduardo Campos. Em carta, ele dizia que tinha abandonado de vez a política.

O ex-deputado viajou para a Europa e, agora, de volta a o país, filiou-se ao PSB. Na noite da última sexta feira, ele esteve com a ex-ministra Marina Silva, em um encontro com evangélicos em Pernambuco. Rands era o único "verde" não histórico a acompanhar a idealizadora da Rede no evento. Marina está cotada para ser a vice do presidenciável Eduardo Campos, que dá início oficialmente nesta segunda-feira ao debate sobre a sucessão estadual em Pernambuco. Ele encarregou o presidente estadual do PSB, Sileno Gudes, de ouvir lideranças e de apresentar o programa nacional Rede/PSB aos políticos locais.

No final de semana, Campos reuniu-se com o vice governador João Lyra Neto, que está no páreo para ficar no Palácio do Campo das Princesas. Ele também vem conversando com três dos seus secretários e com o ex-ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho.

- No momento, estamos apenas discutindo o conteúdo, como fizemos nacionalmente. Entendo que muitas pessoas façam política começando pelos nomes, mas aprendi a fazer política começando a discutir o que nos deve unir. Qual é o nosso propósito? O que devemos ter em uma candidatura é que ela possa representar os nossos compromissos. Por ter feito assim foi que ganhei em 2006 e 2010. Foi assim, também, que ganhamos em 2012, disse, referindo se ao prefeito Geraldo Júlio (PSB)

Fonte: O Globo

Aécio Neves: Vulnerável

Discussões em torno da importância do planejamento e da capacidade de gestão dos governos tendem a ser consideradas áridas e distantes dos interesses da população.

No entanto, são cruciais e a atual crise do sistema de energia é um exemplo concreto da falta que fazem ao país.

A semana começa sem resposta para mais um apagão que deixou às escuras 6 milhões de pessoas em 13 Estados brasileiros.

Para efeito de análise de conjuntura, mais importante que o fator pontual, específico, que justifique a interrupção, é constatar a evidente vulnerabilidade do sistema, exposto à pressão das altas temperaturas registradas, ao declínio dos níveis dos reservatórios e à alta do consumo.

A demanda média do período está 8% acima das previsões feitas pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico. Para se ter uma ideia mais clara do quadro, 75% da nossa produção energética vêm de fonte hidráulica e os reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste terminarão fevereiro com menos de 40% da capacidade.

Não pode ser simplesmente negligenciado ou reduzido a uma mera coincidência o fato de que, na terça-feira, o Sul atingiu seu recorde de carga apenas três minutos antes da falha no sistema de transmissão que causou o apagão.

Sintoma que expõe, em princípio, a hipótese de estar começando a haver desequilíbrio estrutural entre a capacidade de oferta e a demanda de energia no país, que o governo, a todo custo, tenta descartar, fazendo piadas diversionistas com descargas elétricas, ou sugerindo mais terceirização de responsabilidades.

Como parece ser menos provável que haja problema de geração, tudo converge para uma eventual precariedade das linhas de transmissão. Mais de dois terços das que estão em construção sofrem atrasos (média de 13,5 meses) e pode estar havendo investimento muito menor que o previsto na manutenção, em face da atabalhoada mudança de regulação, que provocou incertezas, desconfianças e --quem sabe-- até um investimento menor que o necessário.

Poderíamos estar contando com os parques eólicos para compensar os problemas no segmento hidroelétrico. Infelizmente isso também não é possível, porque simplesmente não foram concluídas até hoje as respectivas linhas de transmissão.

Para o governo, o espaço para manobras vai se reduzindo e restam poucas alternativas: se reajustar tarifas, alimenta a inflação; se subsidiar ainda mais o custo, amplia o deficit nas contas públicas.

No geral, são erros imperdoáveis, para quem passou praticamente uma década inteira à frente do sistema energético nacional, advogando a excelência da gestão.

A realidade sempre cobra o seu preço. Pena que, mais uma vez, a conta pelo improviso seja paga pelos brasileiros.

Aécio Neves, senador (MG) e presidente nacional do PSDB

Fonte: PSDB & Folha Online .

Ricardo Noblat: Afinal, Lula, que * é essa?

