quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Opinião do dia - Hannah Arendt

No momento da ação, para nosso desconforto, revela-se, primeiro, que o “absoluto”, aquilo que está “acima” dos sentidos - o verdadeiro, o bom, o belo -, não é apreensível, porque ninguém sabe concretamente o que ele é. Não há dúvida de que todo mundo tem dele uma concepção, mas cada um o imagina concretamente como algo inteiramente diferente. Na medida em que a ação depende da pluralidade dos homens, a primeira catástrofe da filosofia ocidental, que em seus últimos pensadores pretende, em última instância, assumir o controle da ação, é a exigência de uma unidade que por princípio se revela como impossível, salvo sob a tirania.

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Hannah Arendt (1906-1975). ‘A promessa da política’, p.43, Difel, Rio de Janeiro, 2008.

Em parecer ao STF, Janot defende que áudios de Lula fiquem com Moro

Em julho, a defesa do ex-presidente protocolou uma reclamação no STF com intuito de impedir que as escutas fossem utilizadas como prova nas investigações contra Lula, sob alegação de que o juiz federal captou áudios de pessoas que detinham foro privilegiado

Beatriz Bulla,- O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Em parecer encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu que seja revogada uma decisão liminar (provisória) do presidente da Corte, Ricardo Lewandowski, concedida durante o período de plantão. Na decisão, Lewandowski determinou que o juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato no Paraná, separasse das investigações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva áudios que envolviam autoridades que já tiveram foro privilegiado.

A defesa de Lula protocolou uma reclamação no STF em julho com intuito de impedir que as escutas fossem utilizadas como prova nas investigações contra o ex-presidente, sob alegação de que Moro captou áudios que envolvem pessoas que detinham foro privilegiado – como o ex-ministro da Casa Civil Jaques Wagner. Por isso, argumentam os advogados do petista, o juiz do Paraná teria “usurpado a competência” do Supremo.

Lewandowski não atendeu o pedido da defesa do ex-presidente para anular a validade das conversas, mas determinou que Moro mantivesse em separado os diálogos até análise do relator do caso, ministro Teori Zavascki.

Em junho, Teori remeteu a Moro as investigações envolvendo o presidente Lula, mas anulou uma escuta que captava uma conversa entre o ex-presidente e a presidente afastada, Dilma Rousseff. Ele não fez avaliação, no entanto, sobre as demais conversas.

Janot reconhece que foram consideradas nulas as conversas colhidas após a determinação da Justiça para interromper a interceptação – que abrangem o diálogo entre Dilma e Lula -, mas sustenta que as outras conversas “permanecem válidas e podem ser utilizadas se tiverem relevância probatória em futura ação penal”. O procurador-geral pede a revogação da decisão de Lewandowski e o indeferimento do pedido da defesa de Lula, com a permanência dos áudios com Moro. “Não há desrespeito à decisão dessa Corte Suprema, tampouco usurpação de sua competência”, escreveu Janot. O caso será analisado pelo ministro Teori Zavascki.

Janot: Lava-Jato pode investigar gravações de Lula

• Procurador-geral diz que Moro não cometeu qualquer irregularidade

Carolina Brígido - O Globo

-BRASÍLIA- O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, defendeu que as gravações de conversas do ex-presidente Lula com autoridades sejam liberadas para investigação pela Operação Lava-Jato, em Curitiba. Janot enviou parecer ao Supremo Tribunal Federal (STF) recomendando a cassação de uma liminar do presidente da Corte, ministro Ricardo Lewandowski. Em julho, Lewandowski determinara que as gravações fossem separadas das investigações.

Para Janot, não houve irregularidade na atuação da 13ª Vara Federal de Curitiba, sob responsabilidade do juiz Sérgio Moro, e os áudios podem ser utilizados nas investigações em andamento. Ou seja, se o ministro Teori Zavascki seguir o entendimento de Janot, as gravações de Lula com Dilma e outras autoridades poderão fazer parte das investigações da Lava-Jato em Curitiba.

Na decisão de julho, Lewandowski negara o pedido da defesa para anular áudios de conversas entre Lula e autoridades com direito ao foro especial, mas determinava que elas permanecessem separadas do resto das apurações e em sigilo no Paraná, até o relator da Lava-Jato no STF, ministro Teori Zavascki, decidir o destino do material.

A decisão foi tomada por Lewandowski em julho, durante o recesso do Judiciário. Agora que os trabalhos do STF já foram retomados, Teori poderá avaliar se anula ou não os áudios. O relator também deverá decidir se as investigações serão transferidas para o STF, ou se vão continuar no Paraná. No parecer, Janot disse que Moro não usurpou a competência do STF — e, por isso, não haveria problema em prosseguir com as investigações no Paraná.

“Não há desrespeito à decisão dessa Corte Suprema, tampouco usurpação de sua competência, devendo ser cassada a liminar concedida, julgando improcedente a Reclamação”, escreveu o procurador-geral. No pedido, a defesa argumentou que Moro usurpou a competência do STF quando decidiu retirar o sigilo das gravações, em junho.

Como as interceptações aos telefones usados por Lula continham conversas com autoridades, o material deveria ter sido enviado ao STF imediatamente. Por isso, Moro deveria ficar impedido de usar o áudio em inquéritos da Lava-Jato que correm na primeira instância do Judiciário.

Ainda no parecer, Janot afirmou que, para haver a remessa de uma investigação ou ação penal da primeira instância ao STF, deve haver uma referência objetiva de que a autoridade que tem direito a foro especial possa ter praticado “alguma conduta que se caracterize como crime”. Segundo ele, “sem essa premissa, que há de ser expressa ou pelo menos aludida na inicial da reclamação, impossível haver qualquer discussão acerca da violação da prerrogativa de foro”.

Nas gravações, havia originalmente um telefonema entre Lula e a presidente afastada, Dilma Rousseff, em que ela diz que estaria enviando por um emissário o termo de posse do petista como ministro da Casa Civil. Isso foi interpretado pelos investigadores como uma tentativa de evitar a prisão de Lula, uma vez que, como ministro, ele não poderia ser investigado na primeira instância, mas apenas no Supremo.

