sábado, 19 de novembro de 2016

Canais de contaminação - José Paulo Kupfer

- O Globo

• Desatar as dificuldades preexistentes da economia brasileira é que tende a ficar mais complicado depois de eleição de Trump

É improvável que a economia brasileira não seja negativamente afetada, apesar das incertezas ainda generalizadas, pelas alterações previstas na dinâmica global, a partir da aplicação das políticas econômicas prometidas pelo presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump. Essa é a conclusão de praticamente todas as avaliações produzidas depois de ter ficado claro, principalmente pela imediata reação adversa dos mercados, que o Brasil não escaparia dos desdobramentos da surpreendente vitória do ultraconservador magnata americano.

Esses efeitos, porém, não viriam reverter uma trajetória de recuperação da economia brasileira. Dificuldades de retomada do crescimento já estavam presentes antes da chegada de Trump à Casa Branca. Quem não se alinhava entre os crentes dos poderes automaticamente restauradores da confiança podia prever que apenas a guinada na condução da economia introduzida pelo governo de Michel Temer seria insuficiente para realizar o milagre de dissolver os muitos entraves que ajudaram a jogar o país na inédita recessão em que se encontra.

O fato é que, antes mesmo de Trump, já estava nítido o fenômeno do descolamento entre realidade e confiança, desmontando as projeções mais otimistas de retomada do crescimento ainda em 2016. Saberemos, daqui a uma dúzia de dias, quando o IBGE divulgar os números do terceiro trimestre, se o PIB do período caiu mesmo mais do que o 0,6% registrado nos três meses anteriores e se as projeções mais recentes, que já avançaram de queda de 3% para mais perto de 3,5%, estarão mais próximas de serem confirmadas.

Também será possível então ter uma noção um pouco melhor se a saída do negativo vai ser realmente adiada para pelo menos meados de 2017 e se a volta ao positivo se dará de modo quase imperceptível, como as novas estimativas estão apontando. Até o governo já rebaixou a projeção de alta do PIB em 2017 de 1,6% para 1%, e é crescente o número de estimativas de uma expansão de apenas 0,5% no ano que vem.

A verdade é que as travas à retomada não se resolverão apenas com a aprovação da PEC do controle dos gastos, assim como a perspectiva de uma contenção do déficit da Previdência Social sem dúvida ajuda, mas não determina a saída da economia da recessão. Tanto a PEC quanto a reforma da Previdência não contribuem com nada de concreto para, por exemplo, solucionar a dramática crise fiscal dos estados — fator de perturbação dos negócios e, em consequência, do crescimento —, da qual a situação calamitosa do Rio de Janeiro é só a ponta mais visível e avançada do problema. Além da questão fiscal, há pontos cegos tanto no campo financeiro quanto no cambial e sem ações ativas de estímulo ao crescimento vai ser difícil sair do lugar.

Desatar essas dificuldades preexistentes é que tende a ficar mais complicado depois de Trump. São pelo menos dois os canais pelos quais as mudanças na política econômica americana podem contaminar a economia brasileira. Um deles é o canal financeiro. Caso Trump leve adiante a promessa de reduzir impostos e aumentar gastos públicos com defesa e infraestrutura, como forma de impulsionar a economia e os empregos nos Estados Unidos, produzirá pressões fiscais sobre a dívida pública, que resultarão, por sua vez, em pressões inflacionárias e estas exigirão altas de juros mais intensas. Para o Brasil, o impacto se apresentaria sob a forma de desvalorizações cambiais mais fortes — leia-se mais inflação — e, em resposta, mais lentidão no corte dos juros internos. Resumindo, pedras no caminho da recuperação econômica.

Um outro canal é o comercial. Apesar de figurar entre as dez maiores economias do mundo, o Brasil detém posição irrelevante no comércio exterior, mal passando de 1% do volume total. Mesmo assim, é histórica a aderência da economia brasileira aos ciclos de expansão e contração da economia mundial. As promessas protecionistas de Trump, provocando uma onda global na mesma direção, podem jogar ainda mais para baixo o já declinante volume do comércio internacional, complicando os esforços de expansão da economia mundial e, por extensão, da brasileira.

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José Paulo Kupfer é jornalista

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