‘Na política nunca podemos dizer nunca’. Lula, ex-presidente

Concorda com a frase lá de cima ‘Na política nunca podemos dizer nunca’? Bem, eu concordo. E parto dela para compartilhar com vocês o que penso. Por exemplo: Sarney apoiou a ditadura militar de 1964 até à véspera de ela cair 21 anos depois. Então, rapidinho, passou para o lado dos que a combatiam. Entendeu? É confuso. Outro exemplo? Em 1989, Lula e Collor brigaram pela presidência da República.

Collor ganhou chamando Lula de comunista. Lula perdeu chamando Collor de desonesto. Hoje, um apoia o outro. Último exemplo? Foi Lula quem fez Joaquim Barbosa ministro do Supremo Tribunal Federal. Os dois sempre estiveram do mesmo lado. No último sábado, sem citar o nome dele, Lula bateu duro em Joaquim. Acusou-o de ter condenado inocentes. Sugeriu que Joaquim será candidato a alguma coisa.

Por que Lula procedeu assim? Porque o ministro Marco Aurélio Mello, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, contou à VEJA o que ouviu de Joaquim no final do ano passado. Em resumo, Joaquim disse que cansara. A experiência de ser ministro já estava de bom tamanho para ele. Desde então, segundo Marco Aurélio, “ventila-se” no Supremo Tribunal Federal (STF) que Joaquim será candidato à vaga de Dilma.

(Calma, Noblat!) Em 2005, estourou o escândalo do mensalão que quase derrubou o governo. Mensalão foi o nome dado ao esquema de compra de votos com dinheiro público para que Lula governasse. Nunca teve nome o esquema de compra de votos no Congresso que permitiu a reeleição de Fernando Henrique. Política é negócio. Um negócio milionário. Dê-me o que quero e lhe darei o que você quer. Nada sai de graça.

Estou dando voltas porque escrevo cansado. Vamos adiante, todavia. Ameaçado pelo escândalo, Lula ocupou uma cadeia nacional de rádio e de televisão para pedir desculpas aos brasileiros, negar que existira mensalão e se dizer traído. Suas mãos tremiam. Mensalão? Jamais ouvira falar, disse. Corrigindo: ouvira uma vez, sim senhor. Foi quando recebeu em audiência o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), seu aliado.

Mandou investigar o que Jefferson lhe contou. A investigação no Congresso durou uma semana. Nada foi descoberto. Lula ouviu falar do mensalão pela segunda vez quando visitou Goiás. O governador Marconi Perillo alertou-o para a compra do passe de deputados. E Lula? Na boa... Nem aí. Temeu-se depois que ele fosse capaz de se matar. Foi salvo pelo ministro José Dirceu.
(Se gosto de Dirceu? Gosto sim, política à parte)

Quanto aos traidores... Bem, Lula não apontou nomes de traidores. Afinal, como reclamar do julgamento daqueles que o traíram? Incoerência total. Falta de compromisso com a verdade.
Nada que seja estranho à política cujas bases são a mentira, a fraude e a enganação. Lula não parecia um político melhor nem pior do que qualquer outro. Era diferente apenas. Deixou de ser.

Poderia ter dito com toda a clareza possível que seus traidores não foram esses que estão atrás das grades. E mais o que está preso na Itália. E nem os que estão dentro do STF.
Seria a forma mais eficiente de defendê-los. Mas tal coisa seria o mesmo que admitir que o mensalão existiu. E que ele, Lula, de fato fora traído.

O silêncio é a mais preciosa lei da máfia. E ele tem preço. Tanto no caso do traidor como no de quem se sente traído. Ensinam os manuais sobre traições: morra sem confessar. Se for o caso, valerá o preço de ir para o inferno mentindo. Que saudade de O Poderoso Chefão.

Fonte: O Globo

José Roberto de Toledo: Aeroporto ou rodoviária?

Uma professora-doutora da universidade da elite do Rio de Janeiro fotografa homem de bermuda e camiseta regata que vislumbrou no Santos-Dumont, e estampa-o no Facebook, sob a indagação: "Aeroporto ou rodoviária?". Nos comentários, compara seus trajes ao de um estivador e arremata: "O pior é que o Mr. Rodoviária está no meu voo. Ao menos, não do meu lado. Ufa!".

Outros integrantes da primeira classe acadêmica carioca se solidarizam nos comentários. "Esse tipo de passageiro fica roçando o braço peludo no seu porque não respeita os limites do assento." "O glamour de voar definitivamente se foi." "Isso é só uma amostra do que tenho visto pelo Brasil." Sem perceber a autoironia, outra escreve: "O bom senso ficou em casa".