Parlamentares do PT recorrem à OEA pedindo suspensão do impeachment de Dilma

• Petição foi encaminhada ao órgão internacional pelos deputados Wadih Damous (RJ), Paulo Teixeira (SP) e Paulo Pimenta (RS) e pelo senador Telmário Mota (PDT-RR)

Bernardo Caram - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Parlamentares do PT protocolaram na noite desta terça-feira, 9, uma representação na Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que é parte da Organização dos Estados Americanos (OEA). O objetivo é suspender o processo de impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff.

A petição foi encaminhada pelos deputados Wadih Damous (PT-RJ), Paulo Teixeira (PT-SP) e Paulo Pimenta (PT-RS) e pelo senador Telmário Mota (PDT-RR). Dilma assina um termo de conformidade ao pedido. "Estamos vivenciando no Brasil um golpe de Estado que conta com a participação do Parlamento brasileiro e com a omissão do Poder Judiciário", disse Damous.

No documento, os parlamentares pedem liminarmente a suspensão do processo que agora tramita no Senado até que sejam analisadas as possíveis infrações no trâmite. "Se o processo for até o fim, vai se tornar um dano irreparável", defendeu. Segundo ele, a organização pode decidir pela suspensão do impeachment. O descumprimento de uma decisão nesse sentido representaria desrespeito do País às normas internacionais.

O deputado Paulo Pimenta disse que a decisão foi tomada porque diversas instâncias do País já haviam sido provocadas, sem sucesso. "Uma das exigências da OEA é que tenha se esgotado todas as possibilidades no País", explicou.

Dilma cogita retirar menção a ‘golpe’ em carta aos senadores

• Documento defenderá plebiscito e será enviado até a próxima terça

Catarina Alencastro, Cristiane Jungblut, Isabel Braga, Maria Lima - O Globo

-BRASÍLIA- A presidente afastada, Dilma Rousseff, deve enviar entre hoje e terça-feira uma carta aos senadores defendendo um plebiscito sobre novas eleições. A confirmação foi dada por senadores do PT que estiveram com ela ontem no Palácio da Alvorada. Dilma ainda elabora como qualificará o impeachment, se o chamará de “golpe” ou não. Até o início da tarde, a ideia era que ela dissesse que, se o impeachment for aprovado da forma como está, será um golpe.

Em reunião na noite de ontem com deputados e senadores, em Brasília, o ex-presidente Lula disse aos presentes não achar a carta “tão essencial”:

— Ele não acha a carta tão essencial, ele acha que o importante é a presidente se aproximar dos senadores, fazer o olho no olho, com mais afago, mais abraços e beijos, mais café, mais tudo — disse o deputado Vicente Candido (PT-SP).

Recurso à OEA
Dilma conversou ontem com Lula, e almoçou com senadores e ainda com os presidentes do PT, Rui Falcão, do PDT, Carlos Lupi, e do PCdoB, Renato Rabelo. Na semana passada, Falcão criticou a proposta de novas eleições, mas o entendimento entre os aliados da presidente afastada é que a carta será “de Dilma”, e não dos partidos ou movimentos sociais, que se dividem sobre o tema.

— A carta será o pensamento dela, o sentimento dela. A presidente não vai perder o apoio do PT ou do MST se defender a posição do plebiscito — disse o senador Humberto Costa (PT-PE).

Com o argumento de que há um golpe parlamentar no país e de que Dilma é vítima de violação de direitos humanos em descumprimento a tratados assinados pelo Brasil, deputados do PT recorreram à Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) contra o processo de impeachment. (Colaborou Leticia Fernandes)

Após reunião com aliados, Dilma revê tom de carta a senadores

• Petista chegou a defender a inclusão do termo 'golpe' no documento, mas aceitou os argumentos de que chamar parlamentares de golpistas pode ampliar o clima de hostilidade

Vera Rosa - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A presidente afastada Dilma Rousseff indicou nesta quarta-feira, 10, que deve retirar a palavra “golpe” da carta que vai divulgar, nos próximos dias, quando se referir ao impeachment. Em almoço com senadores aliados, menos de 24 horas depois de virar ré no processo, Dilma chegou a defender a inclusão do termo, mas aceitou os argumentos de que chamar parlamentares de golpistas, neste momento, pode ampliar o clima de hostilidade e fazê-la perder ainda mais votos.

A versão definitiva da Carta aos Senadores e ao Povo Brasileiro, porém, ainda não está fechada. Enquanto a maioria dos senadores presentes à reunião disse a Dilma que ela pode se referir ao impeachment, se aprovado, como uma “violação à Constituição”, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) afirmou que era preciso ser mais enfático. “Eu acho que a carta poderá ter uma formulação que deixe claro estar havendo um golpe, sim. Isso não pode ficar só no discurso do PT e na defesa jurídica”, insistiu Lindbergh.

“O acordo com a presidente foi para que não haja menção à expressão golpe parlamentar. Se mudarem de novo, estarão quebrando o acordo”, observou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP).

A carta aos senadores está sendo reescrita pela quinta vez. Nela, Dilma vai pregar a concertação nacional e manifestar apoio às investigações da Operação Lava Jato. O documento terá frases de efeito. No esboço que foi mostrado aos senadores, a presidente afastada diz que seu partido é o Brasil e assume erros políticos no relacionamento com o Congresso.

Embora nos bastidores o impeachment seja considerado irreversível, os aliados da presidente afastada procuram, em público, demonstrar resistência. Na madrugada de ontem, o Senado decidiu, por 59 votos favoráveis e 21 contrários, que Dilma irá a julgamento na Casa. Para que ela deixe definitivamente o cargo são necessários 54 votos e o veredicto final, no plenário do Senado, deve ser tomado no fim deste mês.

Durante o almoço, no Palácio da Alvorada, a petista foi aconselhada por senadores a demonstrar mais seus sentimentos no texto. A ideia é que seja “mais Dilma e menos presidente”. Em conversas reservadas, o comentário é que, como ela está demorando muito para divulgar a carta – planejada para ser uma espécie de “programa da volta” –, não adianta mais, agora, abordar diretrizes de governo.

