quarta-feira, 5 de julho de 2017

Opinião do dia - *Luiz Werneck Vianna

As reformas são necessárias; aqui e ali provavelmente, olhando de perto, com lupa, elas poderiam ser melhor apresentadas, mas a reforma da previdência é uma necessidade aqui e alhures — o mundo todo tem discutido isso. O fato é que temos uma previdência orientada para o funcionalismo público. Aliás, esse tema do Estado tem sido um elemento de perturbação. O Partido dos Trabalhadores tem sido — não na sua origem, mas na prática recente — mais representante dos interesses do funcionalismo público do que dos trabalhadores em geral, dada a força do funcionalismo e das corporações de Estado, especialmente de alguns setores muito poderosos que estão encravados no aparelho do Estado, os quais detêm hoje uma força considerável, como é o caso do Ministério Público.

Esta é uma mudança de natureza quase antropológica: pensar a sociedade não a partir do Estado, mas a partir dela mesma. Essa questão, a meu ver, a próxima sucessão presidencial terá como tema de fundo. Não se voltará àquele Estado que nos veio dos anos 30 ao PT: que passou pelo segundo governo Vargas, pelo governo de Juscelino Kubitschek, pelo regime militar e encontrou, espantosamente, a sua forma de consagração no PT, que nasceu com outra origem, outra orientação, orientado, sobretudo, para os interesses dos setores subalternos, do sindicalismo, dos trabalhadores da terra, dos sem direitos. A Teologia da Libertação nasceu aí e veio engrossar esse movimento subterrâneo que o PT encarnou, de uma revolta contra o Estado, do fim da Era Vargas, da denúncia da Consolidação da Lei do Trabalho como o AI-5 do trabalhador.

Esse era um diagnóstico saudável e correto, mas que foi interrompido pelas circunstâncias da política e, sobretudo, por força da predominância do cálculo eleitoral. Voltou-se para essa nossa marca antiga, arcaica, de prevalência do Estado, essa “Estadofilia”, que tem sido a marca da nossa modernização. Acho que agora isso foi interrompido. E esse processo não é brasileiro, é mundial, mas as coisas acontecem aqui de forma muito virulenta, porque o país é muito atrasado cultural, intelectual e politicamente.

Um movimento do tipo desse francês, com Macron, é muito difícil de se imaginar aqui, embora haja alguns movimentos dessa tendência. Mas o nosso sindicalismo e os nossos movimentos sociais se deixaram enredar pelo aparelho do Estado e isso tem sido um inferno. Quando vamos entender que no capitalismo é necessário um sindicalismo autônomo, forte, livre, que lute pelos seus interesses sociais, econômicos e políticos, e que se tenha partidos que sejam representativos? A esquerda desertou desse campo e se tornou um operador do Estado. Cadê a esquerda no mundo popular, nas favelas, na vida popular ela mesma? A esquerda não se faz presente.

Havia, pelos anos 60, a presença da esquerda no mundo popular de verdade e, inclusive, os comunistas tinham organizações nas favelas e a Teologia da Libertação, que nasceu com essa deriva forte à esquerda, implantou-se com alguma força no mundo popular, especialmente nas favelas do Rio de Janeiro. Houve um movimento da intelectualidade católica, com alguns intelectuais relevantes. A isso deu-se marcha a ré por imposição da hierarquia católica. Um dos resultados disso, como está se vendo, foi o avanço dessas ideologias da prosperidade dos cultos pentecostais no mundo popular, quando a esquerda católica se retirou de lá.

Nós temos que reconstruir, temos que ir aos fundamentos nessa hora de caos em que todas as referências estão sendo destruídas. Temos que voltar um pouco para a nossa própria história. O que fizemos antes, que deu certo? O que estávamos fazendo antes e que estava dando certo e paramos de fazer? Por que mudamos de orientação e fizemos com que uma era, que se abria com uma plataforma de interromper a modernização autoritária que nos vinha dos anos 30, não fosse levada adiante? Por que de repente nós aderimos à modernização autoritária? Por que a esquerda aderiu às práticas econômicas dos governos do regime militar?

Há um fenômeno aí que é de natureza, digamos, supraestrutural: houve uma mudança na cabeça que fez com que seguíssemos uma trilha errada, abandonando um bom caminho que vínhamos percorrendo. Um pouco de tudo isso que nos ocorre se dá por atraso cultural, por atraso na reflexão, por falta de autocrítica. Nós não estávamos condenados a ter essa história de ódio, rancor e ressentimento que estamos começando agora. No entanto, estamos distantes da revolução como nunca — de qualquer revolução, inclusive daquelas feitas pelo voto, pelo caminho das instituições. Quais são as instituições através das quais poderíamos fazer avançar um programa de mudanças efetivas a favor de um grande número da população? Com quais partidos? Com que personalidades intelectuais? Em que correntes de pensamento?

Nós agora estamos como se um mar vermelho estivesse nos afastando da nossa história. Nós temos que atravessar a pé esse mar vermelho, com um esforço intelectual, moral e com coragem política de procurar uma solução, um caminho, deixando esse deserto de ódio e tolerância para trás; precisamos pensar para frente. Aliás, é preciso notar que, apesar de todo esse caos na vida política, a sociedade tem se mantido em silêncio, como observadora. Ela não tem reconhecido, entre os antagonistas do ódio, um lado. 2017 não nos trouxe de volta 2013.”

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*Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na Pontifícia Universidade Católica - PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outras obras, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997); A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012), em entrevista, “É preciso coragem, paciência e ética de responsabilidade para interromper a modernização autoritária”, IHU On-Line, 03/07/2017

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