João Santana não poderia sonhar com melhor roteiro de propaganda eleitoral gratuita e espontânea nas redes sociais. A máquina petista sacou a oportunidade e bombou a história através do perfil "Dilma Bolada", no Twitter. Epidemia instantânea na rede.

Em 24 horas, a longeva carreira acadêmica da professora-doutora especializada em "português como segunda língua" estava relegada à décima página de resultados da busca pelo seu nome no Google. A primeira centena de links leva à história do Mr. Rodoviária - que se identificou e fala em processo. Mínima parte cita o envergonhado pedido de desculpas da professora-doutora.

O episódio é fascinante sob qualquer ângulo que se queira olhar. O mais óbvio é o efeito Big Brother. A sensação que o internauta tem de penetrar um círculo fechado e descobrir o que as pessoas realmente pensam e são capazes de dizer quando se acham dispensadas do politicamente correto e da mínima cortesia.

Soa exagerado de tão cru. Se fosse cena de novela, seria forçada demais e perderia credibilidade. Mas, como os personagens têm nome, cargo e página no Facebook, o exagero vira revelação: "Ah, é isso que eles acham". Cai-se no estereótipo oposto. Se o emergente parece estivador, é peludo e ultrapassa os limites, a elite é demofóbica, cruel e segregacionista - sem exceções.

Talvez alguns dos personagens tenham escrito o que escreveram por pressão social, por vontade de ser aceito no grupo, de pertencer. Afinal, se o reitor e a doutora estão dizendo, essa só pode ser a norma, "a coisa certa" a fazer. É outro aspecto surreal da história: supostos guardiões da alta cultura disseminam e endossam preconceitos que deveriam combater.

Destila ainda do episódio uma ingênua nostalgia. A crença numa fantasia comercial. "Glamour de voar?". Um voo de carreira é das experiências mais desagradáveis que há: fila de check-in, fila para despachar bagagem, fila para passar no raio X, fila para embarcar, para pegar a mala. Horas confinado em espaço apertado, respirando ar seco e, quando há, comendo comida requentada.

O tal glamour só existiu nas propagandas e nos filmes destinados a convencer o público de que pagar caro por horas de tormento é um privilégio. Poderia a elite intelectual sentir falta de algo que jamais existiu? Ou a nostalgia é uma metáfora? Será saudade de quando as divisões sociais eram claras, os espaços públicos eram exclusivos e as distâncias entre classes, intransponíveis?

Uma parte importante da sociedade brasileira incomoda-se com a novidade de um mercado de massa que nivelou o jogo via acesso quase universal ao consumo. Os incomodados não são os super-ricos, que continuam inalcançáveis. A aproximação dos que vêm de trás perturba quem já estava no meio e se sente igualado ou até superado por quem chegou agora e já quer sentar na janelinha.

Raras vezes esse conflito apareceu tão explícito quanto no caso da professora-doutora e seu Mr. Rodoviária. Mas a raridade tende a desaparecer mais rápido do que o glamour de voar. Como o mesmo episódio demonstrou, expor contradições e explorar divisões dá voto. Rodoviária e aeroporto viraram cabos eleitorais.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Renato Janine Ribeiro: A inclusão social pela cultura

A cultura é a educação fora de ordem

Comentei nas últimas colunas a inserção social realmente realizada, convertida pelo PT em política de Estado, e que integrou dezenas de milhões de ex-miseráveis no mercado; e a inclusão social que é necessária e se dará pela educação. Alertei para os problemas que o consumismo traz, numa sociedade fortemente hedonista. Agora, pode a inclusão social necessária - que, repito, deve passar pela renda e consumo e ampliar-se graças à educação - ser reforçada, upgraded, pela cultura?

Há muitas definições de cultura. Proponho uma: ela é a educação fora de ordem. A educação normalmente se dá numa sequência ordenada. Aprende-se a ler, a fazer as operações matemáticas, depois vai-se conhecendo cada vez mais, até o curso superior, o doutorado... Mudar essa ordem pelo avesso - ou simplesmente fazer as coisas fora de ordem - não é impossível, mas é difícil. Contudo, em tudo o que já escrevi sobre educação, sempre defendi maior desordem na educação. Ela, em ordem unida, corre dois riscos: pode tornar-se muito chata, pode inibir a criatividade. Mesmo assim, uma certa ordem é necessária na educação. Já na cultura, não.