Plebiscito. O presidente do PT, Rui Falcão, manifestou, mais uma vez, sua posição contrária à proposta de convocação de um plebiscito para antecipar as eleições de 2018, sob o argumento de que, na prática, isso é inviável.

Dilma, porém, discordou de Falcão. “Vou manter o plebiscito”, afirmou ela. A ideia é a principal bandeira da carta aos senadores. “Apesar das posições diferentes, dissemos ali que a presidente não perderá apoio por causa desse assunto. Isso não vai ser motivo de crise nem com o PT nem os partidos aliados nem com os movimentos sociais”, amenizou o senador Humberto Costa (PT-PE).

No documento, a ser divulgado até terça-feira, com a presença da imprensa internacional, Dilma vai destacar que, se retornar ao cargo, fará um governo de transição para possibilitar a pacificação do País. O termo é sempre usado pelo presidente em exercício, Michel Temer.

Além de declarar apoio à Lava Jato, ela também se comprometerá a não nomear para o governo nenhum investigado por corrupção, caso consiga reassumir sua cadeira no Palácio do Planalto. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não participou do almoço com Dilma, que também contou com outros presidentes de partidos aliados.

Dilma fará carta com defesa do plebiscito

Por Andrea Jubé, Thiago Resende e Vandson Lima – Valor Econômico

BRASÍLIA - Diante da decisão de pronúncia do Senado que a tornou ré, e depois de idas e vindas, a presidente afastada Dilma Rousseff finalmente decidiu que enviará, nos próximos dias, uma carta aos senadores e aos brasileiros, defendendo a realização de um plebiscito sobre a antecipação das eleições. A decisão, que agrada a bancada de senadores do PT, foi comunicada ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um jantar no Palácio da Alvorada, na noite de terça-feira, com a presença de ex-ministros de seu governo.

O placar de 59 senadores favoráveis à pronúncia não desanimou a presidente afastada, afirmam aliados. Porém, entre lideranças do PT, "há um sentimento de descrença", na definição de um dos presentes nas reuniões dos últimos dias. O próprio Lula tem dúvidas sobre a estratégia do plebiscito.

Dilma havia lançado a proposta do plebiscito na entrevista que concedeu à TV Brasil, pouco depois do seu afastamento, mas ressentiu-se que os senadores simpáticos à ideia não foram a público endossá-la. Depois, Dilma recuou e passou a dizer que dependia da unanimidade dos movimentos sociais que a apoiam. O presidente do PT, Rui Falcão, e os líderes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e da Central Única dos Trabalhadores opõem-se à proposta.

Agora Dilma está convicta e pretende divulgar o documento na próxima semana, mas nem Lula viu ainda a edição final do documento. Dilma não vai seguir todas as recomendações de seu antecessor, e antes de divulgar a carta, vai apresentá-la aos líderes dos movimentos sociais. O ponto principal é a realização do plebiscito, mas Dilma reforçará o discurso de "golpe", defenderá sua biografia e fará apontamentos sobre a economia, como a defesa de juros menores.

Na noite de terça-feira, Dilma confraternizou com Lula - que não encontrava havia um mês - e ex-ministros como Jaques Wagner (Casa Civil) e Ricardo Berzoini (Secretaria de Governo), que reforçam sua equipe no Alvorada, além de Miguel Rossetto (Secretaria de Governo) e Aloizio Mercadante (Educação/Casa Civil). As dificuldades do PT nas eleições municipais também foram tema do encontro.

Ontem Dilma reuniu, em almoço no Alvorada, o presidente do PT, Rui Falcão, e os senadores que votaram contra a pronúncia. Mas o líder do PDT, senador Acir Gurgacz (RO) - que votou a favor de torná-la ré - também compareceu. Na reunião, com a presença de 15 senadores, Dilma disse estar tranquila e que o processo contra ela não está perdido. Petistas sabem que o cenário é difícil, mas ainda não desistiram. Os presidentes do PCdoB, Luciana Santos, e do PDT, Carlos Lupi, também compareceram.

A base de apoio a Dilma encolheu um voto na pronúncia, mas aliados minimizaram. Perderam o senador João Alberto (PMDB-MA), mas ainda contam com Cristovam Buarque (PPS-DF), com quem Dilma chegou a esboçar versões da carta. "Alguns [senadores] disseram que não é voto definitivo [durante a sessão iniciada ontem e que se estendeu pela madrugada]. Ainda existem indefinições", frisou o senador Humberto Costa (PT-PE), ex-líder do governo, que participou do almoço com Dilma.

Aliados afirmam que a carta será "um documento dela", escrito pela própria presidente afastada, avaliando a atual conjuntura do país, as consequências do processo de impeachment e a defesa do plebiscito, se retornar ao cargo, para que a população seja consultada sobre a ideia de antecipar eleição presidencial. Também pode citar planos para eventual novo governo.

"Não é uma despedida", ressalta Humberto Costa. O texto vem sendo constantemente adiado. Agora, porém, tem "um papel", pois o processo de impeachment está na reta final - período em que os senadores terão uma posição definitiva.

Acusação acelera tramitação de processo

Por Vandson Lima, Lucas Marchesini e Thiago Resende – Valor Econômico

BRASÍLIA - Poucas horas após o Senado se manifestar pelo prosseguimento do processo de impeachment de Dilma Rousseff, os autores da denúncia entregaram, ontem, o libelo acusatório. A medida visa criar condições para que o julgamento final, que pode cassar o mandato da presidente afastada, comece no dia 25 de agosto, como deseja o presidente interino Michel Temer. Ontem, o presidente do Senado, Renan Calheiros, também defendeu que a sessão comece nessa data. Ele estimou que durará pelo menos três dias. Ainda não foi decidido se ela seria mantida durante o fim de semana.

Ao se adiantar e não utilizar o prazo de 48 horas a que teria direito, a acusação força a defesa de Dilma a entregar as contestações no máximo até sexta-feira. Depois disso, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, marcará a data do julgamento final com dez dias de antecedência.

Com apenas nove páginas, o documento faz um resumo da tramitação do caso e reitera o pleito para que Dilma seja condenada por crimes de responsabilidade.

