quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Ata do Fed sugere incerteza sobre nova alta dos juros – Editorial | Valor Econômico

O Federal Reserve americano colocou na berlinda um novo aumento da taxa de juros neste ano, depois que os índices de inflação voltaram a se mover para baixo nos últimos meses. A ata da mais recente reunião, em 26 de julho, aponta que o banco pode se dar o tempo necessário e ser "paciente" diante de um novo aumento, dada a acomodação dos preços, mesmo com o nível de desemprego muito abaixo da taxa natural e de um ritmo de crescimento econômico moderado, porém sólido.

O tom ponderado da ata derrubou o dólar nos mercados ontem. A maioria dos membros do comitê de mercado aberto do Fed deixou claro que a taxa dos fed funds não será alterada, assim como o balanço de US$ 4,5 trilhões do banco não começará a ser removido "até que novas informações confirmem que as recentes baixas da inflação não devem persistir". O caráter da discussão do Fed relatada no documento é menos assertivo que o expresso no das últimas reuniões, embora os participantes não tenham dúvidas de que a política monetária caminha para a normalização e a inflação, para a meta de 2%. O problema, claro, é o ritmo em que isso ocorrerá.

Embora julgue os riscos inflacionários como "balanceados", o Fed se deteve muito mais nas chances indesejáveis de baixa dos índices do que em uma alta abrupta. Os dados divulgados após a reunião do Fed, não dissipam as inquietações do banco. O índice de despesas pessoais de consumo (PCE) nos doze meses encerrados em maio foi de 1,5% e recuou para 1,4% em junho. E mesmo com o desemprego caindo a 4,3%, não há pressão relevante dos salários sobre os preços.

Entre os riscos listados de que a inflação surpreenda para baixo estão o de que as expectativas de longo prazo para os índices também possam ser reduzidas, de que o dólar se aprecie substancialmente, ou de que a inflação continue em um nível baixo por mais tempo do que o banco prevê.

Não há uma explicação suficiente para o fato inusual de que o alto nível de emprego esteja coexistindo com uma inflação muito baixa. Uma das hipóteses levantadas é que o nível de preços responde menos hoje a pressões de demanda, o que por si só demanda justificativas. Outra sugere que a taxa natural de desemprego na economia americana é agora bem mais baixa do que já foi no passado ou de que há ainda folga no mercado no trabalho que não está sendo captada pelos índices de desemprego. Há quem considere que o cenário externo e as inovações nos modelos de negócio trazidas impulsionadas pelos avanços tecnológicos restringem a capacidade das empresas de aumentar preços.

O PIB americano cresceu 2,6% no segundo trimestre, após decepcionante 1,2% no primeiro, com avanço significativo do investimento das empresas. Estatísticas mais recentes mostram que o consumo continuou forte em julho, com alta de 0,6%, a mais intensa desde dezembro do ano passado. O crédito bancário, porém, enfraqueceu, e a ata do Fed menciona que incertezas sobre a política do governo para as áreas fiscal, de saúde e de comércio tendiam a arrefecer o plano das empresas de investir e contratar.

A essa altura tornou-se também claro, como aponta o Fed, que o estímulo fiscal alardeado pelo presidente Donald Trump não virá tão cedo e, se vier, provavelmente ele não será da magnitude que se previa. Do lado financeiro, o Fed não vê grandes problemas pela frente. Os recordes sucessivos das bolsas americanas não decorrem de valorização excessiva dos papéis, nem do uso intenso e perigoso de alavancagem, mas de precificação adequada diante do bom quadro macroeconômico. Alguns membros do banco, porém, notaram que o aumento dos preços das ações, conjugado com os baixos juros de longo prazo, propiciou condições monetárias mais frouxas. Isso neutralizou parte do aperto que o Fed começou a promover, recomendando mais restrição monetária do que seria necessário em outras condições.

Tão cedo, assim, um novo aumento nos juros não virá. A serenidade nos mercados, o crescimento nas maiores economias, a cautela do Fed ao normalizar a política monetária e, com isso, a desvalorização do dólar, continuarão propiciando por algum tempo a calmaria no mercado brasileiro, facilitando a redução dos juros e o controle da inflação e evitando uma deterioração que a péssima situação fiscal e a letargia econômica domésticas recomendariam.

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