Comparemos uma aula sobre a escravidão e um filme sobre o mesmo tema. A aula precisa ter ordem: as navegações portuguesas, a colonização das Américas, o apresamento dos africanos, sua mortalidade maciça nas plantações, quilombos, a abolição, o racismo que persiste. O filme não precisa. Ele pode começar com um episódio, digamos, o apresamento do navio negreiro "Amistad", na costa dos Estados Unidos, em 1839 (estou falando do filme de mesmo nome, de Spielberg, mas poderia falar de seu "Resgate do soldado Ryan" ou de "Lincoln", os três tratam de acontecimentos históricos significativos). Daí, vamos aprendendo uma quantidade de coisas sobre a escravidão, que não incluirão seus começos, suas causas históricas, o número de mortos, mas mostrarão o racismo, a perseguição, a luta pela liberdade. Não aprendemos a mesma coisa, mas aprendemos. Vivenciamos. Um único filme não substitui uma aula de História. Mas se, ao longo de um tempo, virmos vários filmes sobre a escravatura - um deles, o "Lincoln" que mencionei - havemos de adquirir um conhecimento de boa qualidade. Dados mais objetivos, posso complementar até mesmo pela Internet. Que, por sinal, é incrível para conhecer fora de ordem, tanto assim que, quando apareceu no Brasil, o que hoje chamamos de "navegar" se dizia "surfar", como se fosse algo físico, divertido, radical.

Isso que descrevi é educação ou é cultura? Quanto mais fora de ordem e descompromissado, mais será cultura. Posso ir a todas as exposições de arte e com elas aprender muito sobre pintura. Ficarão brechas, essa é a diferença no confronto com a educação, que procura evitar vazios e completar a formação da pessoa. Mas no tempo de hoje, dá para "completar" uma formação? Em nossa sociedade, a mais complexa da história, necessariamente seremos incompletos. Dizer que, ao terminar um curso, completamos a formação é um erro. Um estabelecimento de ensino bom, seja do nível que for, infantil ou doutorado, não deve acenar com a promessa de completude. A educação tem muito uso a fazer da cultura.

Em outras palavras: para a educação, há matrícula e às vezes até vestibular, termo que vem de "vestíbulo", o local certo de entrada. Na cultura se entra por onde se quiser, quando se quiser, sem inscrição, sem nada. Essa liberdade de entrar - e sair - aumenta seu prazer, justamente porque não é da ordem da obrigação. E por isso mesmo eu poderia dizer que a cultura é a educação vitaminada pelo prazer. Educação e cultura expressam o que o ser humano é capaz de criar. São o que mais dá poder ao indivíduo, ao ser humano, à pessoa. A cultura emancipa. Por isso é tão importante não ficarmos na posição passiva do consumidor. Consumir se opõe a produzir. Ambos são necessários, é claro, mas a produção é mais ativa, o consumo mais passivo. Agora, se a perspectiva da produção é essencial, não é pelas coisas - ou mercadorias - que fabricamos. É porque, produzindo, criamos a nós mesmos. A principal obra do ser humano é o próprio ser humano. Educação e cultura são duas ferramentas essenciais para chegar lá.

A questão que se coloca é: estamos formando nossos jovens para serem inquietos culturais? Porque a cultura tem ainda um traço importante, ela modifica. Ela abre perspectivas. Uma pessoa sem acesso a ela só conhece o que está em seu imediato entorno. Uma criança que nasce num fim de mundo pode, descobrindo a música, a arte, a ciência, encontrar uma vocação que vá muito além de seu bairro. A cultura é mais preciosa quando é descoberta, revelação. Lembro um filme polonês que fez sucesso, "Madre Joana dos Anjos", sobre um padre que é chamado para exorcizar um convento em que as freiras estão possuídas pelo diabo. O próprio padre acaba cometendo um crime horrível - diz - "para que eu chame a mim os demônios e Madre Joana possa ser santa". O diretor, Jerzy Kawalerowicz, explicava: os dois se apaixonaram mas, como não tinham linguagem para chamar seu sentimento de "amor", achavam que era possessão demoníaca. A incultura pode levar à infelicidade.