Visando ainda diminuir a duração da sessão, a acusação apresentou os nomes de apenas três testemunhas a serem ouvidas, metade das seis a que teria direito: Júlio Marcelo de Oliveira, procurador do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU); Antônio Carlos Costa D'Avila Carvalho, auditor do TCU; e Leonardo Albernaz, secretário de Macroavaliação Governamental do tribunal.

Segundo João Berchmans, advogado que entregou o documento, é possível inclusive que essas testemunhas venham a ser dispensadas. "Vamos exercer nossos direitos dentro da nossa conveniência", apontou. "Para que procrastinar a solução de uma controvérsia que a todos incomoda e causa desconforto político e econômico?"

"O parecer do relator é uma obra prima, irretocável. Já está provada a responsabilidade dolosa da acusada", apontou o advogado.

O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse que Temer ficou satisfeito com o resultado da votação no Senado, que transformou a presidente em ré. "O presidente Michel tinha a expectativa que [os senadores] colocassem confiança no seu projeto de governo", o que aconteceu na avaliação de Padilha, já que 59 senadores votaram a favor da continuidade do processo - quatro a mais que o registrado na fase de admissibilidade, que afastou Dilma do governo.

Conformado com impeachment de Dilma, Lula foca para evitar

Coluna do Estadão – O Estado de S.Paulo

Sem esperança de ver a presidente afastada Dilma Rousseff recuperar o mandato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu que é hora de cuidar do PT. Ele tem recebido sinalizações de que, passada a tormenta, muitos filiados devem deixar a sigla. Lula vai tentar conter a debandada.

Cármen Lúcia, a presidente

• Ela rejeitou ser tratada como presidenta, ao contrário de Dilma

Carolina Brígido - O Globo

Eleita ontem presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), a ministra Cármen Lúcia foi clara: não quer ser chamada de presidenta, como faz questão Dilma Rousseff. Para Cármen, é presidente. Pouco tempo depois de ela ser escolhida para o cargo — em uma eleição simbólica, conforme o critério de antiguidade na Corte —, o atual presidente do tribunal, Ricardo Lewandowski, passou a palavra para a colega votar em um processo.

— Concedo a palavra à ministra Cármen Lúcia, nossa presidenta eleita... Ou presidente? — questionou Lewandowski.

— Eu fui estudante e sou amante da língua portuguesa, e acho que o cargo é de presidente, não é? — declarou a ministra, sorrindo.

O ministro Gilmar Mendes ainda ironizou o voto da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) no Senado, durante a sessão que tornou Dilma ré no processo do impeachment.

— Presidenta inocenta — disse Mendes, repetindo de forma irônica o discurso da senadora amazonense.

Cármen ocupará o posto pelos próximos dois anos. Ela foi escolhida porque é a mais antiga integrante do tribunal que ainda não ocupou o cargo. O ministro Dias Toffoli, o seguinte na ordem de antiguidade, será o vice-presidente. O mandato de Lewandowski termina em 10 de setembro. A data da posse de Cármen foi marcada para 12 de setembro.

Temer agora se preocupa com o TSE

Diante do iminente impeachment de Dilma Rousseff, o presidente interino, Michel Temer, volta as atenções ao processo de cassação da chapa no TSE. A aliados de Temer, o ministro Gilmar Mendes disse ser pouco provável que ele seja julgado isoladamente.

Ações no TSE preocupam governo, que teme a inclusão de delações

• Planalto já foi informado de que processo não deve ser desmembrado

Júnia Gama, Carolina Brígido - O Globo

-BRASÍLIA- Ainda comemorando o resultado folgado no processo do impeachment no Senado, os aliados do presidente interino, Michel Temer, já miram com preocupação outra frente jurídica que abreviar o governo: as ações que pedem a cassação da chapa Dilma Rousseff/Michel Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No Planalto, o temor é que as novas delações na Lava-Jato sejam anexadas ao processo e tragam mais dificuldades para Temer. Além disso, o governo já sabe que um desmembramento das ações, para julgar apenas a petista, é improvável.

Segundo aliados do peemedebista, o presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes, que teve conversas recentes com Temer, afirmou que o processo tem complicações devido à situação do PT, pois haveria muitas provas consistentes contra o partido. A interlocutores, Gilmar também manifestou achar pouco provável que haja um desmembramento do processo, já que o Ministério Público Eleitoral recomendou que as condutas de Temer e Dilma sejam julgadas conjuntamente.

A própria relatora das ações no TSE, ministra Maria Thereza de Assis Moura, já negou pedido feito pelo PMDB para desmembrar os processos em abril.

Além disso, a ministra decidiu que novas provas podem ser anexadas às ações, e, portanto, novas delações que estão sendo negociadas no âmbito da Operação Lava-Jato podem ser incluídas. Desde que Temer assumiu a Presidência interinamente, foi citado em uma delação já homologada pelo Supremo Tribunal Federal, a do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Ele acusa o peemedebista de lhe pedir contribuição para uma campanha do PMDB em 2012 via caixa 2. Temer nega veementemente ter feito o pedido.

Nas negociações para uma delação premiada, executivos da Odebrecht também teriam se comprometido a provar um doação de R$ 10 milhões por caixa 2 para a campanha eleitoral de Temer em 2014, na disputa da reeleição. A informação foi publicada pela revista “Veja”.

Com cinco votos a mais de folga para que Dilma Rousseff seja definitivamente afastada do cargo, o Palácio do Planalto acredita que esse é o principal desafio para a legitimar o mandato de Temer na Presidência.

— Do ponto de vista político, para trazer tranquilidade institucional, este é o principal processo em curso no país. Nós entendemos que não se pode continuar produzindo provas, sob pena de esta ação não terminar nunca. Se for continuar assim, enquanto não terminar a Lava-Jato, não termina o processo — afirma um auxiliar de Temer.

Fontes do Planalto já falam em recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF) para garantir que os eventuais ilícitos praticados na campanha de Dilma não reflitam sobre Temer, sob o argumento de que tiveram condutas diferentes e arrecadação de campanha separada. A ordem é esperar a conclusão do impeachment para se debruçar de forma mais intensiva sobre o processo no TSE. Mas a sensação no governo é de que, com o placar de terça-feira, a possibilidade de reversão do impeachment ficou perto de zero.

