sábado, 11 de fevereiro de 2017

À deriva – Editorial | Folha de S. Paulo

A ofensiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para refazer as relações comerciais com o restante do mundo ressuscitou o debate sobre a política econômica externa brasileira.

Com o novo e agressivo protecionismo americano, tornou-se imperativo recuperar tempo e oportunidades perdidos nos últimos anos. Com efeito, o propósito de aprofundar o comércio no Mercosul e com outros mercados foi tema de conversa recente entre os presidentes do Brasil e da Argentina.

O diálogo diplomático, porém, pouco produziu além de declarações protocolares a respeito de aprimorar o bloco e estimular relações com os países da Aliança do Pacífico (México, Chile, Colômbia e Peru), mais abertos.

Ao longo do período marcado por governos de esquerda no continente, o Mercosul apequenou-se em meio à busca de proteção para produtos brasileiros e argentinos. Nessa regressão mercantilista, os países isolaram-se de acordos que se negociavam em todo o mundo.

Evidenciaram-se os entraves associados ao modelo de união aduaneira, que pressupõe tarifas comuns para a importação de mercadorias do resto do mundo e dificulta negociações bilaterais com outros parceiros.

Tal obstáculo poderia ser removido se, como defende esta Folha, o bloco operasse apenas como zona de livre-comércio, com tarifa zero entre seus membros.

Vive-se agora, em tese ao menos, uma nova orientação ideológica com a Casa Rosada sob o comando de Mauricio Macri e o Palácio do Planalto nas mãos de Michel Temer (PMDB). Ações mais efetivas, no entanto, ainda estão por serem vistas.

Não é difícil compreender a inércia. Há setores influentes que ainda defendem a pura proteção da indústria nacional, em moldes do século passado. Enquanto nestes dias se voltava a tratar de abertura, reforçava-se, por exemplo, o lobby pela política de conteúdo nacional no setor de petróleo.

As dificuldades não param aí. Novos tratados envolvem debates sobre propriedade intelectual, compras públicas de bens e serviços estrangeiros, regulação ambiental e trabalhista, resolução transnacional de disputas judiciais ou barreiras sanitárias.

Tomar parte de negociações comerciais depende, pois, de decisões sobre a própria regulação doméstica da economia, para nem mencionar políticas de aumento de produtividade que possam facilitar nossa integração internacional.

Uma política econômica externa consequente demanda, enfim, decisões sobre os caminhos de desenvolvimento que o país quer trilhar. O governo tem papel crucial na condução desse debate, mas ainda não parece pronto a assumi-lo.

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