Poderemos ampliar a liberdade das pessoas pelo acesso à cultura? Certamente. Mas não podemos esquecer essa sua natureza fora de ordem. Para lembrar uma série de sucesso, pode haver "1001" filmes, livros ou lugares a conhecer "antes de morrer", mas esse número - como nas "1001 Noites" - é apenas um sinal de que a aventura do conhecimento é inesgotável.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Fonte: Valor Econômico

Luiz Carlos Azedo: Três frentes da batalha

Costuma-se explicar as diferenças entre uma guerra de posições e uma guerra de movimentos comparando-se a Primeira com a Segunda Guerra Mundial, na qual os alemães surpreenderam a Europa com a velocidade e poder de fogo de suas blitzkriegs (guerra-relâmpago) contra as velhas fortificações dos Aliados, como a Linha Maginot, que fora construída pelos franceses na década de 1930 para proteger suas fronteiras com a Alemanha e a Itália. Aqui no Brasil, um bom exemplo é a Guerra dos Farrapos (1835-1845), na qual os republicamos gaúchos desafiaram a Corte Imperial. O escritor gaúcho Tabajaras Ruas, no romance Varões assinalados, descreve a longa guerra de cavalarias, na qual os farrapos só foram derrotados depois que o gênio militar de Luís Alves de Lima e Silva, então Barão de Caxias, mudou a estratégia das tropas federais, que até então se baseava na supremacia da artilharia e da infantaria. Ao trazer para o seu lado o general farrapo Bento Manoel com sua cavalaria, Caxias derrotou as tropas de Bento Gonçalves, o líder dos revolucionários da República de Piratini. Não foi à toa que somente as tropas gaúchas conseguiram derrotar os jagunços de Antônio Conselheiro na quarta campanha da Guerra de Canudos.

Os conceitos de guerra de posições e guerra de movimentos também são empregados na análise política. Deve-se isso ao marxista italiano Antônio Gramsci, ao mostrar que as tentativas de imitar os revolucionários russos, que tomaram o poder de assalto em 1917, resultariam em fracasso na Itália e em outros países do Ocidente com estruturas sociais mais complexas. Grosso modo, porém, podemos usar os conceitos nas análises eleitorais. As vitórias de Jânio Quadros, em 1960; de Collor de Mello, em 1989; e de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, são casos típicos de campanhas com características de guerras de movimentos. Já a reeleição do presidente Lula, em 2006; e da presidente Dilma Rousseff, em 2010, se caracterizariam mais como guerras de posições, nas quais uma grande parcela do eleitorado, que até então oscilava de um lado a outro nas eleições, já estava posicionada no pleito: a população pobre beneficiada pelo programa Bolsa Família e outras políticas de transferência de renda. Trata-se de 13,5 milhões de famílias.

Coalizão
Estamos às vésperas de mais uma eleição com características aparentes de guerra de posições. Preparam-se para o confronto uma ampla coalizão de governo, que controla a União e a maioria dos governos estaduais, representada pela presidente Dilma Rousseff e seu vice, Michel Temer (PMDB), com apoio do ex-presidente Lula. E oposições encasteladas no Sul e Sudeste (principalmente São Paulo, Minas e Paraná), cujo candidato, o ex-governador e senador mineiro Aécio Neves (PSDB), é apoiado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardozo; e no Nordeste, sobretudo Pernambuco, cujo governador, Eduardo Campos (PSB), é candidato e tem o apoio da ex-senadora Marina Silva. Com essa disposição de forças, a disputa só deverá se resolver no segundo turno. A presidente Dilma Rousseff vai à guerra, pois, em duas frentes de batalha, com uma postura mais ofensiva do que defensiva, uma vez que o PT pretende não somente reelegê-la, mas conquistar os governados de São Paulo, Minas e Paraná. Sem falar de Pernambuco, onde não tem candidato próprio, mas apoia um aliado. Ou seja, pretende cercar e aniquilar a oposição.

Redes sociais
Ocorre, porém, que a estratégia de guerra de posições que orienta a campanha oficial pode não ser o bastante para vencer as eleições, principalmente no segundo turno. Há uma terceira frente de batalha, irregular, com características de guerra de movimentos, ou seja, Dilma enfrenta um tipo de nova oposição, à margem das esferas de poder e dos partidos, que emergiu das redes sociais em junho do ano passado e permanece viva nos grandes centros urbanos do país. Desta vez, não é a grande massa de pobres excluídos, nem a classe média empobrecida o imponderável na eleição, mas um contingente de 50 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, a maioria pobre, dos quais 10 milhões não estudam nem trabalham. São descolados em sua maioria dos partidos políticos, mas servem de base social para essa nova oposição. Ninguém sabe para onde o contingente de eleitores que emerge dessa juventude pretende ir. É um campo de disputa tanto para Dilma e como para os dois candidatos de oposição, que buscam um discurso em sintonia com esses novos atores e a adesão eleitoral de seus líderes.