Existem no TSE quatro ações judiciais tramitando em conjunto que pedem a cassação do mandato da chapa formada por Dilma Rousseff e Michel Temer. Se Dilma sofrer impeachment no Congresso, o que deve ser definido no fim do mês, Temer herdará todos os processos. No tribunal, também se diz que o mais provável é que os casos sejam resolvidos apenas no ano que vem.

O término do mandato de Maria Thereza, corregedora do TSE, previsto para o final deste mês, pode trazer novos ares ao processo. Assumirá em seu lugar o ministro Herman Benjamin, que vai ditar o ritmo do julgamento.

O Planalto aguarda com expectativa para ver como o ministro vai se pronunciar sobre esses pedidos, mas imagina, de antemão, que não deve haver qualquer conclusão ainda este ano, pois o TSE será bastante demandado neste segundo semestre devido às eleições municipais. E, como a Corte, assim como outros órgãos da República, é sensível à realidade política e econômica, esperase que a situação do país nos próximos meses também influencie o processo.

O prazo para as perícias termina no próximo dia 15, mas os peritos do TSE podem pedir extensão do período, se o trabalho não tiver sido concluído.

Lula diz a parlamentares não achar essencial carta de Dilma

• Ex-presidente se reuniu com parlamentares para discutir impeachment

Leticia Fernandes – O Globo

BRASÍLIA - Em reunião na noite desta quarta-feira com deputados e senadores, em Brasília, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse aos presentes não achar "tão essencial" a carta que a presidente afastada Dilma Rousseff deverá divulgar nos próximos dias, na qual defenderá a realização de um plebiscito convocando novas eleições.

A posição do ex-presidente vai de encontro ao que disse, há uma semana, o presidente nacional do PT, Rui Falcão, quando afirmou que a proposta de plebiscito seria "inviável", o que gerou mal estar entre petistas.

- Ele não acha a carta tão essencial, ele acha que o importante é a presidente Dilma se aproximar dos senadores, fazer o olho no olho, com mais afago, mais abraços e beijos, mais café, mais tudo - disse o deputado Vicente Candido (PT-SP).
Dilma ainda está fazendo os últimos ajustes na carta, e, segundo senadores, resolveu fazer uma versão mais curta, focando na ideia do plebiscito.

Trabalhar com os dois cenários
Lula também disse, segundo parlamentares que estavam na reunião, que ainda é possível reverter o cenário no Senado. Os petistas trabalham com um grupo de cerca de dez senadores que ainda poderiam mudar de voto, e é nesse grupo que Dilma deverá focar em fazer um contato maior agora. Apesar disso, o ex-presidente pediu a todos que "trabalhem com os dois cenários ", e que, caso o impeachment realmente seja aprovado e Dilma seja definitivamente afastada, que o PT tenha a clareza de fazer oposição mais ferrenha ao governo do presidente interino Michel Temer.

-Estamos fazendo oposição, e ele falou que temos que ter as duas alternativas, o cenário da volta da presidente e o do impeachment. Se ela for impichada mesmo, vamos fazer oposição - afirmou Rui Falcão.

O senador Humberto Costa (PT-PE), que esteve no encontro com Lula, disse que fez um breve balanço da ofensiva no Senado para virar votos. Os parlamentares afirmaram que Lula não participará da ofensiva, que cabe aos senadores e a Dilma.

-Vamos continuar o diálogo com os senadores que podem reverter os votos, focando na denúncia do processo e reforçando a oposição a esse governo. Isso ajuda na definição final - disse Costa.

Lula também cobrou dos parlamentares petistas que reajam às críticas feitas ao partido e pediu mais unidade de posição das bancadas da Câmara e do Senado. Ele citou como exemplos mais simbólicos a eleição para presidente da Câmara, quando, no primeiro turno, a bancada decidiu apoiar o ex-ministro Marcelo Castro (PMDB-PI), mas o apoio não se traduziu em votos. O que também aconteceu no segundo turno, quando parte resolveu votar em Rodrigo Maia (DEM-RJ), mas outros se abstiveram e sequer participaram da votação.

-Lula pediu mais união da bancada. Um dos pontos que demonstrou que bancada estava desunida e dispersa foi a votação para presidente da Câmara. Ele lembrou que uma característica do PT sempre foi a centralidade e pediu o resgate disso - disse Cândido.

Cassação de Cunha só será votada em setembro

• Decisão ocorrerá após conclusão do impeachment

Data agrada a aliados de Temer, preocupados com possível vingança do peemedebista

Depois de longa indefinição, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), marcou a votação do processo de cassação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) para 12 de setembro, após a conclusão do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Maia deu uma série de justificativas para adiar a votação. A decisão agradou a aliados do presidente interino, Michel Temer, preocupados com a possibilidade de uma reação vingativa de Cunha influenciar o desfecho do impeachment. Criticado, o presidente da Câmara disse que o prazo respeita a média histórica do Parlamento.

Só quando setembro vier

• Pressionado, presidente da Câmara marca votação da cassação de Cunha para o dia 12 do mês que vem

Catarina Alencastro Isabel Braga - - O Globo

-BRASÍLIA- O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), resolveu ontem que a votação do processo de cassação do ex-presidente da Casa Eduardo Cunha (PMDB-RJ) só ocorrerá daqui a mais de um mês, no dia 12 de setembro. A data agrada à base do presidente interino, Michel Temer, que desejava que o caso do deputado só fosse julgado após o desfecho do processo de impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff; e aos aliados de Cunha, que defendiam que ele tivesse um tempo maior de sobrevida. Maia afirmou que não se sentirá mal com as críticas que sofrerá da oposição. Ele diz usar como base o prazo que a Câmara leva para votar processos de cassação, de quatro a cinco semanas após a leitura do relatório no plenário.

— O que não é legítimo é o processo levar mais de quatro a cinco semanas, que é o prazo que historicamente esta Casa levou para votar processos semelhantes. Disso não passará de forma alguma — disse.

