segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Cida Damasco *: Números e sentimentos

- O Estado de S.Paulo

Economia segue trilha da retomada, mas ainda não convence a população

Enquanto especialistas fazem e refazem projeções sobre os grandes números da economia em 2017 e 2018, os cidadãos comuns dedicam-se à tarefa de imaginar a quantas andará sua vida nesse período. Para eles, importa menos se o crescimento do PIB estará pouco abaixo ou em 1% neste ano, se avançará mesmo até os 3% no ano que vem, duas questões que ocupam a cabeça de analistas e consultores. Querem respostas mais concretas sobre perguntas que remetem a seu bem-estar. Como estará seu emprego (para quem já tem emprego e tem medo de perdê-lo ou para quem busca uma colocação)? Como estará sua renda (aí embutido o comportamento da inflação)? Dá para fazer planos de melhora de vida ou o negócio é se conformar com a situação atual e cruzar os dedos para que ela não piore?

Essas questões, no fundo, alimentam as pesquisas sobre otimismo com a economia e outros indicadores na mesma linha – que, em temporada eleitoral, têm a função adicional de dar pistas sobre as preferências da população. Nesse sentido, pelo menos três pesquisas recentes mostram um cenário ainda pouco animador para candidatos à Presidência dispostos a defender, em maior grau, o legado de Temer no terreno da economia. Segundo o Ibope, em novembro, o otimismo da população com a economia chegou ao nível mais baixo dos últimos oito anos -- praticamente metade do observado no fim de 2016. Dos consultados, só 21% apostam em mais prosperidade no ano que vem; 28% esperam mais dificuldades e 48% não contam com mudanças.

De acordo com levantamento do Datafolha, referente ao fim de novembro, 32% dos entrevistados acreditam em piora na situação da economia e 37% dizem que tudo ficará como está – 27% confiam em melhora. Além disso, 60% acham que a inflação vai aumentar, 42% veem redução no poder de compra e 50%, aumento do desemprego – embora, nesse último quesito, esteja ocorrendo uma ligeira, mas firme melhora nas expectativas desde o fim do ano passado. A confiança do consumidor brasileiro medida pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) vai na mesma direção: queda tanto em relação a outubro como a novembro de 2016, para um patamar 6,6% abaixo da média histórica, em consequência de uma piora nas avaliações sobre endividamento e renda.

É bom ressaltar que essas sondagens revelam os “sentimentos” da população no período em que os indicadores confirmam a trajetória de crescimento da economia. O PIB acumulado de janeiro a setembro subiu 0,6% ante os meses correspondentes de 2016 e a estimativa para o fechamento do ano chegou mais perto de 1%. Embora a variação específica do 2.º para o 3.º trimestre tenha sido mais para estabilidade do que para crescimento (0,1%), resultou de altas expressivas na indústria e no comércio, respectivamente 0,8% e 1,6%. E o aumento de 1,2% no consumo das famílias, o terceiro seguido, foi acompanhado por uma surpreendente reação dos investimentos (alta de 1,6%) depois de 15 meses de queda.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, reconhece que a população ainda não tem a percepção de que a economia está melhorando. Se isso é verdade, também é verdade que a razão não é a falta de sensibilidade do cidadão comum, mas principalmente o estágio alcançado pela retomada. Por enquanto, trata-se de um processo que ainda mostra efeitos limitados sobre os interesses específicos das pessoas – mesmo considerando-se o alívio no bolso com a liberação dos saques das contas inativas do FGTS, o motor do avanço do consumo das famílias no começo deste ano, e o alívio no desemprego. A redução dos juros e a ampliação do crédito, fatores decisivos para “acordar” a atividade econômica, aparecem de forma restrita no universo do consumidor. Os bancos continuam mantendo o crédito em proporções insuficientes para acelerar o ritmo da retomada. E, nunca é demais lembrar, os juros, apesar da baixa, ainda estão nos andares de cima. Tudo ponderado, a pergunta que não quer calar é a seguinte: “Quando as percepções de especialistas e de cidadãos comuns vão se encontrar?” Os candidatos a candidatos mais próximos do governo torcem para que essa convergência comece a aparecer logo. Principalmente, nas pesquisas eleitorais.

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