Enquanto se discute o passado e o presente, esses jovens querem antecipar o próprio futuro, o que é sempre a forma de traduzir os sonhos de uma geração. Ocorre que ele está comprometido por fragilidades fiscais, deficiências de infraestrutura, falta de investimentos, educação deficiente, dificuldades de acesso à cultura e ao lazer e a oferta de empregos mal-remunerados ou que exigem alta qualificação, daí tanta insatisfação.

Fonte: Correio Braziliense

Valdo Cruz: Batalhas de 2014

Volto das férias, circulo pela Esplanada dos Ministérios e encontro um clima de apreensão no ar. O ano começa com uma onda de pessimismo que preocupa a equipe da presidente Dilma Rousseff.

Um assessor presidencial, muito próximo da chefe, diz que esta será a eleição mais difícil para o PT desde que Lula ganhou a Presidência da República pela primeira vez.

Nem 2006, pós-mensalão, aponta ele, foi tão complicado. Há muitas batalhas pela frente. Da Copa, da energia, da violência, mas tudo pode ser superado se a maior de todas, da economia, não jogar contra.

Aí, um outro assessor graúdo da presidente diz que a bola está com o governo. Primeiro, recomenda que não é hora de, a cada notícia boa da inflação, "correr para o alambrado" e ficar comemorando como se a batalha já estivesse superada.

Mesmo porque, depois do número bom de janeiro, a inflação deve voltar a subir em fevereiro, mês de nova decisão sobre taxa de juros.

O momento, diz esse auxiliar, é de mudar, definitivamente, o discurso na economia. Não há mais espaço para declarações que deixem escapar certa tolerância com a inflação.

O fato é que, até pouco tempo, este governo sinalizava estar satisfeito com uma inflação roçando os 6%, sempre apregoando que ela estava abaixo do teto da meta oficial.

Avaliação recorrente que contaminou os agentes econômicos, que passaram a trabalhar como se esse fosse o patamar mínimo de alta dos preços no país. Resultado, uma inflação cada vez mais resistente.

Agora, há um trabalho para unificar o discurso no governo, na linha de que a meta é levar a inflação, sim, para 4,5%. Focar não só a fala neste objetivo, mas principalmente as ações, sem deixar dúvidas no ar.

Enfim, o primeiro teste para checar se a a ficha, de fato, caiu no Planalto será no anúncio do tamanho do ajuste fiscal para ajudar no combate à inflação. O problema é que este governo adora dar tiro no pé.

Fonte: Folha Online

Marcus Pestana: Itamar Santos, um brasileiro no meio das chamas

A melhor causa perde a razão na face obtusa da violência

Itamar Santos é um brasileiro simples e trabalhador como a maioria do povo brasileiro. Serralheiro, evangélico, mora em São Paulo. Itamar não frequenta estádios nem liga muito para futebol. Itamar tinha um fusca velho. Era para ir à igreja, passear e carregar seus ferros velhos. Itamar não é dirigente da Fifa, não é ministro nem está muito interessado na Copa do Mundo no Brasil.

Sábado, dia 25 de janeiro, como sempre faz, Itamar foi ao culto em sua igreja. Na volta, com o espírito solidário típico dos brasileiros, deu carona a amigos, um senhor e duas senhoras. Uma delas levava a filhinha de cinco anos.

Itamar já estava acostumado com o trajeto e com o drama paulistano da mobilidade urbana. Nesse dia, no entanto, algo diferente estava acontecendo. A polícia desviava o trânsito. E, ao fundo, Itamar viu uns meninos com rostos cobertos, vestidos de preto, que colocavam fogo em colchões fazendo a avenida arder em chamas. Os meninos decidiram que não querem a Copa no Brasil. E resolveram se manifestar de um jeito que o serralheiro evangélico achou estranho. Ele não queria saber da Copa nem dos meninos encapuzados. Só queria voltar para casa, levar os amigos e descansar da semana de trabalho. No domingo, iria passear no seu velho fusquinha.

Assustado, foi para o canto da avenida para evitar confusão. Só queria passar e voltar para casa. Os valentes meninos mascarados vestidos de preto não gostaram da ousadia de Itamar. Sem mais nem menos, tocaram fogo no carro.