Aliados de Cunha defendiam a data
Ao GLOBO, Maia alegou uma série de razões para não pautar o julgamento de Cunha antes. Segundo ele, na próxima semana, do dia 15 de agosto, começa a campanha eleitoral nos municípios, e não haverá quorum para votar o caso. Na semana de 22 de agosto é o julgamento final de Dilma, e ele não quer colocar no mesmo momento uma votação tão polêmica quanto essa. Na semana de 29 de agosto, o presidente interino vai à China participar de reunião do G-20, e Maia assumirá a Presidência da República, deixando a Câmara nas mãos de Waldir Maranhão (PP-MA). Na semana seguinte, do dia 5 de setembro, há o feriado de 7 de setembro, e dificilmente haverá quorum elevado, restando então a semana do dia 12 para votar a cassação de Eduardo Cunha.

Maia disse que é legítimo que tanto a oposição pressione para que o destino de Cunha seja selado antes do impeachment, quanto o governo force para que a votação só ocorra depois de resolvida a interinidade de Michel Temer.

— O jogo político é legítimo dos dois lados, tanto da base quanto da oposição. As duas agendas estão corretas. Mas meu ponto de vista tem que ser o do respeito ao regimento e ao histórico da Casa — afirmou.

Ao marcar a votação para a segunda semana de setembro, Maia contempla a proposta defendida pelos aliados do peemedebista. A data de 12 de setembro teria sido defendida por líderes do centrão, aliados de Cunha. Os líderes da antiga oposição defendiam a votação da cassação logo em seguida ao impeachment de Dilma, no dia 30 ou 31 de agosto, ou mesmo na primeira semana de setembro. O cálculo que Maia faz da média dos prazos de votação de cassações leva em conta os processos votados de 2011 até agora. São 19 dias úteis, quatro semanas, desde a publicação no Diário Oficial da Câmara após o processo ser lido em plenário.

Desde que foi eleito, Maia vem sendo cobrado por parlamentares da nova oposição para dar andamento ao processo de Cunha e sempre se esquivou de fechar uma data. O principal argumento usado era o de que não gostaria de correr o risco de marcar a votação para um dia de quorum baixo, o que poderia distorcer o resultado. Um dos aliados mais próximos de Cunha no início do ano passado, Maia conquistou cargos de comando importantes na Casa, como a presidência da comissão especial de reforma política e, depois, a relatoria em plenário. Há poucos meses, no entanto, os dois romperam quando Cunha atuou para impedir que Maia se tornasse líder do governo Temer e saiu vitorioso, emplacando André Moura (PSC-SE).

Depois de muita pressão, o processo foi lido na sessão da última segunda-feira, passo regimental necessário para que o processo fosse pautado. Desde o início da semana, em plenário, deputados do PSOL, da Rede, do PDT e do PT cobraram de forma mais enfática que Rodrigo Maia anunciasse a data. Ontem, ao comentar a disposição dos líderes da base aliada de deixar a votação só para depois do impeachment, o líder do PSOL, Ivan Valente (SP), chegou a dizer que Maia cedia à pressão para proteger o “amigo” Eduardo Cunha.

Oposição critica “desculpas”
O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) ironizou o que classifica como “desculpas” de Maia e dos líderes da base aliada de Temer para protelar a votação do processo contra Cunha no plenário da Câmara. Segundo ele, temendo a “metralhadora giratória do Cunha”, os aliados de Temer defendiam que a votação ficasse para depois do impeachment.

—É o risco impeachment e o risco Maranhão. Estão com medo que Cunha abra a boca e atrapalhe o impeachment, e dizem que o Maranhão no comando é um perigo. Assim a vida segue, e Cunha continua deputado. Já falam em votação só em meados de setembro. É muito ruim, continuam protegendo Cunha — afirmou Alencar.

O líder da Rede, Alessando Molon (RJ), também criticou a decisão de deixar a votação só para meados de setembro:

— Isso leva à conclusão de que o Planalto e uma parte da Câmara têm medo de Cunha. É um misto de covardia e conivência. Parecem temer o que ele pode vir a delatar após a cassação.

Fundo Partidário e TV: é hora de mudar - Roberto Freire

- Diário do Poder

As discussões em torno das necessárias mudanças que devem ser feitas no sistema político-partidário nacional esbarram, em muitos momentos, no senso comum de que o grande problema da democracia brasileira seria a quantidade excessiva de partidos em funcionamento no país. Não são raras as propostas que estabelecem mecanismos de controle ou restrição à criação de novas legendas, mas todas elas não passam de soluções fáceis e equivocadas para um problema complexo.

Ao contrário do que muitos imaginam, as graves distorções do modelo eleitoral brasileiro não decorrem da possibilidade de serem criadas novas agremiações. Partido político, afinal, é direito de cidadania e não deve ser tutelado, regulamentado ou restringido pelo Estado ou por qualquer legislação. Basta observarmos o que acontece nas democracias mais avançadas do mundo, onde não há nenhuma lei que coíba o surgimento de novas legendas. Um exemplo ilustrativo vem dos Estados Unidos, país no qual funcionam plenamente mais de 100 partidos (embora se pense que sejam apenas dois, o Democrata e o Republicano). Há, inclusive, a possibilidade de candidaturas avulsas – sem ligação com qualquer partido político – para os diversos níveis de disputa no sistema eleitoral norte-americano.

O Senado da República e o impeachment - Geraldo Brindeiro*

• Julgamento é político, insuscetível de controle judicial, segundo a jurisprudência do STF

- O Estado de S. Paulo

A Constituição federal estabelece que compete privativamente ao Senado processar e julgar o presidente da República nos crimes de responsabilidade. Após admitida a acusação pela Câmara dos Deputados, pelo voto de dois terços de seus membros, e instaurado do processo – com o consequente afastamento do presidente do cargo –, o Senado julgará o mérito do impeachment. Trata-se de julgamento político, insuscetível de controle judicial, segundo a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF).

Nesse sentido, no Mandado de Segurança 34.193 -DF, medida cautelar, em 11 de maio de 2016, relativo ao processo de impeachment atualmente no Senado, afirmou o relator, ministro Teori Zavascki: “...não há base constitucional para qualquer intervenção do Poder Judiciário que, direta ou indiretamente, importe juízo de mérito sobre a ocorrência ou não dos fatos ou sobre a procedência ou não da acusação. O juiz constitucional dessa matéria é o Senado Federal...”

