quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Comércio e emprego - Míriam Leitão

- O Globo

O comércio mundial pode ser o responsável por 20% dos empregos perdidos, mas os outros 80% estão sendo eliminados pela tecnologia e inovação. O que será dos 3,5 milhões de motoristas de caminhão nos Estados Unidos quando chegar a tecnologia dos carros autodirigíveis? O diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, acha que é preciso entender a natureza das mudanças, em vez de culpar o comércio.

Azevêdo acaba de fazer uma ofensiva em Washington em defesa da tese de que tentar conter o comércio internacional pode trazer resultados piores, que vão atingir principalmente os mais pobres. Ele falou no prestigioso National Press Club, na sexta-feira, e esteve junto do presidente do Banco Mundial e da diretora-gerente do FMI, no esforço de responder à onda de ataques ao comércio.

Ninguém diz qual é o centro das preocupações que os leva a fazer essa defesa do livre comércio, mas todos sabem que é o discurso raivoso do candidato a presidente dos EUA Donald Trump. Ele tem culpado o comércio, mais especificamente a China, pela perda de empregos no mercado americano. Não é o único. A própria Hillary Clinton tem recuado de posições mais liberais do passado, exatamente pela força do discurso do seu oponente, que afirma a cada entrevista ou debate que os empregos estão indo embora do país através do comércio. E isso tem eco na opinião pública.

A preocupação é maior porque o comércio internacional, pela primeira vez em 15 anos, está crescendo, este ano, menos do que a alta do PIB mundial. Historicamente, sempre cresceu 1,5 vez o PIB global e chegou até a crescer o dobro. Este ano o comércio aumentará apenas 1,7%, menos do que a alta do PIB do mundo, que deve ser de 3,1%, segundo o FMI.

— Nas economias desenvolvidas, há muita retórica anticomércio. Aproveitamos que estávamos juntos em Washington — Christine Lagarde (do FMI), Jim Kim (do Banco Mundial), e eu — para levantarmos a voz em defesa do comércio, porque é preciso dar um pouco mais de racionalidade a esse debate, do contrário, vamos culpar apenas um bode expiatório — disse ele.

Azevêdo acha que é preciso mostrar mais claramente os benefícios do comércio e o risco do protecionismo, que é sempre o “remédio errado para a doença”.

A doença é a destruição do emprego. O mundo inteiro passa por isso de forma estrutural, o Brasil, também. Mas aqui há um fator conjuntural que agravou o problema. No país, em um ano e meio o número de desempregados cresceu em 5,5 milhões de pessoas, atingindo 12 milhões, como consequência da recessão que desabou sobre a economia.

Há fatores estruturais que explicam a crise de emprego no mundo, e o diretor da OMC os relaciona porque acha que é preciso entender melhor a natureza da nova revolução industrial:

— Existem 3,5 milhões de motoristas de caminhão nos Estados Unidos que movimentam toda uma rede de serviços, como restaurantes e hotéis. A indústria já está desenvolvendo o carro autodirigível. 

Muito emprego será perdido nessa mudança. As vagas para mão de obra pouco qualificada estão desaparecendo no mundo e não apenas nos países desenvolvidos. Nos Estados Unidos, 50% dos empregos estão ameaçados pela automação. E não é exclusividade dos países ricos. Um estudo da OIT mostra que no Camboja, Indonésia, Vietnã, Filipinas e Tailândia 56% dos empregos estão ameaçados pela automação.

Ele não está dizendo com isso que se deva lutar contra a tecnologia. Acha que é preciso alertar que a inovação está mudando tudo rapidamente, e o mundo, em vez de se preparar para essas inevitáveis transformações no mercado de trabalho, quer culpar o comércio internacional.

Azevêdo disse na entrevista do National Press Club que o e-commerce foi de US$ 22 trilhões no ano passado, e só 50% das pessoas no mundo estão online. O avanço da conexão é inevitável e desejável.

O diretor-geral da OMC diz que não há uma solução universal, cada país terá que enfrentar a crise do emprego com suas políticas, mas cita um estudo da UCLA e de Columbia que diz que fechar as portas ao comércio tira 28% da renda dos mais ricos e reduz em 63% a capacidade de compra dos mais pobres. Está na hora de o Brasil também abandonar o mito de que o protecionismo garante o emprego e olhar as mudanças que a tecnologia fará no mundo do trabalho.

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