Os momentos seguintes foram de verdadeiro terror. A criança chorava nos braços da mãe desesperada. Acharam que não daria tempo de sair, já que o fusca só tem porta na frente. Uma desgraça quase aconteceu. Felizmente, todos se salvaram. Itamar e seu amigo tiveram queimaduras leves. O fusca virou uma carcaça imprestável. Itamar não tinha seguro, claro. Não tem dinheiro para comprar um novo carro. Ainda teve que pagar o guincho para remover o fusca da avenida. Vai ter que trabalhar duro para comprar de novo um carrinho para passear, ir à igreja e carregar seus ferros velhos. Seis agências bancárias, duas concessionárias e uma loja do McDonald’s foram destruídas nessa noite.

Lembro que, nas jornadas pela anistia, pelas Diretas e pelo afastamento de Collor, íamos para as ruas cheios de energia, sonhos e disposição de luta. Não quebrávamos lojas e muito menos incendiávamos carros de trabalhadores pobres. Conquistamos nossos objetivos e a democracia se instalou no Brasil.

Quem tem convicções e ideais não esconde o rosto. Atos covardes, autoritários e reacionários como esse não vão fazer o país melhor. Tirem as máscaras, meninos, disputem democraticamente suas posições, conquistem as pessoas.

A melhor causa perde a razão na face obtusa da violência. Deixem seu Itamar, seu fusquinha e seus amigos viverem em paz. A democracia é um patrimônio de todos, não a agridam.

Marcus Pestana, deputado federal e presidente do PSDB de Minas Gerais

Fonte: O Tempo (MG)

Paulo Brossard*: Credibilidade perdida

Não são poucos os fatos que indicam, a meu juízo, a ocorrência de acontecimentos que podem adquirir feições desagradáveis. Por ora, limitar-me-ei a apontar dados de certa forma preliminares, mas incontroversos quanto à sua ocorrência e notórios no que pertine à autenticidade, uma vez que têm a chancela insuspeita do ministro da Fazenda. O douto sucessor de Murtinho, a partir da metade do ano passado, falou na crise da credibilidade e proclamou a necessidade da campanha pela restauração de credibilidade. Não externou esse juízo de evidente gravidade na concha do ouvido de alguém de sua estrita confiança, mas o fez de maneira pública, divulgada pelos meios de publicidade.

Se o eminente ministro falou em "restaurar a credibilidade", ele parte do fato de que a credibilidade do governo foi perdida, pois não se restaura senão o perdido; o conservado se guarda e bem guardado. Ora, o ministro não é um boquirroto, pode alguém entender que ele não seja um talento fulgurante, mas ninguém dirá que seja um retardado. Aos demais, nenhum de seus 38 colegas, salvo engano, tornou públicas eventuais divergências a respeito com o gestor das finanças e mais, a senhora presidente não disse uma palavra que importasse em reserva à ideia ministerial no sentido de "restaurar a credibilidade", e da pasta remover seu imediato colaborador. Isto posto, sou obrigado a apontar uma ou duas decorrências que podem ser ilustrativas.

Os 15 países que concertaram operações financeiras com o Brasil mediante o BNDES, tiveram a divulgação sem reserva dos seus termos, inclusive quanto aos seus preliminares; no entanto, a dois contratos, e seus papéis preparatórios, foi imposto o segredo; Cuba e Angola tiveram esse tratamento diferenciado. Só em 2027, dizem as notícias a respeito, cessará a secrecidade envolvendo Cuba e Angola, e o Brasil, obviamente. Curiosamente, essa decisão discrepante foi imposta um mês depois da entrada em vigor da Lei de Acesso à Informação. Este o fato, nu e cru.

Treze das 15 nações celebraram com o Brasil contratos de financiamento acessíveis a qualquer um, pois "é assegurado a todos o acesso à informação", reza o art. 5º, XIV, da Constituição, cujo inciso LXXIII, do mesmo artigo, estipula, "qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular o ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural...", complementados pela Lei de Acesso à Informação e, no entanto, até 2027, o segredo acompanhará como a pele ao corpo as avenças com Cuba e Angola. Ora, diante dessa situação, qualquer pessoa pode intuir ou deduzir o que sugira a imaginação, a criação ou a comparação, com razão ou sem ela, e desse modo poluir ainda mais a credibilidade da nação e de sua política, no tocante às duas nações discriminadas das demais 13, Cuba e Angola. A simples denominação de ambas basta para irmaná-las à ideologia estampada na "cortina de ferro", uma das mais visíveis e tangíveis faces do totalitarismo no século 20.