Sem indecisão - Merval Pereira

- O Globo

A votação da noite de terça-feira no Senado demonstrou que não há mais indecisos no plenário, e, se os houver, são senadores que podem votar pelo afastamento definitivo da presidente Dilma. Talvez por isso ela tenha adiado mais uma vez a carta que divulgaria, propondo um plebiscito sobre novas eleições gerais.

Há informações de que acatou a sugestão de senadores da sua base para que retire da carta o termo “golpista”, na esperança de que, não ofendendo os senadores, alguns deles ainda mudem de posição a seu favor. É uma medida cautelosa, mas inútil, pois as convicções parecem estar sedimentadas, e, além de tudo, seu próprio advogado de defesa, ex-ministro José Eduardo Cardozo, não poupa esse adjetivo e outros para definir os que se colocam contra a permanência de Dilma na Presidência da República.

João foi com os outros – Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

Dos 22 senadores que votaram contra o impeachment em maio, só um mudou de lado nesta semana. O vira-casaca foi João Alberto Souza, do PMDB do Maranhão. Aos 80 anos, o senador é um dos mais antigos escudeiros de José Sarney. Segue o ex-presidente há cinco décadas, do apoio à ditadura militar à aliança com o petismo na era Lula.

Há três meses, João Alberto não via motivo para afastar Dilma Rousseff. Na madrugada desta quarta (10), deu um empurrãozinho para despejá-la do Palácio da Alvorada.

Adeus, presidenta! - Luiz Carlos Azedo

• O presidente Temer, apesar do apoio parlamentar, se defrontará com os mesmos problemas que levaram à breca o governo Dilma

- Correio Braziliense

O livro Adeus, senhor presidente, de Carlos Matus, um dos teóricos da administração pública mais estudados no Brasil, por causa do seu método de “planejamento estratégico situacional”, é um ensaio romanceado sobre o exercício do poder na América Latina. Ex-ministro de Salvador Allende, Matus não se limitou a denunciar e repudiar o golpe militar de Pinochet, ocorrido em 1973, que transformou o Chile num mar de sangue, procurou também entender o que aconteceu e buscar caminhos para que os erros cometidos pela esquerda chilena não se repetissem.

Não passa pela cabeça de ninguém comparar o impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff, ao golpe fascista chileno, mesmo entre aqueles que acusam o presidente interino, Michel Temer, de golpista, mas o contexto justifica, ao menos para quem foi apeado do poder, conhecer ou revisitar a obra de Matus. Ele constrói um cenário fictício, que começa com a posse de um presidente que criou grandes expectativas e prometeu muitas mudanças e termina com suas reflexões, depois de afastado do poder, sobre o desapontamento dos eleitores e as razões pelas quais não cumpriu o que prometeu. Detalhe: seu sucessor também é malsucedido e desaponta o povo.

A anistia da Lava-Jato - Maria Cristina Fernandes

• Alvo da proposta em discussão é separar caixa 2 de propina

- Valor Econômico

A reta final do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff coincide com o avanço, nos bastidores do Congresso, de uma anistia para uma parcela dos políticos que tiveram seus nomes envolvidos na Operação Lava-Jato. A ideia transita na cúpula dos Poderes Legislativo e Executivo. Já estava em pauta com a perspectiva de o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), sem mandato, vir a fazer delação premiada e ganhou força com o acordo, em fase final de negociação, entre o Ministério Público e Marcelo Odebrecht.

Um grupo de advogados com clientes na Lava-Jato começou a discutir a minuta de uma proposta que tanto pode vir a entrar na negociação das dez medidas anticorrupção, que tramitam no Congresso, quanto pode constar da reforma política que estará em pauta depois das eleições municipais.

Tudo que é sólido - Demétrio Magnoli

- O Globo

Há dois dias, o presidente turco Recep Erdogan visitou a Rússia, num gesto de reconciliação com Vladimir Putin. Domingo passado, mais de um milhão atenderam à convocação oficial para a manifestação “Democracia e Mártires”, em Istambul. Entre as gigantescas bandeiras turcas que adornavam o palco, destacavam-se cartazes com as imagens de Kemal Ataturk, o fundador da Turquia moderna, e do próprio Erdogan. O evento foi coreografado como demonstração de unidade nacional, com líderes de partidos oposicionistas e autoridades religiosas no palco, mas os circundantes apenas realçavam a centralidade do presidente. Do golpe militar frustrado de julho, emerge a figura de um novo sultão otomano, que enfeixa poderes extraordinários e ergue os alicerces de um regime autoritário.

Chegou a conta da globalização - Maria Clara R. M. do Prado

• Um fosso se abre também nos países desenvolvidos onde crescem os bolsões de pobreza

- Valor Econômico

O mundo ficou menor com a crise de 2008 e encolheu ainda mais nos últimos quatro anos, revertendo inexoravelmente a época de fausto dos anos 90 e do início deste século. A globalização está sob ameaça. Os sinais são claros em todos os cantos para onde se olha.

Os analistas econômicos costumam apontar a expressiva queda ocorrida no volume do comércio internacional como causa do processo de "desglobalização", expressão usada por alguns para denominar a nova etapa da história do mundo, ainda em curso e, por isso mesmo, não facilmente identificável. De fato, os dados são fartos em mostrar o declínio do fluxo comercial ocorrido nos últimos anos.

Deixe a lei como está - Míriam Leitão

- O Globo

Mexer na LRF é correr o risco de enfraquecer a lei. Este é o momento de maior força da Lei de Responsabilidade Fiscal. Com base nela, está se votando no Senado o encerramento do mandato da presidente Dilma Rousseff. Por isso, é um espanto que o governo esteja falando em “atualizar” a LRF. Melhor não mexer na lei, antes que, por algum descuido ou tibieza, o ordenamento fiscal construído a duras penas seja mudado.