Por este ou aquele motivo, a senhora presidente vem de visitar uma das nações, e nada discreta foi nas referências ao que o Brasil fizera e estava por fazer, inclusive quanto a doação a Cuba lá anunciada, também serão segredos ou não. Mas o assunto está a merecer exame em espaço especial, o que agora me falta.

*Jurista, ministro aposentado do STF 

Fonte: Zero Hora (RS)

Diário do Poder - Cláudio Humberto

PPS paulista sob pressão
Sob pressão do governador e candidato à reeleição Geraldo Alckmin (PSDB-SP), a quem é intimamente ligado, o PPS de São Paulo pode colocar à prova o apoio ao presidenciável Eduardo Campos (PSB-PE), caso os socialistas lancem candidato ao governo paulista, como exige a ex-senadora Marina Silva. Os 80 delegados do diretório paulista são considerados decisivos na convenção nacional. O indicativo de apoio a Eduardo Campos foi aprovado, em 2013, com aval de Alckmin, por quase unanimidade dos delegados de São Paulo. Alckmin só apoiou a iniciativa do PPS de se aliar ao PSB de olho em reunir em seu palanque Eduardo e Aécio Neves (PSDB-MG). Segundo o PSB paulista, dos 250 candidatos a deputado federal e estadual, 70 mudaram para o partido com a anuência de Alckmin. É cruz ou espada: prefeitos do PSB de grandes cidades, como São José do Rio Preto e Campinas, já avisaram que não podem se opor à reeleição do tucano.

Lembrando os "sanguessugas"
Continua o inferno astral do ministro Arthur Chioro (Saúde, foto). Nebulosa história de sua empresa que ele próprio contratou para sua secretaria de Saúde de São Bernardo (SP), médica cubana abrindo a fila de deserções etc, etc. E ainda irritou o PT, nomeando para chefiar seu gabinete Silvana Pereira, que atuou na Secretaria de Ação em Saúde na época do escândalo dos sanguessugas, quando Humberto Costa (PT-PE) era ministro.

Uma máfia
A Polícia Federal prendeu 46 no escândalo dos sanguessugas, de 2006, também conhecido como a "máfia das ambulâncias".

Barra pesada
A CPI criada para investigar o escândalo dos sanguessugas, um dos mais graves da Era Lula, recomendou a cassação de 72 parlamentares.

Prazo de validade
Assumindo o cargo já sob suspeita, o ministro Arthur Chioro já virou tema de um bolão, no Congresso, sobre sua permanência no cargo.

Imagina na Copa
Tem muito carioca de olho na casa de Henrique "Celso" Pizzolato em Maranello, numa das regiões mais bonitas da Itália: por ? 800 de aluguel (R$ 2,6 mil), ele só alugaria cafofo no alto da favela da Rocinha.

País sério
Escolhido em 2007 para sediar a Copa 2014, o Brasil deu início a apenas seis dos 37 projetos de infraestrutura para receber o evento, segundo relatório do TCU.

Fim do suplente
O senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) tem motivos de sobra para defender o fim da figura do suplente. No caso dele, é o petista Waldemir Catanho, braço direito da ex-prefeita Luizianne Lins.

Contra Golias
O senador Sérgio Petecão (PSD-AC) conseguiu o apoio dos nanicos DEM, PRTB e PMN para disputar o governo contra a máquina do governador Tião Viana (PT-AC): "Em 2010, também venci ao Senado na oposição".

Perguntinha
Você contrataria Henrique, aliás Celso Pizzolato, para uma auditoria contábil no Banco do Brasil?

Frase
"Barulho, obra suja, desorganizada..." -
Ministro Moreira Franco (Aviação Civil), sobre a reforma do Aeroporto de Confins (MG)

Cadeia neles
Além de insultar a democracia, em lugar de respeitá-la, os "black blocs" precisam ser tratados como são, bandidos que se escondem em máscaras para impor o medo e inclusive atentar contra a vida.

Feldman 2014
A ex-senadora Marina Silva (Rede) pressiona para lançar seu fiel escudeiro, Valter Feldman, ao governo paulista nas eleições. Em troca, ela garante aceitar ser vice de Eduardo Campos (PSB), na campanha presidencial.

Fonte: Diário do Poder

Carlos Drummond de Andrade: Canto esponjoso

Bela
esta manhã sem carência de mito,
e mel sorvido sem blasfémia.

Bela
esta manhã ou outra possível,
esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.

Umidade de areia adere ao pé.
engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.

Bela,
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.