Na votação da renegociação das dívidas dos estados ficou claro como o ambiente político é fluido e o plenário, perigoso. Quando um assunto vai ao Congresso, e o governo tem fragilidades, o projeto pode virar um bumerangue. Foi assim que aconteceu quando o governo Dilma apresentou a proposta de reduzir as pensões das viúvas jovens e acabou colhendo a queda do fator previdenciário, exatamente no meio da escalada do déficit da previdência. No projeto da renegociação das dívidas dos estados, o governo ficou nessas idas e vindas que revelaram falta de compreensão do jogo legislativo.

Quando a instituição prevalece – Editorial / O Estado de S. Paulo

Habituado a servir-se das instituições republicanas em benefício de seus interesses e conveniências políticas, o lulopetismo sofreu mais um fragoroso revés na sessão plenária do Senado Federal que transformou Dilma Rousseff em ré do processo de impeachment, colocando-a, finalmente, a um passo de ser definitivamente afastada da Presidência da República. Na condição de presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), investido, por disposição constitucional, na condução dos trabalhos, o ministro Ricardo Lewandowski frustrou todas as tentativas da tropa dilmista de obstruir a sessão. O ministro se comportou com imparcialidade, serenidade e firmeza e, logo na abertura dos trabalhos, recomendou aos senadores, que ali estavam na condição de juízes, “atuar com independência, pautando-se exclusivamente pelos ditames das consciências e pelas normas legais”. 

Destino selado – Editorial / Folha de S. Paulo

Por ampla maioria de votos (59 a 21), o Senado decidiu, na madrugada de quarta-feira (10), dar prosseguimento ao processo de impeachment contra a presidente afastada Dilma Rousseff (PT).

Se a notícia, a esta altura, fica longe de constituir surpresa, não deixa de ser digno de nota o fato de o resultado nessa etapa —correspondente à chamada pronúncia da ré— já superar o necessário para que, em votação definitiva, seu impeachment seja consumado.

Com efeito, na sessão final do veredito, prevista para o fim deste mês, o mínimo exigido constitucionalmente para a perda do cargo presidencial é de 54 votos, ou dois terços do total de senadores.

Câmara reduz contrapartidas à renegociação das dívidas~Editorial / Valor Econômico

Não é questão semântica a retirada da proibição de reajustes salariais ao funcionalismo público no acordo de renegociação das dívidas estaduais, o Projeto de Lei Complementar 257, aprovado anteontem à noite pela Câmara dos Deputados. Ao longo das negociações, que começaram com a presidente afastada Dilma Rousseff, os Estados conseguiram as concessões que quiseram dando muito pouco em troca. Com a atual equipe econômica, novas concessões foram feitas e o texto que vai ao Senado coloca como única contrapartida dos Estados a limitação de seus gastos à variação da inflação por dois anos.

Compromisso com o ajuste – Editorial / O Estado de S. Paulo

Não são poucos os empresários e políticos que têm questionado a firmeza do presidente em exercício Michel Temer com o ajuste fiscal e o saneamento das contas públicas. E não é para menos: o Brasil que trabalha e paga impostos depositou em Temer e em sua competente equipe econômica a firme esperança de que a irresponsabilidade de Dilma Rousseff seria rapidamente superada, mas agora tem se deparado com uma condução que se mostra errática – ora prometendo a rigidez necessária para superar a crise, ora fazendo concessões que aparentam submissão a interesses paroquiais e corporativos. A votação, na Câmara dos Deputados, do projeto que trata da renegociação das dívidas dos Estados com a União foi um desses casos emblemáticos, pois a impressão que ficou, para muitos espectadores, foi a de um governo incapaz de fazer frente às pressões do Congresso.

Mas essa impressão – como quase todas as impressões que se prestam mais ao teatro da política – é, no mínimo, incorreta. O que importa observar é se o projeto aprovado é adequado às necessidades do País neste momento – e a resposta é afirmativa.

Câmara é incoerente ao resistir à responsabilidade fiscal – Editorial / O Globo

• Rejeitar a contenção de gastos com o funcionalismo nos estados é dar espaço a desmandos como os que levam o Congresso a aprovar o julgamento final do impeachment

No trânsito dos temas pela pauta do Congresso, enquanto o impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff, aproxima-se da fase final, para sair da agenda dos parlamentares e entrar na História, há todo um trabalho de extrema importância, em torno do ajuste fiscal, que se encontra no início. Uma agenda do passado, outra do presente e futuro. Não se trata de assuntos desconexos. Por motivos políticos, o governo interino de Michel Temer aguarda a unção no cargo, com a condenação final de Dilma por crimes de responsabilidade, para ter poderes que o permitam negociar as reformas no Congresso sem vulnerabilidades.

No campo de batalha do impeachment, tudo parece bem encaminhado: as manobras protelatórias dos aliados de Dilma chegaram à fronteira da bizarrice; os argumentos do “golpe” e outros, esgrimidos por José Eduardo Cardozo, não se relacionam com a vida real, e por isso o plenário do Senado despachou o processo de Dilma para o julgamento final.

Retórica antiglobalização ameaça a prosperidade – Editorial / O Globo

• Da esquerda à direita, do Brexit a Donald Trump, ganham força movimentos populistas e discursos radicais contra o processo de integração das nações

A saída dos britânicos da União Europeia (UE) é a expressão mais drástica de uma tendência política internacional que, infelizmente, ganha corpo nos últimos anos, marcadamente após os efeitos negativos da crise financeira global, que eclodiu em 2008.

A frustração generalizada se tornou campo fértil para uma retórica populista que, à esquerda e à direita, promete soluções milagrosas investindo contra a globalização e a integração política, econômica e cultural.

Alguns, mais radicais, fazem até mesmo falsos diagnósticos baseados em sofismas xenófobos, para defender a desintegração de blocos e instituições multilaterais, o fechamento de fronteiras e a construção de muros. Assim, deslocam a fonte dos problemas para o exterior e oferecem uma falsa solução mágica, a partir do isolamento. Para eles, não importa que a lógica, sustentada em estatísticas socioeconômicas, desminta tal retórica, como mostram, por exemplo, os dados mais recentes da economia do Reino Unido, que já provocam o arrependimento em muitos eleitores que caíram no canto da sereia e votaram pelo Brexit.

Reinvenção – Cecília Meireles

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.